BAVIERA, SAGA SECULAR DE AMOR E ÓDIO

Abel Glaser

Abel Glaser conheceu a Doutrina Espírita em 1959, através do livro O Principiante Espírita, de Allan Kardec. Em seguida estudou todas as obras da Codificação Espírita, inclusive centenas de livros de autores encarnados, entre eles: Léon Denis e Cairbar Schutel e desencarnados, entre outros: André Luiz, Emmanuel e Humberto de Campos, o que veio enriquecer seus conhecimentos doutrinários.

Desde 1959 (ainda solteiro) instituiu a prática do Evangelho no Lar com sua mãe e irmãos menores e, no ano seguinte, passou a participar de reuniões no Centro Espírita “Maria Emília de Almeida”, localizado no bairro da Liberdade, em São Paulo.

Em 1962 iniciou as atividades do “Grupo Irmã Scheilla”, hoje Centro Espírita “Irmã Scheilla”, e em 1963 foi um dos fundadores do Lar Escola “Cairbar Schutel” que tem por finalidade assistir meninas e meninos que não possuem um lar. A Editora Alvorada Nova, inaugurada em outubro de 1996, departamento editorial do Lar Escola, tem sua participação direta.

É coordenador do Grupo de Estudos “Cairbar Schutel”, criado no início de 1987 por orientação de Cairbar (Espírito) para a elaboração de livros, cuja coleta de dados, pesquisas e sistematização são supervisionadas pelo próprio Cairbar e orientadas por ele mesmo e/ou seus assessores e emissários. Como resultado do trabalho desse grupo de médiuns já foram publicadas as obras “Alvorada Nova”, “Conversando sobre Mediunidade - Retratos de Alvorada Nova”, “Eustáquio -quinze séculos de uma trajetória”, “Minha Vida em Gestação”, “Crônica de um Despertar”, “Fundamentos da Reforma íntima” (todos pela Casa Editora O Clarim) e “Contos” e “Imagino que você queira ser feliz - Memórias de um anjo guardião” (pela Editora Alvorada Nova).

De 1962 a 1994 Abel Glaser teve diversas atividades no trabalho de unificação do movimento espírita, militando em tarefas distritais, regionais e estaduais, tanto na área administrativa quanto na doutrinária. Fez parte, por vários anos, do Conselho de Redação do jornal “Unificação” e atualmente integra o Conselho de Redação da Revista Internacional de Espiritismo e do Jornal O Clarim. Tem proferido, inclusive, palestras e ministrado seminários em cidades do Brasil e do exterior.

Hoje, com seus 66 anos de idade, prossegue firme na dedicação ao ideal espírita, tanto em tarefas administrativas e assistenciais quanto em atividades doutrinárias e de divulgação.

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B A V I E R A

Saga Secular de Amor e Òdío

Este livro desenvolve a história do casal Bergvolk e seus doze filhos. Transcorre no século XVII, na Baviera, e pode servir de lição ao cotidiano de muitas famílias do século atual. O núcleo familiar, em qualquer época, é muito importante para o progresso do encarnado, embora nem sempre bem utilizado por ele como se pode observar ao conhecer a fundo os encontros e desencontros dos irmãos Bergvolk.

Aproveitar bem a oportunidade de reencar-nação para melhorar-se cada vez mais é dever de cada pessoa, pois necessita lutar com muita determinação e fé diante dos obstáculos que surgem à sua frente, em especial no âmbito dos seus sentimentos, para tornar-se verdadeiramente feliz.

O amor fraterno é indispensável como solução definitiva para a maioria dos problemas da jornada do ser humano.


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O BRASAO DA FAMÍLIA BERGVOLK

Descrição: Um escudo tornes (quadrado), talhado em contrabanda. Na partição superior, em campo de blau (azul), doze estrelas de quatro pontas em ouro postas em quatro filas de cinco, quatro, dois e uma estrela cada, representando os doze filhos de Otto e Inga.

Na partição inferior, a bandeira da Baviera, Alemanha, terra natal da família, composta de losangos em blau e prata, postos em contrabanda.

Como ornamentos exteriores, o Alpspitz, montanha em sinopla (verde) com seu pico em prata indicando a neve perpétua dos Alpes Bávaros, posta em um triângulo blau, ilustrando a região de Garmisch-Partenkirchen, lar dos Bergvolk, tal qual viam habitualmente. As duas lanças acompanhando dois lados do triângulo, em goles (vermelho), representam os aspectos guerreiros da época; o trigo, em ouro, à direita, a agricultura, em seu produto principal e a ovelha, à esquerda, em prata, a pecuária, da mesma forma, seu item dominante.

PREFÁCIO

"Baviera - Saga Secular de Amor e Ódio” desenvolve uma história verídica, relatando a vida de doze irmãos no século XVII, filhos de Otto e Inga Bergvolk (‘), reunidos pela Espiritualidade Superior em uma reencarnação chave com vistas a se harmonizarem sob a tutela de seus esclarecidos pais, criaturas espiritualmente mais elevadas do que eles.

Como o progresso do ser humano não dá saltos, o leitor irá defrontar-se com a grande maioria dessas personagens -imperfeitas ainda - vivendo situações condizentes com o seu estágio evolutivo, nessa direção canalizando o seu livre arbítrio.

O cenário da cidade de Garmisch, nos Alpes bávaros, em geral, e da colina verde, em particular, com toda a sua beleza natural, serviu de palco central à atuação dos integrantes da família Bergvolk, com a incursão de alguns de seus membros por Ettal, Oberammergau. Mittenwald e Munique - na Baviera; Viena - capital do Sacro Império Romano-Germânico; Innsbruck - capital do Tirol, e Florença - berço do Renascimento, mas também centro de força da Igreja, com suas ordens religiosas e abadias (1 2).

A colina verde foi o local onde os irmãos Bergvolk viveram uma das mais significativas passagens pela crosta
1 - A mesma família mencionada no livro “Eustáquio - quinze séculos de uma trajetória’’ (página 250 e seguintes). Â maioria desses doze irmãos cruzou mais de uma vez com Eustáquio em sua trajetória de 1.500 anos. Ver "Resumo Geral da Evolução Espiritual”.
2 - Existiam importantes e profundas ligações religiosas entre Florença e Munique. Esta última cidade originou-se de uma abadia e o seu nome, em alemão, liga-se a monge. terrestre no tocante aos sentimentos profundos que estabeleceram entre si, desenvolvendo suas vidas sob os exemplos e as orientações de seus genitores, infelizmente nem sempre seguidas por todos os filhos, em especial após o ano de 1630.

Na base do Alpspitz, onde hoje estão concentradas as estações dos transportes que levam ao pico dessa montanha, residiu a família Bergvolk.

Esta obra retrata o único período da jornada dessas doze personagens em que estiveram todas juntas no plano físico, vivendo experiências que até hoje têm efeitos em suas condutas, e demonstra a saga dessa família material ensejando ao leitor reflexões sobre o que representa para o encarnado também a família espiritual. Esse período não foi tão determinante para uns como para outros. Entretanto, a sua importância existe na medida em que representa a época reencarnatória na qual estiveram todos reunidos. Esse mesmo raciocínio vale para os integrantes de cada família material existente na Crosta.

Os Bergvolk viveram alegrias, problemas e ansiedades semelhantes às de qualquer agrupamento familiar moderno. O fato de sua existência ter transcorrido no século XVII e em um lugar específico do Globo não lhe retira o fator de verossimilhança com a vida real e cotidiana de muitas famílias do século atual.

Isso mostra como a Humanidade progride lenta e gradualmente na sua trajetória evolutiva.

Os núcleos familiares, em qualquer época, são muito importantes para o progresso dos encarnados, embora nem sempre bem utilizados por eles, como o leitor pode observar ao conhecer a fundo os encontros e desencontros dos irmãos Bergvolk.

É importante que as famílias, na atualidade, compreendam que divergências no lar fazem parte da trilha das pessoas e da vivência que cada familiar necessita enfrentar, entendendo e aceitando que muito existe ainda para cada um fazer no contexto da sua reforma íntima, em especial no convívio do círculo doméstico.

O apêndice doutrinário sobre “Família Material e Família Espiritual”, colocado no final desta obra, pode auxiliar o leitor a compreender a relevante importância da família no contexto da evolução de cada Espírito em vários sentidos.

“Baviera - Saga Secular de Amor e Ódio” traz em sua narrativa um relato simples e direto, mas vibrante e profundo, cuja ênfase não é privilegiar a paisagem, nem o cenário onde as personagens estão inseridas, mas elas próprias, com suas complexas tensões emocionais, desvios, erros e acertos, numa linguagem simplificada, porém envolvente, para que o leitor possa sentir a importância dos seus respectivos pensamentos e sentimentos muito mais do que a voz do narrador espiritual.

No passado mais distante, a exemplo de todas as criaturas, os irmãos Bergvolk foram piores do que no século XVII. Estavam, como ainda estão, em contínuo aprimoramento. Não quer isso dizer que tudo o que tinham vivenciado de errado nos séculos anteriores ainda estivesse plenamente ínsito em seus espíritos. Ao contrário, e por isso foram colocados juntos nessa existência comum para terem a oportunidade de reparar o seu pretérito e continuar evoluindo, apesar de falharem ainda muitas vezes, pois ódios pregressos precisam ser atenuados até se dissiparem de vez pela força do amor, lei maior que rege o equilíbrio e o progresso do Universo e da Humanidade.

Aproveitar bem a oportunidade da reencarnação para melhorar-se cada vez mais é dever de todos.

Em face de conflitos vivenciados anteriormente, não é por acaso que parentes tenham muitas vezes dificuldade de convivência no lar, nem é tampouco sem motivo que se reúnem em casais, pais, filhos e irmãos. Egoístas e orgulhosos, de regra, males recíprocos se fizeram outrora, tendo contraído dívidas entre si, com projeções inevitáveis no presente, as quais precisam ser reparadas através de bons sentimentos e atitudes atuais.

A mensagem maior desta obra é, por um lado, que os fatos se repetem muitas vezes e apenas as posições se alteram; e, por outro, que o tempo passa mais depressa do que às vezes se possa imaginar.

O que um faz de mal ao outro precisa ser invariavelmente reparado. Essa a regra geral. Não há como fugir da lei de ação e reação. Poupar tempo, pois, utilizando para tanto o mecanismo da reforma íntima (3), é a melhor recomendação a ser seguida por qualquer ser pensante.

A lição passada pela família Bergvolk é a de que todos necessitam lutar com muita determinação e fé diante dos obstáculos que surgem à frente, em especial no âmbito dos seus sentimentos, para tornarem-se verdadeiramente felizes. E, nesse contexto, o amor fraterno ressalta como solução definitiva para a maioria dos problemas de jornada do encarnado.

A coleta de dados desta obra iniciou-se em 20 de setembro de 1992, pelo Grupo de Estudos Cairbar Schutel e sob orientação de Cairbar, que designou o Espírito Rubião (já conhecido do leitor: veja-se no livro Alvorada Nova o capítulo “Integração Espiritual”, página 55) para acompanhar mais de perto todo o trabalho operacional da elaboração deste livro.

O método utilizado foi interativo e também iterativo, ou seja, abrangendo tanto o recebimento de orientações mediúnicas e coletas medianímicas de dados, quanto pesquisas efetuadas pela equipe material nos próprios locais dos acontecimentos, por orientação prévia de Cairbar Schutel. Os diálogos foram todos inteiramente psicografados. Mais de uma vez o leitor verá filhos tratarem a genitora Inga na segunda pessoa do plural como expressão do respeito que nutriam por ela.

A exemplo das demais obras de Alvorada Nova, minha atuação na elaboração deste livro foi a de coordenador material da equipe de médiuns entre os quais as diversas atividades foram distribuídas de várias maneiras.

São Paulo, 11 de agosto de 1995.

ABEL GLASER
3 - Maiores dados sobre esse processo, o leitor pode encontrar no livro “Fundamentos da Reforma íntima".

BAVIERA

SAGA SECULAR DE AMOR E ÓDIO

As colinas que cercavam Garmish eram mágicas e espalhavam-se pela minha imaginação, cobrindo-me de expectativa e por vezes de melancolia, dando-me a sensação de estar na superfície do mar, fosse ele verdejante como o arvoredo verçudo ou como a planície florida e colorífica da minha infância, mas de tal imensidão que Netuno reinaria absoluto, assim como os bávaros seriam os apóstolos da Natureza. Deitaria, se pudesse, meus pensamentos no arval e caminharia pelas trilhas tortuosas e companheiras do corpo montanhoso para meditar sobre tudo e sobre todos, a fim de compreender, de fato, a vida e seu relativismo atávico assombrando gerações e correspondendo ao impreciso vagar do destino rumo ao firmamento espiritual do ser humano, outrora Espírito desencarnado e para sempre integrante da Família Divina.

Partenkirchen também tinha os seus enlevos e não deixava de fascinar-me o âmago comovido ao navegar pelo passado saboroso do início do século XVII, quando vim ao mundo através da força de uma mulher meiga como a passarada primaveril e dignatária de encanto celestial suficiente para sustentar a família com laços de amor e ternura incomparáveis.
4 - Nota do autor espiritual - O romance BAVIERA - SAGA SECULAR DE AMOR E ÓDIO narra a vida de uma família bávara no século XVII, cujo marco inicial é o casamento de Otto e Inga, ocorrido em 1600, seguido do nascimento dos seus doze filhos, na seguinte ordem:

1601 - Karl - 1602 - Werter - 1604 - Fréia - 1605 - Mariel - 1606 -Ula - 1608 - Etel - 1610 - Odo - 1612 - Hugo - 1614 - Gustav - 1615 - Peter - 1620 - Herta/Helga

Os riachos gélidos, a qualquer época do ano, cortando os outeiros e favorecendo a pesca da truta, amante dos saltos imperitos nas garras dos pescadores, mas deleite das mesas simples dos camponeses bávaros, eram o símbolo mais próximo de que o toque da Arte Divina percorrera o panorama germânico desde a Criação, concedendo a dádiva de existirem tantos córregos quantas fossem as necessidades dos campônios. Essa época era feliz e integrávamo-nos todos à selva de nossa simplicidade.

Flores de muita cor desoprimiam os corações mais apertados e porventura endurecidos dos viajantes que colocavam seus pés nos edelweiss e no verde solo de minha montanha, que tinha o condão de trazer a paz a qualquer ser vivente predisposto a deixar-se amar.

As toras bem aparadas trazidas das matas e cuidadosamente esculpidas pelas rudes mas honestas mãos dos camponeses compunham as paredes das choupanas que abrigavam as famílias salpicadas nas costas do Alpspitz. Havia nessa composição a ansiedade dos jovens e o retrato dos mais velhos, unidos em torno da manutenção do abrigo que sempre fora essencial durante o rigoroso inverno dos Alpes germânicos. A aliança fraterna entre os membros das famílias era questão de sobrevivência e não simplesmente sentimental, o que me fazia lembrar dos momentos mais sôfregos, quando saíamos durante a tempestade para resgatar alguma tora perdida ou um pedaço de telhado que fora levado pela impetuosidade dos ventos. Desde que me recordo, o crepúsculo vespertino era, no entanto, amistoso, remediando a fragosidade da nevasca e a indiferença da ventaneira. Posso afirmar que diante de um palco tão majestoso e próspero tivera uma infância verdadeiramente feliz, um entardecer de adolescência mais alvoroçado e um ocaso de vida não tão manso e sereno como fazia supor a lógica aristotélica desencadeada pelo meu alvorecer existencial.

Findo minha jornada terrena na romântica e histórica Florença, fitando todas as tardes, às margens do Amo, a suavidade de suas águas a rolar e fluir pelas leiras na mais profunda impassibilidade, sem saber avaliar o que me havia conduzido a essa apatia permanente e à insistente languidez. Talvez, imagino, tenha sido o acompanhamento rotineiro do pôr-do-sol florentino, que não se compara ao bávaro, ouso asseverar, emoldurado pelas colinas nevadas dos Alpes e pelo reflexo dos seus raios dourados na alva cobertura das montanhas; deve-se vislumbrar magia no brilho magnético que provém dos céus, pois, não o fazendo, pode-se cair na indiferença. Quem sabe, já pensei outrora, pudesse ser a falta do ar alpino e da imensidão do meu torrão natal, que fora o espelho de minh’alma na época em que mais fui feliz. Nesses momentos sempre me volta à mente a eterna indagação de quem realmente somos e para onde vamos. Se minhas reflexões anciãs conseguem hoje vislumbrar que, um dia, mesmo que distante, já atingi a felicidade, deveria guardar comigo tais impressões para toda a eternidade, de modo a não ter dúvidas, no futuro, de que é possível atingi-la na sua plenitude, mesmo quando estamos vagando pelas estradas da vida humana.

Não mais revi meus irmãos e sinto saudade de meus pais, que foram meus amigos e preceptores, condutores do meu espírito e da glória do meu ser mais íntimo, que me conheciam à exaustão e interpretavam cada suspiro e cada palavra minha lançada ao vento, transferindo-me segurança e credibilidade no meu rumar, força ao meu âmago, semeando-me etemamente o amor que hoje germina a cada dia em que meus pensamentos voam até eles, onde quer que estejam os meus queridos Otto e Inga, nomes do meu esmaecido, mas vibrante passado.

- Vovó, vamos embora, estou com fome, por favor, vamos agora - interrompe a vivaz garota Mabel, angustiada por deixar a Ponte Vecchio e quem sabe para evitar o entriste-cimento da estimada avó, comum a todo final de tarde e perene no seu saudoso coração de muita idade.

A anciã revolve-se em sua cadeira, ali colocada por um comerciante amigo sempre que a vê chegando amparada pela neta, permitindo manar em segundos as suas reflexões seculares.

- Ah! Doces sensações me trazem o reviver dos anos

ficados para trás... Um último desejo clamo a Deus, se me or permitido. Gostaria de estar de novo e, num átimo que fosse, com algum de meus irmãos... Assim morreria em paz! Mas seria dádiva imerecida por certo; contento-me, então, com o Arno e suas espelhadas águas de final de tarde. Na face do rio, vejo o meu próprio rosto e deleito-me em relembrar, último prazer que me resta. Querida, vai à frente, quero estar em comunhão com minhas reminiscências um pouco mais...

E o tempo servil, escravo da memória, faz-lhe a vontade. Muitas décadas retrocedem. O cenário é Alpspitz do início do século.

1630

Ensolarado estava ainda o dia, belo como nunca des-íír pontara o sol e dava sinais de manter-se altivo diante da wlr noite que se aproximava. O mormaço temo afagava-me as infantis brincadeiras naquele distante e ditoso 1630 e a tarefa mais importante do dia fora encontrar um trevo com quatro folhas, perdido na imensidão verdejante da pradaria que se situava aos pés da notável colina onde morávamos. Quando gritávamos os nossos próprios nomes, eles se multiplicavam pela força do eco e sentíamo-nos cercados por multidões, o que era somente fruto da imaginação pois raros eram os viajantes que por ali passavam. Nossa cabana não era avistada por quem passasse pela trilha principal da montanha; escondia-se atrás de um compacto arvoredo, em cujas bases estavam estreitos caminhos cuidadosamente preparados por meus irmãos para chegarmos ao lar. Flores não faltavam ao nosso lado, existindo por todos os cantos centenas de diferentes coloridos a enfeitar o cenário que nos servia de mundo; as águas dos riachos eram fartas o suficiente para nosso consumo, além de nos trazer a pesca e alguns bons momentos de diversão, especialmente no verão.

Estávamos cercados pela intensa vibração da mata e cada qual buscava extrair dela a sua parcela de revitalização. Ao final do dia, mesmo que o sol ainda brilhasse, mamãe nos chamava para a última refeição:

- Kinder, Kinder 5,5 - Nota do autor material: “Crianças" venham para casa. E hora do jantar! O primeiro a surgir era sempre meu irmão Karl, caminhando a passos largos, esfregando as mãos que lavara no riacho e limpando seus calçados na grama antes de entrar em casa. Ele era responsável demais, tomando-se por vezes, ou quase cotidianamente, intolerante com os menores. Se havia um horário, era para ser cumprido, mesmo que nossos pais não adotassem tanto rigorismo. Sua postura era a mais altiva e sempre imaginei que fosse por sua primogenitura, mas com o passar do tempo verifiquei que era, na verdade, a essência do seu espírito. Ele passava a imagem de ser o melhor, o mais perfeito, quase infalível. Nessa época, contando com vinte e nove anos, era o mais velho, mas não o mais querido. Quando Karl pigarreava, por exemplo, ficávamos com mais medo do que se papa aumentasse o seu tom de voz para nos falar, o que, a bem da verdade, era raro. Não no tocante a Karl, pois refiro-me a papa. Otto era todo bondade; parecia o par perfeito para nossa amada Inga. A censura era feita sempre por Karl, assessorado e seguido por Werter que ficava à sua sombra- e irritava-nos por sua complacência diante da prepotência do mais velho. Enquanto pequenos, no entanto, não tínhamos dele essa imagem, pois brandíamos em nossos corações as vibrações da infância, todas inocentes.

O primogênito era alto, louro como a materialização dos raios solares de verão e seus olhos tinham a profundeza do oceano; eram densos, pareciam ser amigos mas sobretudo temíveis.

Inga nos chamava somente duas vezes. O restante da pressa para chegar devia-se mesmo ao pigarro de Karl, que parecia eclodir nas montanhas, verberando por todas as cercanias da nossa colina verde.

Um a um formávamos a mesa do jantar, tendo à cabeceira de um lado Otto e de outro Karl. Inga cedera-lhe o lugar quando atingiu vinte anos e nunca nos explicou a razão. Também não perguntávamos. Orávamos antes de iniciar cada refeição e as preces eram também por Karl conduzidas. Disso ninguém se queixava, afinal, era ele o vocacionado.

A refeição tinha início quando a mais velha de minhas irmãs, Fréia, pegava no fogacho o caldeirão com o nosso caldo, enquanto as gêmeas distribuíam o pão.

- Mutti6, podemos começar? - indagava a pequena Herta.

- Sim, Lieb Blume 7, antes que esfrie...6 - Nota do autor material: “Mamãezinha”
7 - Nota do autor material: “Querida Flor’’

- Mutti, posso contar-vos o meu dia?

- Certo que podes, Gustav.

- Cortávamos lenha, Peter, Hugo e eu, quando um enorme lobo aproximou-se. Quis deter-lhe os passos, jogando-lhe pedras, mas não consegui. Oh, Deus!, gritei, se não agir agora estaremos em grande perigo.

- Não me contes algo assim, Lieb Vogei8, estou espantada com tua bravura - respondeu-lhe Inga sem alterar a fisionomia uma ruga sequer.

- Mas, como sabes que fui bravo se não ouviste ainda o final da história? - questionou o intrépido Gustav, meu irmão mais sonhador, que desejava ter sido um pássaro enorme para poder voar até o sol e de lá trazer toda luz e todo calor necessários para envolver a Baviera; esse era o seu sonho, manifestado desde que começou a falar. Se indagado do porquê gostaria de trazer tanto calor e tanta luz para lá, ele respondia que, se assim fizesse, ficaria rico vendendo-os aos camponeses, especialmente no inverno, destacava com esperteza. Desde cedo era um empreendedor e quando atingiu a adolescência ficou quase insuportável. Desejava reconstruir nossa cabana somente pelo prazer de passar a dizer que fora ele que erguera o teto que nos abrigava; queria também rever o curso do córrego para que sua marca ficasse registrada na região. Otto o acalmava e parecia ser o único a entendê-lo com profundidade. Era correspondido, pois Gustav não rechaçava uma única palavra de nosso pai. Parecia ser o mais feliz de todos, pois sua vida era centralizada no presente. Graças a ele, ganharam os meninos o carinhoso apelido de “querido pássaro”. Aliás, não fosse a fúria colhedora de Herta e as meninas não teriam o apelido de “querida flor”. Esse era o coração gigantesco de Inga. Saudoso Mutterliebe9.

- Ora, meu filho, se és sempre corajoso e estás agora a tomar o seu caldo é sinal que, mais uma vez, venceste o lobo feroz e salvaste teus irmãos, não é? - respondeu-lhe mamãe.

Ele, meio confuso com a obviedade da resposta, continuou:

- Sim, é verdade! E então o perverso lobo caminhou para nosso lado, enquanto eu pegava das mãos de Hugo o machado. Coloquei-me à frente deles, mama. Não iria permitir que nenhum mal lhes acontecesse, afinal, sou o mais velho...
8 - Nota do autor material: “Querido Pássaro"
9 - Nota do autor material: “Amor materno"

Nesse momento, inconformado, Hugo retrucou:

- Calma lá, Gus, tenho dezoito anos e sou mais velho que tu.

- Quero dizer... bem, refiro-me a outra coisa... é o tempo que corto lenha. Comecei a fazê-lo uma semana antes de ti; por isso sou o mais velho - devolveu Gustav, sempre com respostas prontas.

- Mas quem iria imaginar que crias essas fórmulas malucas para tuas referências? Mais velho é o que tem mais idade e não o que corta lenha há mais tempo, não é assim, papa? - indagou-lhe Hugo, insubmisso.

- Há vários referenciais, filho, para nos servir de parâmetro. Teu irmão usou um deles e, talvez, tenha utilizado uma expressão infeliz. Ele quis dizer que tinha mais experiência que Peter e tu por estar na tarefa há mais tempo. Só isso. Não há motivo para polemizar.

- Defendes sempre Gustav, papa - retrucou, quase murmurando, Hugo.

- Isso é uma verdade! - concordou Peter.

Descrever fisicamente meus irmãos era quase inútil, pois,

à exceção de Peter, Ula e Odo, que saíram ao avô paterno, todos com olhos da cor do ébano e cabelos em igual tom, apesar da pele alva e rosada, os demais não se diferenciavam do tradicional cabelo louro e dos bucólicos olhos azuis.

Peter e Hugo eram muito unidos. Se houvesse uma disputa em família eles formavam sempre um só voto. Não havia jeito de separá-los num momento qualquer de decisão. Sentiam-se levados a tal compromisso, pois achavam que, como homens, eram os menos prestigiados da casa, o que nem era verdade,visto que Otto e Inga tinham o coração mais imparcial que já conheci. Mas sentiam-se pressionados pela saliência de Gustav, que agradava particularmente papa, e pelos mais velhos, Karl e Werter, donos da razão e segundos na hierarquia doméstica. Eram também os mais românticos.

Conseguiriam contar todas as estrelas do céu e as flores da terra se lhes fosse permitido e esse apego pelo detalhismo natural dava-lhes o encanto de recitar em conjunto trechos de versos originais que suas mentes romanceiras engendravam.

Era um momento especial em nossas noites de verão. Ao redor da fogueira, cercados pelo silêncio glorificante da mata e tendo por teto o brilho azulino do firmamento, eles passavam horas declamando suas poesias que, por homenagem à sinceridade, eram cativantes.

À mesa conhecemos a personalidade dos outros, afirmava papa. E era verdade, pois nossa família soltava-se a cada refeição e conseguíamos entender aspectos do espírito de cada um que raramente nos era palpável nas demais horas do dia.

- Posso, afinal, terminar minha história? - questionou Gustav.

- Por mim não há problema... - respondeu-lhe, com ternura, Inga.

- Ah, não! Recuso-me a passar o jantar ouvindo as proezas de Gus. Quero contar também o que fiz. Tenho direito.

Todos se voltaram a Herta. A mais nova das gêmeas e a caçula de todos nós, dona de um semblante angelical e um comportamento diabólico, jamais se permitia findar uma refeição se não contasse a todos como foram suas aventuras pela colina.

Após alguns minutos ouvindo-a narrar as novas espécies de flores que descobrira durante a tarde, mas que não arrancara do lugar para não estragar a paisagem, voltamo-nos a Odo, que estava quieto e terminara o caldo sem expressar um só sentimento no olhar.

