RAZÕES  DA  VIDA

 

Maria Dolores

 

Indagas, muita vez, alma querida e boa:

– “Meu Deus, por que essa dor que me atormentar o ser?”

E segues, trilha afora, em pranto oculto,

De sonho encarcerado, a lutar e a sofrer.

 

Anhelas outro clima, outro lar e outros rumos,

Entretanto, o dever te algema o coração dorido

Ao campo de trabalho que abraçaste,

Atendendo, na Terra, a divino sentido.

 

Antes de renascer, os seres responsáveis

Notam as próprias dívidas quais são

E suplicam a Deus lhes conceda no mundo

O caminho que os leve à redenção.

 

Não recalcitres, pois, contra os próprios encargos

Que te pareceu fardos de problemas,

Encontras-te no encalço da conquista

De bênçãos imortais e alegrias supremas.

 

A lágrima que vertes padecendo

Longas tribulações, entre lutas e crises,

É um remédio da vida, em nossos olhos,

Que nos faculte ver os irmãos infelizes.

 

O abandono dos seres que mais amas,

Criando-te a aflição em que choras e anseias,

É um curso de lições em que aprendemos

Quanto custam na estrada as angústias alheias.

 

Familiares que te contrariam

Trazem-nos à lembrança os gestos rudes

Com que outrora ferimos entes caros

No fel de nossas próprias atitudes.

 

Afeição de outras eras que descubras,

Querendo-lhe debalde a presença e a união,

E instrumento de amor que te inspira a renúncia

Para o trabalho da sublimação.

 

A experiência humana é breve aprendizado

E essa tribulação que te fere e domina

É recurso dos Céus, em nosso amparo,

Zelo, defesa e luz da Bondade Divina.

 

Sofre sem reclamar a prova que te coube,

Mesmo que a dor te espanque, atingindo apogeus...

E, um dia, exclamarás, ante os sóis de outra vida:

– “Bendita seja a Terra!... Obrigado, meu Deus!...”

 

Do livro A Vida Conta. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.