DE  UM  CASARÃO   DO  OUTRO  MUNDO

 

Humberto de Campos

 

27 de março de 1935

Muitas vezes pensei que outras fossem as surpresas que aguardassem um morto, depois de entregar à terra os seus despojos.

Como um menino que vai pela primeira vez a uma feira de amostras, imaginava o conhecido chaveiro dos grandes palácios celestiais. Via S. Pedro de mãos enclavinhadas debaixo do queixo. Óculos de tartaruga, como os de Nilo Peçanha, assestados no nariz, percorrendo com as suas vistas sonolentas e cansadas os estudos técnicos, os relatórios, os mapas e livros imensos, enunciadores do movimento das almas que regressavam da Terra, como destacado amanuense de secretaria. Presumia-o um velhote bem conservado, igual aos senadores do tempo da monarquia no Brasil, cofiando os longos bigodes e os fios grisalhos da barba respeitável. Talvez que o bom apóstolo, desentulhando o baú de suas memórias, me contasse algo de novo: algumas anedotas a respeito de sua vida, segundo a versão popular; fatos do seu tempo de pescarias, certamente cheios das estroinices de rapazola. As jovens de Séforis e de Cafarnaum, na Galiléia, eram criaturas tentadoras com os seus lábios de romã amadurecida. S. Pedro por certo diria algo de suas aventuras, ocorridas, está claro, antes da sua conversão à doutrina do Nazareno.

Não encontrei, porém, o chaveiro do Céu. Nessa decepção, cheguei a supor que a região dos bem-aventurados deveria ficar encravada em alguma cordilheira de nuvens inacessíveis. Tratava-se, certamente, de um recanto de maravilhas, onde todos os lugares tomariam denominações religiosas, na sua mais alta expressão simbólica: Praça das Almas Benditas, Avenida das Potências Angélicas. No coração da cidade prodigiosa, em paços resplandecentes, Santa Cecília deveria tanger a sua harpa acompanhando o coro das onze mil virgens, cantando ao som de harmonias deliciosas para acalentar o sono das filhas de Aqueronte e da Noite, a fim de que não viessem, com as suas achas incandescentes e víboras malditas, perturbar a paz dos que ali esqueciam os sofrimentos, em repouso beatífico. De vez em quando se organizaram, nessa região maravilhosa, solenidades e festas comemorativas dos mais importantes acontecimentos da Igreja. Os papas desencarnados seriam os oficiantes das missas e Te-Deuns de grande gala, a que compareceriam todos os santos do calendário; S. Francisco Xavier, com o mesmo hábito esfarrapado com que andou pregando nas Índias; S. José, na sua indumentária de carpinteiro; S. Sebastião na sua armadura de soldado romano; Santa Clara, com seu perfil lindo e severo de madona, sustentada pelas mãos minúsculas e inquietas dos arcanjos, como rosas de carne loura. As almas bem conceituadas representariam, nas galerias deslumbrantes, os santos que a Igreja inventou para o seu hagiológio.

Mas... não me foi possível encontrar o Céu.

Julguei, então, que os espíritas estavam mais acertados em seus pareceres. Deveria reencontrar os que haviam abandonado as suas carcaças na Terra, continuando a mesma vida. Busquei relacionar-me com as falanges de brasileiros emigrados do outro mundo. Idealizei a sociedade antiga, os patrícios ilustres aí refugiados, imaginando encontrá-los em uma residência principesca como a do Marquês de Abrantes, instalada na antiga chácara de Dona Carlota, em Botafogo, onde recebiam a mais fina flor da sociedade carioca das últimas décadas do segundo reinado, cujas reuniões, compostas de fidalgos escravocratas da época, ofuscavam a simplicidade monacal dos Paços de S. Cristóvão.

E pensei de mim para comigo: Os rabinos do Sinédrio, que exararam a sentença condenatória de Jesus-Cristo, quererão saber as novidades de Hitler, na sua fúria contra os judeus. Os remanescentes do príncipe de Bismarck, que perderam a última guerra, desejariam saber qual a situação do negócios franco-alemães. Contaria aos israelitas a história da esterilização, e aos seguidores do ilustre filho de schoenhausen as questões do plebiscito do Sarre. Cada bem-aventurado me viria fazer uma solicitação, às quais eu atenderia com as habilidades de um porta-novas acostumado aos prazeres maliciosos do boato.