- Filho, o que fizeste hoje? - tentou provocá-lo papa.

- Nada como sempre.

- E não desejas falar sobre isso?

- Como se fala sobre o nada, meu pai? Quis encontrar um trabalho fora daqui e não fui aceito como lenhador nos arredores de Garmish. Quem pensam que são aqueles matreiros? Se não nos dão trabalho, como esperam que saiamos daqui?

- E quem quer sair daqui? Só tu... - interferiu Herta.

- Es pequena demais e não entendes a necessidade que um homem tem de procurar novos rumos em sua vida. Não podemos ficar para sempre morando com nossos pais.

- E por que não? - indagou, preocupada, Helga, a outra gêmea, mais pacata, mas não menos impaciente.

Não entendeis mesmo... Além de pequenas são apenas mulheres.

- E o que há de mal em ser pequena e mulher? - devolveu Helga.

- Mulheres não tomam decisões e somente acatam o que seus pais, irmãos ou maridos dizem. Por isso, não podeis entender o que estou a dizer.

Iniciado um choro dúplice de protesto, as gêmeas expressaram em um único gesto a insubmissão quanto ao comentário deflagrado por Odo.

Nesse momento, interferiu Mariel.

- Vamos comer um pouco em silêncio...

Nossa irmã Mariel sempre fora muito objetiva e apreciava dar a última palavra em questões familiares. Inga e Otto permitiam pois era um meio de transferir aos filhos as responsabilidades pelos seus atos e pelas decisões que tomavam.

Ela estava enamorada de um rapaz que se dizia austríaco mas que, em verdade, era russo e estava refugiado em Viena por algum motivo que desconhecíamos. A maioria de nós não aprovava esse relacionamento, pois vislumbrávamos nesse moço algum problema ainda não detectado e que poderia tornar nossa irmã muito infeliz.

Ela, no entanto, era determinada e prepotente. Com vinte e cinco anos, julgava-se atrasada para o casamento e queria sair de nossa colina de qualquer modo. Nunca apreciara ficar na dependência das decisões que uma família composta por quatorze pessoas acarretava.

Dizia-se apaixonada por Hans, na realidade Dimitri, que era um viajante negociador de rebanhos nos Alpes e sem nenhum emprego ou moradia fixa. Alegava que Viena era o seu lar, embora nunca tivesse feito referência a qualquer endereço, nem mesmo a qualquer laço familiar.

Era bem alto e possuía uma feição circunspecta que assustava as gêmeas.

Não havia muito para descrevê-lo, visto que seus olhos pareciam superficiais e não espelhavam o conteúdo de sua alma, como mamãe dizia que o olhar devia fazer.

As roupas, apesar de elegantes, eram mal cuidadas demonstrando seu desleixo e pouca preocupação com a aparência. Críamos que Mariel apaixonara-se pelo seu modo de encarar a vida; com '.iberdade absoluta e tendo por lema um discurso revolucionário. Ela própria sentia-se pronta a uma mudança radical em sua jornada e nada melhor do que se ligar a um companheiro de igual pensamento. Nosso povo não apreciava estrangeiros, muito menos foragidos provenientes da Rússia. Era um modo de externar um preconceito infundado, embora fosse também jma manifestação de fraqueza e de receio que os alienígenas pudessem levar as filhas e mulheres da região, passando-lhes jma falsa idéia do mundo e do resto da Europa. Os bávaros eram especialmente trabalhadores e nossos pais transmitiam cais orientações desde o berço; assim, crescemos desenvolvendo todo o tipo de tarefas que uma família numerosa exigia. Os mais velhos cuidavam dos menores e os do meio respeitavam as necessidades dos extremos. Enfim, deveria haver perfeita integração, o que nem sempre ocorria em face das divergências de pensamentos e posturas existentes dentre nós.

Mariel fazia questão de dizer-se vinculada sentimentalmente ao estrangeiro, pois era uma forma de demonstrar a sua insatisfação com a vida que levava e configurava-se, ainda, jm ato de rebeldia contra a autoridade paterna. Nunca soube se ela realmente amava Hans ou apenas desejava escapar de uma vida enclausurada nas verdejantes colinas de Garmish.

O ambiente constrangeu-se ligeiramente e permaneceu em silêncio por alguns minutos como se estivéssemos atendendo aos reclamos de Mariel.

Nada poderia, entretanto, ser mais conturbado do que o 'elacionamento entre Odo e Etel, seguidora das idéias de Fréia, a mais velha. Qualquer palavra ou opinião expressada por Odo era suficiente para causar dissabor em Etel, a irmã que assumia entre nós um tom professoral. Na realidade, ela era apaixonada pelo velho Mathaeus, nosso orientador e preceptor desde a infância, que nos alfabetizou com mestria, proporcionando-nos os sólidos conhecimentos que detínhamos. Nunca disse nada quanto aos seus sentimentos a ninguém, mas nós, as irmãs mulheres, sabíamos identificar como o seu coração pulsava e por quem.

Ela era fria e indiferente, como, aliás, muitas bávaras o eram, mas sofria com seu amor platônico que jamais iria ser correspondido, nem tampouco aprovado. Fréia, a única que lhe conseguia a atenção, estava sempre disposta a consolá-la, dando-lhe alento para permanecer íntegra, sem expor o que sentia, evitando sérios constrangimentos à família.

A antipatia reinante entre Etel e Odo, no entanto, parecia algo proveniente do espírito, pois razões aparentes inexistiam.

- Para esse resultado constrangedor - disse Etel, referindo-se ao silêncio - ... só mesmo Odo...

- Ora, não te intromete em nossa conversa, porque não foste convidada a intervir - respondeu-lhe, contrariado, Odo.

- Todos podem falar o que desejam à mesa, meu irmão - interferiu Karl, da ponta da mesa, emanando autoridade -desde que o façam com respeito - terminou a frase, voltando-se a Etel.

Ela calou-se em respeito ao mais velho que estava para ordenar-se padre. Apesar de tarde, levando-se em conta sua idade, nossa família não foi precoce nos relacionamentos exteriores à colina verde. Demoramos a ingressar na comunidade e cultivamos o ambiente familiar por muitos anos, até excessivamente para o amadurecimento geral de todos. Deveu-se essa demora ao amor e à ligação que estabelecemos com Otto e Inga que, além de pais, eram os melhores amigos que tivemos, transmitindo-nos a segurança que não encontrávamos nas poucas andanças que fazíamos pela região.

- Karl teve uma divergência com o padre da vila -denunciou Ula, nossa irmã mais avessa à religião e a qualquer discussão mais séria. Tudo, para ela, limitava-se a brincadeiras e atos insensatos. Imatura por completo, deixava-se levar por Peter e Hugo, que a acolhiam em sua união isolacionista.

- Cala-te - verberou o primogênito. Não te autorizei a falar sobre isso.

- E quem precisa de tua autorização para contar a verdade? - respondeu-lhe a indisciplinada Ula.

- Por favor, filhos - interferiu Inga - não vos trateis dessa forma ríspida. Não há razão para tal...

- Perdão, mama - proferiu Karl, abaixando a cabeça.

- Eu apenas disse a verdade... - continuou Ula, irresignada.

Pois bem, se verdade ou mentira, somente Karl poderá nos dizer - arrematou Otto.

- É verdade! Não nego. Divirjo de certas posturas e não deixo de manifestar a minha opinião no seminário. O que há de mal nisso?

- Depende, meu filho, do que falas e como divulgas tua opinião... - comentou Otto.

- Se for do modo que me trata, então o sacerdote deve expulsá-lo de lá - ironizou Ula.

Inga interferiu sem proferir uma só palavra, apenas tocando na mão de nossa irmã para que ela silenciasse à mesa.

- Não posso concordar com o que prega o sacerdote de nossa paróquia, meu pai. Temos uma nova doutrina na Europa e a Igreja recusa-se a aceitá-la. Há bom senso nessas idéias: estudei a respeito.

- Mas por que continuas no seminário se não mais aceitas o que antes te parecia correto e verdadeiro? - continuou Otto.

- Por que? Não sei ao certo o que faço lá, mas também não sei porque não deveria estar. Se o padre não está satisfeito comigo, ele deve dizer e não me cabe tomar a iniciativa.

- Ele já disse... - ingressou na conversa Mariel.

- Disse para quem? Para ti? - indagou o primogênito.

- Não, expressou seus pensamentos a todo o vilarejo. Somente tu ainda não percebeste - ela respondeu.

- Hum... - meneando a cabeça, discordou Karl.

- É verdade! Karl não percebe porque não quer. Deseja adquirir o manto sacerdotal por pura vaidade... - completou Odo

- Cala-te, não fala assim de nosso irmão - objetou Etel.

- Ora, nunca te vi defendendo Karl... O que te aconteceu? Foste tocada pela fatuidade também? - respondeu-lhe Odo.

- Tuas opiniões são sempre parciais e não verdadeiras -ela arrematou.

- E as tuas são as melhores? Somente porque auxilias o mestre, não quer dizer que sejas como ele. Não sou obrigado a crer que tens o dom de ensinar, como julgas possuir. Portanto, minha irmã, não te dirijas a mim como fazes com teus alunos.

- Quem dera tivesses a mesma capacidade de entendimento de meus pupilos...

Pupilos do professor Mathaeus, devo corrigir-te...

- E o que te interessa se são meus ou não? Nada sabes da minha vida. És um alheio a esta casa; vives isolado pelas montanhas, sempre buscando um modo de nos deixar. Ingrato, é o que és!

Odo aprontava-se a rechaçar, quando Otto interferiu.

- Chega de discussão! Tornemos ao assunto principal. Quais de vós ouvistes algo sobre essas opiniões do padre a respeito do procedimento de Karl?

Excetuando as gêmeas, muito crianças ainda, Gustav, Hugo e Peter, que passavam o dia na mata lenhando, os demais já tinham ouvido alguma coisa sobre isso na vila.

- Meu filho, o problema é mais sério do que pensas... Se teus irmãos ouviram comentários a respeito, é porque o sacerdote, de fato, está externando aos outros o que pensa sobre ti - disse Otto.

- E o que posso fazer? Calá-lo à força?

- Deixar de colocar tuas opiniões revolucionárias enquanto estiveres no seminário... Deves ter uma postura coerente. Se queres consagrar-te um padre católico, não podes falar contra tua própria religião.

- Não é tão simples assim, meu pai. Em primeiro lugar, não as considero “revolucionárias”, pois são a mais pura expressão da verdade. Temos o dever de mudar as regras errôneas que estreitam os pensamentos do catolicismo. Estamos atados a uma religião que Lutero e Calvino derrubaram...

- São revolucionárias no atual contexto que vivemos... Até uma guerra10 existe entre nosso povo por conta dessa polêmica.

- Mas, filho - ingressou na conversa Inga - teu pai tem razão. Não podes provocar teus mestres dessa forma. Se não queres sagrar-te padre, não te exigiremos que o faça. Deixa o teu mister, abraça outro caminho mas não fica buscando mudar o que não te concerne.

- Tudo me diz respeito, mama. Somos membros da sociedade e não devemos fechar os olhos à realidade.
10 - Nota do autor material: Estava em curso a “Guerra dos Trinta Anos”, que tinha forte traço religioso no antagonismo reinante entre católicos e protestantes. Ver o capítulo “L" no livro “Eustáquio — quinze séculos de uma trajetória".

Tenho o dever de denunciar o que está errado, esteja onde estiver, mesmo que tenha que sofrer as conseqüências do que falo.

- Ele não quer ver... Vai ter sérios problemas - comentou Werter.

- Até tu a me contrariar? - disse, consternado, o mais velho.

- Não se trata disso, Karl. Sabes que estou ao teu lado, até mesmo porque escrevi para Viena artigos apoiando a Reforma. Entretanto, estás provocando as cobras dentro do serpentário; acabarás sofrendo muito à toa.

- À toa? - bradou Karl. Tenho um ideal de fé e de verdade. Não posso recuar somente porque estou num seminário que é composto por clérigos surdos e ultrapassados.

- Faz-me rir... - emendou Mariel. Queres mudar o catolicismo estando dentro de uma escola de católicos?

' - O que sabes disso? És mulher... - interferiu Werter.

- Mulher, sim, mas não estou morta. Estás querendo ingressar na política, não Werter? Pois fizeste bobagem apoiando esse movimento precário contra a Igreja. Sabes que somos católicos e a Baviera não te vai ouvir se fores dessa turma de revolucionários. Tua carreira está condicionada a quereres eleger-te em Viena ou Paris, mas não em nossa região.

Apesar de fixados nas montanhas dos Alpes bávaros desde pequenos, tivemos a dádiva de encontrar em Mathaeus um excelente mestre que, vindo de Munique, fixou-se em Garmish-Partenkirchen, pois apreciava muito o clima de Alpspitz. Tornou-se amigo de nosso pai e ambos discutiam temas filosóficos e teológicos, visto que papa não era camponês antes de casar-se com Inga. Originário do norte da Alemanha, estudou em bons colégios e teve sólida educação. Partiu para o sul quando seus pais morreram, deixando-o solitário. Fixado em Munique, conheceu Inga numa das feiras que se realizavam no centro para a venda de produtos trazidos pelos agricultores da região, dentre os quais estava nosso avô materno. Foi um contato fulgurante, segundo nos contaram, e Marienplatz passou a sediar os seus encontros amorosos até que se casaram em 1600. Seguindo a tradição da família de Inga, os casais deviam procurar algum local inóspito para fixar a residência, desenvolvendo ali um novo núcleo habitacional e auxiliando a Baviera a povoar toda sua imensa área geográfica. Assim foi feito e a colina verde de Alpspitz foi a eleita.

Por isso, sempre soubemos debater qualquer tipo de assunto que nos fosse apresentado.

Karl era o tipo de irmão mais velho que despertava em todos o foco das atenções, visto que era brioso demais em seus posicionamentos. Adotando uma postura presunçosa no seminário que freqüentava, obviamente estava atraindo a ira dos religiosos e dos fiéis do nosso vilarejo. Vaidoso de seu saber, conhecedor das Instituições de Calvino, ele apreciava ser alvo de tanta polêmica e, com isso, monopolizar inúmeras discussões ocorridas em nossas refeições.

Werter, que era seu grande amigo, não se conformava em vê-lo afundar na própria teia e desejava, sempre que possível, alertá-lo para os males de sua prepotência. Nem sempre era ouvido e ainda acabava recebendo a balda de traidor, o que todos sabíamos ser uma injustiça, pois ele seria capaz de dar a vida por Karl. Não nos passava despercebido que o mote da questão era, na realidade, a sua fraqueza de ideais; nunca soubera decidir nada sozinho e em tudo dependia de nosso irmão primogênito. Aliás, desde cedo, quando o professor Mathaeus ensináva-nos as primeiras letras e os primeiros problemas aritméticos ele já não conseguia expressar-se durante as aulas sem que Karl o autorizasse com o olhar. Era constrangedor ver o nosso irmão mais meigo ser conduzido daquela forma submissa. E Karl não fazia o menor esforço de poupá-lo, nem de esconder que o dominava por completo. Nossos pais achavam que a influência poderia até ser benigna, pois a fragilidade de Werter necessitava, segundo entendiam, de mãos condutoras seguras e justas. Nada melhor do que o primogênito, seminarista de muitos anos, para fazê-lo; não viam o mal que Karl fazia a ele, nem tampouco conseguiam perceber que aquela simbiose anulava a personalidade de Werter. As vezes, esquecíamo-nos dessa situação vexatória e já nos dirigíamos diretamente ao mais velho para saber o que faria o mais novo quando surgia algum momento de impasse ou de decisão.

É certo que Werter ambicionava uma carreira política e dedicava-se ao jornalismo, embora soubéssemos que era pura ascendência de Karl, desejoso de ganhar maior poder e prestígio na comunidade local e, se possível, em toda Baviera. Ele seria sacerdote, um dia - talvez quando deixasse de importunar o catolicismo - o dono da verdade, enquanto Werter poderia agir como seu braço na política e nos jornais que nasciam e cresciam na ocasião por toda a Alemanha.

Apesar de tudo, críamos que Werter era feliz ao lado de Karl e sua vida só deu uma guinada um pouco mais tarde, quando deixou a colina verde e refugiou-se em Viena para disputar o amor de uma mulher com nosso irmão Odo.

Ainda naquela refeição, continuávamos ouvindo os discursos intermináveis de Karl em sua eloqüência sonífera para os mais novos, enquanto Werter seguia calado diante os olhares contundentes do seu opressor.

Aquela rotina somente se quebrava quando as gêmeas resolviam impor, finalmente, os seus caprichos.

- Quero contar a todos as flores que conheci hoje; são novas, belas e coloridas. Merecem a atenção de todos -argumentou incisivamente Herta.

Voltamo-nos a ela e deixamos Karl falando sozinho, o que, também, não era nenhuma novidade.

- Fala, Lieb Blume... - sossegou-a Inga.

A partir daí, tivemos um deleitável final de jantar e rimos muito das peripécias de Herta e Helga pelas majestosas e pacificantes colinas de Alpspitz.

Findávamos as noites, antes do sono reparador, em volta de um archote cuidadosamente preparado pelos lenhadores Gustav e Peter. Ali terminávamos os assuntos polêmicos do dia e apreciávamos ouvir as histórias de papa.

- Faço um convite a todos para participarmos hoje de uma importante decisão - anunciou, solene, Otto.

Dirigimos nossa curiosa atenção a ele, que prosseguiu:

- Mariel pediu-me que comunicasse à família sua intenção de casar-se com Hans... Gostaria de obter o consentimento de todos.

Não é verdade... Não preciso da anuência deles... -murmurou imperceptivelmente a interessada.

O que poderiamos fazer senão concordar? Ela queria sair dali de qualquer maneira e o casamento seria a solução. Não sabíamos se amava ou não o viajante, nem se era correspondida, mas tínhamos conhecimento de sua ânsia por ir morar em uma cidade grande. Ficamos silentes por algum tempo, pensativos creio, até que Gustav levantou-se e atirou um galho violentamente ao fogo, chispando fagulhas para todo lado.

- Se todos são covardes e não conseguem contrariar Mariel, eu não sou... E já que fui consultado tenho somente duas palavras a dizer: não concordo!

Mariel, revoltada, protestou a seguir:

- Ninguém pediu o teu consentimento, fedelho! Portanto, cala-te.

- Papa pediu ou tu, além de leviana, és surda? -contrariou-a.

- Não fala assim comigo ou sou capaz de...

- De que? Agredir-me? Pois tentes e verás do que sou capaz.

- Por favor, Kinder, qual a razão de tanta cólera? -argumentou serenamente Inga.

- Ela, mama, está me desrespeitando. Papa pediu-nos a opinião sobre o assunto e eu estou dando... Que mal há nisso?

- De fato, Mariel, teu irmão tem razão. Otto pediu-nos que falássemos a respeito do teu pedido de consentimento para casar-se.

- Mas, mama, não sou mais uma criança, tenho vinte e cinco anos e já sou velha demais para o matrimônio; não posso me submeter a um “Conselho Familiar” para decidir a minha vida. Nenhuma de minhas amigas casou-se tão tarde... E tudo porque passei o tempo todo esquecida neste mato olvidado da civilização.

- Estás nos ofendendo a todos, minha irmã - argumentou Werter.

- Ora, mete-te com teus assuntos e, antes de falar, solicita autorização de Karl. Como ele não te autorizou, fica silente - proferiu Mariel, visando atingir o pudor do irmão.

- Além disso, não conhecemos suficientemente bem o teu noivo, se é que assim posso chamá-lo, minha irmã. Marca dia e hora e poderemos avaliá-lo melhor... - solicitou Gustav, embora sabendo que isso iria atrasar os planos de sua irmã, irritando-a.

- Mama' Ele tenta de tudo para afastar-me de meus propósitos... E não o faz porque pensa em mim, mas pelo seu egoísmo infinito e seu sentimento de posse, cujas raízes vão além das árvores que derruba diariamente - completou Mariel.

- Não é verdade! Se fomos chamados a opinar, é o que estou fazendo. Quero ter minha avaliação respeitada. É o que exijo! Papa... o que nos dizeis?

- Minha filha, teu irmão tem razão. A família deve conhecer mais detidamente o teu noivo, para que possamos saber com quem irás casar-te. Por que não o convidas a vir até nós? Discutiremos o teu casamento após essa ocasião.

Vitorioso em seu propósito, Gustav levantou os olhos acima da fogueira e fitou o rosto perturbado de Mariel por alguns instantes, demonstrando ter vencido a primeira batalha. Ela remordia seus lábios e mexia nervosamente nas tranças do seu farto cabelo. Seus imensos olhos azuis cintilaram ódio em contraste com o brilho da lumeeira. O objetivo de Gustav era manter toda a família unida, por isso, julgava-se no direito de impedir suas irmãs de contrair matrimônio. Quanto aos irmãos, nada podia fazer pois era um dos mais jovens, contentando-se, então, em atenazar Fréia, Ula, Etel e, especialmente, Mariel, a mais destacada oposicionista da ligação familiar. Apesar de parecer ter bons propósitos, outro ponto de sua personalidade muito influía nessa sua decisão. Ele temia que algum dos futuros cunhados, que não eram sangue do seu sangue, pudesse tomar-lhe o lugar nos discursos às refeições, quando contava suas proezas e vociferava sua coragem na mata, sendo aplaudido, ainda que por obrigação, pelos pais e irmãos. Um estranho não teria tanta paciência e consideração, imaginava.

Nenhum outro irmão ousava interferir nessa delicada questão, visto que o egoísmo geral ainda era predominante.

Aquela fora uma difícil noite para Mariel, que contou os minutos confundindo-os com suas' vertentes e angustiadas lágrimas. Ninguém interveio pois ela era irascível quando contrariada; não havia quem a pudesse deter se explodisse em cólera por conta de alguma provocação. Se tivesse superado a contrariedade esboçada ao redor da fogueira, era melhor que ficasse sozinha para meditar e conter seus ímpetos.
lpspitz era uma das montanhas que cercavam a graciosa Garmish e a pioneira Partenkirchen. Apre-ciávamos percorrer as trilhas que volteavam essa magnífica zona de lagos, rios e picos nevados, cujo clima sempre fora dos mais promissores.

A vida decorria lenta na colina verde, mas o progresso aos poucos penetrava na região.

Uma semana decorrera desde a última discussão que a

família teve acerca do casamento de Mariel. Era uma manhã de sábado quando Inga constatou a ausência de nossa irmã do leito.

- Fréia, minha filha, viste tua irmã Mariel? - indagou-lhe, apreensiva.

- Não, mama, não a vi desde cedo... E fui a primeira a saltar da cama.

- Impossível! Se não a viste, onde pode ela estar? Não preparou nada para a refeição matinal, nem tampouco foi buscar água.

- Por que não pedes aos meninos para irem procurá-la?

- É o que farei - proferiu determinada, acordando Peter e Gustav em primeiro lugar.

Em alguns minutos, todos na cabana estavam prontos a sair em busca de Mariel, normalmente uma das últimas a despertar e, naquele dia, ausente desde os primeiros raios do sol.

Foram algumas horas de procura em vão. Todos retomaram a casa num misto de incredulidade e surpresa. A única resposta que se encontrava era a da fuga, que parecia algo sobrenatural para uma menina criada com tanto zelo pelos pais e pelos irmãos mais velhos.

Karl partiu imediatamente para a cidade à procura de notícias, enquanto os demais resolveram seguir até a Igreja de São Martin para encaminhar uma prece a Deus, contando com a ajuda do sacerdote, para a localização da temperamental Mariel.

Enquanto oravam juntos, Werter deixou a igrejinha e partiu em busca de uma reflexão isolada nas trilhas que circundavam as montanhas de Garmish. Apreciava meditar, em especial, num dos caminhos que permitia a visão completa do vilarejo e dava-lhe a sensação de domínio sobre a cidade. Filosofava nesse lugar horas a fio e já era conhecido de todos os camponeses que por ali passavam, vendo-o dedicado aos pensamentos e às orações. Seus mentores espirituais aproveitavam essa ocasião para intuí-lo, dando-lhe orientações acerca de assuntos variados. Nesse dia, sensibilizado pelo desaparecimento da irmã, recebeu a intuição de procurá-la numa estalagem denominada “Casa Branca”, na saída da cidade. Sem questionar a informação, partiu de pronto para o local indicado.

Tratava-se de uma modesta hospedaria que, além de receber os viajantes, proporcionava bebida e refeições a quem se dispusesse enfrentar os seus fétidos salões. A jovem proprietária chamava-se Charlotte e era viúva recente, com um filho de nove anos, Kurt. Ninguém acreditava no vilarejo que após a morte do marido ela conseguisse levar adiante um negócio predominantemente masculino. Entretanto, a despeito de todas as súplicas de sua mãe e de alguns irmãos, ela entregou-se integralmente ao trabalho na condução da estalagem.

A acanhada entrada não demonstrava a grandeza do seu interior, repleto de mesas e cadeiras onde sempre havia campônios e viajores bebendo e rindo, enquanto respingavam os caldos que tomavam ruidosamente nos vizinhos e limpavam-se das ariscas gotas de vinho que lhes atingiam a roupa. Nesse ambiente, Werter procurou de imediato a dona do lugar, solicitando informes a respeito da irmã.

- Bom dia, frau Charlotte, meu nome é Werter Bergvolk. Resido na colina verde, não sei se conheceis... Sinto impor-tunar-vos em hora tão imprópria, mas é que preciso saber do paradeiro de minha irmã Mariel. Não sei ao certo por que resolvi procurá-la aqui, mas se eu pudesse obter alguma informação estaria imensamente grato.

A moça olhou para o seu interlocutor detidamente e, parecendo compreender o seu sofrimento, disse-lhe, sem retribuir-lhe o cumprimento:

- Sim, ela passou por aqui há algumas horas. Estava acompanhada de um rapaz alto e estrangeiro; quase não consegui éntendê-lo quando pediu uma bebida. Ele já a aguardava aqui desde a noite passada. Quando ela chegou, partiram imediatamente, mas sinto não lhe poder dizer para onde foram. Talvez Wil possa informá-lo...

- Sinto, mas quem é Wil?

- Ele - disse, apontando para o jovem que estava bem ao seu lado, ouvindo toda a conversa.

- Oh, perdão! Não sabia o teu nome...

- Sem problemas! Também não sabia o teu. Ouvi o que disseste e acho que sei para onde foram.

- Então?

- Pagas-me uma bebida?

- Não és um pouco jovem para isso?

- És, por acaso, meu pai?

- Não, mas...

- Queres a informação?

- Sim, por certo.

- Então?

- Vá bem, se não houver problema para a jovem senhora, pago-te uma bebida. Aqui está...

Charlotte nem titubeou para servir ao rapazote o que ele desejava. Tomando o primeiro gole, voltou-se a Werter e disse sem rodeios:

- Foram para Viena.

- Como sabes?

- Tenho bons ouvidos, herr Werter. Meus ouvidos alimentam minha garganta seca.

- Ouviste o que diziam? É isso?

- Por certo que sim. Conversavam animadamente sobre o futuro belo e promissor que iriam ter em Viena... Tenho plena certeza. Nada me escapa à bisbilhotice.

- Obrigado, devo partir agora. Muito obrigado.

Werter já saía quando o rapaz gritou:

Não queres saber onde eles estão em Viena?

Detendo seus passos rápidos em direção à porta de saída,

voltou-se e novamente seguiu ao balcão.

- E sabes disso também?

- Por que não? Quem ouve um pouco, pode ouvir tudo.

- Então?

- Pagas-me outra bebida?

- Não és muito jovem para beber tanto?

- E tu és...

- Já sei, não sou teu pai e não me meto na tua vida.

- Exato! Pagas?

- Sirva outra bebida a esse fedelho...

- Minha garganta agradece... - concluiu rindo o rapaz, colocando à mostra seus dentes pretejados.

