MINUTOS  DE  DEUS

 

Maria Dolores

 

Bastas vezes, perguntas, alma boa, Qual a razão do sofrimento...

 

Porque a treva da angústia na pessoa...

 

E também vezes muitas

A recear a justa explicação,

Foges de coração cansado e desatento...

 

Enquanto podes fazer isso,

Satisfazendo a impulso vão,

Ausentas-te dos quadros de amargura,

Como quem busca o reboliço

Para esquecer o assombro e a inquietação

Que observas nos outros

De alma triste e insegura

Quando colhidos pela provação...

 

 

Mas se um dia chegar em que não possas

Distanciar-te do recanto,

Em que a tristeza se conhece

Por neblina de pranto,

Por maiores as dores e os problemas,

Acende a luz da prece

E, esperando por Deus,

Não te aflijas, nem temas...

 

Ora, detém-te, anota, pensa e escuta

Sob as tribulações em que a sombra domina,

Quando estamos a sós, dentro da própria luta,

Rodeados, ao longe,

De constrangidos cireneus

É que achamos na vida

Os minutos de Deus,

Nos quais se pode registrar

A palavra divina.

 

Nas estações difíceis do caminho,

Que todos conhecemos

Por solidão, angústia, desengano,

À distância de todo burburinho

Em que o prazer humano

Lembra incêndio de sons que explode e estala,

Nessas pausas de dor do pensamento,

Em que o tempo parece amargo e lento

É que o verbo de Deus nos envolve e nos fala...

Mesmo sem qualquer força a que te arrimes,

Presta a própria atenção

À voz que te procura o coração

Nessas horas sublimes.

 

Entretanto, não creias,

Perante a aceitação a que te levas

Que Deus te reterá na mágoa que te invade,

Nas teias abismais da crueldade

Ou no bojo das trevas...

Logo após o celeste entendimento

Em que a bênção do Céu se te anuncia,

Ressurgirás em novo nascimento,

A dentro de ti mesmo,

Como quem se revê ao sol de novo dia...

 

Lembra o próprio Jesus,

Se consegues cismar, em torno disso;

Do berço em louvações

A última páscoa em festa, brilho e luz,

A vida do Senhor

Foi um hino de júbilo e de amor

Em música de paz e de serviço...

Mas chegando ao Jardim das Oliveiras,

Ei-la escutando o Pai, horas inteiras...

E, através do diálogo divino,

Colocado em si mesmo, solitário,

Encontra o sacrifício por destino,

 

Desde a prisão injusta às pedras do Calvário...

Entretanto, depois

Da renúncia suprema,

Qual se guardasse em si o fel da humana escória,

No suplício final, perante a multidão,

Fez-se o Cristo Imortal do Amor e da Vitória,

Na luz divina da ressurreição.

 

 

Do livro A Vida Conta. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.