SÚPLICAS  MATERNAS

 

Maria Dolores

 

Foi num átrio de luz, adornado de flores,

Que acompanhei a cena.

 

Seguida por amigos e instrutores,

Uma assembléia reduzida

De mães que vinham da aflição terrena,

Após vencer no imenso mar da vida

Lutas de amor em bases de humildade,

Receberia certidão

Para elevar-se a mundos de eleição

Em plenitude de imortalidade.

 

Era um grupo de nobres heroínas

Pela fidelidade às Leis Divinas.

 

O Emissário do Alto, dirigente

Da bela promoção

Tomou voz e falou, fraternalmente,

Com palavras seguras

Da vida luminosa das Alturas,

Na qual toda a assembléia encontraria

Os tesouros da paz e da alegria

Em sublime ascensão.

 

Terminada que foi a mensagem ouvida,

Certa mulher ergueu-se enternecida

E rogou, inflamada de esperança:

– Mensageiro de Deus, tenho um filho a lutar

Num presídio do mundo...

Como seguir, além, buscando o Excelso Lar,

Se o tenho na memória a me chamar,

De segundo a segundo?

Se posso receber algum favor da Lei,

Permite-me voltar à casa em que morei;

Quero tornar à Terra... Necessito

Balsamizar-lhe o peito enfermo e aflito...

 

Outra pediu a desfazer-se em pranto:

– Preclaro Mensageiro do Senhor,

De que modo olvidar a filha que amo tanto,

A implorar-me socorro, em preces de amargor?...

Pobre filha estirada

Em medonha cilada

De treva, luta e lama!...

Como pode haver céu para a dor de quem ama?

Anseio regressar aos meus antigos laços

Porque, acima de tudo,

Quero a filha que Deus me colocou nos braços!...

 

O Embaixador ouvia triste e mudo,

Quando outra mulher se ergueu a reclamar:

– Anjo do Bem, sou mãe... Tenho um filho a chorar...

Não posso recolher-me a descanso ilusório...

Se tenho o meu rapaz num sanatório,

Não me cabe envergar os louros da subida,

Devo tornar à Terra e amenizar-lhe a vida...

 

Outra rogou ainda, em tom comovedor:

– Emissário Bendito do Senhor,

 

Ampara-me o problema,

Tenho um filho a sofrer, sob penúria extrema...

Creio que a Lei de Deus é a própria Lei do Amor.

Como largar meu filho encarcerado e louco,

Suportando remorso e a morrer pouco a pouco?

Sei que faliu e errou... É um pobre delinquente,

Pobre filho doente...

É minha obrigação aliviar-lhe as penas,

Não posso abandoná-la às provações terrenas.

 

Ergueram-se outras mães, quais estrelas cativas,

Formulando, em comum, as mesmas rogativas.

 

Umas assinalavam filhos sob o peso

De trabalho violento,

Outras lembravam filhas em desprezo,

Escravizadas pelo sofrimento.

 

Concluídas as preces, o Emissário

Explicou-se, tomado de emoção:

– irmãs, o vosso amor é aquele do Calvário,

Que nasceu do Senhor, nos tormentos da cruz,

Amor que imperará na Terra do porvir,

Que sofre sem dever e se dá sem pedir,

Bênção do coração a converter-se em luz!...

Alma que conquistou esse poder divino

Pode escolher na vida o seu próprio destino...

A vossa promoção é mantida, porém,

Não podeis alterar a Eterna Lei do Bem...

Já não mais sereis mães, sereis anjos da guarda,

Junto aos entes que amais na grande retaguarda...

Deus vos guarde e ilumine a divina missão

De renúncia e de paz, de socorro e perdão.

 

Companheiros na fé que nos governa,

Considerai conosco esta nota fraterna:

– Ante os irmãos que o mal espancou em caminho,

Estendei vosso amparo com carinho,

Seja por vossas mãos ou a vosso mando...

Nunca vos esqueçais de que, ao pé da criatura,

Que se atirou na prova em que se apura,

Um anjo maternal está velando...

 

Do livro A Vida Conta. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.