- Então?

- Foram para uma hospedaria próxima a uma igreja, cujo nome é... bem, pelo que me recordo, é... ah, sim, Augustinerkirche.

- Mais alguma informação? Queres outra bebida?

- Não é necessário, embora tenha, sim, outro informe. Eles se referiram a um nome estranho, acho que era Ivan... Talvez o dono da estalagem...

Werter deixou a Casa Branca e partiu para a colina verde, disposto a encontrar seus pais e contar-lhes o que havia descoberto. Antes mesmo de alcançar a trilha que levava à sua cabana, eles se viram no caminho.

- Papa, mama, sei onde Mariel está.

- Oh, Deus! - murmurou Inga.

- Dize, meu filho! Onde está tua irmã?

- Fugiu para Viena com Hans.

- Não é possível! Ela não faria isso conosco - argumentou Inga.

- Infelizmente, fez, mama. Por favor, não choreis...

- E que mais posso fazer após perder uma filha nessas circunstâncias? Não conta aos teus irmãos, por favor. Vamos evitar maiores problemas.

Aquela refeição noturna foi a pior dos últimos anos, pois a primeira onde não estavam presentes os doze filhos. O silêncio foi sepulcral e nem mesmo as gêmeas se dispuseram j quebrá-lo. De todos, o mais irresignado era Gustav, que irava vingança pelos cantos, não obstante confortado por todos.

Apesar de Inga ter pedido a Werter que nada dissesse, foi impossível impedir que Herta narrasse o que ouvira, pois estava junto de mamãe quando a notícia foi transmitida.

Sem Mariel, sentiamo-nos órfãos, pois jamais havíamos experimentado a perda total de um membro da família. Não tardou para que Karl criasse coragem e fosse de vez para o seminário. Circunspecto e sem proferir uma só palavra de repúdio ao ato de Mariel, sabíamos que ele era um dos mais revoltados com tal atitude, não só porque expunha toda a família às intrigas do vilarejo, mas sobretudo porque sua autoridade fora questionada. Ela havia partido sem sua autorização.

Essa foi uma época muito difícil para seus conceitos religiosos. Fraquejou na sua militância protestante e acalmou-se dentro do catolicismo. Resolveu fortalecer sua imagem junto à família e ingressou na abadia de Ettal, tornando-se em pouco tempo braço direito do prior Ottmar Goppelzrieder. Mais um irmão havia partido e começávamos a temer pelo nosso futuro na colina verde.

1635

Os anos foram obrigados a passar pela imposição do tempo e éramos dez, afora nossos pais, quando recebemos a visita agradável de um peregrino estrangeiro. Numa tarde ensolarada de domingo, enquanto estávamos em divertida pescaria de trutas, Otto apresentou-nos o visitante.

- Kinder, esse é Christen, nosso hóspede. Tratem-no com respeito e atendam-lhe as necessidades. Meu amigo, esses são meus filhos... Ali está Werter, agora o mais velho da casa, ao seu lado Fréia e Ula e logo atrás Odo e Etel. Do outro lado do rio estão Hugo, Gustav e Peter. Ah, a propósito, embaixo da árvore, colhendo flores, estão minhas riquezas, Herta e Helga.

- Que bela família, Otto! - gesticulou a cabeça o viajante, cumprimentando-nos.

Foram duas semanas de contato estreito com o visitante que logo se encantou pela graça e simpatia das gêmeas. Àquela altura com quinze anos, mas ainda muito imaturas e sem malícia, agiam como se permanecessem definitivamente nos dez. Elas cantavam todas as noites ao redor do fogo e uxiliavam Christen a contar as estrelas do céu antes de dormir. Sempre chegavam a um número diferente toda vez z divertiam-se muito com isso. Ele, por seu lado, correspondia - leveza de espírito das meninas e confidenciou a todos nós que tinha um filho, mas não havia privado de sua companhia nos momentos mais importantes do seu crescimento. Seu nome era Frediano. Prometeu-nos apresentá-lo um dia.

Com a presença do hóspede, esquecemos por algum tempo ? trauma que nos causava dia após dia a ausência de nossos dois irmãos. Soubemos que Karl tornara-se monge e cuidava da hospedaria do mosteiro. Nessa ocasião, a peste invadira . Baviera, proveniente da Espanha e fruto da Guerra dos Trinta Anos; estávamos sempre preocupados em contraí-la, mas mamãe dizia que tínhamos a proteção de Deus e nada iria -balar nossa família.

A maior preocupação que tivemos a enfrentar, durante o neríodo que nosso Karl estava fora, foi o ataque dos suecos . abadia de Ettal em 1632; não conseguimos em breve tempo notícias suas e nossos pais ficaram muitos dias em vigília, orando. Somente quando nos informaram que ele estava bem, .pesar do perecimento de dois de seus companheiros, o padre Joseph Hõss e o organista do mosteiro Johannes Ziegelmeier, ficamos mais tranqüilos e dirigimos nossas preces aos que deixaram o mundo material.

Mariel nunca mais dera notícias e soubemos que Gustav navia comparecido à estalagem Casa Branca várias vezes em busca de seu paradeiro. Durante anos, procurou sem cessar o jovem Wil, uma vez que Charlotte, a pedido de Werter, recusara-se a fornecer-lhe qualquer relato no tocante à fuga da irmã.

Com muito custo, ele conseguira saber de Werter que fora naquela hospedaria que encontrara pista da desaparecida.

Os encontros e desencontros ocorridos na Casa Branca, no entanto, foram suficientes para fazer com que Gustav se apaixonasse pela jovem proprietária. As desculpas para procurar o sumido Wil entrosavam-se com o sentimento que havia brotado em seu aventureiro coração. Ela, apesar das investidas do galanteador, mostrava-se reticente a outro relacionamento, pois fora infeliz no seu primeiro casamento e o único fruto positivo desse relacionamento, Kurt, havia perecido afogado, há pouco, num dos lagos da região. Não queria renovar seus atormentados sentimentos e refutava qualquer aproximação amorosa.

Mas Gustav era insistente. O que tinha de sonhador, tinha também de tenaz. Havia fixado duas metas na sua existência: trazer sua irmã de volta para casa e casar-se com Charlotte. O destino lhe sorriu após muita procura.

Apesar de reticenciosa, a dona da estalagem, a conselho de familiares, aceitou o pedido de casamento que Gustav lhe dirigira e, nessa ocasião, como prova de confiança, contou-lhe o paradeiro de Mariel.

Disposto a chegar a Viena, sem medir esforços a tanto, ele finalmente declarou em casa sua disposição de partir em busca da irmã fugitiva. Nessa época, Christen estava partindo e ofereceu-se a cuidar de Gus, a caminho de Viena. Otto e Inga sabiam das consequências que poderíam advir daquele ato, em especial porque conheciam o temperamento explosivo de seus filhos; decidiram cooperar, para não provocar maior cizânia no lar e autorizaram sua partida, sob o compromisso de ser acompanhado por Werter e Odo. Recomendações lhe foram feitas, no entanto, para que não utilizasse de violência e para que não obrigasse Mariel a fazer o que não desejasse pelo livre convencimento.

Assim foi feito e mais três de nós partiram da colina verde.

Os dias, então, caminharam mais lentos. Nosso divertimento passou a ser atormentar Fréia que, com trinta e um anos, não se casara e nem pretendia fazê-lo. Era bastante estranha, porque se ligava de modo especial a Werter. Admirava-o profundamente tal como se fosse sua mãe. Quando ele partiu, deixou para trás o âmago consternado da mais velha de nossas irmãs.

Fréia tinha um temperamento recatado e tímido, o que não fre rropiciava externar seus sentimentos. Pouco conversava . • -: sco e somente Inga parecia ter acesso aos seus pensa--er.tos e ideais. Era, no entanto, uma filha extremamente _:e;^da aos pais e muito dedicada aos serviços da casa. Nada r_e mamãe lhe pedisse era negado. Levantava-se em primeiro •_gur e era a última a deitar-se. Apesar disso, passamos a —gvrtuná-la rotineiramente.

- Fréia não tem marido, Fréia não tem marido... -ç-.uvam as gêmeas em coro, enquanto os rapazes Peter e -_g? faziam versos a respeito do seu celibato.

Sua paciência, no entanto, parecia ilimitada, uma vez que ; . ~ão retrucava e nem ao menos se mostrava abalada pelo x mento diário no qual estava inserida. Dava-nos a impressão ;; ;er deslocado seu espírito dali, como se tivesse partido com Werter rumo a Viena. Enfim, isso não evitava que amasse o nosso alvo predileto.

Gustav, Werter e Odo tornaram-se grandes amigos de ?--.sten, ao longo da viagem, solidificando os laços que -. iam sido estabelecidos na colina verde.

1636

Viena era realmente fascinante e já parecia respirar a música e seus bordões em cada uma de suas praças ou ruas, como se estivesse antecipando o futuro promissor que iria levá-la à glória dos grandes com-; mores. Werter e Odo fascinavam-se com os salões de dança, enquanto Gustav iniciava sua peregrinação em busca x Mariel. Os quatro dividiram-se ao adentrar a cidade e cada qual seguiu um rumo, contrariando as recomendações de Otto e Inga. Werter saiu à procura de um bom jornal onde pudesse trabalhar e iniciar sua carreira política, mostrando a Karl que poderia vencer sozinho, longe da Baviera e sobretudo do seu jugo. Odo, seu turno, perambulava pelos salões e estalagens à procura de diversão, sustentando-se com os trabalhos eventuais que conseguia num ou noutro local. Gustav seguiu seu projeto e gastou até sua última moeda à cata da irmã. Não mais se ouviría falar de Christen até o dia em que ele retornou à colina verde na companhia de seu filho Frediano e ficou novamente conosco alguns dias.

As informações que havia colhido junto a Charlotte deram esperança a Gustav e a hospedaria perto de Augustinerkirche, administrada por um eslavo de nome Ivan, logo foi encontrada. A partir daí, grande parte do seu tempo foi consumido tentando persuadir o proprietário a narrar-lhe o paradeiro do casal que tanto procurava.

Foi preciso hospedar-se no local por alguns dias até ganhar a confiança de Ivan e obter a informação almejada.

Era uma manhã fria de inverno, a neve cobria toda a urbe e poucos se atreviam a sair às ruas, quando Gustav vestiu seu casaco e partiu, deixando para trás a pouca bagagem que tinha consigo. Caminhava sôfrego contra forte tempestade que se instalara em Viena desde a madrugada. Seus passos eram duros e determinados, enquanto suas mãos não largavam uma adaga, cuidadosamente colocada na cintura e envolta numa bainha de lã. O nariz sangrava diante de tanto frio e seus olhos já não conseguiam aderir ao rumo que suas pernas tomavam; ele seguia como autômato na direção da Karlplatz, lugar onde, ironicamente, escondera-se sua irmã e o amante Hans, pois que casados não estavam.

O vento gélido lanhava sua pele rude de lenhador e escarnecia de sua força de vontade. Estava quase desistindo quando avistou a localidade procurada, onde, atrás de algumas frondosas árvores totalmente cobertas pela neve, avistou uma simplória casa, cuja janela ostentava as tais cortinas vermelhas para as quais Ivan alertara. Havia fumaça na chaminé, portanto, estava habitada.

Bateu com força à porta. Segundos se passaram até que uma velha senhora atendeu-o com certa desconfiança.

- Bom dia, senhora! Procuro frau Mariel. Tenha a bondade de avisá-la que seu irmão Gustav está aqui e deseja falar-lhe.

- Lamento, senhor, ela não está.

Como não? Deve estar... tem que estar. Com licença - disse em tom enérgico, empurrando a porta com uma das mãos e na outra segurando apertadamente o cabo da adaga. Entrou sem ser convidado. A anciã, como se já o esperasse não opôs resistência.

O interior da cabana era humilde e pouca mobília guarnecia o lugar. Não havia mais que um único cômodo, contendo camas e demais petrechos para uma vida simples.

- Não entendo... as informações que recebi estavam corretas - concluiu Gustav desnorteado.

A velha voltou-se a ele com calma e disse:

- Sabia que algum dia virias, jovem. Mariel já me havia clertado. Entretanto, a pura verdade é que ela não está; não mora mais aqui. Mudou-se para local distante, quase do outro .ado da cidade. Posso dizer-te onde está, mas aconselho-te a permanecer aqui até que a tempestade passe. Não irás conseguir chegar onde pretendes se não te alimentares corretamente e espantares o frio que te deve escorchar a pele.

- Meu nome é Gustav... Podes chamar-me Gus, se preferires.

- Eu sei, já te apresentaste. Chamo-me Ovila... Sou tia de Dimitri, com quem tua irmã está casada.

- Eles não se casaram...

- Mas vivem como se tal.

- Então, não são casados!

- Pois bem, como queiras. Vim morar aqui quando eles resolveram ter filhos e a casa ficou pequena.

- Filhos?

- Sim, tua irmã tem dois filhos, Ivana e Gabulov.

- Inacreditável! Que mal fizemos a ela para tamanha nsensatez? Uma desgraça após outra...

- Acho que estava oprimida demais. Precisava sair de lá, conhecer o mundo, encontrar outras pessoas. E da sua natureza; precisa ser compreendida.

- Sinto discordar, frau Ovila, mas meus pais não mereciam tanto desculto... Ela podería casar-se, desde que nos apresentasse o seu pretendente. Esse era o acordo.

- E iríeis aprovar o meu sobrinho, um estrangeiro renegado e sem origem?

- Se fazes tal conceito dele, é sinal que poderia ter algum problema.

- Não sou eu quem faço, é a sociedade onde vivemos que não aceita alguém que veio de fora e tenta estabelecer uma nova vida neste país. E sei que na tua região não é diferente. Por que tanta discriminação? Não somos, afinal, todos seres humanos?

- Não sei do que falas, senhora. O fato é que minha irmã, por maiores que fossem suas razões, não tinha o direito de ferir os brios de nossa família. Venho sanar seus erros.

- E o que pretendes fazer, rapaz?

- Levá-la de volta, é claro.

- Mas hoje ela tem filhos e marido. Não pode partir assim.

- Pensasse nisso quando fugiu de casa como uma ladra durante a noite.

- Não lhe resta a opção de escolha?

- Não tem marido, tem amante. Seus filhos são bastardos e pouco me importa a sua vontade. Ela não teve o menor constrangimento em nos ferir quando partiu; agora é chegada a hora de pagar o que fez.

- Teus pais aprovam tua medida?

- Deixa meus pais fora disso. É tarefa minha, acumulada durante anos, resgatar a honra de nossa família.

- Meu filho, não te tornes igual àqueles que te tenham magoado. Por que usar da vingança para saciar uma dor ou uma frustração? Deixa-te envolver pelo bem, renega o mal. Ora a Deus e tudo terminará em perdão e mansuetude.

- Preces não recuperam a imagem abalada de nossa família. Todos falaram e falam da leviandade de Mariel e é impossível viver assim o resto dos nossos dias.

- Falas por ti, como percebo. Creio que teus pais não estão a aprovar teu gesto de força, mesmo porque eles nem sabem que já são avós. Estou certa?

- E se depender de mim jamais saberão...

- Não podes ser o senhor das vidas alheias. Tem compaixão. Se tua irmã errou ao partir sem avisá-los, por que não a perdoa e evita de cometer um outro erro?

Aprecio a intenção de auxiliar-me na senda da bondade, mas estou irredutível. Não volto à colina verde sem Mariel comigo.

- Mas, meu filho...

- Estou grato pela hospedagem, mas se eu ficar gostaria de encerrar este assunto familiar que só a mim concerne.

A senhora não mais tocou no assunto, temerosa de que, contrariado, o moço pudesse partir em plena tempestade e sucumbisse antes de atingir o local almejado.

Na manhã seguinte, saiu bem cedo e seguiu as orientações de Ovila até atingir o outro lado da urbe.1111 - Nota do autor espiritual: Atualmente situa-se na região de Julius-Raabplatz. Tratava-se de uma zona inóspita, aparentando ser um local improvisado para cuidar de rebanhos na. periferia da cidade. Avistou uma -.umilde choupana quando seus nervos já estavam em frangalhos.

Aproximou-se cautelosamente e bateu à porta.

Mariel atendeu e, perplexa, deparou-se com Gustav, maltrapilho e com as faces arroxeadas de frio, à sua frente.

- Gustav! O que fazes aqui? - indagou.

- Vim para buscar-te. Faze tuas trouxas para partirmos .ogo, pois o frio é intenso - disse-lhe buscando demonstrar desinteresse e frivolidade.

- O que? Estás louco, meu irmão? Não posso ir a lugar algum, tenho dois filhos para criar e um marido que está para chegar.

- Problema teu. Então não viste o mal que fizeste ao partir sem ao menos despedir-te de tua família? Somos tão desprezíveis assim que não fomos merecedores da tua atenção?

- Não é isso... - murmurou lacrimejante. Apenas temia que não me deixassem seguir o meu caminho.

- E não deixaríamos mesmo. És leviana e indigna de ser uma Bergvolk. Estás amasiada com um homem sem os sagrados laços do casamento e já possuis dois bastardos. O que queres que diga?

- Por favor, Gustav, não sejas cruel. Se não me casei é porque Hans é estrangeiro e eu sou uma fugitiva. Não tivemos condições de oficializar nossa união, o que não significa que não sejamos uma família, com todos os direitos e as obrigações cristãs. Entende, é o que te peço.

- Não tens o direito de pedir-me nada. Es uma desertora e não importa o que tenha que fazer vou levar-te de volta. Nossos pais ficaram profundamente entristecidos com tua partida. É minha missão conduzir-te de volta ao lar.

A essa altura, conversando no interior do cômodo, Gustav viu duas crianças assustadas olhando para eles da cama onde estavam deitadas.

- Quem são aqueles? Os degenerados?

- Não fala assim! São teus sobrinhos.

- Não são minha família. Anda. Pega teu fardo de roupa e partamos, ou queres que te arraste pela neve como a uma vadia?

- Não terás coragem. O que estás fazendo é uma insanidade. Não tens o direito de invadir minha casa e ameaçar-me desse jeito. Não vou a lugar algum. Sinto falta da família, sim, mas não quero voltar à colina verde. Não suporto aquele lugar, acho que nunca suportei. Não serás tu que irás obrigar-me a retroceder na vida.

- Grande progresso auferiste... Moras num lugar fétido com cheiro de cabras. O que entendes por progresso, minha irmã?

- Falo do que um ser humano sente, não do que quer sentir. É assim que me sinto. Não gosto da colina verde, não me sinto bem naquele lugar; é como me sinto e não como tu gostarias que me sentisse. E quem és tu para discutir sentimentos comigo? Por acaso já deixaste um minuto de pensar em ti mesmo e conseguiste vislumbrar o interesse de mais alguém no mundo além do teu?

- Não sejas infantil. Estou aqui por causa de papa e mama. Sabes bem disso.

- Duvido que eles te tenham autorizado a falar comigo do modo como estás falando. É claro que eles jamais iriam permitir o que estás intentando fazer.

- Quando voltares ao lar, poderás consultá-los; antes, deves confiar em mim.

- Posso ser mulher, Gustav, mas não sou estúpida. Não deixarei meu marido, nem esta terra que conseguimos com jito custo para acompanhar um irresponsável orgulhoso e cresunçoso como tu.

- Podes ofender-me se quiseres, mas voltarás comigo...

- Chega! Pensei que o dia em que colocaria os olhos em _.gum irmão meu seria um momento de felicidade; enganei-me. Vai-te, por favor, sai de minha casa.

- De nada adiantarão tuas súplicas, nem tua ira, pois • oltarás comigo...

Enquanto discutiam, Hans ingressou na cabana e, surpreso, indagou o que estava havendo.

- O que se passa aqui? Gustav? O que fazes aqui?

- Vim para buscar a vadia da minha irmã, portanto não é assunto teu, não te intrometas. Nem mesmo marido o és.

- Como ousas falar comigo nesse tom? Não és por certo ; dono da casa. Compreendo que estejas magoado pelo que -.ouve, mas isso não significa que possas invadir nosso lar dessa maneira.

Ouvindo as crianças chorando, ele perguntou a Mariel:

- Ele te fez algum mal? As crianças estão bem?

- Sim, tudo está bem. Gustav já estava de saída quando chegaste.

- Não, não estava. Vim de longe para levar comigo minha nmã e daqui não sairei até realizar meu intento.

- Não sejas infantil, Gustav - disse Hans. Ela é minha mulher e não vai a lugar algum. Acalma-te e vamos conversar ; . dizadamente - terminou, colocando sua mão no ombro do intruso.

- Tira tuas mãos de mim! - vociferou Gustav - Então imbos tiveram alguma compaixão ou alguma atitude refletida c-ando saíram furtivamente de Garmish, largando para trás _ma família desonrada e uma mãe chorosa? Quem julgais que sois?

- Não fizemos por mal. Amávamo-nos e queríamos viver a nossa vida... - continuou Hans.

- Essa vadia não ama ninguém, nem a si mesma.

- Não fala assim de minha esposa ou...

- Ou o quê? Vais fazer-me calar? - ameaçou Gustav com -eu porte de lenhador e firmando a mão na adaga que trazia na cintura.

Não tenho tempo para tolices, menino. Sai daqui antes que aconteça uma tragédia.

- Tragédia causaram vós, ao fugirdes sob a sombra da noite. Ladrões de sentimentos. Mundanos!

Gustav estava visivelmente descontrolado e tudo faria para sair dali com Mariel.

- Pelo amor de Deus, meu irmão, não tornes as coisas piores do que estão. Estás agindo por puro egoísmo; somente porque naquele dia, ao redor da fogueira, disseste-me para não casar e para não fazê-lo sem que apresentasse meu noivo à família e eu te contrariei, é por isso que estás tão determinado. Queres recobrar a tua honra, o teu orgulho... -É isso!

Gustav sabia, no íntimo, que ela tinha razão, mas jamais iria concordar com tal avaliação.

- Não sejas mais leviana do que teu comportamento já atestou. Honra e orgulho são coisas que somente os que possuem sabem do que se trata. Não é o caso de vós, detratores do bom nome de uma família. Anda, Mariel, recolhe tuas coisas e partamos.

Hans novamente se aproximou e colocou sua mão no ombro de Gustav, chamando-o à razão.

Violentamente ele repeliu o toque fraterno e partiu para cima do russo. Incrédula, Mariel observava a luta física dos dois e a fúria do irmão atacando seu marido. As crianças aos gritos clamavam por sua presença. Sem saber a quem atender ela foi ao quarto acalmá-las. Em frações de minuto, voltou e deparou-se com o pior na sala. A adaga bávara de seu irmão estava cravada no peito de Hans, que jazia sem vida no chão.

- O que é isso? Por Deus, o que fiz para merecer isso? - gritou, antes de desmaiar.

Completamente impassível, Gustav levantou-se do chão, empurrando o corpo inerte da vítima para o lado. Olhou para os lados buscando uma solução e resolveu ir até o celeiro, onde cuidou de preparar um coche improvisado para transportar a irmã. Ali encontrou material suficiente e os cavalos estavam disponíveis.

Após recolher todos os pertences de Mariel e amarrar-lhe as mãos, colocou-a no transporte que já estava à porta e voltou para dentro somente para retirar do corpo a adaga que lhe oertencia. Lavou-a na neve abundante das cercanias. Largando Hans no mesmo local em que perdeu a vida, voltou um último olhar às crianças que, desesperadas, suplicavam alguma atenção. Nenhum sentimento de amor penetrou-lhe a couraça do seu endurecido coração e ele fechou a porta atrás de si, sem mais oelongas. O máximo a que seu espírito permitiu-se, num gesto de solidariedade, foi passar pela casa de Ovila e sugerir-lhe que fosse recolher os sobrinhos. Não voltou mais os olhos para trás e tocou o coche em direção à Alemanha. De seus irmãos, Werter e Odo, já não tinha notícias há muito e não se interessava por eles. Tinha sob seu jugo a irmã que o desafiara, a única que havia questionado seu determinado desejo de manter unida a família, mas, acima de tudo, a única que tentara perseguir um sonho e quase havia conseguido. Sua infelicidade interior bem demonstrava que ele não sabia lidar com fracassos, já que era um sonhador por excelência.

Cria que ninguém tinha o direito de perseguir ideais, porque ele não tinha interesse em fazê-lo. Tudo se resumia a um devaneio do orgulho, à sanha causada pelo egoísmo e, sobretudo, pelo materialismo a transformar em rocha o seu oprimido coração.

As marcas de sangue chegavam a Viena e não estavam ainda longe do seu fim.

Enquanto Gustav carregava Mariel de volta à Baviera, Odo, nas suas andanças pelos salões de baile da cidade, apaixonara-se por uma corista de uma companhia amadora de teatro ambulante. Decidira, a partir dali, seguir sua vida tal como a da moça por quem estava enamorado, apesar de não ter a mínima vocação para o palco, mormente o erradio, nem tampouco paciência para aprender aquela arte, com a qual estava tecendo o primeiro contato.

Odo sempre fora calado na colina verde e bastou chegar a uma cidade grande para soltar-se, conhecendo um outro lado que ficara represado ao longo de muito anos, por força da influência de nossos pais e irmãos. Seus vinte e seis anos eram somente aparência, visto que pulava, cantava e dançava como um adolescente. Sua nova face podia ser entendida como um desdobramento da infância reprimida, desenvolvendo uma personalidade que não era de fato a sua. Longe de ser circunspecto e de poucas palavras, ele apreciava as festas e a diversão sem compromisso, o que lhe era impossível desenvolver em Garmish-Partenkirchen. Além de ter um irmão sacerdote e outro ambicionando a carreira política, o fato é que as vilas eram conservadoras e sequer recebiam as companhias ambulantes de atuação teatral que ousavam passar pela Baviera; não era definitivamente palco para Odo mostrar-se como tal.

Entretanto, se imaginássemos que o amor poderia transformá-lo seria cair na mais pura engabelação. Seu modo de amar também era descomprometido, infante, viajor como seu coração infiel. Não atingira labor que pudesse desenvolver, nem aptidão a qualquer arte; desejava reinar absoluto entre as coristas e meretrizes vienenses, embora soubesse que seu peito ardia por Carina, uma moça de origem híbrida tal qual a maioria de seus companheiros de profissão.

Ingressou, ainda assim, na Companhia das Artes Teatrais Internacionais. O vocábulo “internacional” fora acrescentado a pedido de um dos integrantes para evidenciar o caráter peregrino do grupo, ou seja, não pertenciam a nenhuma nacionalidade e sentiam-se autorizados a rodar a Europa, apresentando-se como se fossem ciganos por todas as urbes e vilarejos que desejassem. Na verdade, era um eufemismo para o caráter nitidamente ambulante e de certo modo irresponsável de suas atividades.

Encontrou paz de espírito por algumas semanas e viveu um intenso romance com Carina.

Certa data tornou-se particularmente importante na sua vida. Ele voltou a encontrar-se com Werter, que conseguira o emprego almejado e àquela altura, além de jornalista, com artigos ocasionais publicados em Viena, dedicava-se, finalmente, à carreira política, assessorando uma figura proeminente da Corte, responsável pela Hofkammer, órgão que administrava as finanças da Áustria.

Sua responsabilidade e independência das idéias de Karl careciam ter adquirido força e autonomia; ele sentia-se preparado a deslanchar, finalmente, no seu ideal.

Caminhando pela Augustinerstrasse, juntamente com Carina, Odo não acreditou nos seus olhos quando se deparou com seu irmão Werter bem à sua frente, abrindo os braços para envolvê-lo carinhosamente, demonstrando saudade e consideração.

