VALDIR  DE  VICENTE

 

Valdir, aos 25 anos, era desenhista profissional. A caminho da Baixada Santista, sofreu sério acidente automobilístico, chegando ao final desta sua jornada no plano terrestre.

O choque foi terrível para os seus mas o reconforto veio com a primeira mensagem, recebida um ano e quatro meses depois de sua passagem. Mais quatro já foram enviadas e ora publicamos a primeira.

Para sua mãe, dona Tereza, receber esta comunicação foi a melhor coisa que aconteceu depois do desencarne de Valdir. Ela sentiu que teria como que uma continuação de vida, podendo saber de tudo que se passava com ele.

Tornaram-se espíritas, começando a colaborar na assistência ao próximo, e este trabalho tem ajudado muito a eles.

Estas são as palavras de sua mãe:

“Gostaria de pedir a todas as mãezinhas que passam por este transe doloroso que se confortem na certeza de que os filhos continuam realmente vivos, nos auxiliando e nos incentivando no trabalho ao próximo.

As mensagens recebidas pelo querido Chico Xavier foram o melhor conforto para o meu coração de mãe e dos familiares”.

Tereza de Vicente

 

Esclarecimentos sobre o texto da mensagem:

Pais: Tereza e Januário De Vicente.

Irmãos: Wagner, Carlos Alberto (Beto), José Roberto (Duda),e  Terezinha (Zinha)

Reginaldo De Vicente é sobrinho de Regi.

Tereza Maia é tia já desencarnada e avó Maria Josefa, por parte de mãe, também desencarnada.

Maurício Falcão é o amigo que estava no mesmo automóvel por ocasião do acidente, tendo falecido com Valdir.

 

“Querida Mamãe Tereza,

Abençoe-me com sua bondade de sempre.

Parece incrível mas estou aqui, plenamente recuperado, apenas com a realidade nova numa vida diferente, dentro da qual somos os mesmos, com idéias mais claras quanto à vida.

Tudo passou, eu entretanto guardo comigo um arrependimento de não lhe haver dito que desceríamos ao litoral para combinar uma festinha de Ano Novo. Imaginei que o retorno seria rápido, só por isso, não por outros motivos, é que não me expliquei como precisava.

Sei porém que o seu carinho e a compreensão do papai Januário me perdoam. Pelo que tenho de pesar pelo fato que exponho, peço-lhes esquecerem que não disse toda a verdade, porque não cultivava o hábito de mentir. Acontece que o Luiz nos recomendava cautela para seguirmos mais livres, sem acompanhamento de pessoas que pudessem talvez retardar-nos a volta. Mal sabíamos que a estrada nos imporia surpresas.

Quem desce habitualmente aceita a sugestão de velocidade maior e o problema se agravou quando nos vimos à frente um caminhão pesado que fazia força para evitar a banguela.

Impossível evitar o choque, nada sei daquele momento difícil, é como se uma pancada só nos anulasse a cabeça. Quis gritar pelo Mauricio e pelo Luiz, mas a voz não saía da garganta, minhas energias esmoreciam devagar, ao modo de uma lâmpada que se apaga lentamente sem possibilidade de reavivar, num pesadelo a prender-me qual se me visse no fundo de um grande poço. Não sei como se improvisou esse quadro na mente conturbada.

Tive a idéia de que a pancada sofrida houvesse me atirado para aquele recanto escuro. Vendo muito acima de mim a abertura para a saída como quem enxerga do bojo de um túnel a luz brilhante lá fora. Onde a coragem para subir? Nada sabia do que estava acontecendo, os pensamentos se entrechocavam em meu cérebro, até que dormi.

Ignoro até hoje como me retiraram desse estranho lugar.

Quanto tempo estive entregue à inconsciência, ainda não sei dizer, até que despertei. O ambiente era novo, tudo mudado, notei pessoas rondando o leito. Espantado por me ver à distância de casa quando estava acordado, naturalmente indaguei em voz alta sob a minha nova situação. As duas senhoras se aproximaram, e identificando-se com carinho, disseram-me que eram ambas a tia Tereza e avó Maria. Registrei um abalo, porque observei de pronto que eram pessoas já fora do nosso grupo familiar, em vista das despedidas pela morte de quem conservava conhecimentos. Lutei muito para aceitar o desafio com que me via defrontado.

Não conseguia admitir que estivesse destituído de meu corpo físico, embora a batida no caminhão se mantivesse, de modo vago, em meu pensamento. Creio que minhas queridas protetoras encontraram muitos entraves para me convencerem.

