CARTA  A  MARIA  LACERDA  DE  MOURA

 

Humberto de Campos

 

 

E’ para você, Maria Lacerda, que envio hoje o meu pensamento de espírito. Tarefa excessivamente arriscada essa de dirigir-se um morto aos literatos da Terra, quase sempre dobrados ás injunções de ordem política e social. É verdade que Berilo Neves, o ano passado, teve a precisa coragem de se referir, na Associação Brasileira de lmprensa, ás minhas mensagens póstumas; mas, você, na serenidade do seu animo e na incorruptibilidade do seu caráter, pode entender o meu pensamento e ouvir a minha voz.

Não sou estranho ás suas atividades e aos seus estudos, no plano das investigações espiritualistas. Saturada de sociologia, você reconhece agora, como eu, nos derradeiros anos de minha peregrinação pela Terra, a possibilidade remota de se concertar o edifício esburacado dos costumes humanos, dentro de uma civilização de barbaria, onde a moral cai aos pedaços e, voltando a sua atenção para o mundo invisível, você conversa com as sombras, tornando-se a confidente abençoada dos mortos. Seu olhar, acostumado ás assembléias saletas das grandes cidades sul-americanas, passeia agora, ás vezes, no império do silencio dos que já partiram do mundo, onde o seu juízo critico vai buscar um motivo novo para falar caridosamente, acordando os homens. Quis ainda você construir o seu novo ninho junto das catacumbas e dos salgueiros e, desse calado retiro, estende-se o seu pensamento para o mistério da noite, povoada de sonhos e de constelações.

Os pensadores, Maria Lacerda, são impotentes para salvar o mundo da desgraça em que ele próprio submergiu. A confusão tem de se processar, para que se destrua o edifício milenar dos hábitos e dos preconceitos de toda ordem. Uma nova vida terá de florescer sobre os alicerces da morte. Todos os que lutaram e os que se encontram lutando ainda pelo esclarecimento da coletividade são frutos extemporâneos da civilização do futuro. Eles oferecem um roteiro de liberdades fulgurantes; mas, em torno do homem contemporâneo respira-se ainda uma atmosfera terrível de destruição.

Ha vários decênios, luta-se teoricamente para que um novo estado de coisas se estabeleça no mundo. Clama-se por leis econômicas que regulem nos paises a distribuição do necessário e queimam-se produtos, em quase todas as regiões do planeta, objetivando o cumprimento de absurdas determinações da política do isolamento. A palavra dos Kropotkine soa em vão, conclamando os espíritos de boa vontade. Mussolini assina um programa socialista nos primórdios da sua carreira política, escondendo a pretensão exclusiva de conquistar um império. O presidente pacifista dos Estados Unidos idealiza a organização da paz internacional de Genebra, de cujas atividades o seu pais não compartilha. O Japão fala de seus direitos de nacionalidade, avançando sobre os territórios da China. A Rússia instigue o comunismo, entendendo-se otimamente com todas as potencias capitalistas. De Roma, que se diz piedosa e cristã, saem as hordas de conquistadores para a mais absurda das guerras. A Alemanha hitlerista expulsa Einstein, dentro de suas preocupações de racismo. Nas republicas sul americanas, ha o movimento de comércio com a Internacional Armamentista. Na Inglaterra, o “Inteligente Serviço” fomenta o dissídio e a discórdia, nas suas cogitações imperialistas, A Espanha, embriaga-se no desvairamento da guerra civil. Em toda parte, bebe-se um vinho de ruína e de morte e, entre os homens atordoados, sopra um furacão maligno de arrasamentos.

Os sociólogos vêem as suas atividades circunscritas ao castelo maravilhoso das palavras, porque os homens estão entregues ao seu infortunado destino.

Não valeu o esforço dos espíritos avançados na solução das incógnitas cientificas, porquanto todas as descobertas destes últimos tempos são brinquedos terríveis na mente infantil dessa civilização que se desenvolveu sem a educação individual.

A verdade é que o homem está vivendo para destruir o homem.