Abraçados por alguns instantes, o olhar de Werter, por cima do ombro de Odo, fitava curioso a moça esguia, de cernas finas e braços longos, com a face macerada pela contínua utilização de pinturas e dona de lábios bem vermelhos e carnudos, prontos a distribuir seu poder de sedução entre os homens. A roupa que usava era incompatível com o frio reinante em Viena no inverno, embora com aquele corpo celgado, quase beirando o esquelético, fosse mais fácil esconder-se dos ventos fustigantes que incomodavam os cedestres até o fundo da alma. Percebendo o interesse .mediato de seu irmão mais velho pela moça, mas sem maliciar qualquer olhar mais devastador, Odo apresentou-a a Werter:

- Esta é Carina, minha noiva - disse, fitando-a de imediato para receber sua aprovação.

Ficou óbvio que não tinham conversado sobre isso ainda, embora a insegurança de Odo o levasse a antecipar o assunto diante do irmão bem vestido, elegante e cortês, cujos olhos são mais saiam de cima da macérrima Carina. Ela, um pouco cfegante, mais pelo frio do que pela emoção, respondeu à altura:

- Encantada! Sou sua companheira de teatro...

- É meu prazer conhecer-te, minha jovem. Sou do mundo jornalístico e da política. Trabalho na Câmara das Finanças.

Enlevo-me, no entanto, diante das artes e, naturalmente, frente aos artistas. És bela o suficiente para ser uma musa, não me admiro que estejas brilhando nos palcos.

- Nem tanto, herr Werter...

- Por favor, apenas Werter.

- Ah, sim! Werter - reiterou enchendo a boca - Mas, como dizia, nem tanto assim. Sou apenas uma amadora e ainda tenho muito a fazer por minha carreira.

Todos começam um dia no amadorismo, mas o que realmente conta é o talento e isso, percebe-se, tens de sobejo. Creio que o impulso certo poderá fazer-te a estrela de toda Viena.

- Oh, Odo, teu irmão é deveras gentil. Por que não mo apresentaste antes?

- Talvez por isso mesmo, minha querida. - respondeu visivelmente contrariado o mais novo - Ele nunca me pareceu tão seguro de si como está agora.

- São os bons ares vienenses, meu irmão.

- Ou seria o afastamento de Karl? - indagou ironicamente Odo.

- Creio que ambos - afirmou-lhe com naturalidade Werter.

- Mas vamos andando... Que tal almoçarmos juntos? -convidou Carina.

- Ótimo! Aceito o convite. Hoje mesmo... e por minha conta - arrematou o mais velho dos irmãos.

Iniciava-se mais um confronto que iria abalar a família Bergvolk, embora os traços do destino e as provas que todos têm a enfrentar na jornada terrena acarrete justamente essa trilha de percalços.
ediados em Viena, os irmãos Werter e Odo já não tinham notícias do que acontecera em colina verde quando lá chegaram Mariel e Gustav, na sofrida viagem de volta. Mariel sentia-se prisioneira e não mantinha qualquer diálogo com seu irmão, que tentava ser gentil, atendendo-lhe as necessidades básicas como alimentação e pousada para dormir. Ela parecia ter desconectado de sua mente o frio assassinato de seu esposo, que presenciara pouco antes, e o afastamento repentino de seus filhos, talvez por questão de sobrevivência, mantendo o seu equilíbrio mental.

A chegada em Garmish-Partenkirchen foi traumática. A família já não esperava voltar a ver Mariel, muito menos apresentada a todos como prisioneira e silente por completo. A colina verde, pela primeira vez, pareceu cinza e infeliz, ao invés de seu habitual aspecto florido e expressivo.

Meus filhos, que bom ver-vos de volta a casa - proferiu de início Otto, visando abraçá-los um a um.

Mariel refutou-lhe o carinho e permaneceu impassível em ;:ma do coche improvisado. Gustav deu de ombros e ; -mprimentou efusivamente seus pais e irmãos. Inga, preocupada, sentia que algo estranho acontecera e foi imediatamente com Fréia abordar Mariel.

- Lieb Blume, por favor, fala com tua mãe... Estive muito preocupada com teu estado e andava sequiosa por notícias. Resolveste voltar para nosso convívio? Fico muito feliz. E :eu esposo, não veio junto?

Ela permaneceu muda e mantinha no olhar a vibração do ódio, sem qualquer manifestação de carinho.

Levada para dentro e colocada na cama, onde adoeceu em -igumas horas, iria manter-se em febre alta por semanas a :io. Gustav, que havia dito estar tudo em perfeita ordem, foi ronvocado por Otto para dar explicações a respeito do estado ia irmã. Ele não mentiu e narrou detalhadamente o que havia acontecido.

- O que fizeste, meu filho! Por que não seguiste nossa arientação?

- Não é vossa culpa, papa. Se alguém errou, esse sou eu. Assumo sozinho a responsabilidade pelo que fiz, mas quero deixar bem claro que faria tudo novamente.

- De onde tiraste essa empáfia, rapaz? Não te ensinamos a amar acima de tudo e a perdoar tantas vezes quantas forem necessárias?

- Nem tudo que se ouve dos pais, é realmente assimilado... Temos nosso peculiar modo de pensar, papa, no qual ninguém pode interferir.

- Tu não podes mais permanecer aqui.

- Estais me expulsando de casa? Logo eu que fiz tudo para esta família ficar unida?

- Tu bem sabes o quanto te quero bem. Não posso, no entanto, assentir com o que fizeste, que foi gravíssimo. Tua irmã passa mal e não sei se irá recuperar-se. Es homem e deves, pois, buscar o teu destino. Nesta casa não haverá espaço para os dois. Quando resolveste brandir a espada da tua ira, assumiste todos os riscos... Agora é tarde.

O choque para a família foi imenso e, num gesto de descontrole emocional, o patriarca determinou-lhe a saída do lar; já não haveria ambiente para ambos - Mariel e Gustav - conviverem no mesmo local. Merecia ele, o varão, procurar o seu esteio, visto que fora o causador da atual condição da irmã.

1637

Gustav partiu diretamente à Casa Branca, onde pretendia encontrar Charlotte e com ela iniciar a vida conjugal há tanto aguardada. O reencontro não foi dos mais felizes, pois a moça, cada vez mais, estava habituada
a ficar sozinha e a cuidar dos seus afazeres na hospedaria. Deu-lhe abrigo, no entanto, aceitando-o de volta na condição de futuro esposo, mais por pressões familiares do que por amor ao rapaz.

Não tardou para que contraíssem núpcias, embora ninguém da família Bergvolk tenha comparecido. Incompatibilizados na comunidade de Garmish, em face do ocorrido com Mariel, mudaram-se para Oberammergau, uma pacata vila vizinha, que fora fundada no século IX, durante o reinado dos Welfen. A partir do século XIV cresceu em importância na região por sediar a via comercial que ligava Veneza a Augsburg. O casal ali chegou por volta de 1637, quando a peste já havia feito centenas de vítimas e dizimara a maioria da população.1212 - Nota do autor material: Por tal razão, a comunidade, a partir dedas dores e da morte de Jesus Cristo, como agradecimento pelo fim da peste. 1670, sem mais cessar, realiza a cada dez anos uma apresentação pública

Charlotte não via condições de retomar seu negócio no ramo da estalagem e dedicou-se à escultura, criando belas obras em madeira, bastante apreciadas na região. Gustav, por sua vez, resolveu procurar a ajuda do irmão mais velho, Karl, que àquela altura deveria estar em importante posto na abadia. Para sua surpresa, no entanto, ele havia deixado há pouco o ocal e fugido com uma atendente da tradicional cervejaria mantida pela cidade de Ettal para casar-se.

Resolveu, então, oferecer-se aos beneditinos para prestar serviços na hospedaria que mantinham no próprio mosteiro. Aceita sua oferta, não tardou a estabelecer misteriosos negócios com os monges.

- O que tanto fazes naquela abadia se monge não és? -ndagava-lhe a esposa.

- Faço um pouco de tudo. Não tenho uma função específica, mas auxilio-os naquilo que precisam, conseguindo-lhes mercadorias e ajudando na administração das finanças.

- E isso te traz algum proveito?

- Sem dúvida! E com isso que nos alimentamos, pois sabidamente tuas esculturas não nos dão dinheiro.

- Mas ao menos são honestas...

- O que insinuas? Que meu trabalho não o é?

- Não sei o que dizer, mas tenho minhas dúvidas. Se não :ens função específica, mas consegues bons ganhos é porque algo estranho paira no ar.

Motivos tinha Charlotte, visto que Gustav estava atendendo os monges nas atividades secretas que tinham na região. Fazia tráfico de influência, providenciava a troca de favores entre membros da Corte e os religiosos e, acima de tudo, desviava o que podia dos cofres beneditinos para si, esta última parte fora do acordo naturalmente.75 - Nota do autor material: Cidade austríaca em 1531, conquistada pelos fanceses em 1809, devolvida à Áustria em 1815, tornou-se italiana em 1918.

Filhos não tiveram porque Charlotte recusava-se a ser novamente mãe e Gustav, sedento por riquezas materiais, pouco via na procriação algo útil para sua existência.

Apurou que seu irmão Karl estabelecera-se na simpática comunidade vizinha de Mittenwald, à beira do Rio Isar e nos pés das montanhas Karwendel e Wetterstein. Era dono de um dos armazéns do vilarejo. Esse tipo de atividade começou a ser difundido quando a cidade tornou-se rota das mercadorias que necessitavam de depósito e vinham de Veneza desde 1487, epoca em que os comerciantes venezianos, rompendo com o mercado de Bozen13, transferiram o transbordo dos seus produtos para Mittenwald a fim de estabelecer negócio com a Alemanha. Estava casado com Heiderose, uma mulher temperamental que o dominava por completo, o que nos era quase motivo de incredulidade, pois Karl sempre fora autoritário e arrogante. Proibido de tornar a ver a família, por imposição da esposa, que não tinha paciência para o convívio social, passou a dedicar-se ao comércio. Não parecia nutrir qualquer tipo de arrependimento por ter abandonado a carreira religiosa.

Seus ideais no contexto do protestantismo deixaram de existir e a parcela de sua existência dedicada ao catolicismo fora também apagada. Tornou-se, aparentemente, um materialista convicto.

Notava-se, no entanto, que se fechara em si mesmo, tantas foram as exigências feitas pela esposa, a quem não amava e com quem se casara porque, num descuido, engravidou-a. Transportou, após tomar conhecimento da gestação, ao filho que iria nascer todas as esperanças que cultivava, passando automaticamente a ignorar Heiderose, como se fosse somente a “mãe”, mas não a companheira.

Ela, por seu lado, tinha em Karl um apoio necessário para viver em paz com sua consciência e diante da conservadora sociedade, após o ato impensado que praticara naquela aventura sexual no interior da abadia, da qual participou por insistência de algumas amigas menos cordatas.

O lar de nosso irmão mais velho fora construído em bases frágeis e custávamos a crer que ele mudara bruscamente o seu trilhar, por conta de algo que não lhe trazia satisfação ou alegria. Era, no entanto, fruto do cumprimento de uma avença tácita existente entre os beneditinos, pois ele sabia que seus companheiros não iriam tolerar uma mulher grávida batendo às portas do mosteiro, exigindo um pai para seu filho.

A atitude de Karl foi antecipar a cobrança que certamente viria dos monges para que deixasse a ordem e assumisse o erro que havia cometido. Os prazeres sexuais não passavam ao largo da abadia, mas cada frade era responsável pelo que fazia oelas consequências de seus atos; a Ordem jamais deveria -er prejudicada por isso.

1640

Alguns anos se passaram até que um grande evento reuniu toda a família Bergvolk novamente. Era a festa de casamento de nosso irmão Peter. Sua noiva, Serdha, fora criada em Garmish e o pai era um pequeno .: merciante da cidade. Conheceram-se numa das confraternizações que a igreja proporcionava aos fiéis e decidiram unir as .mílias e os ideais religiosos, amalgamados no catolicismo. 3arecia-nos um matrimônio de mera conveniência, pois nunca :uvira dizer que Peter tivesse escolhido a moça por sua e'pontânea vontade; ele nem ao menos chegou a cortejá-la. Quando percebeu, estava comprometido e nossos pais marcavam a data desse —portante evento. Seria o primeiro casamento não traumático rara nós, embora não dissesse o mesmo no tocante ao noivo.

Realmente, o acontecimento marcou-nos, visto que rrovocou o retorno de Odo e Werter de Viena, acompanhados se Carina, que já não se sabia se era namorada de um ou de outro, pois aos dois igual e entusiasmadamente referia-se.

- Esta é Carina, minha...

- Companheira de teatro - arrematou a moça, interrompendo . apresentação de Odo.

- Nossa companheira! - exclamou Werter - Afinal, sinto-me tão engajado nessa bela arte de emocionar multidões que me rosso incluir na sua lista de admiradores e camaradas (risos).

A contragosto, Odo suportava a intimidade que Werter procurava criar com Carina, mormente quando se referia a ela em tom deveras afetuoso.

Otto e Inga pouco entenderam dessa união triangular, mas trataram a convidada com o mesmo carinho costumeiro.

Karl finalmente conseguira convencer Heiderose, mesmo grávida do segundo filho, a fazer-se presente na nossa casa e já levaram junto o pequeno Josef, que não conhecia seus avós paternos.

Gustav e Charlotte também foram, embora pouquíssimo contato tivessem com Mariel, evitando com isso qualquer rusga que prejudicasse o evento.

A festa aconteceu em plena praça de Garmish, após o casamento solene ter-se dado na igreja. Houve dança típica e todos os nossos irmãos bailaram em homenagem aos noivos. Cerveja em abundância não faltou e talvez tivesse sido esse o maior problema.

Ligeiramente embriagados, começaram alguns diálogos que iriam causar certo transtorno à família.

Mariel, vendo a alegria de Gustav e da esposa, resolveu admoestá-lo:

- Como é bom o egoísmo, não? Estás com tua esposa, feliz... a pular como um sapo matreiro, enquanto meus filhos choram minha ausência na Áustria e meu marido foi precocemente retirado do meu convívio. Não tens remorso?

Gustav fingiu não ouvir a provocação e permaneceu dançando.

Ela insistiu:

- Como é bom ignorar os infelizes, tripudiar sobre a dor alheia e fazer-se passar por defensor da moral quando sabemos todos que estás mancomunado com a laia mais imunda de Ettal.

Ainda fingindo não ser com ele, Gustav manteve-se inerte.

Mariel continuou, sem perder a agressividade.

- Fazes ouvidos moucos porque te convém, degenerado, aproveitador, egoísta... Tua perfídia ainda te custará muito caro.

- Chega! - gritou Gustav. Estás louca! Desde que partiste com aquele desgraçado não mais tiveste juízo. Fiz um bem para ti e para a família. Agradece-me, ao invés de agastar-me dessa forma.

- Bem fizeste para ti mesmo, pois és um assassino cuja lei não cobrou a ação. Dormes em paz com tua consciência? Deves conseguir pois já não tens consciência do que é certo e do que é errado.

- E tu tens? Não passas os dias resmungando pela casa e nem sequer ajudando nossa mãe? Tiveste algum senso moral quando fugiste de casa como uma vadia? Quem és tu para ulgar-me?

- Sou tua vítima, fui tua presa... Um reles objeto do caprichoso destino ao cair nas tuas ensandecidas mãos, que fizeram verter sangue para honrar teu orgulho prepotente, para >uportar a tua falência moral e o teu desatino de alma. Es um fraco, Gustav, e nada conseguirá apagar essa tua imagem perniciosa.

- Pensa como quiseres... Só te resta pensar agora.

- Sim, é o que me resta. Pensar nos meus filhos e na minha vida destruída. E por que só isso eu tenho? Porque :u foste onipotente, o senhor dos juízos, a mão da Justiça...

- Pouco se me dá. Diante de tua postura desequilibrada, peço-te que fiques longe de mim. Não serás bem-vinda em minha casa.

- Que casa? (gargalhada) E afinal tens uma? Não ligas para tua pobre esposa e vives a roubar os beneditinos... Todos ? sabem. Um dia pagarás o que de mal vem causando ao teu 'emelhante. Não preciso julgar-te, pois a comunidade já o fez.

- Ora, leviana! Como ousas falar-me assim? Mereces...

- Cala-te, Gustav! - proferiu determinado Otto. Hoje é dia de festa. Não estamos aqui reunidos para ouvir-te discutir com tua irmã. Afasta-te daqui e deixa-a em paz. Sabes que não aprovamos o que fizeste e não será este o momento de cebatermos a questão. Volta à companhia de tua esposa, agora.

Ninguém ousava contrariar Otto quando ele tomava a si o curso de qualquer situação. Nossa família fora bem doutrinada a acatar as decisões paternas como se fossem palavras divinas. Nesse ponto, nem mesmo a empáfia de Gustav era mais forte.

Dos noivos pouco podia-se dizer, pois Peter, um romântico por natureza, chegando a ser superficial e irresponsável, cujo único prazer era passar as horas do seu dia cortando lenha, auxiliando Otto com o rebanho e ensinado os camponeses da região a pescar truta, estava ingressando num mundo que não escolhera, onde haveria de dividir seus anseios e interesses como é da essência do matrimônio. Seu temperamento irrequieto o levava a fazer versos seguidamente, divulgando-os em família mas, embora talentoso, nunca desejara profissionalizar-se. Sua vida transcorria de modo absolutamente previsível. Vislumbravamos nisso a manifestação cristalina do seu egoísmo, pois nada costumava fazer que não fosse do seu particular agrado. Diante disso, assumir uma nova vida lhe seria realmente inovador.

Casava-se por desejo dos pais e nem ao menos tinha intimidade com sua futura esposa.

Gerdha era aparentemente insossa e soporífera, nada proferindo de interessante ao longo de muitas horas em qualquer companhia. Longe de ser uma adoníade, seu rosto resumia-se a longas tranças louras fastidiosamente dispostas sobre as orelhas de abano que se encontravam com fiapos de costeletas não muito magníloquas, porém salientes o suficiente para negar-lhe aspecto angelical. Curiosamente atadas ao final das tranças estavam sempre laços de fita vermelha, estampando-lhe a ingenuidade forçada. Os olhos, apesar de quase azuis, tinham na realidade o mesmo tom das trutas que saltavam no riacho da colina verde, o que não era, por certo, o tom celeste. O corpo era razoavelmente esguio, embora sem forma definida tamanho era o volume das saias e anáguas que usava no dia-a-dia. Sua qualidade limitava-se a ser tranqüila, quase sedada, de modo que todos acreditávamos que seria o par perfeito para nosso irmão devaneador.

A esteira da vida, no entanto, pregava muitas peças, especialmente numa família de tantos membros e com requintados problemas. Tão logo casou-se, Gerdha mudou seu tom de voz e sua maneira de agir. Resolveu dominar Peter por completo e sua tarefa não era difícil, visto que ele era presa fácil para esse tipo de pressão emocional.

Incrédulos, observávamos que com o passar dos primeiros meses de casados, ela envolvia Peter como o polvo engole sua presa. Ele nunca mais voltou a ter paz, nem com suas trutas e muito menos no arvoredo que lhe servia de companhia para o corte da lenha. Seus tentáculos estavam por todo lado a dar-lhe ordens.

Eles moravam proximamente à colina verde e vinham com -z ativa freqüência nos visitar, sempre que o humor de Gerdha rermitia. Um ano foi suficiente para que o casal tivesse _ ?ncedido ao nosso povoado dois descendentes, gêmeos mivitelinos, Markus e Adolf.

1642

Nessa época as gêmeas estavam no auge da sua beleza e chamavam a atenção no vilarejo quando desfilavam nas missas e eventos sociais. Pretendentes começaram a surgir e a colina verde já não era a mesma diante da invasão dos inúmeros rapazes que gostariam de tê-las por esposas.

Elas, no entanto, desdenhavam de todo e qualquer moço que subisse a montanha para colocar-se aos seus pés. Tinham verdadeiro asco de homens submissos e esperavam encontrar, provavelmente, algum tipo que as dominasse somente pelo olhar. Eram muito parecidas no modo de pensar e agir, apesar de Helga ser mais compenetrada e relativamente mais equilibrada. Bem diferentes do até então pacato Peter, logo rerceberam que o destino não lhes faria o gosto tão cedo.

Nossos pais preocupavam-se com o rumo dos filhos, afinal, dois anos após o evento que reunira toda a família em Garmish-Partenkirchen, cada um havia seguido uma vereda diferente.

Karl havia largado a carreira eclesiástica e estava cada vez mais encafuado no seu comércio, dedicando-se, no contexto familiar, única e exclusivamente ao seu filho primogênito. Vivia para si, talvez pela amargura que preenchia seu desastrado eoração, não mais ligando para o que se passava na colina verde e dominado pela esposa irascível. Não tinha o menor pudor em declarar-se francamente encantado por Josef, a despeito de já possuir a pequena Bertha, com quase dois anos de idade, e de estar em vias de receber o terceiro filho.

Gustav, por sua vez, casado formalmente com Charlotte, passava mais tempo na companhia dos monges de Ettal do que da esposa. Seu casamento estava em ruínas. Continuava a comercializar ilegalmente bebidas produzidas na cervejaria de Ettal, além da produção oficialmente declarada, ficando com o montante vendido na surdina. Utilizava, entretanto, seu talento para criar brasões de família. Poderia ter progredido, não fosse a ganância pela riqueza fácil, de tal modo que começou a transacionar símbolos nobiliárquicos com quem evidentemente não os possuía. A esposa não aprovara seus gestos, mas mantinha-se indiferente à sua vida.

Peter, que se transformara em verdadeiro marionete de uma déspota montanhesa, tomou-se amargo e arredio, perdendo o seu romantismo e deixando de fazer os seus famosos versos que a todos encantavam. Parecia reprimido e infeliz. Sua única alegria era cuidar dos gêmeos.

Fréia continuava solitária e visivelmente desditosa, nunca sabendo como deveria reagir a cada dia de sua existência.

Werter e Odo tornaram à Viena juntamente com a desajuizada Carina, com a qual mantinham um amor aparentemente platônico, embora cheio de sensualidade e disputas. Werter, finalmente, estava tentando a candidatura a um cargo eletivo municipal, embora enfrentando a dura resistência de um oposicionista xenófobo que, utilizando artigos na imprensa, difamava-o constante e tenazmente. O irmão mais novo, além de não auxiliá-lo, continuava a viver à sombra de Carina a quem amava e ao mesmo tempo invejava por sua jovialidade e sintonia positiva com a vida.

Mariel saía todos os dias pela manhã e somente retornava à casa no início da noite, geralmente trazida por algum campônio que subia a montanha especialmente para indicar-lhe o caminho; não era raro vê-la embriagada, adormecida em tomo da fogueira que, habitualmente, continuávamos a cultivar.

Ula conseguira ingressar num convento da região, mas tantas foram as suas intrigas e bisbilhotices, gerando inúmeras rixas entre as religiosas, que terminou expulsa e voltou para casa feliz e despreocupada.

Tornou-se mais ajuizada quando conheceu Maximiliano, o Mestre das Matas (procurator montium) de Garmish-Partenkirchen, encarregado da administração das florestas e que visitava com relativa freqüência a colina verde.

Ele, por ser católico fervoroso, levou-a ao amadurecimento de que tanto necessitava e logo tornaram-se noivos.

Etel passou a auxiliar o nosso antigo professor e educador Mithaeus e seguia pela região alfabetizando os filhos dos .-mpônios e daqueles que não tinham condições de estudar -.a cidade. Persistia no seu amor platônico.

Hugo, por sua vez, inconformado com a situação enfrentada -?r Peter, com quem tinha grande ligação afetiva, dizendo-se -feliz por sentir-se incapaz de ajudar o irmão, deixou a colina erde e tomou rumo ignorado de todos nós. Sabíamos, no entanto, que sua saída teve o condão de contentar-lhe o espírito aventureiro.

1643

As gêmeas Herta e Helga continuavam a esnobar levianamente pretendentes e acreditavam que a existência resumia-se na sensualidade e na provocação amorosa. Somente quando Melvio, um acrobata desligado do circo de Viena, que vivia de apresentações isoladas e indiiduais nos vilarejos por onde passava, foi visitar Garmish é que ambas entraram em disputa e desentenderam-se pela primeira vez em suas vidas. Seria, também, a última.

Inga, preocupada, interferia quando julgava insustentável -Iguma situação.

- Lieb Blume, - dirigindo-se a Herta - o que pensas estar fazendo de tua vida? Não tens dignidade, nem amor próprio? Disputas o amor ou a atenção de um estranho com tua irmã tão querida? Pensa no que estás fazendo...

- Nada vejo de estranho nesse homem, mama. E somente um estrangeiro que surgiu em nossas vidas, mas tenho a sensação de conhecê-lo há muito tempo. E um desejo, um sentimento de posse que não sei explicar. E' incontrolável! Ademais, não estou disputando nada com ninguém; Helga está fora desse contexto.

A contenda não tinha como acabar bem.

Mama, que absurdo chego a ouvir de minha irmã! Então estou fora da rivalidade? Enganas-te, Herta, pois tenho mais atenção de Melvio do que tu jamais sonhaste. Tudo farei para tê-lo para mim e não haverá união familiar que me possa fazer desistir.

- Kinder, o que estais a fazer? O que significa um amor que destrói, senão uma inverdade na essência? Esse sentimento é o mais nobre que um ser humano pode cultivar em seu coração; jamais pode ferir, separar, dividir e tornar cruel a relação de duas irmãs tão próximas como vós... Tenho idade e experiência suficiente para saber que um amor sensual, uma paixão momentânea, não vale o risco da perda da identidade, muito menos da relação familiar. Ambas estão a disputar esse rapaz por mero orgulho e por serem vaidosas e inconseqüentes. Talvez nem o amem, de fato. Querem uma auto-afirmação cruenta, que só causa dor e desunião.

- Oh, mama' Por favor, não sejas tão inflexível. Melvio possivelmente nos ame, as duas ao mesmo tempo... Está somente indeciso. Devemos lutar para mostrar-lhe o nosso amor - disse Helga.

- Filhas, o que me dizeis? Ele ama as duas? Que insensato! Sabeis não ser verdade e insistem em provar-me a vossa razão. Sois imprudentes ao lidar com os ranços do amor ardente, do afeto dominador, dessa paixão colérica que as envolve por completo, mas que retira forças da volúpia e não do sentimento nobre e digno, que brota do âmago para enfeitiçar positivamente o espírito. Estais erradas! Que mais posso fazer a não ser alertar-vos para o mal que se avizinha? Teu pai e eu nos casamos há mais de quarenta anos e jamais tivemos entre nós, dividindo o nosso rico sentimento, o espectro da lascívia, causador dos grandes males da humanidade.

- Mama querida, teus conceitos são ultrapassados. O mundo evoluiu, não estamos mais na época de Jesus Cristo.

Estamos em pleno século XVII, compreenda que devemos viver intensamente o presente e disputar nossas diferenças palmo a palmo, pois somente dessa forma sairemos triunfantes.

Que mal há em não querermos terminar como o pobre Peter, dominado por sua tirânica mulher? Não foi um casamento imposto? Qual luta empreendeu nosso irmão pelo amor, pela paixão? Mama, deveis aceitar a mudança dos tempos... É o nosso fio de lógica na vida - completou Herta.

- Sei o que digo. Algo me assopra nos ouvidos14 que estou totalmente certa. Não é problema de modernidade, nem de mudança dos tempos. Estais equivocadas, minhas filhas. O tempo vos evidenciará. Tenho para mim que os conceitos universais do cristianismo não mudam com tal facilidade; não é o mero passar dos anos que tem o condão de alterar as leis de Deus, mas os homens, sim, que as mudam para pior. No futuro, direis a mesma coisa a respeito do progresso e da modernize e vossos filhos, netos e bisnetos sustentarão o mesmo direito de evoluir nos costumes e na liberdade, esquecendo-se de que liberdade não se confunde com libertinagem, nem evolução com devassidão. Portanto, sigo firme em meus propósitos, defendendo que cesse a disputa instalada entre vós. O moço é um artista volante, sem origem e sem destino. Não está em nossa vila para trazer uma mensagem positiva, mas para espancar vínculos familiares e semear a desunião entre irmãs como vós.14 - Nota do autor material: Maiores informações sobre o mecanismo da intuição e da inspiração na interação entre os dois planos da vida o leitor pode encontrar no livro "Conversando sobre Mediunidade -Retratos de Alvorada Nova”, páginas 58/59 e na obra “Imagino que você queira ser feliz - Memórias de um Anjo Guardião".

