ENFERMIDADE  E  RESGATE

(Renato Rodrigues)

 

 

Renatinho, inteligente e forte garoto de 10 anos, apresentou, repentinamente, sinais de grave enfermidade no cérebro. Após vários exames especializados, os médicos chegaram à conclusão de que se tratava de tumor, e a única esperança de cura fundamentava-se numa cirurgia.

Os pais, naturalmente, de inicio, titubearam diante da decisão: concordar ou não com a programada operação. Mas, consultas a outros especialistas deram-lhes força para autorizarem a cirurgia.

Realizada a delicada intervenção, o pós-operatório não evoluiu bem. Renatinho permaneceu em coma por cinco dias, até a sua desencarnação, em 5 de outubro de 1980.

Como agravante da perda do filho querido, o casal passou a cultivar um doloroso sentimento de culpa por ter autorizado a cirurgia, que só foi desfeito após o recebimento de notícias do próprio Renatinho, Espírito, conforme nos relatou o casal, neste trecho de atenciosa carta:

"Ficou em nós um sentimento de culpa por termos autorizado a cirurgia. Fizemos bem ou não? Ficamos quase enlouquecidos. E por isso que ele escreveu esta frase: 'Peço ao papai Luiz não se impressionar, como se fosse ele o autor da decisão da medicina.'

A carta de Renato nos deu muito conforto, porque tivemos a confirmação de que nosso filho continua vivo no Plano Espiritual."

Outro ponto relevante da Primeira Carta do garotinho foi a explicação de sua enfermidade, com base na Lei de Causa e Efeito ou Cármica, dizendo claramente, com base em informações de seus avós, que resgatou uma dívida de existência anterior.

 

A seguir, suas consoladoras palavras:

 

Querida mãezinha Daisy e querido papai Luiz, abençoem-me.

Sou trazido pelo meu avô Ponciano para reafirmar-lhe que estou melhorando.

Não quero vê-los amargurados como se me houvessem perdido. Tudo aconteceu conforme as determinações de Deus.

Mãezinha, lembre-se de quando você me ensinava a fitar o retrato de Jesus e me pedia repetir o nome santo. Não poderemos esquecer as nossas orações de mãos postas. Desde o tratamento difícil refletia em Jesus, e na vontade de Jesus.

Peço ao papai Luiz não se impressionar, como se fosse ele o autor da decisão da medicina. Quem nos obrigou a aceitar as providências em que nos envolvemos foi a minha doença que estou aprendendo aqui, com o vovô Luiz e com o vovô Ponciano, a receber como sendo a minha dívida. Por enquanto não sei onde a fiz, mas muita gente perde a memória para recuperá-la depois, e devo ser uma dessas pessoas que não se recordam de muitos acontecimentos que estão trancados na retaguarda.

Peço dizerem à nossa Tati que não morri e que espero aprender muito do que vejo em nosso campo de moradia, a fim de auxiliá-la mais tarde.

Querida mamãe Daisy e querido papai Luiz, chegou o momento de traçar o ponto final. O avô Ponciano me convida a encerrar esta carta de saudades e é com muito amor que os revejo ao meu lado e que lhes posso repetir aqui nesta folha de papel que sou o filho que os ama cada vez mais,

Renatinho. Renato Rodrigues.

 

Notas e Identificações

 

1 - Carta psicografada pelo médium Francisco C. Xavier, em reunião pública do GEP, Uberaba, a 23/10/ 1981.

2 - Mãezinha Daisy e papai Luiz – Daisy Ramos Rodrigues e Luiz Rodrigues, seus pais, residentes em São Paulo, Capital.

3- avô Ponciano – Ponciano Cláudio, bisavô, desencarnado em 1968.

4 - Mãezinha, lembre-se de quando você me ensinava a fitar o retrato de Jesus – "Dois dias antes da cirurgia, meu filho pediu-me para levá-lo à igreja, pois ele queria acender uma lamparina para Jesus e N. Senhora Aparecida. Levei-o e ao sair disse-me sentir aliviado com a oração." (Informação de D. Daisy, em sua carta).

5- Não poderemos esquecer as nossas orações de mãos postas. – "Depois de seu falecimento sentia-me revoltada e sem fé. Creio que por isso ele menciona que não devemos esquecer nossas orações.", esclareceu-nos D. Daisy.

6 - vovô Luiz – Luiz Ramos, bisavô desencarna-

7 - Tati – Tatiana Rodrigues, irmã.

 

Segunda Carta

 

“Observando o corpo diferente, mas igual ao que usara no mundo físico, fiz várias perguntas à minha avó que passou a me transmitir as informações necessárias.”

Querida Mãezinha Daisy, associo meu pai ao pedido de bênção que lhe endereço.

Tenho recebido os seus apelos. Queria alguma noticia, alguma informação acerca do Renato... Ouço-a a dizer e a redizer isso muitas vezes.