Um dos pensadores modernos contemplando o aspecto doloroso da atualidade, concluía tristemente que, se o homem contemporâneo considera natural o extermínio de mulheres e de crianças, nos últimos movimentos bélicos do planeta, não será extraordinário, daqui a alguns anos, que os homens se devorem uns aos outros. De fato, a criatura humana parece regredir á, noite escura e misteriosa das suas origens. Todavia, o estudo psicológico dessa situação nos conduz a muitas reflexões sobre as suas causas profundas e concluímos que os homens atuais são mais infelizes que perversos. O que se intensificou em toda parte da Terra, arruinando os sectores da atividade humana, foi aquela crise espiritual a que Gandhi se refere em suas exortações. O Ocidente poderia salvar-se, conservando o equilíbrio do mundo, se o Cristianismo, em sua simplicidade e sua pureza, não fosse deturpado pelas igrejas mercenárias. A moral cristã teria fatalmente de evoluir para a simplificação suprema da vida, se os religiosos não a tivessem asfixiado no cárcere estreito de suas cogitações político-sociais. E o resulta­do de tão nefastos empreendimentos é a atualidade dos homens, inçada de morticínios e crivada de dores.

Contudo, há uma providencia misericordiosa acompanhando os surtos evolutivos da Terra, e, na hora justa dos abalos sociais de toda natureza, os túmulos se enchem de vozes e de revelações consoladoras, realizando profecias...

Fascismo, ditaduras para o proletariado, falsas democracias terão de desaparecer nos fragores da luta, para que a política espiritualista inaugure o direito novo, a lei nova, os controladores de todos os fenômenos da economia dos povos. O homem compreendera então a necessidade de um imperativo de paz, solidário com o progresso espiritual dos outros mundos.

É objetivando a construção do edifício da concórdia universal sobre a base da educação de cada personalidade e de leis econômicas que façam desaparecer para sempre o quadro doloroso da miséria e da fome, que os mortos voltam para falar aos encarnados, no turbilhão escuro de suas vidas.

Num dos seus últimos artigos na imprensa de Paris, Maurício Maeterlinck considerava erroneamente — “Estes mortos que sobrevivem parecem bem fracos, bem precários e bem miseráveis. Lembram os fantasmas vaporosos, arrebatados pelos turbilhões no inferno do grande poeta florentino. Preguiçosos, desamparados, exangues, nada mais tendo a fazer, não persistem eles senão á escuta de uma voz da Terra? E’ essa a prova de sua sobrevivência e, se sobrevivem realmente, não poderão realizar outra coisa? Recomeçam a viver ou acabam de morrer?”.

Maeterlink, porém, não conseguiu uma visão exata das atividades dos que já partiram das fadigas da luta material. Dentro das preocupações do high-life, não viu a multidão das criaturas consoladas pela confortadora Doutrina dos Espíritos e nem logrou compreende que os mortos não podiam começar por onde os vivos acabaram. Os homens terminaram sua luta na organização exclusivista, na ciência presunçosa e na suposta infalibilidade. Mas, os mortos iniciam a sua cruzada junto dos que sofrem e dos que raciocinam.

E, de você, Maria Lacerda, que vive espiritualmente na vanguarda dos tempos, nós esperamos um grande coeficiente de forças em favor do nosso triunfo na alma das massas. A sua acurada percepção pode reconhecer a vigorosa andaimaria do edifício do porvir, pois não está longe o dia em que os homens se cansarão de lutar uns com os outros, espalhando a miséria e o extermínio. Os lobos famintos da civilização armamentista ficarão sob os escombros fumegantes de suas grandezas e a alma cristã cantará a gloria dos pacíficos e dos bem aventurados. 

Você, Maria Lacerda, tem muito que fazer. 

Decuplique as suas energias e as suas esperanças...  

A sua palavra é a da rainha de Helicarnasso. 

Reúna com o seu esforço todos os guerreiros inativos e vamos lutar.

 

  24 de julho de 1936.

 

Do livro Crônico de Além Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.