- Estais a pronunciar, mama, que ele é um agente provocador da desintegração? Sinto, mas não aceito, definitivamente, não. Qual interesse teria ele em assim agir? Nem ao menos nos conhece... - contestou Helga.

- Lieb Blume, a vida tem os seus mistérios. Quem te assegura que de outros tempos já não nos conhecemos? Quem te pode asseverar que somente se vive uma vida? Qual a grandeza de Deus na evolução do homem? Por que ele não pode ser um agente desagregado? Acredito nisso. Acho perfeitamente possível. E, demais, tenho fé na minha crença.

- Filosofais, mama, sobre a origem e fim de tudo e de todos. Não temos aptidão para seguir-vos o curso. A religião é uma velha cantilena que somente desgasta. Insistimos em nossa postura; cremos que fazemos o melhor. A disputa é saudável, por que não? - proferiu Herta.

Fréia, que a tudo ouvia calada, resolveu intervir:

- Por que não estais a enxergar o que se passa à vossa frente? Sois cegas e surdas para os conselhos de mama... Achais, minhas irmãs, que ela pode querer o vosso mal? Desejaria ela a vossa infelicidade? Se assim estais a pensar é porque já perdestes a memória e não mais vos lembreis dos anos de afeto e amor com que mama vos embalou e cuidou para que nada vos faltasse.

- Não se trata disso! Ademais, ingressas num assunto que não te pertence, Fréia. Que moral tens para afirmar que somos ingratas? Quem és tu para falar em cegueira se não enxergas o teu dia de amanhã? Não queremos, decididamente, ser infelizes como tu... - proferiu Herta em tom aviltante.

- Infelicidade!? O que entendes disso, minha irmã? Achas que sou infeliz? Talvez o seja na tua concepção, mas na minha pode ser diferente. Lembro-te que os seres humanos têm peculiaridades diferentes de vida e modos inteiramente opostos de ver a mesma coisa. Não podes regular a minha vida pelos teus padrões, nem avaliar-me o grau interno de satisfação ou insatisfação com teus parâmetros. O meu grau de ventura é tão individual quanto o são meus pensamentos - respondeu-lhe, de modo firme, Fréia.

- Então, se é assim, por que andas sempre cabisbaixa e pensativa? Por que não casaste? Não te entendo...

- Nem podes, Herta, não tens a minha idade, a minha experiência e muito menos os meus pensamentos. O modo como raciocino e encaro minha existência serve-me de parâmetro para criar uma lógica para o meu mundo. Se estou cabisbaixa é porque não quero fazer-me notar; se ando pensativa é porque desejo encontrar razões autênticas para o meu viver. Não me contento em simplesmente arranjar um marido para constituir uma família, como se isso fosse a alvação da mulher. Tenho mama e papa e meus irmãos. Vivo em função deles. Por que teria necessidade de ter um esposo? ??deria tê-lo, desde que natural, fruto do sentimento que uniu e une nossos pais por quatro décadas e não em razão da sensualidade que tem termo certo para acabar e com ela arrastar para a ruína o casamento nessas bases constituído. É o que pretendes fazer da tua vida? Para isso é que mama te está alertando e tu não estás dando ouvido. Desejas disputar com tua irmã um rapaz, baseada em dados sentimentais falsos e mesquinhos. Isso é ser feliz, minha irmã?

Constrangida, Herta contraiu as sobrancelhas, voltou-se para Inga, tornou a encarar Fréia e respondeu:

- Não sei o que é certo e o que é errado, mas não tenho a tua disposição em pensar no assunto. Quero simplesmente . íver a plenitude dos meus vinte e três anos. Quando chegar ma tua idade talvez passe meus dias a pensar...

- E pode ser tarde demais. Conhecer-se e programar-se para aceitar o que a vida te trouxe por missão é um dever cristão... Não tem hora certa para começar e muito menos espera a tua velhice para instalar-se.

- Nada do que disseste, Fréia, poderá afastar-me de Melvio. As vezes acho que fazes isso somente para viabilizar ? caminho de Helga... - argumentou Herta.

- Experiência e franqueza não se ensina, nem se transmite simplesmente por palavras; é preciso amadurecer para vivenciá-las. Não pretendo convencer as pedras do rio de que a água é molhada, nem tampouco a truta de que o anzol é torto... Tem somente a dignidade de respeitar nossa mãe e não contradizer seus valorosos ensinamentos se não sabes e não queres pensar nem mesmo na tua própria vida.

Elas deixaram a cabana visivelmente contrariadas e seguiram para Garmish onde iriam assistir a uma apresentação de Melvio. A perturbação gerada em seus espíritos diante dos argumentos de Inga e Fréia levaram-nas a uma atitude drástica, ao invés de conduzi-las ao equilíbrio.

Nesse dia, exigiram do acrobata uma decisão definitiva sobre qual delas iria escolher. Vendo-se pressionado pela costura resoluta de ambas, resolveu optar por Helga, apesar de fazer menção de ficar com as duas, situação inadmissível às gêmeas não por valor cristão, mas por pura vaidade.

- Venceste, minha irmã. Creio não haver espaço para nós nesta miserável vila.

- Espera, Herta! Não te precipites... Sabias das regras do jogo antes de nele ingressarmos. Há outros moços nessas paragens com quem poderás encontrar o amor.

- Digo-te o mesmo. Melvio nos representava alguém de fora, que veio trazer novo rumo à nossa vida, diferente desses camponeses medíocres que habitam esses morros. Não... queríamos mais e tivemos a chance de obtê-lo. Um homem, no entanto, para mulheres como nós, não se divide, opta-se. Somos gêmeas, não te esqueças disso. Se ele te escolheu é porque és melhor espiritualmente do que eu. Devo aceitar, mas não me curvarei a esse destino injusto. Não passarei o resto de meus dias ouvindo as reflexões de Fréia estampadas em cada pedra ou em cada flor da colina verde, chamando-me à meditação. Recuso-me a pensar e viver do amanhã. O presente é tudo o que tenho e minha juventude e beleza devem ser aproveitados agora. Não terei outra vida para viver, minha irmã.

- E se Fréia estiver certa? E se mama falou a verdade? Seria ele um agente a nos separar? Teríamos somente uma existência para ser feliz?

- Pobre de mim, Helga. Estás a filosofar porque ele te escolheu; fica mais fácil refletir sobre algo que se tem em mãos. A única coisa que me resta é meu orgulho, sim. E por que não? Que mal há nisso? Não posso aceitar o argumento da fraqueza de espírito... Que vida futura será essa? Alguém a tateou alguma vez? Impossível continuar nesse vilarejo onde todos saberão que foste a escolhida do artista estrangeiro. Não conseguirei andar pelas trilhas e pelas ruas sem que olhares me persigam, sem que vozes murmurem nos meus ouvidos o meu fracasso, sem que sentenças julguem o meu espírito. Vou-me daqui, minha irmã. Acho que já suportei tempo demais toda essa mediocridade.

- Não, por favor, não faze isso... - lacrimejou Helga.

- Devo fazê-lo, pelo meu bem, pelo nosso bem...

Abro mão de Melvio em teu favor... Fica, rogo-te. Não . .mpras a previsão de separação que mama vislumbrou... Se sso acontecer, então ela estava certa.

- Pode ser que estivesse, embora já não consiga encarar-te, ~nã, como o fazia minutos antes. Sei que és melhor que eu, reis foste escolhida por um forasteiro, imparcial nos senti-—entos e julgador do nosso “eu”. Impossível conviver contigo sem fustigar meu amor-próprio. Devo estimar-me como sou. Sempre fomos iguais em tudo e para todos; quebrou-se o equilíbrio. Devo partir...

- Mas fomos nós que o induzimos a isso... Provocamos _ ruptura. Por que não repará-la?

- Porque foste tu a eleita; tens força para perdoar e estender a mão. Fui rejeitada, devo encontrar outro rumo agora que vais enlaçar-te a um homem que não me quis.

- Herta... Pelo amor de Deus... Fica... Suplico-te!

-.Um dia, tu me darás razão. Quero-te bem. Não mudarei meu sentimento por ti. Só não quero mais conversar sobre sso. Finda a apresentação tomarei o rumo da Áustria; talvez . á de encontro aos meus irmãos em Viena. Abraça-me, agora, Lieb Blume.

Vaidade é uma qualidade do que é vão e ilusório, embora seja tão concreta em muitos espíritos como o é a-essência da vida, atestada pelo batimento cardíaco. Atada à sua íatuidade, a jovem Herta jamais iria aceitar em seu coração as sábias e previdentes lições maternas, provenientes de um espírito especial e terno como as doces mensagens de Jesus, -referindo privilegiar a sua altivez e a sua soberba. Havia :rocado, como previsto por Inga, a estabilidade de sua família, ; amor de sua irmã e o seu próprio equilíbrio emocional por .ma aventura perigosa que iria romper, de vez, o seu trajeto -.a senda cristã.

Partiu para Munique, onde pretendia recomeçar sua jornada sem nenhum vínculo com o passado que estava querendo apagar.

O destino de Herta causou comoção na família, pois ela razia parte do colorido que encantava o nosso jardim e que motivara Inga a chamar suas filhas por “queridas flores” Mariel, quase paranóica em face do inconformismo que a fazia recolher-se em si mesma, desprezando o resto de nós, despertou para a realidade quando soube da separação das gêmeas, símbolo maior de união dos Bergvolk. Chorou por dias seguidos como se estivesse colocando para fora a angústia acumulada em todos os anos em que passou longe dos seus filhos e tendo à mente o assassinato do esposo. Consolada por todas as irmãs que ficaram, somente começou a recobrar-se quando Etel lhe fez uma oferta, convidando-a a integrar a missão de ensino do professor Mathaeus pela região.

1644

Eram três os preceptores que passaram a andar pelas colinas da Baviera, levando o saber aos campônios e seus filhos.

Em casa, continuava a tenaz Fréia, inseparável de Inga e Otto.

A essa altura, Ula finalmente casara-se com Maximiliano, o Mestre das Matas, adotando a postura do esposo, um autêntico papa-missas, que vivia para agradar o sacerdote local. Sua coscuvilhice não chegou a atrapalhá-la, visto que nesse meio eram poucos os que, de fato, prestavam homenagem a Deus e não se preocupavam com a vida alheia e com as intrigas geradas nos bancos da igreja. O casamento lhe fora benéfico, pois entrosara-se com o marido desde o início e ambos comungavam dos mesmos ideais. Criou um séquito de mulheres beatas a seguir-lhe as orientações e, residindo no centro de Partenkirchen, congregava os assuntos da paróquia na sua casa para orgulho do esposo e desgraça do seu espírito, que não havia meio de largar o cultivo da maledicência.

A capital e maior cidade da Áustria, sede do Sagrado Império Romano Germânico, assentada às margens do Rio Danúbio e volteada por uma série de imponentes colinas, local onde os romanos fundaram a primitiva Vindobona, às portas o mundo Bárbaro, sediava em seu contexto convulso de vida urbana um conflito entre irmãos, motivado pelo amor de uma mulher. Algo que seria tema de livros e peças teatrais e já :’ora abordado há pouco na Inglaterra por Shakespeare tomava-se pulsante e real à medida que o tempo corria.

Na catedral de St. Stephen’s, Carina orava em um dos raros momentos de sua vida, preocupada pelo cenário onde estava inserida.

- Oh, Deus! Se existes mesmo, auxilia esta Tua serva. Não posso mais dividir-me entre Odo e Werter, dois irmãos que se odeiam por minha culpa. Não sei se os amo, nem sei se os quero, mas tenho certeza de que não consigo afastar-me de nenhum deles. Encontro-me atada a uma rotina que não me permite nem pensar, não sei como agir, preciso de um alento. Envia, Senhor, uma orientação por intermédio de Teus anjos e mostra-me que não desamparas Teus filhos. Nunca fui crente, nem tive fé. Hoje vejo que errei, talvez porque a fé, em si mesma, faz bem ao nosso espírito. Se a tivermos no coração, sofreremos menos quando enfrentarmos tantos problemas que a vida nos reserva. Oh, Deus, tenhas misericórdia...

Suas preces não foram suficientes para evitar que Werter entrasse em profunda depressão ao perder o pleito no qual se envolvera e para o qual fizera muitas dívidas, mormente com os agiotas de Florença. Cobrado insistentemente e envergonhado pelo que devia e diante dos comentários que era compelido a ouvir nas ruas, afundou-se na bebida e não mais conseguia sair sóbrio de uma locanda. Arrastava-se pelas vias vienenses de garrafa em punho, proferindo impropérios a quem se dispusesse a ouvi-lo e terminando, invariavelmente, nos braços de Carina, no final da noite.

- Werter, meu querido, por favor, deixa de beber. Estás te destruindo, não percebes? Foste tão rico e elegante... Tiveste tanto poder e consideração, mas não soubeste enfrentar um revés na tua vida e te entregas ao inimigo. O que é isso? Por que o fazes? Não tens amor-próprio, consideração pela tua imagem, estima?

Não sabes o que dizes... Sou um renegado nessas terras xenófobas, hipócritas. Enquanto prestava para servir a políticos e membros da Corte, era útil e tratavam-me com respeito; no entanto, ao decidir participar por mim mesmo da vida política dessa cidade maldita, fui escorraçado como se faz a um cão danado, fui humilhado como se fora um mouro qualquer... Como resistir a tanta pressão se não for pelo amargor do cálice de vinho ou da procelosa e abundante cerveja?

- Não soubeste administrar uma derrota; não deverias, então, ter entrado na guerra. Se lutas é porque contas com a possibilidade de perder. Tua vida vale mais do que um jogo político, ou não? O que a bebida irá consertar? Refará tua imagem no novo gabinete do Governo?

- Tu não és do ramo, pensas com a mentalidade do artista, leviano, febril e inconseqüente. Fui maculado, atacado, vilipendiado. Não me sobra um resto de vida a viver, aliás, tenho somente o teu colo para deleitar-me nas minhas horas de sofridas reflexões.

- Lamento a tua angústia, meu querido, mas sabes que não vou durar para sempre... Tenho minha própria vida e já não quero mais dividir-me entre teu irmão e tu. Deves encontrar um novo rumo a seguir, pois não é certo como temos vivido. A noite, fico na tua companhia e durante o dia, enquanto bebes sem zelo, nem decência, passo com teu irmão. Não quero mais éssa vida.

- O que me dizes? É ele? Odo te impôs isso? Oh, cruel laço familiar que me cinge a esse miserável... Não, não posso perder-te como perdi o pleito. Acabo-me...

- Odo nada tem a ver com minha decisão. Sou adulta e consciente o suficiente para saber que não amo nenhum dos dois e não quero mais perdurar nesse jogo dúplice e inútil. Partirei na próxima semana com o Grupo e irei visitar várias cidades da Europa. Desejo ir sozinha, espero que compreendas...

Werter nada mais disse. Humilhado que estava, já não suportava a idéia de rastejar aos pés de alguém, como gostaria de ter feito diante de Carina. Limitou-se a vibrar em seu coração um ódio lancinante que sufocou completamente sua razão e crispou-lhe as ventas como se estivesse a farejar o motivo dos seus problemas. Depositou-o, injustamente, nas costas do irmão mais jovem, que passava os dias a divertir-se com os artistas do teatro. Desgrudou-se abruptamente de Carina e refutou-lhe qualquer outro agrado. Pôs-se de pé com muita dificuldade e partiu sem voltar o rosto para fitá-la pela derradeira vez. Estava intimamente encolerizado e suas e—porás vibravam como tambores do pelotão de fuzilamento. T;mado pela força entorpecera da bebida, saiu à procura do mão mais novo.

Rodou grande parte de Viena, corrupiando por esquinas alamedas e caindo por avenidas e ruas, até que se deparou com Odo na taberna mais animada da Ringstrasse. Sem mais dizer, agarrou-o pelo cogote e puxou-o violentamente para Trás. Ele caiu e bateu a cabeça na quina de uma das mesas, ficando desacordado por alguns segundos. Recobrando-se, adiantou com fúria e tentou saber qual fora seu agressor covarde. À sua frente estava Werter, o exemplo da família, que sempre dera mostras de ser o mais disciplinado e idealista, fiel e vocacionado.

Acreditou tratar-se de uma pilhéria do embriagado irmão e armou-se para reprimi-lo verbalmente quando uma garrafa foi quebrada no seu rosto.

- Isso é para aprenderes a não te meteres com a mulher alheia, seu inútil! - esbravejou Werter.

Atordoado, Odo contestou:

- Estás louco? Do que falas? Que mulher?

- Não te faças de inocente... Sabes do que e de quem falo.

- Não, não sei... O que significa essa agressão? - indagou : irmão, enxugando o sangue que lhe escorria pela testa.

- Carina... ela vai embora... por tua causa.

Os olhos de Odo arregalaram-se e sua adrenalina verteu rara as veias. O ataque físico não lhe produzira o efeito que nome da mulher amada lhe trouxe.

- O que tem Carina? Que fizeste a ela? Mato-o se preciso for... - proferiu Odo segurando firmemente o pescoço de Werter.

- Larga-me, pusilânime. Ela não te suporta mais e disse que ficará comigo. Se não concordares, irá embora daqui -mentiu, sob efeito etílico, o mais velho.

Não! Impossível! Fui eu quem te apresentou Carina; és um verme, um desgraçado. Falso irmão, maldito sejas! A morte te seria um bálsamo diante da traição que acabas de cometer. Desaparece da minha frente antes que minha razão apague-se por completo.

Werter fingiu dirigir-se à porta, mas voltou correndo e, com uma cadeira às mãos, tornou a ferir o irmão. Foi o bastante para que o furor tomasse conta de Odo, retirando-lhe o raciocínio. Ele apanhou o rofo pano que cobria uma mesa e violentamente enrolou-o no pescoço do irmão, passando a apertá-lo com lentidão e vigor. Os presentes olhavam a cena petrificados e sem ação. Alguns sadicamente deleitavam-se e outros estavam verdadeiramente inertes.

Alguns minutos foram suficientes para a consumação da tragédia e Werter fraquejou, estendeu suas mãos e, envolvido em gólgota, arregalou os olhos e despediu-se da vida material, emitindo ira surda de seu espírito dominado e proceloso, jurando vingança eterna ao assassino. A luz do candelabro tremeluzia enquanto Werter tornava à pátria espiritual, carregado de ódio e enegrecido pela mancha do vício e da irresignação.

Um brilho éneo tomou o ambiente e provocou calafrios em alguns, amansando o delírio violento de Odo.

- O que fiz? Que se passa? (...)

Um silêncio lúgubre invadiu a antes alegre taberna. Ninguém lhe respondeu a indagação diante do quadro fratricida que se desenhara inospitamente.

Caindo em si, apavorado em face do que fizera, Odo lembrou-se de Carina e ameaçou fugir. Os presentes tentaram segurá-lo, mas foi inútil. Libertando-se aos trancos, deixou a taberna num átimo e rumou para a companhia de teatro.

Ali não mais encontrou Carina, que havia partido, antes do momento prometido, para lugar incerto, deixando-o na mais cabal penúria sentimental. Assassinara o irmão e perdera a mulher amada. Antes de cometer uma outra loucura, veio-lhe à mente os dias felizes que passara na colina verde e o seu ímpeto emotivo colocou-o de volta em direção à fraterna Baviera.

1648

Em Oberammergau, Gustav continuava desenvolvendo llr seus brasões e comercializando-os na região. Seu talento, no entanto, era inegável e a notícia da sua habilidade para criar e elaborar tais símbolos nobiliárquicos chegou à Residenz, o belo palácio erguido no século XIV, por ordem do duque Estevão III e atual residência dos Wittelsbach. Convidado a visitá-la, para discutir com o barão Guilherme II um novo brasão que comemorasse o fim da Guerra dos Trinta Anos, partiu para Munique, apressado e esperançoso de que pudesse estender seus negócios, na época circunscritos à região alpestre.

Ficou impressionado ao cruzar o Portão de Isar, edificado no século XIV em memória do rei Ludovico da Baviera, com seus imponentes dez metros de altura, vazado por arcos em estilo gótico e ladeado por torres octogonais. Igual admiração lhe perpassou o espírito ao cruzar com o Portão de Sendlinger, outro marco do mesmo século, com gigantesca altura e vazado por um único arco ladeado por torres hexagonais, com pequenas janelas quadradas.

Seu assombro era fruto de ser a primeira vez em que pisava numa cidade do porte de Munique, com construções que eram verdadeiras obras de arte expostas com magnitude e imponência jamais vistos. Transitando pelo centro da urbe, terminou meditando por alguns minutos diante da bela Marienplatz, a praça central que trazia a recém-concluída Coluna de Maria, erguida por ordem do príncipe Maximiliano I, como sinal de agradecimento pela cidade ter superado a Guerra dos Trinta Anos sem ter sido destruída. Logo atrás dessa coluna, fitou com entusiasmo o prédio em estilo propositadamente rebuscado da Rathaus15. Enquanto seguia a passos vacilantes, sem saber ao certo para onde olhar e como faria para guardar na memória tanta soberba, ouviu uma voz familiar:15 - Nota do autor material: Prefeitura.

- Meu irmão, que surpresa agradável! Há muito não te via e foi a mão de Deus que te trouxe até aqui...

- Hugo! És tu, meu caro! Dá-me cá um abraço.

Comovidos, os irmãos abraçaram-se afetuosamente e por algum tempo nada disseram.

- O que te aconteceu? Nunca mais te vi, nem mandaste notícia aos nossos pais... - indagou Gustav.

- Estava em fase de recuperação. Acredito que foi duro demais a experiência de ver nosso irmão Peter, com quem desfrutamos belos e ternos anos de nossas vidas infantes, conduzido como marionete a um casamento sem propósito e condenado pelo destino a suportar uma megera rude e sem berço. Não, meu caro! Tínhamos uma sólida ligação, não suportaria acompanhar de perto tal situação.

- E fugir adiantou?

- Não sei, nunca parei para pensar. Creio que é este o primeiro instante em que medito sobre o tema, já que estás perguntando. Talvez a fuga de nossos conflitos não seja a melhor solução, mas com certeza é uma das alternativas que temos para superar problemas que nos parecem, em princípio, insolúveis. Sei que causei desgosto aos nossos pais... Não tive opção, ou melhor, tive e escolhi.

- Não te posso culpar. Fiz também uma opção quando fui buscar Mariel em Viena, retirando-a daquela vida desregrada e repleta de pecados. Depois disso, ela não me olha mais e a família culpou-me pela depressão de nossa irmã. Que fazer? Quando optamos por um caminho, mormente certo como o meu, causamos ciumeira nas pessoas que nos cercam e somos incompreendidos. Talvez seja o teu caso...

- Queres dizer que nossos pais, por exemplo, teriam agido como agiram por ciúmes de tua atitude?

Não é o caso de Otto e Inga. Mas tu sabes como eles são influenciados pelos outros, especialmente pelas irmãs. Nota! Fréia nunca gostou de mim e deve ter incutido a falsa idéia de que eu agira como um crápula.

- Ela o fez?

- Crápula eu... o melhor dos irmãos... O mais preocupado com a família?

- Tu fazes excelente conceito de ti mesmo, não?

- Oh, desculpa! Não te pretendia ofender. Quero dizer apenas que sou muito ligado aos laços familiares e preocupava-me o fato de ver Mariel unida a um russo sem eira, nem beira e, o que é pior, sem estirpe...

- Mas não achas que exageraste na reação? Afinal, deixaste para trás duas crianças indefesas que culpa não tinham dos desatinos da mãe.

- Bastardos! São apenas degenerados que podem ser cuidados pela tia, longe da Baviera.

- Nesse ponto tens razão. Como iríamos suportar dois pequenos russos trançando pela colina verde e dando ensejo à maledicência de todos na vila?

- Seria uma ótima oportunidade para Ula... (risos)

- É verdade! Nada lhe escapa à observação ferina.

- E não te arrependes nem um pouco, afinal, foste bastante ousado?

- Às vezes,. mas logo passa.

- Por que não tentas conversar com Mariel; um dia ela acabará entendendo o teu nobre gesto.

- Não! Não pretendo dizer nada a Mariel, pois graças ao ocorrido retirei-me do convívio familiar e recolhi-me em Oberammergau com Charlotte, como naturalmente sabes.

- Guardas algum rancor?

- Em absoluto! Somente não consigo perdoar, o que é bem diferente. Acho, sinceramente, que o perdão é mostra de fraqueza. Nós só perdoamos, repara, quando estamos errados.

- Não seria exatamente o contrário?

- De forma alguma. Aqueles que fingem perdoar seus adversários assim agem porque sabem que estão sustentando uma causa perdida. Sem opção, eles sucumbem à clemência, à piedade, na verdade, à pieguice.

- Não foi o que aprendemos com mama.

- Ela é diferente. É somente uma mulher; não sabe o que é melhor para o mundo. Nós somos homens e, acima disso, somos germânicos, meu irmão. Não posso entregar-me ao mero diletantismo, tenho brio. Conceitos religiosos não me sustentam; afinal, conheço bem os praticantes da religião. Convivo com os beneditinos há muito.

- E como está teu convívio na ordem? Já te sagraste monge? (risos)

- Jamais! Tenho verdadeiro asco à religião. Lá estou somente por interesses financeiros.

- Ainda penso que deverías ao menos conversar com Mariel... Por que não? Faze um esforço.

- Fácil falar, mas difícil agir! Talvez esteja atuando desse modo pela mesma razão que tu preferiste fugir a dialogar com Peter. Se estavas tão preocupado, por que não o ajudaste? Afinal, quando ele mais precisava de ti e do teu apoio, abandonaste-o.

- Nunca de coração...

- Ora, irmão! De coração? E o que ele recebe disso? Sentimentos que vagueiam pelo ar da Baviera até atingir o seu destino na colina verde?

Hugo abaixou a cabeça, pensou por alguns instantes e continuou:

- É... Talvez devesse lá estar para auxiliá-lo, não sei. Somos tão errados às vezes, que nem parece sejamos filhos de Otto e Inga.

- Somos seres humanos, irmão. Crescemos e agora pensamos por nossa conta. Se achamos que nossos pais estão equivocados em alguns conceitos, que fazer? Apenas mudamos o rumo de nossas vidas.

- E para pior, na maioria das vezes. Deveriamos seguir o que aprendemos na época em que mais fomos felizes.

- És um saudosista sem causa, Hugo. Adultos responsáveis não vertem lágrimas pelo passado. O que se perdeu no tempo não retorna mais. Não concordo com a postura modesta de mama, nem com o conformismo de papa. Não cultivo o perdão em meu caminhar e acho que estou certo. Sou digno de meu nome, cresci cultivando tais valores e não vou perdê-los rebaixando-me perante qualquer um.

- Não te vou mudar. E nem pretendo tentar (risos)...

- Não irias mesmo conseguir. E tu? O que fazes em Munique?

- Trabalho na cervejaria real. Não é o que gostaria de fazer, mas tenho que sobreviver. Não nego que sofro ao pensar na colina verde e, especialmente em meu irmão subjugado... Mas...

- Mas?

- Temo voltar e não ser bem recebido.

- Por que não voltas comigo, ao menos por um tempo? Poderías tentar uma conversa com Peter; ele andava mudo e abatido quando o vi por último.

- Até quando pretendes ficar?

- Vou à Residenz. Tenho alguns assuntos a tratar, que não levam muito tempo.