Depois de alguns dias conduziram-me à nossa casa e confirmei quanto me afirmaram porque vi meus familiares queridos sem que me vissem. Pertencia agora a novo mundo de matéria mais leve e inútil, porque tentasse eu levantar uma xícara ou acionar algum botão para eletricidade e tudo me parecia pesado, tão pesado que os elementos não me obedeciam.

Pude vê-la mirando um retrato meu, pensativa e chorosa, vi meu pai abatido incapaz de me assinalar o abraço de filho que sempre o amou tanto, andei à vontade sob a tutela da tia Tereza. Reencontrei o Wagner, o Beto, o Duda e a Zinha e cumprimentei-os com emoção de quem chega de longa viagem, mas nenhum dos irmãos me registrou a presença.

Busquei o nosso Reginaldo e lutei com todo o meu poder mental para fazer-me visto por ele, mas reconhecendo que todo meu esforço era em vão nesse sentido, pedi o retorno à casa, mas de nosso pouso doméstico, era preciso seguir a tia querida. Desde então vou fazendo o meu curso de adaptação; conformado não estou, no entanto já aceito a interpretação dos amigos daqui.

Trouxeram-me o Maurício para um abraço, mas o colega sentenciou que necessitávamos de muita serenidade para sermos tratados com naturalidade no campo novo de vida. Assim é, mãezinha, que seu filho vai conseguindo esquecer o desapontamento sofrido afim de abraçar uma vida nova. Peço-lhe dizer ao papai e aos irmãos que vou bem, com muita proteção mas bastante envergonhado ainda pela nossa imperícia, atropelando um caminhão-elefante pela trazeira, é uma aventura de não acreditar.

O Luiz se descartou muito bem da jogada difícil ou foi retirado por amigos e protetores que não conheço, para continuar trabalhando aí mesmo. Mãe, ele fez o máximo, o freio não conseguiria evitar a derrocada, aliás, aceito os ensinamentos que nos ministram aqui, de modo a receber os acontecimentos como são.

Estimaria que o nosso Regi voltasse a ser o mesmo, um menino forte e tranqüilo. Espero que ele não deixe de comparecer em nossa casa onde continua sendo, não só o carinho, mas também o companheiro inseparável de nossa vida. Não desejo que nosso Reginaldo crie qualquer processo de medo no coração.

Ele precisa viver à distância de receios negativos. Afinal, carros se entrechocam todos os dias em qualquer lugar, e onde estou agora com o auxílio dos mensageiros do Bem, vou conseguir aproximar-me dele, para fazermos juntos nobres tarefas do amor ao próximo. Isso não será para já, mas logo o veja em condições de me auxiliar estaremos unidos um ao outro, para continuarmos trabalhando para o bem, conforme sempre foi o nosso ideal.

Mãezinha, é isso aí. Não estamos sendo causas de tristezas e desanimo para ninguém. Pode dizer em meu nome ao papai e ao Wagner que estou me habilitando para o trabalho novo, o tempo sobre a minha volta ainda é curto mas o meu desejo de trabalhar é grande demais. Rogo com seu carinho e a todos meus entes amados continuarem trabalhando sob a tutela da coragem e da paciência, diante dos entraves que a vida por ventura nos ofereça. Muitos sofrem, era impossível continuar a nossa casa sem provações e sem problemas; sigamos adiante. Dizem que os mortos são apenas saudades que ficam, mas desejo provar que a gente consegue auxiliar à família, aos amigos, com esforço e boa vontade, e procurarei mobilizar essas forças para servir.

Rogo-lhe desmanchar o ambiente de amargura que ainda pesa em nossa casa e se ainda tiverem objetos que me pertencem em casa, distribua-os por favor, com os meninos que sejam capazes de aproveita-los.

Acidente não é doença, e quem volta nas condições de meu regresso à vida espiritual entrega o que tem, longe de pensar em escrúpulos negativos. Mãezinha, sei  que o papai está doente e mais calado do que de costume, pela a ele paciência e continuaremos a cultivar o nosso jardim de imenso valor espiritual, o jardim de paz e união feliz em que sempre vivemos.

Um abraço forte em nosso Reginaldo, com saudades a todos.

E para o seu coração maternal, aqui fica o coração inteirinho de seu filho.

Valdir de Vicente”

 

Fonte: Livro “Esperança e Alegria” - Psicografia – Francisco C. Xavier - Autores Diversos