OH! JERUSALÉM ...  JERUSALÉM ...

 

Humberto de Campos

11 de agosto de J935

 

É possível a estranheza dos que vivem na Terra, com respeito à atitude dos desencarnados, esmiuçando-lhes as questões e opinando sobre os problemas que os inquietam.

É lógico, porém, que os recém-libertos do mundo falem mais com o seu cabedal de experiências de passado, do que com a sua ciência do presente adquirida à custa de faculdades novas, que o homem não está ainda à altura de compreender.

Podem imaginar-se, na Terra, determinadas condições da vida sobre a superfície de Marte; mas que interessam, por enquanto, ao mundo semelhantes descobertas, se os enigmas que o assoberbam ainda não foram decifrados? Para o exilado da Terra não vale a psicologia do homem desencarnado. Tateando na prisão escura da sua vida, seria quase um crime aumentar-lhe as preocupações e ansiedades. Eu teria muitas coisas novas a dizer; todavia, apraz-me, com o objeto de me fazer compreendido, debruçar nas bordas do abismo em que andei vacilando, subjugado nos tormentos, perquirindo os seus logogrifos inextricáveis, para arrancar as lições da sua inutilidade.

Também o homem nada tolera que venha infringir o metro da sua rotina.

Presumindo-se rei da Criação, não admite as verdades novas que esfacelam a sua coroa de argila.

Os mortos, para serem reconhecidos, deverão tanger a tecla da mesma vida que abandonaram.     Isso é intuitivo.

O jornalista, para alinhavar os argumentos da sua crônica, busca os noticiários, aproveita-se dos acontecimentos do dia, tirando a sua ilação das ocorrências do momento.

E meu espírito volve a contemplar o espetáculo angustioso dessa Abissínia abandonada no seio dos povos, como o derradeiro reduto da liberdade de uma raça infeliz, cobiçada pelo imperialismo do século, lembrando-me de Castro Alves nas suas amarguradas “Vozes da África":

Deus, Ó Deus, onde estás que não respondes?

Em que mundo, em que estrela tu te escondes,

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde, desde então, corre o infinito.

Onde estás, Senhor Deus?

Da Roma poderosa partem as caravanas de guerreiros.Cartago agoniza no seu desgraçado heroísmo. Públio Cornélio consegue a mais estrondosa das vitórias. Os cérebros dos patrícios ilustres embriagam-se no vinho do triunfo; e nas galeras suntuosas, onde as águias simbolizam ,o orgulhoso poder da Roma eterna, lamentam-se os escravos nos seus nefandos martírios.

Os Césares enchem a cidade das sabinas de troféus e glórias. Todos os deuses são venerados. Os países são submetidos e os povos entoam o hino da obediência à senhora do mundo.

Já não se ouve a melodiosa flauta de Pan nos bosques da Tessália, e nas margens do Nilo apagam-se as luzes dos mais suaves mistérios.

Vítima, porém, dos seus próprios excessos, o

grande império vê apressar-se a sua decadência. No esboroamento dos séculos, a invencível potência dos Césares é um montão de ruínas. Sobre os seus mármores suntuosos crescem as destruições.

Roma dormiu o seu grande sono.

Ei-la, contudo, que desperta.

Mussolini deixa escapar um grito do seu peito de ferro e a Roma antiga acorda do letargo, reconhecendo a perda dos seus imensos domínios.

Urge, porém, recuperar o poderio, empenhando-se em alargar o seu império colonial.

Onde e como?

O mundo está cheio de leis, de tratados de amparo recíproco entre as nações.

A França já ocupou todos os territórios ao alcance das suas possibilidades, a Alemanha está fortificada para as suas aventuras, o Japão tem as suas vistas sobre a China e a Inglaterra, calculista e poderosa, não pode ceder um milímetro no terreno das suas conquistas.

Mas, Roma quer a expansão dá sua força econômica e prepara-se para roubar a derradeira ilusão de um povo desgraçado, ao qual não basta a lembrança amarga dos cativeiros multisseculares, julgando-se livre na obscura faixa de terra para onde recuou, batido pela crueldade das potências imperialistas.

Que mal fizeste à civilização corrompida dos brancos, ó pequena Abissínia, grande pela expressão resignada do teu ardente heroísmo?!

Como pudeste, das areias calcinantes do deserto, onde apuras o teu espírito de sacrifício, penetrar nas instituições européias, provocando a fúria das suas armas?

Deixa que passem sob o teu sol de fogo as hordas de vândalos, sedentas de chacina e de sangue.

Sobre as tuas esperanças malbaratadas derramará o Senhor o perfume da sua misericórdia. Os humildes têm o seu dia de bem-aventurança e de glória.

Não importa sejas o joguete dos caprichos condenáveis dos teus verdugos, porque, sobre o mundo, todas as frontes orgulhosas desceram do pináculo da sua grandeza para o esterquilínio e para o pó.

Se tanto for preciso, recebe sobre os teus ombros a mortalha de sangue, porque, junto do maravilhoso império da Civilização apodrecida dos brancos, ouve-se a voz lamentosa de um novo Jeremias: - Oh! Jerusalém!... Jerusalém!...

 

Do livro Crônico de Além Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.