- Oh, muito bem! O que fiz eu para merecer um irmão tão importante?

- És um afortunado (risos). Espera! Estou atrasado. Encontro-te mais tarde?

- Onde?

- Na cervejaria onde trabalhas. Que te parece?

- Por mim está bem. Aguardo-te, então.

Gustav correu em direção ao seu encontro e, poucos minutos depois, adentrava a suntuosa Residenz. A paixão dos Wittelsbach pelas obras de arte era imensa. Em cada sala podia-se encontrar um número incalculável de riquezas e raridades. Cruzando-a de ponta a ponta, pôde apreciar a famosa Galeria dos Antepassados, com os retratos da família real, a coleção majestosa de porcelanas de todos os pontos do Globo, as requintadas pinturas italianas renascentistas, a ornamentação magnífica que o pintor Peter Candid criava para o príncipe Maximiliano I e os relicários do século XVI. O rococó desfilava à sua frente impondo um estilo vigoroso aos olhos e provocante ao espírito de ufn campônio de nascença.

Conduzido a um dos gabinetes privativos, Gustav deparou-se com seu anfitrião:

- És, então, Gustav, o auxiliar dos beneditinos?

- Se assim me conheceis, alteza, por certo que sou.

- Não me chama alteza.

- Perdão, senhor.

- Chamei-te aqui para uma incumbência que quero passar-te. Deves elaborar um brasão para a família real, tendo por motivo o final da guerra que quase nos devastou. Tens um mês para tanto. Não será admitido atraso, nem tampouco má qualidade do serviço. Receberás o suficiente para isso. Aceitas o trabalho?

- Sem dúvida, senhor. Eu gostaria de dizer que...

- Então está bem. Estás dispensado.

Gustav não proferiu uma só palavra após o encerramento feito pelo barão e foi imediatamente acompanhado para fora do palácio. Voltara à realidade após ter vivenciado por alguns minutos tudo aquilo pelo qual vinha sonhando a vida toda. Seu desejo por alcançar a riqueza material estava longe de concretizar-se, mas ele não perdia a esperança.

Dirigiu-se de imediato à cervejaria e tomou a encontrar-se com Hugo.

- Pronto, aqui estou de volta.

- Como assim? Que tempo foi este em que resolveste “negócios”?

- Ora, negócios entre pessoas objetivas acontecem dessa forma. O príncipe precisava dos meus préstimos e chamou-me para conversar.

- O príncipe eleitor Maximiliano?

- E quem mais? Por acaso achas que viria a Munique para falar com algum auxiliar?

- Ele não costuma atender...

- Mas atendeu. O que te importa tal fato? Caminhei por aquela riqueza como se nunca tivesse visto nada igual.

- E não viste mesmo.

- Sei disso, mas ainda me parece um sonho. Oh, Deus! Merecia eu um final como aquele.

Rico?

- Nobre, rico, poderoso... Glorioso é o termo.

- Modesto seria melhor...

- Não graceja. Minha vida em Oberammergau é terminativa. Tenho que ficar rico e sair de lá para sempre.

- E Charlotte concorda com tua visão?

- Pouco se me dá. Vou sair, com ou sem ela.

- Que determinismo para pensar. Tens o mesmo para agir?

- Não só tenho como vou provar-te... Cumprirei a incumbência do príncipe, fecharei mais alguns negócios com os beneditinos e terei o suficiente para sair daquele claustro. Afinal, voltas ou não comigo?

- Sim, ao menos por um tempo. Aceito o teu convite; voltando para casa, pretendo rever Peter, saber se precisa de mim...

- Se ainda estiver casado, certamente que irá precisar de toda ajuda possível.

No dia seguinte, ambos voltaram a Garmish-Partenkirchen. A chegada de Hugo foi triunfante e inesquecível.

- Mama, mama\ Adivinha quem vem lá? - gritou Fréia.

- Oh, meu filho! Meu adorado filho! Voltaste para casa... - completou Inga. Estou feliz, muito feliz.

- Mama, querida. Quando a vejo em meus braços desse modo, tão carente e emocionada, sinto que nunca deveria daqui ter saído... - expressou-se Hugo, lacrimejando.

- Fizeste muita falta, Lieb Vogei.

- Lembras ainda de como nos tratavas quando éramos pequenos?

- E uma mãe alguma vez esquece dos seus filhos? Para mim, sois todos pequeninos e devo cuidar do vosso sossego.

- Querida mama, vamos para dentro, temos muito a falar.

- Vieste sozinho?

- Não, estava com Gustav.

- E ele, onde está?

Fréia respondeu:

- Não quer mais ver Mariel e está sentido com papa...

- Deus! Que fiz para merecer tanta desunião entre meus filhos?

Nada fizeste, mama - disse Hugo. É o ciclo de nossas existências. Cada qual com sua idéia própria e seu rumo individual.

- Mariel é que deveria estar realmente sentida e não é o caso. Acho até que já superou... - argumentou Fréia.

- Sei disso - continuou Hugo - mas os meandros do nosso sentir são infiéis, nem sempre correspondem ao ideal cristão, como mama nos ensinou.

- Será que ele não tem um pingo de compaixão? Não pensa que sua atitude pode estar ferindo a todos nós? -indagou a mais velha.

Hugo silenciou ante a força do argumento. E mudou de assunto.

- Como está Peter? Sofro de pensar que algo lhe aconteceu?

- Não sabes, então? - perguntou Fréia.

- Saber o quê? Gerdha continua a dominá-lo? A situação piorou?

- Por certo que sim.

- Piorou? Oh, meu Deus! O que será de meu irmão?

- Dele, não sei. Dela, no entanto, tenha Deus misericórdia.

- O que dizes, irmã? Não te entendo.

- Ela apanha todos os dias e o inferno está instalado em seu lar. Peter mudou, colocou para fora todo seu sentimento represado por anos. Tornou-se colérico e furioso. Gerdha não pode emitir uma opinião ou fazer um comentário que é agredida. Nada conseguimos fazer, pois ele não nos dá ouvido. Foi muito bom que voltaste; poderás falar com ele.

- Se não és tu, Fréia, que me contas tal fato e não acreditaria.

- Mas é a verdade. Papa já conversou com ele, mama também o fez. Peter está irredutível. Argumenta que o casamento retirou-lhe a família e, especialmente, o teu convívio. Culpa a esposa pela tua partida.

- Eu? Sou então responsável pela mudança de comportamento de Peter?

- Talvez. Ele sempre foi muito apegado a ti.

Que crueza! Que será assim de nossa família?

- Será o que continuarmos fazendo que seja. A discórdia e a desarmonia não são gratuitas e têm uma causa certa. Colocamos as pedras em nossa estrada e agora vemos que não temos forças para ultrapassá-las.

- Deus velará por nós, filha - interrompeu Inga. Um dia, meus filhos se acertarão, nem que para isso eu tenha que dedicar toda minha vida e minha eternidade. Meu amor romperá as barreiras do tempo e os alcançará onde quer que estejais, seja em que época for.

- Do que ela fala? - perguntou Hugo.

- Tem certeza de que é imortal - murmurou Fréia no ouvido do irmão.

- Pode falar alto, Lieb Blume. Creio em Deus e na imortalidade da alma, sim. Viverei após a morte e junto a vós estarei. Tenho certeza.

- Papa sabe disso? - indagou, perplexo, Hugo.

- Não somente sabe, como a apóia... - explicou a irmã mais velha.

- Ele acha que viverá também? Depois de morto?

- Sim, exatamente.

- Mas onde estamos? Que nos acontece? São os padres que lhes dão falsas esperanças, não?

- A religião nada tem a ver com isso. Sabes que ela pensa assim desde que temos memória... Não lembras das cantigas de ninar? Eram cantos da vida eterna...

- Pensei que eram figurativas aquelas imagens...

- Para nós, talvez, mas para ela é a mais pura expressão da verdade.

Enquanto falavam sobre Inga, chegaram Etel e Mariel, vindas das aulas com o idoso professor Mathaeus.

- Não é possível! Estás em casa, meu irmão! - exclamou Etel.

- Abraça-nos... - pediu Mariel.

O ambiente seria de festa não estivesse ali o mestre Mathaeus, na época pivô da desavença entre Etel e Mariel, que também começara a sentir pelo preceptor a mesma ligação sentimental que fulminava a irmã mais nova.

- Meus pupilos favoritos! Não posso ser mais feliz vendo-os todos juntos...

- Mestre! - exclamou Hugo.

Os dois abraçaram-se efusivamente. Foi o que bastou para começarem as farpas entre as irmãs:

- Não achas que agiste muito mal quando estivemos com a família Dãnzel? - indagou, na presença de todos, Etel ao dirigir-se a Mariel.

- Eu? E por acaso percebeste que estavas ministrando lições errôneas aos meninos? Tive que corrigir-te, meu dever de professora falou mais alto.

- Que professora? És uma mera assistente do meu mestre. Não te esqueças que fui eu que te coloquei nisso.

- Não por isso te tornaste dona das aulas ou dos alunos.

- Ingrata! Como ousas corrigir-me na frente de todos?

- Foste tu a causadora disso. Se não fosses tão arrogante, verias que estás errada.

- Mama, exijo que intercedas por mim - clamou Etel. Não quero mais Mariel acompanhando-nos nas aulas.

Hugo, estupefato, voltou-se com olhar indagativo a Fréia.

- E isso, irmão. Desde que partiste já não há paz nesta casa. Ambas disputam a atenção do velho Mathaeus, que, bondoso como nunca, não sabe a quem atender e já se cansou de aconselhá-las. Todos já interviemos mas tem sido inútil. Diariamente saem às turras, brigam por questiúnculas e agridem-se até o momento de adormecer. Não se controlam, nem respeitam quem está por perto. O professor, como percebeste, está acostumado. Mama, com seu amor infinito, orienta-as a cada dia... Em vão!

- Mas isso é pouco... O que, em verdade, acontece?

- Bem, em verdade, sabemos que a carência afetiva de Mariel levou-a a uma paixão platônica pelo professor, o que deixou Etel irascível e irresignada. Vê-se traída e vilipendiada. Por outro lado, a pertinaz Mariel não volta atrás. Sustenta seus sentimentos e diz que sentir não faz mal a ninguém.

- Podia ao menos ser discreta e não alardear...

- E não conheces Mariel? Existe algo que ela não sinta que todos não saibam?

Isso não vai acabar bem.

- E qual ramo da família está tendo um final feliz? Em pouco tempo o ambiente pesou e o mestre retirou-se.

Naquela noite todos dormiram sem a reunião em volta do archote, visto ter sido impossível manter um mínimo de cordialidade e respeito.

Assim que pôde, Hugo foi ao encontro de Peter.
aminhando entre as estreitas trilhas das colinas que volteavam Garmish-Partenkirchen, ele finalmente avistou a cabana do irmão. Cercada de flores montanhesas, tinha um colorido animador ao seu redor, embora
o visitante tenha tido um estranho arrepio ao aproximar-se.

- Deus, que singular! Sinto minha espinha estremecer e minhas mãos tremem... Será a emoção do retorno após tanto tempo? - murmurou sozinho antes de bater à porta.

Não foi preciso esperar resposta.

- Minhas mãos também tremeram muito quando partiste...

- Peter!

- Como estás, Hugo? Finalmente voltaste à colina verde...

- Meu irmão, senti tua falta. Lamento o que houve e retornei para que possamos conversar.

- Nada mais há para falarmos. Vivi um período muito ruim após tua partida, mas estou refeito. A falta que me fazias deixou de existir e atualmente não preciso de mais ninguém. Gustav tomou seu curso e tu saíste de casa quando mais precisei de ti. Até mesmo Ula casou-se e não tornou a procurar-me.

- Não dize isso! Ausentei-me por motivos imperiosos.

- Nada pode ter sido mais relevante do que nossa amizade. Éramos ligados como as folhas fixam-se nos galhos das árvores. Considero uma traição tua partida.

- Se precisaste tanto, por que não demonstraste?

- E era preciso? Se éramos unidos como julgava eu, tinhas a obrigação de saber o que se passava em meu coração.

Mas, Peter, corações não são visíveis como insinuas; pensamentos muito menos. Sei que sofrias, não nego. Não tinha noção, no entanto, de que querias ajuda. Ficavas dias inteiros conosco sem abrir a boca, sem proferir palavra.

- Pouco importa o passado. Agora é muito tarde; não preciso mais de tua ajuda.

- Sempre é tempo de conversarmos...

- Não para mim. Aqui não existe mais espaço para nossa amizade.

- Sei o que andas fazendo para manter-te vivo. Tuas agressões aos filhos e à esposa não te levarão a nada. Estás em processo de vingança contra os anos em que sofreste calado. Por favor, deixa-me entrar para conversarmos.

- Não és bem-vindo, já disse. Torna de onde vieste; é o melhor que tens a fazer.

- As coisas não podem ser tratadas dessa forma inflexível. Se errei estou disposto a pedir o teu perdão, mas não posso ser escorraçado da tua casa, nem da tua vida. Não sei se terei forças para perdoar-me...

- Problema teu. Desta maldita vida não se leva nada. A morte me seria um presente, mas nem isso tenho a meu favor.

- Blasfemas... Pensa nos teus filhos ao menos...

- Filhos que se bandearam para o lado da mãe. Ingratos todos me são.

- Por que não falas com Karl ou com Werter... Eles são mais ajuizados... Poderão ajudar-te.

- Ah! Werter! (risos) Queres que eu fale com Werter?

- Sim, por que não? Qual a graça nisso? Sei que não foste muito ligado a ele, mas, afinal, é um dos mais velhos, tem experiência em frustrações sentimentais...

- Faz-me rir e causa-me nojo. Após anos de ausência, voltas para casa com esse ar angelical de bom moço e nem sabes que teu irmão está morto. Foi enterrado como indigente naquela miserável Viena e nem ao menos sabemos onde. Não pudemos sequer visitar o seu túmulo. Um cão teria tido melhor tratamento.

- O quê? Werter, morto? Pelo amor de Deus, Peter, não queiras magoar-me dessa forma... Para que mentires assim? Só para meu castigo?

Egoísta! De onde estavas não podias ver o sofrimento dos teus por aqui. Fugiste para teu isolamento e agora vens aconselhar-me a perdoar-te. Werter morreu e o pior está por vir.

- Mama nada me disse... Nem papa falou uma só palavra.

- Por que espantar-te de novo? És um fraco, um pusilânime! Naturalmente tiveram medo da tua reação; desde pequeno fugiste de tudo que te pareceu um entrave sério demais para ser vencido. Se soubesses tão logo chegaste, talvez tivesses partido ainda no dia. Engano-me?

- Não sei, oh, Deus, quisera saber que figura horrenda sou eu...

- Nossa família está desgraçada e tua contribuição foi dada para isso.

- Os outros sabem disso?

- Quais outros?

- Nossos irmãos...

- Alguns.

- Quem sabe? Ele não estava em Viena com Carina e nosso irmão Odo? Como Odo permitiu que isso ocorresse a Werter, que era o mais esforçado de nós?

- Odo? Pobre de ti. Odo é o assassino.

A expressão de horror no rosto de Hugo foi automática e fez com que Peter tivesse piedade por alguns segundos.

- Odo? Fratricida? Não, não creio. Por que tudo isso, Deus?

- Porque Werter era um velhaco, pensava só em si mesmo e queria subir na vida a qualquer preço. Sem Karl, no entanto, não passava de um pobre coitado. Candidatou-se, como era seu sonho, perdeu, como era de se esperar. Inconformado, fricote, tomou a mulher de Odo e causou-lhe fúria. Desprezou a moral e pereceu em face dela.

- Quem te contou tamanha barbaridade?

- Nosso irmão Odo...

- Mas como? Onde ele está?

- Na prisão, à disposição do juiz de paz. Aguarda julgamento. Entregou-se o infausto tão logo chegou ao vilarejo, vindo de Viena. Estava tomado pelo remorso e chorava copiosamente; não encontrou sossego enquanto não se apresentou ao juiz. A comunidade, cristã como dizem, liderada por Ula, pasma, exigiu Justiça ao pior dos assassinos, o fratricida, o pioneiro da história de Garmish-Partenkirchen. Não tem a menor chance.

- E Werter? Enterrado como indigente?

- Ninguém o conhecia na taberna onde foi morto; não tinha qualquer identificação, pois caminhava bêbado pela rua. Meses mais tarde, Carina voltou à cidade e descobriu o que havia acontecido. Esteve aqui visitando Odo no cárcere e, depois, esperta, sumiu sem deixar rastro. Não poderá nem testemunhar a seu favor. Está perdido.

Caído de joelhos ao chão, Hugo chorava consultivamente e contorcia-se de dor. Peter, altivo, à sua frente observava sem estender-lhe a mão, nem convidá-lo a ingressar na cabana. Gerdha saiu à porta:

- O que se passa? Oh, Hugo! És tu? Voltaste? Que bom...

- Cala-te e volta para dentro! - determinou Peter.

Ela obedeceu.

- Sabes agora do muito que te foi poupado por conta do teu exílio voluntário. Fica com tuas memórias de uma família que foi feliz e guarda para ti mesmo os sábios conselhos que tinhas para dar-me. Adeus! - proferiu determinado Peter, entrando em casa e fechando a porta atrás de si.

As últimas lágrimas de Hugo escorreram ainda no beirai da choupana do seu irmão outrora mais querido. Deixou o local disposto a riscar de sua vida a família onde crescera e aprendera a amar. Não voltou para a colina verde e partiu, imediatamente, de volta a Munique. Tão cedo não iria pisar em solo álpico.

Em Mittenwald, chegou a notícia da prisão de Odo e, também com atraso, da morte de Werter. Foi a primeira vez, em muitos anos de vida reclusa em seu comércio e dedicado somente à família, que Karl resolveu voltar à colina verde para visitar seus pais e irmãs. Levou consigo apenas Josef, seu filho predileto, ignorando os mais jovens Bertha e Nicolas.

Mama, soube do acontecido e vim para prestar-vos minha solidariedade.

- Karl, filho, não sei se fico triste ou feliz, pois quando chegas, teu irmão Hugo parte... Não entendo mais meus filhos, ora estão muito próximos de nós, ora querem distância.

- Compreendo como deveis sentir-vos, mama. Confesso cue também não sei por que os rumos de nossa família, em rempos passados tão unida, percorrem trilhas diversas e afastadas. De minha parte, não consigo fazer Heiderose entender que Mittenwald não é o centro do mundo e que deveriamos vir mais vezes para cá...

- Ela não gosta de nós, Karl, sê realista! - exclamou Fréia.

- Pode ser... Antes achava que não, mas hoje já não sei. Entretanto, por meu lado, não consigo evitar-lhe a influência; sinto-me inebriado por suas palavras quando ela argumenta em sentido contrário ao que penso.

- E quem te conhece do passado pode estranhar...

- O que queres dizer?

- Quero dizer que eras forte, arrogante, prepotente, dono da situação, condutor das discussões em família. Por que te tornaste assim? Submisso e arredio...

- Tens razão, Fréia, creio que todo homem tem o seu ponto fraco e, um dia, ele vem à tona. Se era forte convosco é porque conseguia sê-lo; atualmente não mais encontro argumentos para objetar a recalcitrância de Heiderose. Acho, de fato, que somos capazes de mudar visceralmente na vida quando nos deparamos com alguma vigorosa decepção ou então temos à frente um novo e viçoso incentivo.

- No teu caso, qual das hipóteses se aplica? Não queres dizer-me que ela foi o teu “viçoso incentivo” (?)... No máximo, poderia ser a tua “vigorosa decepção”.

- É fato! Ela não me significa nada, admito. Qual de nossos irmãos conseguiu casar-se como o fizeram mama e papa? Há amor em nossos relacionamentos? Triste de aceitar, mas pura realidade. No meu caso não é diferente. Meu incentivo para viver é meu filho Josef. Amo-o como a mim mesmo... Faço tudo que estiver ao meu alcance para contentá-lo e viverei até o fim para isso.

- Por um lado, irmão, é belo teu gesto, por outro patético. Então não vês que tens dois outros filhos? O que te faz eleger um deles por teu favorito? Se papa ou mama tivessem feito o mesmo e não fosses o escolhido, o que farias, como te sentirias?

- Nunca pensei sobre isso, mas é o que me dá forças para viver e enfrentar a dura existência que tenho com Heiderose e as crianças. Gostaria, tu bem o sabes, de ter sido um membro do clero e ter desenvolvido minhas idéias e teorias como idealizava. Apoiei a Reforma de Lutero e Calvino para quê? Terminar tomando conta de um armazém barato? Por isso me apeguei a algo e despertei minha atenção para Josef. Sei que, no fundo, os outros podem sentir, mas eles saberão futuramente que não tive opção. Ademais, papa, por exemplo, sempre teve uma preferência por Gustav...

- Ainda que fosse verdade, o que eu questiono, ele nunca o demonstrou com a veemência do modo que estás fazendo. Por outro lado, quando soube do ato de Gustav,. interferindo na vida de Mariel, tomou partido da filha e ele, ferido nos brios, nunca mais conversou com Otto. Estou errada?

- O senso de justiça de papa é inquestionável! Quanto a isso não tenho a menor dúvida. Eu não teria tido essa força. Se Josef fizer algo errado, farei o possível para encobrir; é da minha natureza. Somos diferentes, papa e eu.

- Quanto a isso quem não tem dúvidas sou eu. Mas, já pensaste se ele te decepcionar um dia?

- Não acontecerá...

- Como podes ter certeza?

- Sinto profundamente. É algo que vem de dentro.

- Está bem, meu irmão. Vamos tentar falar do ponto que te trouxe aqui. Odo foi preso e assassinou nosso Werter. Nossa família dividiu-se entre o apoio a um e a condenação ao outro. Alguns têm visitado Odo na prisão e outros não mais querem vê-lo. Qual é a tua postura?

A princípio não mais gostaria de vê-lo, pois sei que Werter não daria causa para o ato bárbaro do qual foi vítima, embora aqui esteja para ouvir todas as versões. Se me convencer, poderei alterar minha posição.

Fréia colocou-se a narrar com detalhes a vida que Werter teve em Viena, seus anseios, suas frustrações, suas andanças e seus amores. Contou-lhe especialmente o relacionamento ambíguo que tinha com Carina e a rivalidade que daí nasceu com Odo. Karl ouviu atentamente e, finalizando, arrematou:

- Culpado foi Odo. Werter estava sob pressão e devia ter sido apoiado pelo irmão e não combatido como foi. Tinha razão meu instinto, nosso irmão Odo não presta, não vale nada. Que pague sua dívida no cárcere sozinho, pois não vou vê-lo jamais.

As posições de Karl eram sempre radicais, num sentido ou noutro; com ele jamais houve meio termo, equilíbrio. Inga respeitava esse posicionamento, mas alertava-o a respeito de sua intolerância.

- Karl, filho, és muito radical em tuas posturas. Julgas com muita facilidade o teu semelhante e raramente absolves quem pecou. Usas por acaso o mesmo critério contigo? Achas que não irás cometer erros na tua vida? Com que medida Deus irá julgar-te se fores tão contundente nas tuas avaliações?

- Ora, mama, vossas concepções são as mesmas, não mudam. Odo errou, pecou e cometeu o pior dos desvios. E um assassino! Não pode ter perdão algum, nem pela lei dos homens e muito menos pela lei de Deus.

- Não dize isso! Deus é misericórdia e perdão. De onde tiraste a idéia de que para ele não há piedade?

- Da fiel interpretação dos Evangelhos. Não deturpemos os fatos, pois se o fizermos terminará havendo a condenação do pobre Werter, que é a vítima e não o algoz.

- Dá a cada um o que é seu. Se Werter errou, devemos saber reconhecer, assim como o faremos no tocante a Odo. Não vou permitir que ele termine seus dias no cárcere como se fosse um renegado, sem família. Por certo que receberá seu castigo, mas não seremos nós os seus juizes.

Sois uma santa, mama\ O mundo real não é assim. Lamento, não comungo do vosso entendimento. Odo para mim morreu. Gostaria de saber notícias de Gustav, com quem me preocupo atualmente. Ouvi rumores de que ele estaria bastante envolvido com atos pouco recomendáveis. E, o que é pior, quer enganar a serpente. Se está lidando com os beneditinos, e eu os conheço muito bem, deve ter a máxima cautela.

- O que tens ouvido, Karl? - indagou Fréia.

- Ele quer partir para Munique, não sei por qual motivo. Para isso, está desviando dinheiro da abadia, sem cessar... Os monges não vão perdoá-lo jamais e eles têm excelente relacionamento na Corte. Ettal é muito preciosa para o príncipe Maximiliano e para a família real.

- Que desgraça mais a vida nos reserva, Inga? - chegou Otto do campo, ouvindo o final da frase. Um filho assassino, outro ladrão... Um apóstata, um agressor de mulheres, outras levianas e sem compromisso com a honra. Deus, Inga, não me avisaste que uma família feliz poderia ter esse trágico final...

- Otto, Otto, bem sabes que assim é a vida. Há opções, os homens são livres, Deus permite que assim seja para que os valores de cada um fiquem à mostra. Não há felicidade plena neste mundo e sabes muito bem. Se tivemos doze filhos sabíamos perfeitamente que não teríamos sossego. E muito difícil viver o presente, quando ele é rude e por vezes cruel, mas é nossa sementeira para o futuro. Compreendamos as limitações de nossos filhos. Cedo ou tarde, passem séculos se for preciso, entenderão qual é a lei de Deus e farão a correta opção. Nossa tarefa, agora, é auxiliá-los a errar o menos possível... E a isso não nos furtaremos.

Inga era incisiva quando necessário; jamais perdia a calma e chegava mesmo a orientar papa quando ele parecia perdido ou irresignado. A conversa não prosseguiu. Karl despediu-se e resolveu passar por Oberammergau antes de seguir para seu vilarejo, a fim de levantar dados quanto ao procedimento de Gustav e, se fosse possível, alertá-lo das conseqüências que viriam.

Em algumas horas alcançou a cidade vizinha e dirigiu-se ciretamente à casa do irmão.

Karl, que surpresa! Trouxeste alguma notícia especial ou, quem sabe, estás precisando de alguma coisa? -recebeu-o à porta Charlotte, com um sorriso amarelo nos lábios.

- É assim que me recebes após tanto tempo? Dá-me cá um abraço...

Cumprimentaram-se os cunhados com maior entusiasmo ipós o generoso convite formulado pelo primogênito.

- Desculpa minha intolerância e relativa frieza, mas estou vivendo em completo isolamento, visto que teu irmão não me faz companhia e nem ao menos dorme em casa. Há meses estou em total solidão... Sei que ele tem planos de deixar-me e está preparando sua mudança para Munique. Pouco me importa, afinal, parece que sua paixão por mim fora, como tudo o que faz na vida, egoísta e superficial.

- Que amargor, Charlotte! Não seria somente uma fase ruim que estais atravessando?

- Só se essa fase começou quando nos casamos... Do contrário, permaneço no mais absoluto vazio sentimental. Perdi meu filho, como sabes, de modo trágico. Após a morte de meu primeiro marido, com quem também não fora feliz, a única esperança que me dava força para viver era a Casa Branca, onde desempenhava com amor minhas tarefas. Ele me retirou de lá e o que me deu em troca? Nada, absolutamente nada. Não teria vindo para cá, nem tampouco deixado meu negócio se não fosse pela insistência de meus familiares e do próprio Gustav. Passo meus dias cuidando de esculturas e já nem sei se estou manufaturando minha própria imagem na madeira...

- Sinto muito saber disso. A propósito, quero te mostrar meu filho Josef. Cresceu muito da última vez que o viste. Onde está? Um momento, por favor...

O rapazote estava na oficina de Charlotte, sem ter sido convidado, imitando tocar um violino e utilizando para tal alguns pedaços de madeiras que encontrara.