Enganara-me, todavia. Ninguém de preocupava com a Terra, ou com as coisas da sua gente.

Tranqüilizem-se, contudo, os que ficaram, porque, se não encontrei o Padre Eterno com as suas longas barbas de neve, como se fossem feitas de paina alva e macia, segundo as gravuras católicas, não vi também o Diabo.

Logo que tomei conta de mim, conduziram-me a um solar confortável, como a Casa dos Bernardelli, na praia de Copacabana. Semelhante a uma abadia de frades na Estíria, espanta-me o seu aspecto imponente e grandioso. Procurei saber nos anais desse casarão do outro mundo as notícias relativas ao planeta terreno. Examinei os seus infólios. Nenhum relato havia a respeito dos santos da corte celestial, como eu os imaginava, nem alusões a Mefistófeles e ao Amaldiçoado. Ignorava-se a história do fruto proibido a condenação dos anjos rebelados, o decreto do dilúvio, as espantosas visões do evangelista no Apocalipse. As religiões estão na Terra muito prejudicadas pelo abuso dos símbolos. Poucos fatos relacionados com elas estavam naqueles documentos.

O nosso muno é insignificante demais, pelo que pude observar na outra vida. Conforta-me, porém, haver descoberto alguns amigos velhos, entre muitas caras novas.

Encontrei o Emílio radicalmente transformado. Contudo, às vezes, faz questão de aparecer-me de ventre rotundo e rosto bonacheirão, como recebia os amigos na Pascoal, para falar da vida alheia.

- “Ah! Filho- exclama sempre -, há momentos nos quais eu desejaria descer ao Rio, como o homem invisível de Wells, e dar muita paulada nos bandidos de nossa terra.”  

E, na graça de quem, esvaziando copos, andou enchendo o tonel das Danaides, desfolha o caderno de suas anedotas mais recentes.

A vida, entretanto, não é mais idêntica à da Terra. Novos hábitos. Novas preocupações e panoramas novos. A minha situação é a de um enfermo pobre que se visse de uma hora para outra em luxuosa estação de águas, com as despesas custeadas pelos amigos. Restabelecendo a saúde, estudo e medito. E meu coração, ao descerrar as folhas diferentes dos compêndios do infinito, pulsa como o do estudante novo.

Sinto-me novamente na infância. Calço os meus tamanquinhos, visto as minhas calças curtas, arranjo-m à pressa, com a má vontade dos garotos incorrigíveis, e vejo-me outra vez diante da Mestra Sinhá, que me olha com indulgência, através de sua tristeza de virgem desamada, e repito, apontando as letras na cartilha: _ A B C...A B C D E ...

Ah!! Meu Deus, estou aprendendo agora os luminosos alfabetos que os teus imensos escreveram com giz de ouro resplandecente os livros da Natureza. Faze-me novamente menino para compreender a lição que me ensina! Sei hoje, relendo os capítulos da tua glória, por que vicejam na Terra os cardos e os jasmineiros, os cedros e as ervas, por que vivem os bons e os maus, recebendo, numa atividade promíscua da tua casa.

Não trago do mundo, Senhor, nenhuma oferenda para a tua grandeza! Não possuo senão o coração, exausto de sentir e bater, como um vaso de iniqüidades. Mas, no dia em que te lembrares do mísero pecador que te contempla no teu doce mistério como lâmpada de luz eterna, em torno da qual bailam os sis como pirilampos acesos dentro da noite, fecha os teus olhos misericordiosos para as minhas fraquezas e deixa cair nesse vaso imundo uma raiz de açucenas. Então, Senhor, como já puseste lume nos meus olhos, que ainda choram, plantarás o lírio da paz no meu coração que ainda sofre e ainda ama.

 

                

Do livro Crônico de Além Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.