Mãezinha Daisy, minha anotação melhor é a de que a dor alucinante na cabeça passou por completo. Para mim não foi tão fácil desvencilhar-me da casa e dos entes queridos.

Sofria muito no corpo; entretanto, a idéia da morte não quadrava com qualquer desejo, no sentido de alcançar as melhoras precisas. Compreendia o trabalho que lhes dei, com aquele mundo de indagações sobre exames e instruções para que meu cérebro se descartasse do mal que me oprimia. Os dias e as noites para nós eram muito longas, como são longas as expectativas dos desesperados...

Gradativamente, um grande cansaço me tomou todas as forças. Sem querer, aceitei a idéia da libertação do corpo fustigado de dores. E me lembro claramente da neblina que se fez sobre mim, a ponto de enxergar pessoas e coisas com grande dificuldade. Em dado momento, um rosto sorridente emergia daquela névoa grossa e ouvi a voz de alguém, induzindo-me a erguer-me. Entretanto, não me seria fácil pensar nisso. A minha prostração era absoluta, mas aquela face maternal me falava com tamanho vigor de fé que me esforcei, de leve, e levantei-me, ignorando que me desligava do corpo pesado e doente.

Nesse mesmo instante, pude transpor a neblina e receber o abraço de uma senhora, a senhora que me fitava com bondade e otimismo. Explicou-me que era a minha avó Antonieta a cooperar no meu afastamento do corpo que não apresentava utilidade alguma para mim. Achava-me, porém, muito abatido e a cair de sono; e entreguei-me, de todo, à criatura abençoada que me vinha socorrer espontaneamente.

Estava de minha parte muito sofrido e acabrunhado para refletir sobre o fenômeno da morte e deixei-me conduzir ao entorpecimento que me passeava todos os sentidos. Dormi descuidadosamente, sem a possibilidade de precisar, até agora, quanto tempo gastei nessa condição de alienado mental, totalmente entregue a sonhos e pesadelos.

Quando despertei, a mesma senhora se acomodara junto de mim, demonstrando dedicação invulgar. Lutei bastante para recuperar a fala, porque os meus nervos jaziam silenciosos e petrificados, no meu entender. Depois de muitos exercícios é que reconquistei o dom de falar com segurança. Observando o corpo diferente, mas igual ao que usara no mundo físico, fiz várias perguntas à minha avó que passou a me transmitir as informações necessárias.

Não mais sentia dores e explicava ela que isso se devia à ausência do tumor que me incomodava tanto... Creia, porém, mãezinha Daisy, que chorei muito ao reconhecer que me encontrava noutro ângulo da vida, a Vida Espiritual, que ninguém na Terra conhece inteiramente, sem haver passado pela desencarnação. As lembranças da casa me doíam por dentro e as lágrimas me caíam do coração, através dos olhos, mas a avó Antonieta me esclareceu que me observava, satisfeita, as melhoras positivas.

Aquilo era um estímulo a que prosseguisse no esforço da liberação do Plano Físico e aderi aos propósitos de minha avó que me queria vigoroso e alegre para iniciar vida nova.

Assim se passam meus dias de restauração na Vida Maior e espero que Jesus nos proteja.

Agradeço a todos quanto fizeram por mim e peço-lhe, mãezinha, para interpretar-me o reconhecimento junto de quantos me auxiliaram.

Hoje venho pedir-lhe conformação e fé em Deus e a certeza de que um dia nos encontraremos na Espiritualidade Maior. Reconheço a minha pequenez, mas me esforçarei para vencer o tempo e ganhar as possibilidades de estar mais perto do seu carinho e do pai Luís, que está sempre em minhas lembranças.

Muito carinho à nossa Tatiana, e abraçando-a com o papai e com os nossos em minhas lembranças, sou, como sempre, o filho reconhecido,

Renato. Renato Rodrigues.

 

Notas e Identificações

 

8- Psicografia de Francisco C. Xavier, em reunião Pública do GEP, Uberaba, a 15/2/1985.

9- Tenho recebido os seus apelos. (...Ì Ouço-a a dizer e a redizer isso muitas vezes. – A morte física não impede que as criaturas que se amam permaneçam ligadas pela força do pensamento. O fluido universal que envolve a todos – encarnados e desencarnados – permite a sintonia mental (telepática) das almas afins.

10- avó Antonieta – Bisavó materna.

11 - Lutei bastante para recuperar a fala, porque os meus nervos jaziam silenciosos e petrificados, no meu entender. 0epois de muitos exercícios é que reconquistei o dom de falar com segurança. – Observa-se que o cérebro do corpo espiritual (ou perispírito) de Renatinho – corpo que ele considera "diferente, mas igual ao que usara no mundo físico" – sofreu reflexos da doença que o acometeu em vida física. (Ver Nota 5 do Capítulo 6.)

 

Do livro “Caravanas de Amor”.

Psicografia de Francisco Cândido Xavier,

Espíritos Diversos e Hércio Marcos C. Arantes