- Josef, por favor! Quem te permitiu ingressar assim em local estranho? Pede desculpas...

- Sinto muito - balbuciou o menino.

- Oh, não é nada! Venha, Josef, vou mostrar-te outras peças com as quais gostarás de brincar. Lembras-te de mim? Sou tua tia Charlotte.

- Papa me fala tudo sobre a família, mas, confesso, não me recordo da senhora.

- Tudo bem, tudo bem! Eu também não me recordo de muitos... Vem comigo.

- Ele adora violinos, nunca vi nada igual... Quero introduzi-lo no mundo da música, mas tenho encontrado alguma dificuldade em conseguir um bom instrumento.

- Por que não tenta em Munique?

- Não tenho condições financeiras de ir até lá, nem contatos para localizar o que desejo.

- Quem sabe teu irmão Gustav, que está de mudança para lá, não te pode ajudar?

- Não sei se poderei pedir-lhe auxílio, visto que vim para saber com maior minúcia a respeito de suas atividades pouco recomendáveis. E se ele continua o mesmo, não irá gostar do que lhe vou dizer.

- E não vai mesmo. Se vieste no intuito de repreendê-lo de algum modo, desiste. Não estarás falando com alguém disposto a ouvir-te.

- Sei disso, mas ainda assim acho que é minha obrigação; primeiro porque sou o irmão mais velho e depois porque já pertencí àquela abadia. Lá não é local para brincadeiras.

- Não sei o que o move a ser tão desonesto e ganancioso... A mim repugna-me estar casada com um homem assim. Mas acho que é por pouco tempo...

- Charlotte, posso deixar Josef em tua companhia para procurar pelo teu marido?

- Certamente que sim! Ah, por que não trouxeste também os outros?

- Filhos?

- Sim. Por que não os trouxeste também?

Bem, é uma longa história. Não tenho tempo para explicar-te. Voltarei em breve. Até lá.

Saiu rapidamente sem dar à cunhada qualquer explicação, embora o jovem Josef, vivo que era, resolvesse fazê-lo.

- Papa só gosta de mim. Diz que sou a razão da sua vida. Os outros são apenas filhos biológicos, eu sou do coração. E o que diz.

- Oh, meu Deus! Que família! - murmurou Charlotte sem que o rapazote percebesse.

Caminhando um pouco, Karl chegou a um posto de representação comercial dos negócios dos beneditinos que ficava em Oberammergau, sob os cuidados de Gustav. Avistou-o lá, bastante cansado e sem a menor condição de esboçar uma reação de contentamento.

- És tu, Karl... - disse secamente. Que bom ver-te de novo. Vieste por qual razão?

- Estás macerado! O que vens fazendo para chegar a tal ponto?

- Trabalho muito, é só.

- Que tipo de trabalho conduz o homem a esse estado?

- O que queres dizer com isso?

- Sabes a que me refiro, todos na região sabem; até mesmo os beneditinos sabem...

- E mandaram-te aqui? É isso? Perdes tempo se vieste como emissário daqueles crápulas; nada fiz de errado e tenho como provar.

- Gustav, meu caro, és ingênuo! Achas mesmo que eu viria a mando da Ordem? Saí de lá há muito e não pretendo voltar. Vim porque soube o que andas fazendo e tenho o dever de alertar-te para o mal que fazes a ti mesmo. Eles não te irão perdoar e caçar-te-ão mundo afora até que restituas ceitil por ceitil do que retiraste dos cofres da abadia.

- Tolice! Nada farão contra mim, porque nada fiz.

- Somente tu pensas assim.

- O que queres, Karl? Achas que sou o patético do Werter, que Deus o tenha? Vieste reprimir-me como fazias com nosso irmão? Estás lidando com a pessoa errada. Sou tão prepotente quanto tu, logo, perdes tempo.

Não sejas pretensioso, isso sim. Negar os fatos ou ofender-me não irá salvar-te da ira beneditina. Sei que eles articulam contra ti. Se quiseres enfrentá-los, faze-o, mas estejas prevenido. Cumpri minha parte. Pouco se me dá se irás ou não triunfar nessa luta. Sempre foste arrogante e convencido, portanto, não te atribuo nenhum valor a ser respeitado, exceto o de, por mero acaso, ter nascido meu irmão. Se aqui vim, é porque não gostaria que mama sofresse ainda mais nesse final de vida. Tantos problemas juntos na família não lhe permitem mais dormir em paz.

- E tu, defensor dos ideais familiares, achas que podes resolver tudo com teus argumentos? Por que deixaste-nos para casar com Heiderose e mudaste de vida e de cidade? Por que não fizeste como Fréia que dedicou sua vida inteira aos pais e irmãos? Quem és tu para dar-me lições de moral?

- O que te digo vai além de uma mera lição de moral, é uma questão de sobrevivência. Se queres perecer, problema teu, integralmente teu. Pobre Charlotte, tinha mesmo razão. És um pária, um corrompido.

- Ah, estiveste com ela... É por isso que estás particularmente forte em teus argumentos. Pois saibas que ninguém nesse mundo me importa, a não ser eu mesmo.

- Quanto a isso não tenho mais a menor dúvida.

- E não é para ter. As pessoas são naturalmente egoístas e o mundo construiu-se dessa forma. Não és Deus para mudar o rumo das coisas e, desse modo, salva-se quem for o mais esperto. Ninguém se preocupa com o bem-estar alheio e não serás tu, salvador das causas perdidas, que corrigirás a sociedade. Aliás, se ainda fosses religioso talvez pudesse fazê-lo, mas o teu egoísmo também falou mais alto e deixaste a ordem. Não és nada mais, nem menos do que um comerciante. Não me venhas falar de moral...

- O que faço ou fiz da minha vida não muda a imoralidade e a ilicitude dos teus atos. Estás roubando o que não te pertence. És um ladrão, Gustav! Se acreditas que o mundo todo age como tu, estás muito mais enganado do que pensei.

Lamento ouvir o teu canto em prol do exclusivismo, eliminando até mesmo quem te criou e educou. Mereces o fim que estás em vias de ter.

- Sai daqui! Não desejo mais conversar com um algoz travestido de irmão. Fora! Faço o que bem entendo e não admito repreensões de estranhos...

- Estranhos?

Gustav não percebeu a gravidade do que havia falado e repetiu:

- Sim, és um estranho para mim. Adeus. Vá! Esquece que existo.

- Não será muito difícil. Deus te poupe da ira do inferno.

Karl estava bastante abalado diante do que ouvira do irmão. Voltou a Oberammergau, despediu-se fraternalmente de Charlotte, desejando-lhe sorte e voltou para Mittenwald. Mas já não era o mesmo.
uando se aproximou a data do julgamento de Odo, a família mobilizou-se e alguns foram prestar-lhe alguma assistência. Nem todos trilhavam o mesmo caminho, pois Ula estava com o marido fazendo pressões e movimentos na comunidade pela condenação do irmão, que considerava um cruel assassino. Sua religiosidade obsessiva e superficial não lhe permitia perdoar um fratricida, nem que fosse seu próprio sangue. O confronto se deu nas proximidades da Corte Judicial, quando Inga deparou-se com uma passeata tendo à frente a filha.

- Ula, o que fazes aqui liderando esse grupo? Estás agindo contra teu irmão?

- Não, mama, estou clamando por justiça, algo que Werter não teve a oportunidade de ter quando pereceu em mãos desse vil assassino.

- Não fala assim, é teu irmão. Não importa o que fez, Deus irá castigá-lo a seu tempo. Não é isso que aprendeste nos postulados católicos?

- E aprendi também que a justiça dos homens deve ser feita, ainda que dura e implacável. Meu marido é expoente dessa sociedade e não posso, como irmã do réu, tentar auxiliá-lo de qualquer forma. Espero que me entendas...

- Não te peço que o auxilies, mas também não desejo ver-te contra ele. Não entendo o que te move a agir desse modo.

- Meus ideais, mama. Devo respeitá-los.

- Mas, Ula, nunca respeitaste ninguém. Sempre foste maledicente e ferina nos teus comentários, enfrentando a ira alheia. Por que ages assim contra teu próprio irmão? Não achas que deverias poupá-lo?

- Poupar quem tirou a vida do próprio irmão? Estou admirada em ver-vos, mama, defendendo o assassino de Werter.

- Filha, não sejas rigorosa! O mal está feito. Odo está arrependido, tanto assim que se entregou espontaneamente ao juiz. Podería ter fugido, mas preferiu enfrentar as consequências do seu ato. Não levas em conta a coragem que teve?

- Se o fez, foi por mero remorso. O mal que praticou não tem perdão.

- E há males para os quais inexiste o perdão?

- Muitos, entre os quais o fratricídio.

- Que triste, minha filha! Que posso fazer? Devo con-formar-me... Tantos filhos já perdi.

- Mama poderá conformar-se, Ula, mas eu não - disse Fréia colérica. Nunca mais torno a falar contigo, pois estás agindo contra teu próprio irmão. Ele está arrependido, entregou-se e aguarda sua pena. Por que interferir nisso fazendo uma mobilização na comunidade?

- É problema meu, Fréia! Não te diz respeito. Se não quiseres mais falar-me, muito bem. Não tenho nada a perder. Continuarei com minha posição e nada me fará mudar - disse, virando as costas para a irmã e indo de encontro ao seu grupo de senhoras católicas.

- Deixa, Fréia. Não tornes mais difícil para mim esse julgamento - pediu Inga. Sei, no fundo, que Deus assim quis.

Tive muitos filhos e vários espíritos rivais em meu próprio lar. Tentei dar-lhes amor toda a minha vida, mas não foi suficiente para aparar arestas do passado. Devo resignar-me...

Amanhã será um novo dia e novas vidas eles terão...

Fréia não compreendia muito bem as afirmações de Inga, mas as respeitava e, por isso, ficou silente.

O julgamento foi tenso. Membros da família foram chamados a depor. Alguns tomaram o partido da vítima e acusaram com veemência o réu. Outros, mais indulgentes, tentaram defendê-lo, ressaltando suas qualidades. Tudo foi em vão. A Corte Judicial era conduzida, naquele instante, por tratar-se de julgamento de homicídio, pelo juiz de paz investido em especial jurisdição para o caso. Subordinado ao Curador, que governava a cidade, não tinha muita autonomia e iria fazer o que a política local determinasse. Outra não foi a decisão senão a pena de morte.

Quando divulgada, poucas lágrimas foram derramadas na assistência. Inga foi uma das que não chorou, pois já esperava pelo pior e sabia que era Desígnio Divino. A sentença não foi imediatamente executada, porque, em casos tais, necessitava-se de uma autorização do Governo bávaro.

1649

ntes da execução, Otto resolveu conversar com o filho condenado, levando-lhe alento e esperança e cumprindo um pedido de Inga, que não se encontrava bem de saúde. O cárcere é sempre uma lembrança triste para os visitantes e um local de profunda reviravolta espiritual para os que nele estão. Da prisão à rebeldia e à irresignação contra Deus é suficiente pouco tempo, exceto para os mais fortes e equilibrados que conseguem vislumbrar na linha do horizonte algo mais que o majestoso pôr-do-sol. É preciso ter muita fé ?ara passar por uma prova como essa em qualquer parte do mundo; apesar de estar pagando uma dívida à sociedade, é certo que não há celas que sejam benquistas. Alguns dizem tratar-se de um mal necessário, outros de uma expiação obrigatória e erceiros falam das prisões como local de vingança social. Enfim, cada qual, ao longo dos séculos, teve sua idéia rarticular sobre o assunto. Para nós, doutrinados por nossos pais, sempre achamos que os cárceres fossem locais de provações, naturalmente dentro dos parâmetros da Justiça Divina, onde nada acontece por acaso. Portanto, ainda que se constituíssem em lugares para o cumprimento de castigos, deveríam ser humanizados e estruturados para receber seres humanos e não animais; deveríam, ainda, ter a possibilidade de reeducação dos que lá estão detidos e nunca deveríam transformar-se em locais de embrutecimento do espírito, nem destinados a qualquer tipo de revanchismo.

Atento a tais postulados, Otto foi ao encontro do filho, àquela altura sublevado e desditoso, envolvido que estava na mais pura teoria maniqueísta.

- Papa - disse Odo olhando-o com indiferença - o que vieste fazer aqui?

- Conversar um pouco. Posso entrar?

Recebendo sinal positivo do preso, o guarda abriu a cela.

- Trago-te lembranças de toda a família, especialmente de mama, que não pôde vir por estar adoentada.

- O Governo autorizou minha execução...

- Eu sei - assentiu, entristecido, Otto.

- Dizem que sou um dos piores assassinos que por estas paragens já passou. Não suportam a idéia de ter ocorrido um fratricídio.

- Filho, sei que o que te vou dizer pode soar-te inverossímil ou mesmo um consolo, mas não posso furtar-me a falar-te a verdade do meu coração.

Odo levantou a cabeça, que estava baixa e imóvel e fitou a figura do genitor.

- Estou velho, como podes ver, não tenho muito mais a viver. Durante toda minha existência, cultivei dois objetivos acima de tudo: casar-me com a esposa ideal e ter uma família ideal. Para isso, estudei, dediquei-me à formação intelectual e moral de meu espírito, enquanto meus pais estavam vivos. E quando deixaram esta vida, vim para a Baviera à procura da realização do meu sonho de infância. Logrei atingi-lo...

- ... no tocante à mama, acredito.

- Não, acima disso, creio que o atingi em ambos os sentidos e, por isso, avisei-te antes; o que te vou dizer pode >oar-te inverossímil, mas é a realidade. Quando conheci e depois casei-me com tua mãe, de fato realizei a primeira parte do meu sonho. Mas ao ter tido a sorte e a possibilidade divina de ter meus doze filhos, criá-los na colina verde, onde fui e sou autenticamente feliz, ter vivenciado momentos maravilhosos dos quais jamais me esquecerei, ainda que os séculos me conduzam a outros lugares, enfim, sinto que te deveria dizer que fui e sou feliz por vos ter por meus filhos.

Odo sentiu um aperto na garganta, mas controlou-se e continuou:

- Sou o símbolo negativo dessa família, meu pai. Nunca prestei para nada e acabei por tirar a vida daquele que seria o símbolo do orgulho dos Bergvolk. Morro agora como um rato, sem apoio, nem suporte de quem quer que seja. Carrego comigo seja lá para onde for o ódio eterno àqueles que me tomaram a vida.

- Por favor, Lieb Vogei, não penses assim, nem ajas desse modo. És um moço forte e responsável na essência; teu mal foi ter sido fraco momentaneamente ao enfrentar uma prova, mas todos somos um dia ou outro. Confesso-te, meu filho, que quando soube da morte de Werter, condenei-te a atitude e não desejava mais ver-te. Errei e não me constranjo em admiti-lo. Quero ressarcir-me das mazelas do meu espírito e reiterar-te que te amo e para sempre te amarei, assim como tua mãe e teus irmãos sentem do mesmo modo.

- Papa, tuas ações comprovam tuas palavras e não há

por que duvidar de ti. Foste um maravilhoso pai para todos nós e mama, nem se diga, a mais amorosa de todas as mulheres que nesta Terra já habitaram. Meus irmãos, contudo, não sentem assim, tenho certeza. Alguns, talvez... A maioria condena-me pelo que fiz, sem ao menos me terem permitido explicar. É fato que jamais serei perdoado por ter tirado a vida de um irmão, mas não posso ser alijado do mundo, não deveria ser, pois continuo um ser humano e seres humanos erram, ainda que as pessoas finjam esquecer-se disso. Não quero, pois, justificar o que fiz, mas gostaria de ter obtido um mínimo de solidariedade deles, visto que nem pude narrar-lhes o que Werter fez para conduzir-me àquele estado de insanidade repentina. Sofro com isso e levarei comigo essa mágoa.

- Odo, não deves permanecer nessa vibração de ódio e rancor. Sei que estás arrependido por ter feito o que fez ao teu irmão, mas não cometas agora o mesmo erro contigo. Se erraste uma vez ao odiá-lo, ainda que por minutos, não permaneças nessa faixa, irado e magoado, contra todos os teus.

- Que posso fazer se é assim que sinto? Como irei reparar o mal que fiz se não me deixaram explicar? Eles me odeiam, eu sinto. Devo odiá-los também.

- É o velho adágio e errônea concepção trazida de uma infeliz interpretação das Escrituras do olho por olho, dente por dente. Não é certo. Perdoa, meu filho. Mostra que és superior àqueles que te querem o mal. Eleva-te diante dos teus algozes e vibra amor.

- Não sou perfeito, nem tenho o amor de mama no coração. Posso dizer-te, meu pai, nesse momento final que irei perdoar, mas estaria mentindo pois no instante em que virásses as costas, estaria eu a odiá-los com toda a força do meu âmago.

- Então, somente a força do sofrimento te irá fazer mudar.

- Talvez... Se existir mesmo vida após a morte, como aprendemos. Aliás, se seguirmos os parâmetros católicos, nos quais fomos criados, estarei condenado lá também ao fogo do inferno, não é assim?

- Sabes que em nossa casa as palavras de Jesus sempre tiveram outra conotação... Sabes, por certo, que não usamos a mesma doutrina da Igreja católica, ainda que católicos sejamos.

- E como pode ser isso? Ou são ou não são católicos...

- Somos, mas isso não quer dizer que os homens que manipulam o catolicismo estejam certos. Certa pode estar a teoria, mas não a sua prática. E por isso que surgiu o movimento reformista, ao qual se integrou teu irmão Karl há algum tempo; mas também não somos protestantes. Somos cristãos. E Jesus nos disse que há muitas moradas na casa de meu Pai, portanto, sabemos que a vida não termina nesta ornada e que daqui iremos para outros planos, talvez distantes, talvez próximos. Na verdade, porém, iremos nos reencontrar cedo ou tarde. Não deves vibrar ódio contra teus irmãos e contra teus acusadores, pois não te irás furtar de revê-los no futuro.

- Tuas explicações, papa, são convincentes mas não para um condenado. Estou à espera da morte e meu coração está fechado ao amor; nele só encontra força o ódio e a vingança. Podes achar que estou delirando, mas até mesmo de Werter guardo ressentimento. Ele me jogou nessa cilada, pois obrigou-me a matá-lo. Sabia que eu estava enamorado de Carina e ela era minha. Aproximou-se da moça e tomou-a de mim, julgou-me um ignorante e riu-se de minha falta de conhecimento e cultura. Nunca quis ser um político, meu pai, mas não sou tão sem instrução quanto ele me fazia crer, afinal, fui educado na mesma cartilha que todos os meus irmãos. O professor Mathaeus não fez qualquer distinção entre nós. Mas não! Para ele, eu não passava de um ser ignóbil, medíocre mesmo, a quem não se deve respeito e de quem tudo se pode esperar. Levou-me a mulher, humilhou-me e agrediu-me diante de meus companheiros. Nada lhe havia feito. Nunca havia interferido em sua vida... Não compreendo por que ele assim agiu.

- Será que não esperava de ti um pouco de ajuda e apoio quando concorreu às eleições? Quem sabe não se sentiu traído quando o deixaste à míngua logo após a derrota? Afinal, eras o único parente que tinha em Viena naquele momento triste e solitário. Ademais, meu filho, não mo disseste que ele estava embriagado; pessoas nesse estado não sabem o que estão fazendo.

Odo meditou por alguns segundos e tornou:

- Pode ser, meu pai, que eu não tivesse dado a ele o apoio que desejava, mas quem fora Werter para mim? Um autêntico desconhecido, um irmão que desde cedo passava por mim e não me enxergava; fingia não me ver nas brincadeiras coletivas, desprezava-me nos momentos em que Karl propunha algum jogo com os menores; tinha em mim, por alguma razão, uma pessoa sem relevo algum. Nas refeições era todo elogios para Karl e somente críticas para mim. Que deveria eu fazer quando ele candidatou-se? Exercer a solidariedade que ele nunca teve para comigo? Deveria ter sido um “deus”, meu pai, para sofrer resignado tantos anos e depois estender-lhe a mão quando necessitou.

Otto sabia que o filho tinha relativa razão. Por motivos desconhecidos do presente, mas certamente conhecidos do passado, Werter nunca fora um bom irmão para Odo, nem o tratara com amor e consideração. Entretanto, como era mais velho e melhor preparado intelectualmente, por seu esforço próprio, conseguiu conduzir as atenções da família para o seu lado, deixando o outro isolado e infeliz.

- Sempre tentamos integrá-los, mas houve, de fato, uma barreira natural. Compreendemos que algumas 'arestas levam anos, senão séculos, para serem aparadas, mas jamais poderiamos imaginar que as coisas iriam ficar piores. Por outro lado, Odo, houve um tempo em que todos fomos realmente felizes e unidos, não?

- Sim, não nego. Éramos muito pequenos... Acho que desde 1630 perdemos a noção de que algum dia fomos uma autêntica família.

- Por que essa data em especial?

- Não sei explicar, mas nesse ano, lembro-me com perfeição, as refeições já começaram a não ser as mesmas e as disputas entre nós tornaram-se acirradas. Eu pouco falava, meu pai, mas sempre tive boa memória. Tenho certeza de que esse ano foi um marco em nossas existências.

- Então, filho! Se tens tantas boas lembranças, mesmo que de alguns anos, leva-as contigo e abandona os maus propósitos, pois somente irás sofrer com a vingança preen-chendo-te o coração.

- Deveria ser assim, papa, pois sei que tens razão. Mas não é. Somos o que somos e não podemos mudar de um momento para outro. Amargo dias horríveis nesse cárcere e a única visita que recebi, verdadeiramente honesta, foi de Mariel.

- Mariel? E tua mãe e Fréia, não contam?

- Sim, eu sei que vieram. Mas foi Mariel que me pareceu a mais honesta, pois igualou-se a mim. Disse-me que compreendia exatamente o que eu estava passando pois horrorizava a ela a sensação de que alguém pudesse estar preso. E tinha razão. Estou na mais absoluta depressão e digo-te, papa, não fosse morrer por sentença, talvez tirasse minha própria vida. Achei que sua palavra fora sincera e demonstrara sua real ?reocupação. Os demais só vieram para trazer-me esperança... Esperança de quê? De morrer em paz? De morrer sem odiar e desejar vingança? Não conseguirei ir contra minha natureza. Se tiver que pagar no futuro, pagarei, papa, com toda certeza pagarei. Mas não mudarei um só ponto do meu sentimento; não porque não quero, mas porque não consigo.

- Todos conseguem se quiserem, meu filho. O ser humano tem essa vantagem; não tem somente instintos, tem sentimentos e estes podem ser conduzidos de modo racional. Para tanto, é preciso uma luta interna, uma força que deve brotar do teu próprio âmago e que certamente pode fazer-te triunfar.

- Agradeço teu empenho, papa. Jamais te esquecerei pelo que representaste em minha vida. Tua presença, no entanto, faz aumentar meu sofrimento. Peço-te que me deixes...

Otto já não tinha o que argumentar e sabia que não iria vergar o filho naquele momento derradeiro. Resolveu atender-lhe o pedido. Abraçou-o com firmeza e, lacrimejando algumas gotas de amargor, próprias a todo pai, deixou a cela. Naquela existência, sabia que não mais tornaria a ver o filho. Era o segundo que perdia. Caminhou em direção à colina verde, não sem antes parar por alguns minutos na trilha onde Werter costumava filosofar durante horas e de onde avistava toda a bela cidade de Garmish, dedicando à memória do filho que partira e ao espírito do que estava por ir uma emocionada oração.

Foi envolvido por luzes brilhantes, segundo nos contou depois, e sentiu-se fortalecido para continuar sua cruzada de amor.

1651

A notícia de que Gustav estava desaparecido difundiu-se pela região. Após a execução de Odo, os beneditinos resolveram agir e, subitamente, o posto de abastecimento da abadia, situado em Oberammergau, ficou sem o seu representante.

Charlotte, com toda a indiferença que lhe era peculiar, apavorou-se e recorreu a Karl, partindo para Mittenwald, pois estava com medo de ser também “raptada”, segundo acreditava, pelos monges de Ettal.

Otto, acompanhado de Peter, também se dirigiu à casa de Karl e lá realizou-se uma reunião.

- Finalmente, resolvestes sair da toca... - saudou-os à porta Heiderose.

- Primeiramente, saudações, Heiderose - lembrou-lhe Otto no primeiro contato que mantinham após anos.

- Oh, desculpa minha indelicadeza - proferiu com ironia. Como estais, Otto e Peter?

- Estamos muito bem... Ao menos estávamos até vermos e sentirmos a tua amabilidade natural. Se não te importas, agora que já nos cumprimentaste com esse teu peculiar entusiasmo, poupa-nos de tua presença e deixa-nos a sós, sim? - devolveu-lhe Peter, no seu estado de espírito habitualmente irritado.

- Que família! Não bastam meus problemas e sou levada a receber-vos em minha casa para solucionar o caso de um ladrão sem a menor categoria... Ficai à vontade! Tenho mais o que fazer mesmo. Vamos, meus filhos, vamos! - saiu Heiderose, furiosa.

- Entrai, por favor. Esquecei o que ela vos disse... -recomendou com tranqüilidade Karl. Sejais bem-vindos ao meu lar. Papa, estou feliz em ter-vos aqui.

- Sei disso, meu filho. O momento é delicado e, se não te importas, vou direto ao assunto. Peter e eu viemos para saber notícias de Gustav, que sumiu como todos sabem há alguns meses.

- Oh, Deus! Eles o levaram, tenho certeza. Deve estar sofrendo torturas atrozes... - choramingou Charlotte.

- Nem por isso, minha cara. Teu ânimo nunca foi de fraternidade ou de amparo ao meu irmão, por isso, não venhas com essa encenação.

- Peter! - advertiu Otto.

- Sinto, papa, mas essas cunhadas são de amargar...

- Porque ao menos podemos falar e não somos covardemente agredidas como ocorre com a pobre Gerdha, caríssimo -devolveu Charlotte, recobrada.

Peter levantou-se e partiu em direção a Charlotte com o dedo em riste.

- Mete-te com tua vida miserável! Não sabes do que falas...

- Sei muito bem que és um poltrão diante dos homens e valente diante das mulheres... Vais agredir-me também? Estejas à vontade. De tua família não espero mais nada.

- Peter, chega! - interferiu Otto, de modo incisivo.

- Está bem, papa. Resolverei esse assunto outra hora.

Charlotte deu de ombros.

- Karl, tens algum dado sobre o paradeiro do teu irmão?

- Lamento, papa, mas ouço apenas rumores. De fato, como sabes, ele envolveu-se em desvios de somas pertencentes à abadia. Sabíamos que os beneditinos não iriam assentir pacificamente e dariam a resposta. A hipótese mais provável é que ele esteja, agora, em Ettal, “prestando suas contas”.

- E o que podemos fazer para tirá-lo de lá?

- Não muito. Como sabes, o príncipe gosta muito dos monges e não irá interferir em nosso proveito. Logo, resta-nos o caminho da diplomacia.

- E o que isso significa?

- Penso que terei de fazer-lhes uma visita em nome dos velhos tempos. Talvez consiga alguma informação e, a partir daí, poderemos discutir o que fazer.

- Está muito bem! Faze o que deve ser feito. Queres que Peter vá junto?

- Não, já tenho problemas demais a resolver. Se ele ficar, creio que haverá uma implosão doméstica e outra na abadia, pois o seu temperamento não é dos mais recomendáveis para uma missão diplomática. Sem ofensa, Peter - terminou dirigindo-se ao já insatisfeito irmão.

- Vamos, então! Qualquer notícia, leva ao nosso conhecimento - terminou o assunto Otto, ajeitando os safões antes de sair.

- Assim farei, meu pai.

Karl encarregou-se de verificar o que ocorrera com Gustav e começou os preparativos para ir a Ettal.

Papa - indagou-lhe Josef - o que farei na tua ausência? Não posso ir junto?

