O  PROBLEMA  DA LONGEVIDADE

 

Humberto de Campos

 

30 de abril de 1937

 

Os cientistas de todos os continentes se interessam, no mundo, pela solução do problema da longevidade humana. À maneira do doutor Fausto, ensandecem as suas faculdades intelectivas, buscando o ambicionado xarope miraculoso. Corações de cães e de galinhas são objeto de experimentos fisiológicos e não faz muitos anos o Dr. Voronoff andava pelo mundo com a sua gaiola de símios, vendendo o elixir prodigioso da juventude aos velhos gozadores da vida. Agora, um dos seus continuadores, o Dr. Aléxis Carrel, em cooperação com Lindberg, inventou um aparelho para investigar a vida das células e a produção de hormônios, onde se encontra vivo o coração de um gato, pulsando indefinidamente, esquecido de morrer, certamente enganado com a temperatura do recipiente de vidro que o encerra.

Nos últimos tempos é o professor Woodruff o iniciador de experiências novas. Cultivando carinhosamente um micróbio e sua progênie, no laboratório de suas pesquisas científicas, todos os dias transforma o ambiente do micróbio estudado, mudando a gota de água e o tubo que constituem o seu grande mundo liliputiano, tendo repetido essa experiência mais de mil vezes, constatando a imortalidade do seu paciente e guardando a esperança de poder aplicar seus estudos às criaturas humanas, criando uma nova teoria da longevidade, com a eliminação dos resíduos celulares do organismo, olvidado, porém, de que as células cerebrais do homem, elementos constitutivos do aparelho mais delicado de manifestação do espírito dos seres racionais, não são suscetíveis de nenhuma alteração no decurso da vida.  Os corpúsculos do cérebro nunca se reproduzem. Podem os cientistas imitar todos os fenômenos da natureza. Um coração humano pode saltar numa retorta de laboratório. Os rins e o fígado podem segregar os seus produtos específicos, separados do corpo, mas os estudiosos do mundo inteiro jamais poderão fazer pensar o cérebro de um cadáver.

Todas essas atividades da ciência moderna, através de movimentos mecânicos, poderão organizar novos sistemas terapêuticos, mas nunca afastar do coração inquieto dos homens o gládio afiado da morte.

A par dos professores, cujas teses objetivam a prolongação da existência das criaturas, temos os políticos nacionalistas incentivando a natalidade, como Mussolini, instituindo prêmios para as mães italianas e conquistando, a ferro e fogo, o território abissínio, a fim de localizar os súditos do novo império.

É verdade que o “crescei e multiplicai-vos” representa um imperativo das leis divinas, mas é necessário saber-se o “como” dessa conciliação do espírito com a natureza. Os homens tentam organizar, em todos os tempos, um código de moral, para que os imperativos evangélicos da multiplicação se cumprissem com decência e pureza. As igrejas criaram o casamento religioso, e os legisladores o matrimonio civil. Houve, também, os que tentaram organizar, nesse sentido, uma diretriz de ordem econômica, como os ingleses, que instituíram o “birth control”. Mas, eu não voltaria do mundo das sombras ignoradas para fazer a apologia de Roberto Malthus e sim para perguntar se valeria a pena conservar-se indefinidamente a vida do homem, sobre o vale de lágrimas do Salmista.

Quando ainda não se resolveu o problema do pão de cada dia, quando multidões de famintos e desesperados, quando a sociologia não passa de palavra a ser interpretada, é lícito cogitar-se da longevidade das criaturas? Se vingassem as teorias modernas, teríamos igualmente a eternização do egoísmo, da ambição e do orgulho, porque cada um não cogitaria senão da sua própria imortalidade.

As atividades inoportunas de semelhantes cogitações, no objeto de se fazer de cada homem  um Matusalém sobre a terra, são a criação incessante dos institutos da morte. A política, que incentiva a natalidade, não quer a criança senão para fazer dela, mais tarde, um soldado ou uma vivandeira, de acordo com a determinação do sexo. O monstro da guerra está ainda, como a Hidra de Lerna envolvendo todos os povos do Planeta nos seus tentáculos destruidores.

Todos os progressos da Civilização se canalizam para esse gosto homicida. O animal político de Aristóteles não vive senão para destruir seus semelhantes, e nos departamentos de guerra de todos os paises existem os técnicos de novos aparelhos de destruição.

Nestes últimos tempos, um ilustre médico europeu inventou piedosamente uma espécie de máscara protetora contra todos os gases mortíferos conhecidos.  Apresentando o invento humanitário ao seu diretor de laboratório, obteve uma resposta curiosa:

- “Muito bem, meu amigo. A tua criação merece o apoio do Governo e a admiração dos teus colegas; todavia, é preciso agora que utilizes as tuas faculdades inventivas na criação de um gás mais poderoso do que essa máscara, e que a possa inutilizar no momento oportuno.”

É dentro dessa mentalidade que se desdobram as atividades humanas.

Os cientistas que desejarem prestar o concurso dos seus conhecimentos à Humanidade devem ocupar-se de problemas menos complexos do que o da inconveniente longevidade das criaturas.

Antes de tudo, é necessário educar o espírito para o saneamento moral da vida das coletividades. Quando o homem conhecer a sua condição de usufrutuário do patrimônio divino, as armas da ambição, do egoísmo e do orgulho estarão ensarilhadas para sempre. A morte, nesse plano ideal de conhecimento superior, deixará de ser a espada de Dâmocles, no banquete da vida, porquanto não mais existirá na imaginação das criaturas integradas no conhecimento de sua imortalidade espiritual.

Os cientistas que estudam a longevidade do corpo são os que tateiam, voluntariamente, nas sombras da noite, despercebidos de que as claridades do dia virão fatalmente iluminar-lhes o caminho da ascensão para Deus.

Que se desviem de semelhantes excentricidades, empregando os seus esforços na solução de problemas mais úteis e mais urgentes. Em vez de criarem novas teorias para que o mundo fique repleto de corpos imortais, seria melhor que cultivassem batatas, a fim de que os pobres da Terra tenham um pão pela hora da vida.

 

 

Do livro Palavras do Infinito. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.