- Não, meu filho. Fica com mama e os irmãos. Voltarei em breve.

- E se não tornares? Minha vida não terá sentido algum...

- É isso! Criaste um medroso, um coitado... Viste no que deu tua educação parcial? - invadiu a conversa Heiderose.

- Ora, não me aborreças...

- Nunca queres ser aborrecido. Es o onipotente nesta casa! Estou farta! Bertha e Nicolas estão perdidos, largados ao acaso porque não têm pai. Que males fizeram para terem sido rejeitados dessa maneira? Se não me aturas, Karl, azar o teu... e meu... mas teus filhos não têm culpa. De onde tiraste essa forma obtusa de educar? Tua família pode ter todos os defeitos, mas teus pais não te educaram desse modo, discriminando-o como se fora um pária.

- Não sabes o que dizes... Trato-os todos do mesmo modo e não tenho culpa se Josef é mais apegado a mim e compreende-me melhor as palavras.

- Bobagem! Nenhum filho nasce compreendendo “melhor” o pai ou a mãe. Tu o transformaste no teu dileto. Poderás arcar com isso no futuro, pois ele nada sabe fazer sem o teu auxílio. E quem garante que é feliz?

- Não é momento para discutirmos. Tenho que partir. Entretanto, de uma coisa estou certo, somente tu nesta casa é que me odeias... Meus filhos jamais o farão. Fica com Deus, Heiderose! Irás mesmo precisar do auxílio divino...
ecebido na majestosa sala de reuniões da abadia de Ettal, após ter passado por incontáveis portas e gradis, dando-lhe a sensação de ter ingressado num autêntico presídio, Karl revolveu um pouco do passado,
tentando ser amistoso e quebrar a resistência do sage prior.

- Vieste, então, em busca do teu irmão? Mas por que logo aqui? Haveria alguma razão para procurá-lo em Ettal?

- Talvez sim, talvez não. Em verdade, ousei contar com a tua colaboração, meu amigo, porque desde que saí da abadia que um dia podería voltar a usar da solidariedade beneditina quando fosse preciso.

- E nisso acertaste com perfeição; jamais esquecemos um -~.igo que nos deixa - proferiu com certo sarcasmo o abade.

- Pois é isso! Volto tentando sensibilizar-te a auxiliar uma •emília em desespero. Meus idosos pais estão em completo eesconsolo e, como irmão mais velho, devo interceder para - jdá-los a superar essa dura fase, não?

- Sem dúvida! Bons filhos ficam ao lado de seus pais em momentos tão difíceis. Aliás, tua família vem enfrentando um verdadeiro tormento, não? Soube do triste fim de Odo... Meus sentimentos!

- Agradeço-te a consideração em lembrar-te...

- E por Werter também...

- Agradecido.

- É... deve ser muito duro a um pai e a uma mãe ter filhos assim... após tanto o que fizeram... tanta educação...

- Perdão, irmão, assim como?

- Tão, como direi para não te constranger, problemáticos...

- Exceto o drama que vivenciamos no tocante a Werter e Odo, os outros não nos deram aborrecimentos - disse Karl plantando uma dúvida no ambiente.

- Quem sabe não há mais desvios de conduta dentre teus irmãos, meu dileto amigo (?)...

- Por exemplo?

- Um ladrão seria o fim da linha para uma família tão digna quanto os Bergvolk, conduzidos magistralmente pelos queridos Otto e Inga. Tu sabes que conheci muito o teu avô materno? Um homem de bem, fiel à Igreja e freqüentador do nosso mosteiro.

- Que bom... Vovô! Mas por que dizia mesmo “ladrão”? Soubeste de algo que me interessasse saber?

- Não, por certo não. Ao menos com a certeza que um prelado deve ter antes de falar a respeito, não.

Estava dada a abertura para que Karl percebesse que ele não só sabia que Gustav desviara dinheiro da abadia como devia tê-lo em seu poder, de modo a extrair-lhe a confissão.

Bem, se não tiveres mais outra pergunta, não me leves a mal, mas tenho outros compromissos.

- Por certo que não pretendo atrapalhar-te, irmão. Vou seguindo. Agradeço-te a atenção.

Saiu dali trêmulo, ciente de que o irmão estava enclausurado em algum ponto da abadia e de que nada poderia ser feito em seu favor. Enquanto os beneditinos não julgassem que era o momento certo para apresentá-lo como criminoso à sociedade, ninguém conseguiría auxiliar Gustav.

Avisado, Otto limitou-se a erguer os olhos ao céu e, vislumbrando o profundo azul que sempre cobriu a Baviera, orar pelo seu terceiro filho, em vias de ter um destino trágico.

1653

Muito tempo depois sem notícias, Charlotte está preparada a deixar definitivamente Oberammergau, voltando a Garmish para cuidar do que havia sobrado da Casa Branca, que estava sob os cuidados de parentes, quando recebeu a visita de Inga.

- Mama\ Que felicidade tornar a ver-vos. Entrai, por favor - recebeu-a fraternalmente a nora.

- Como vais, Charlotte? Peço que me perdoes se serei uma intrusa em tua vida, mas acima de tudo sou mãe. Sei de tua decisão, minha filha, de deixar a casa e voltar para Garmish. Esperaste mais de um ano pelo retomo do meu filho e não mais desejas sustentar teu casamento sozinha, que, em verdade, já não andava bem quando Gustav desapareceu. Entretanto, não ficaria tranqüila com minha consciência se não te convidasse a meditar um pouco mais. Achas que estarás fazendo o certo?

- Não sei, mama, se é correta minha atitude, mas ela não se liga somente ao fato de Gustav estar desaparecido; há muito sofro com esse matrimônio no qual entrei sem amor e no qual vivi sempre oprimida, sem carinho ou atenção. Se Gustav casou-se comigo, por amor, como ele diz, talvez seja tão egoísta que não consiga nem mesmo amar... O que posso fazer? Eu era viúva, sabeis disso, já tinha perdido um filho em trágico acidente. Não tivemos descendentes, nem sei qual a razão, mas o fato é que agora não consigo mais ficar à espera de vosso filho. Por um lado, penso que esperar por alguém que não se ama e com quem não se deseja mais viver é um desperdício de vida e de tempo; por outro, sinto que já deveria tê-lo feito há muito, bem antes de Gustav se envolver com os beneditinos e suas falcatruas e, após, sumir.

- Compreendo, minha filha, mas o casamento não é só uma união superficial que se pode terminar quando dela se cansou. Ele envolve muito mais que isso. Duas pessoas não se encontram na vida e casam-se por mero acaso. Há um toque divino em cada matrimônio que se realiza diariamente no mundo.

- E por isso devo ficar com ele até o final dos meus dias?

- Seria o ideal, minha querida, não somente porque vos traria a oportunidade de remir vossas dívidas comuns, mas também para evitar um futuro compromisso...

- Mama fala de um jeito esquisito... Não vos compreendo bem!

- É simples, minha filha. O casamento, quando chega a concretizar-se, une duas almas que precisam desse reencontro para sanar dívidas do passado, evitando nova relação no futuro. Sabes que a vida não termina com a morte, não?

- Sei o que o padre nos diz. Ao findar, vamos todos ao Reino de Deus e lá seremos julgados, mas não me consta que voltemos a viver.

- Se nunca deixamos de viver, não “retornamos à vida”, apenas nos adaptamos a uma nova fase dela. Enquanto estamos aqui, neste mundo, somos determinada pessoa; quando passamos ao outro, o espiritual, podemos ser outra. Entendes?

- Não.

- Notes, filha, que és hoje Charlotte, mas podes ter sido Maria, por exemplo, noutra vida. Poderás vir a ser Joana numa próxima. É isso que quero dizer-te, afinal, penso que não escaparás de remir com meu filho vossos débitos recíprocos.

- Ah, entendo! Mas, lamento, não aceito; não temos mais de uma vida, mama. Temos somente esta e daqui voltamos ao céu, de onde viemos e de onde não mais sairemos.

Por que pensas assim? Não te parece mais lógico o que te digo? Por que irias merecer o céu em definitivo se ainda não houver quitado tuas dívidas, pago teus males?

- Então merecerei o purgatório... ou quem sabe o inferno (risos).

- E neles ficarias até o final dos teus dias? Que final seria esse, se és eterna como espírito?

- Ah, não sei, mama' E demais complicado discutir tais teorias convosco. Sei que é assim. Há somente um julgamento e se falharmos estaremos condenados para sempre.

- Bem, se queres assim, é mais uma razão para não destruíres o teu casamento. Não será um mal pelo qual irás responder no futuro?

- Quanto a isso, não tenho dúvida. O padre nos disse para ficarmos casados até o final... Oh, sinto muito! Estou apenas desabafando. É que não suporto mais a vida que levo. Não posso mais encarar Gustav...

- Ainda que isso te cause um transtorno futuro?

- Ainda assim... Prefiro o risco. Não sou perfeita. Depois da separação, comungarei, contarei meus pecados e serei, tenho certeza, absolvida pelo padre.

- Tão simples?

- Assim mesmo, simples!

- Não te pareces muito superficial a absolvição? Afinal, o que fizeste para pagar o teu mal?

- O sacerdote representa Deus na Terra, mama. Se ele perdoar, Deus me perdoará também. Na realidade, sei que estou errada, mas penso que Gustav falhou mais do que eu.

- Pode ter falhado em outros campos da vida, minha querida, mas no tocante ao matrimônio ele não está tendo a oportunidade de opinar, logo, a responsabilidade será toda tua.

- É possível, mas é um risco que preciso correr. Não me queira mal. Sou fraca nesse ponto e não gostaria de perder vossa amizade.

- Não perderás... Não vim para ameaçar-te. Tinha o objetivo de esclarecer-te um pouco a visão, mas respeito tua opção, que é somente tua.

- Mama, antes de mudarmos de assunto, posso fazer-vos uma pergunta?

Sem dúvida.

- De onde tirais tantas e tais idéias a respeito da vida?

- Sinto assim desde menina. Ouço as pregações dos padres, conheço os postulados católicos, mas sinto que as coisas são do modo como te disse. Às vezes, sonho a respeito, -outras ouço vozes me dizendo algumas coisas, enfim, sinto-me '.igada a um mundo diferente deste.

- É impressionante vossa calma, mamai Custe o tempo que custar, passem os meses ou os anos e serei sempre uma admiradora vossa.

- Vem, filha, vamos tomar o chá que fizeste, pois vai esfriar. Trouxe um pão que acabei de fazer...

1655

Em Munique, no interior da mais antiga igreja da cidade, São Pedro, construída em 1158, destruída pelo grande incêndio de 1327 e restaurada em estilo gótico, posteriormente recebendo toques renascentistas no século XVII, predominava o branco, que servia de cenário ao belo altar-mor forrado a ouro, contendo incontáveis peças decorativas no mesmo metal precioso. Externamente, destacava-se a torre central, chamada de Leões, com seu corpo retangular, poucos ornamentos e abrigando vários carrilhões. De certa forma, levando-se em conta a majestade de Michaelkirche, que vinha sendo erguida pela Ordem dos Jesuítas, na Karlplatz, a São Pedro era acanhada, embora possuísse o magnetismo de ser a pioneira.

Numa das ensolaradas tardes bávaras, no seu interior, encontrava-se um casal furtivo, que se esgueirava pelos corredores e escondia-se atrás de colunas e bancos. Não estava ali para rezar, como parecia claro diante do seu comportamento dissimulado. A nave central da velha igreja testemunhava um romance proibido e a negativa do próprio mandamento cristão, que não poderia ter por palco o cenário daquele templo.

- Por que havia de ser aqui o nosso encontro? Milhares de outros pontos em Munique seriam menos inconvenientes...

Ora, que poderiamos fazer? Esta cidade parece ter olhos nas esquinas e ouvidos nas praças. Quem nos iria procurar dentro de uma igreja?

- Meu marido não é estúpido como pensas. Todo lugar é um canto para sua caçada, que, aliás, não cessa um só minuto. “Onde foste? Com quem estiveste? Qual hora chegaste? Por que saíste? A que hora pretendes retornar?”. Não suporto mais tais indagações perenes e insistentes. Ainda assim, dentro da igreja?

- E qual outro local para mantermos contato diário? Tu podes dizer que vieste orar... Pronto! Dize que vieste para pedir por ele, marido querido e companheiro eterno...

- Corno eterno, queres dizer (risos).

- Como queiras. E preciso que saibas que isso somente está ocorrendo porque não queres romper teu casamento absurdo. De onde tiraste a idéia de unir-se a um homem trinta anos mais velho? Foi pelo dinheiro?

- Também.

- E por que mais?

- Pela segurança, talvez pelo conforto e, acima de tudo, pela posição social. Não aturava mais os olhares curiosos indagando-me o que uma moça tão bela, de distinta família, fazia sozinha nessa cidade imensa...

- Grande segurança... Ficas a fugir como um rato deixa o navio toda vez que pressente a tempestade. Qual vantagem tiveste ao estar ao lado desse decrépito? Sexo não é, porque somente comigo conseguiste ressarcir tuas carências. Então? Por que não o deixas?

- E piorar nossa situação? Ao menos casada pude ver meu irmão vez ou outra, pois tivemos uma desculpa a tanto. Queres que eu me separe para enfrentar dois tipos de preconceito? Não basta a separação em si, mas também existe o nosso furtivo e condenável relacionamento a complicar meus passos.

- Mas, Herta, não consigo mais viver sem ti. Pouco me importa o mundo ao redor, quero ficar contigo.

- Hugo, não sejas leviano mais do que já foste cortejando-me daquela forma. Surpreendeste-me em um momento de especial carência e vejas no que deu. Temos uma relação incestuosa que nossa família jamais aceitará. Nem o coração de mama será capaz de suportar. Além do mais, estou farta disso! Se estava carente naquele momento e pequei, bem, não quero continuar nessa situação.

- E eu? Como fico? Nunca consegui nenhuma estabilidade emocional em qualquer campo de minha vida. O que poderei fazer sem ti?

- Somos irmãos, Hugo, não sei se já te apercebeste disso.

- Não pensavas assim há dois meses...

- E foram os piores dois meses de minha existência. Estive quase doente de tanto fugir pelos cantos desta maldita cidade. Meu marido, a quem não amo, é certo, vai acabar descobrindo... Ele tem a sagacidade de uma raposa e a nossa diferença de idade provoca-lhe calafrios... Tem pavor de ser traído.

- Pobre dele! O mal está feito, que te adianta cultivar o remorso?

- Adianta muito! E arrependimento! Por acaso nunca te arrependeste de nada de errado que já fizeste?

- Sim, mas não julgo que agora esteja agindo erroneamente. Sei que muitos não aprovariam... No entanto, sentimentos não são domados como seria de se esperar. Amo-te, Herta...

- Cala-te, por favor, não fala mais. Julgava-te sensato quando morávamos na colina verde... Enganei-me. Es tão egoísta quanto Gustav ou Karl...

- Bela comparação!

- E não? Estou errada? Estás pensando somente em ti mesmo. Não vês que estou sofrendo com tudo isso. Quero acabar o que nem mesmo começou. Foram somente duas vezes de desatino, quando estava fraca demais para resistir... A culpa é toda tua.

- Três vezes, minha querida. E és tão culpada quanto eu. Se não quisesses... nada teria ocorrido.

- Sou mulher, é diferente. Tenho o meu lado de carência afetiva que me corrompe, como acontece com todas nós... Foi impossível de ser evitado. Tu és homem, não me entenderías.

- Que bobagem falas agora. Invocas, agora, a tua condição de mulher para te furtares ao compromisso? O problema não é o sexo, mas o espírito. Quisemos fazê-lo e arcaremos com as consequências. O mais é pura tolice.

- Oh, Deus! Que pecado! Em Tua casa estamos transgredindo as leis sagradas...

- Não é aqui o problema, Herta. Se pecamos, foi em outro momento, talvez muito mais distante do que imaginamos...

— O que queres dizer? Se errei, isso aconteceu há dois meses, não mais que isso.

- Ora, por favor! Então não te recordas da tua postura vergonhosa em Garmish-Partenkirchen irritando os moços e fazendo-se notar em qualquer aglomeração de pessoas? Esqueceste como disputaste com Helga a graça e o amor de um peregrino circense? Causaste à tua vida a desgraça que hoje estás colhendo e vai colher... Por que te casaste com um homem que não amavas? Trocaste tua fé e tua formação moral há muito, minha querida... Queres agora me culpar pelo teu final trágico?

- Ainda não morri.

- O que não tardará a acontecer se não tomares um rumo...

- Como assim? Estás me ameaçando?

- Óbvio que não, já nos basta um assassino na família. Falo por conta do teu marido. Se ele descobrir teu jogo duplo, é o teu fim.

- Que jogo duplo? Já disse: foram somente duas... ou melhor três vezes...

- Não, estás falseando de novo. Somente teu senil esposo não sabe que és cortejada por um séquito de cavalheiros e mundanos, homens de toda espécie... E eu sei que correspondes.

- Oh, cruel mentira! Não é verdade!

- Se erramos, Herta, não foi somente por minha culpa. Tu já eras adúltera muito antes de termos nos relacionado. E qual a diferença? O que te perturba é o fato de sermos irmãos? E isso?

- E para ti não representa nada?

- Sim, naturalmente. O que posso fazer, no entanto, se estou envolvido sentimentalmente com minha irmã? Ignorar?

Na minha idade? Não sou mais um jovem, minha cara. Não resistirei a um rompimento dramático nesse instante.

- E o que queres que eu faça?

- Fica comigo, é tudo o que te peço. Se não podemos • :ver juntos na Baviera, vamos embora daqui. Procuremos um ?utro lugar para morar, bem longe, onde ninguém nos conheça e onde poderemos trocar de nomes e identidades.

- Fugir para sempre? E nossa família?

- Família? Quando tornaste à casa para rever os parentes? Estás sumida há muito e agora falas em família?

- Sim, por que não? Se eu fugir contigo é o fim de tudo, estarei acabada... muito mais do que já estou.

- Mas, Herta, eu te dei carinho, ouvi teus reclamos, estive ao teu lado em momentos difíceis. Por que não? Não me importo de ir para o inferno se preciso for, mas não posso perder-te.

- Já vives no inferno. Depois que rompeste com Peter, tua vida não voltou a ser a mesma. Tu te sentes culpado pelo que causaste ao nosso irmão e queres descontar em mim tuas frustrações. Impossível, pois não quero mais.

- Envolveste-me também, não compreendes? Estou enlaçado pelo teu proceder, teu comportamento aliciante e capcioso.

- Do modo como falas, sou eu a única culpada.

- Herta, de uma vez por todas, não se trata de discutir quem é o mais errado. O fato é que tu te enganaste ao fazer o teu casamento e eu deixei-me levar por tua carência, num momento em que havia sido rechaçado por Peter e não sabia como reparar o dano que causei à família ante minha fuga... Foi o que houve. Fraquejamos os dois e deixamos que as coisas atingissem o ponto onde estão hoje. Não há culpados. O que fazemos em nossos momentos de fraqueza de espírito, de caráter, enfim, fraqueza de comportamento somente o percebemos quando já o fizemos e nem sempre é tempo para voltar atrás. Não te parece, por um minuto ao menos, que se pudesse escolher logicamente teria optado por uma mulher estranha e não por minha própria irmã, embora muitas vezes te tenha visualizado como alheia à família? Por que iríamos nos unir desse modo se tivéssemos tido a opção de escolher entre dois caminhos? Às vezes, racionalmente, não conseguimos evitar. Por que o faríamos sentimentalmente, com emoções fortes a nos domar?

- Tuas palavras podem ser belas e até convincentes, mas não vou ceder. Custe o que custar, findo aqui o nosso fugaz relacionamento. Procura, Hugo, alguém que te possa fazer feliz. Eu não sou essa pessoa, aliás, tenho imensa dificuldade para amar qualquer um; sou egoísta, vaidosa e superficial. Minhas relações são desse modo construídas e continuarão a ser. Prefiro ficar com meu velho marido a trocá-lo por um novo, com quem tenha que compartilhar momentos ou prestar contas de meus atos. Ficar contigo ou com qualquer outro não me faz diferença alguma...

- O que dizes? Então o que vivemos juntos para ti não passou de uma mera aventura?

- E não foi o mesmo contigo?

- Lógico que não!

- Paciência, meu caro. Tudo na minha vida é e sempre foi desse modo... Não trato sentimentos com profundidade; apenas extraio deles algum prazer. Foi isso o que houve. Nada mais.

- Não eras assim Herta. Lembro-me de nossa infância. Tu eras a garota que gostava de colher flores e romanticamente distribuir a todos. Apreciavas o colorido da colina verde e as conversas às refeições. Teus sentimentos estavam por certo conectados às chamas da nossa fogueira noturna e não é possível que tenhas enganado a ti mesma durante tanto tempo.

- Não enganei ninguém, apenas não sabia ainda quem era quando colhia flores... Sou o que sou hoje e não aquela menina doutrinada por mama e encantadora com os irmãos. O mundo se descortina à nossa frente quando conseguimos pensar sozinhos, sem influências dos outros... Não acho que enganei qualquer um, nem mesmo a mim. Percebi, no entanto, que minha vazão sentimental era tão intensa que não seria preenchida num casamento ou numa relação monogâmica qualquer. Entende, Hugo, eu preciso dessa falta de regras para sobreviver, sem eira nem beira, enfim, onde quer que eu esteja, esta sou eu e não aquela menina loura colhedora de flores.

Achei que a educação te iria moldar...

- E por acaso moldou-te? Quem és hoje senão um homem Tem diferente do Hugo que passeava pela mata e ajudava Peter e Gustav a lenhar? Não cresceste também?

- Piorei...

- Todos nós... Quem se salvou?

- Oh, Deus, tenha misericórdia de nós!

- Não adianta lamentar. Está terminado e pronto. E minha natureza e é também a tua. Não dou um centil pela minha moral, nem creio que outrem o dê, mas dou o mundo pela minha liberdade e por minhas emoções fugitivas mas freqüentes.

- Herta, não pode ser... Tenho mais de quarenta anos e nunca acertei um passo na vida. Preciso de ti ao menos para fazer-me companhia. Para onde vou? O que farei? Não suporto mais trabalhar naquela cervejaria...

- Muda de emprego, procura teu rumo, mas deixa-me em paz. Esta foi, com certeza, a última vez que concordei em vir ao teu encontro. Não mais atenderei aos teus bilhetes, nem te receberei em minha casa. Se, um dia, deixar meu marido será porque eu quero e não porque tu necessitaste. Faz-se tarde, Hugo. Vou-me, agora. Deus olhe por nós, desvalidos morais que somos. Adeus!

- Herta, por favor...

Ela deixou a igreja a passos decisivos e sem voltar-se um só momento para trás. Num dos bancos, esquecido e choroso, ficou Hugo, de onde saiu apenas quando o sacerdote convidou-o a tomar um prato de sopa, pois precisava fechar o templo. Retirou-se, então, de modo inamistoso como se fora repreendido por ali estar ao léu e, blasfemando contra Deus, ingressou na primeira cervejaria que encontrou e pôs-se a beber sem cessar. Da primeira caneca que engoliu e não sentiu nem o gosto, até a cirrose que meses depois o atacou, não passou muito tempo, ao menos um período razoável em que ele estivesse consciente.

Deitava nos bancos de Marienplatz, chorava horas a fio durante a noite, abrigava-se debaixo de pontes e dormia ao relento se preciso fosse. Sentia-se destruído por dentro, vazio e inconformado. Aprofundou-se na obsessão pela bebida e deixou-se levar pela subjugação, quando então hordas de entidades inferiores, vindas de todos os pontos do umbral, aproveitaram-se de seu desleixo e levaram-no à loucura.

A associação do álcool com a frustração espiritual profunda corrompeu-o por completo. Nunca mais tornou a ver Herta, nem mesmo viu a si mesmo pois transfigurava-se a cada dia.

Desertou da senda cristã, onde trilhara desde pequeno e fora orientado com tenacidade pelos pais a seguir seus postulados. Miseravelmente terminou zanzando pelas praças e acomodou-se no portal principal de Michaelkirche quando desencarnou numa noite escura, cuja frialdade espelhava o rigor do inverno bávaro, açoitando-lhe a alma conspurcada, sem esperança, nem juízo.
£M<eter recebeu a notícia da morte de seu irmão dileto Apr com imensa dor e passou alguns dias para apresentar resquícios de recuperação. Sentia-se culpado pelo seu fim trágico, ignorante que estava sobre o que Hugo vivera com Herta. Àquela altura, nos idos de 1655, esmagado por um casamento infeliz e desatinado diante do passar do tempo, procurou seu pai para uma conversa:

- Papa, sei que não sou o único a sofrer. Deves estar sentindo mais que eu o destino de nosso Hugo. Ouso, no entanto, importunar vosso sossego, pois gostaria de ser aconselhado.

- Entra, Peter. Nossa casa não tem cercas, nem portas, para receber nossos filhos a qualquer tempo. O que gostarias de ouvir? Sobre tua vida ou sobre a de teu irmão?

- Creio que sobre a minha, pois a de Hugo terminou.

- Sabes que não penso assim. Ele está apenas começando sua longa trajetória. Contudo, respeito o teu ponto de vista...

- Pensas como mama, não? Acreditas mesmo nessa insensatez de que não morremos de fato e que teremos outras existências para viver de novo?

- Como não? É nossa esperança. Nós, seres humanos, pequenos e errantes, somos agraciados pela benevolência de Deus por termos tais oportunidades futuras para ressarcir nossos débitos. Tua mãe está certa. Ela tem bons pensamentos e está bem acompanhada; sempre teve certas inspirações, recebeu orientações sopradas ao seu ouvido e nunca estavam erradas. Aprendemos a nos resignar diante da vida, meu filho. Por que não fazes o mesmo? Ainda que tu não acredites em continuidade de jornada após a morte, o que queres da tua vida presente senão um pouco de felicidade?

- E é possível isso diante de tanta desgraceira? Não será otimismo demais pensar assim?

- Infortúnios não ocorrem por acaso. Se teus irmãos e tu enfrentam ou enfrentaram duras provas é porque era e está sendo preciso. Deus é soberanamente justo. Não sofres de graça, estás aprendendo. Há uma finalidade divina em cada dia de amargura que atravessas. Se não consegues ver desse modo é porque ainda não estás preparado. Haverá um dia em que te orientarei e tu me aceitarás. Sinto isso no meu coração, na profundeza de minlTalma.

- Mas, papa, estás a dizer que a culpa da desventura é de Deus? Não sois católico e fiel?

- Filho, não disse isso. A culpa é nossa pelo que causamos de mal às nossas vidas. Deus, entretanto, é justo e não iria permitir que tal mal nos chegasse à frente se não houvesse um propósito elevado de nos testar e transmitir-nos ensinamentos.

- Estás resignado com a morte de teus filhos?

- Sim, estou.

Peter franziu a testa e abaixou a cabeça, reprovando-lhe a resposta.

- Achas que faço mal?

- Não posso julgar meu pai.

- Então achas?

- Não posso negar.

- E o que adiantaria, Peter, se eu me voltasse contra Deus e reagisse a cada obstáculo que me fosse colocado à frente? Estaria evoluindo? Teria aprendido alguma coisa diante da dor vivenciada? A jornada do ser humano, meu filho, tem muitas desditas... E não são poucas. Nossa tarefa é vencê-las uma a uma, resignados, silentes, cordatos. Perdi três filhos...

Perderei outros até a minha partida deste mundo, creio. Deus os levou para ensiná-los, fazê-los ter fé, conduzi-los pela trilha do amor.

- Trilha do amor? Matando-os?

- Não, eles de um modo ou de outro causaram a si esse final trágico e até prematuro. Mas foi permitido por Deus para que evoluíssem. Quando prestarem contas, compreenderão seus erros e, nesse instante, haverão de dar graças ao nosso Pai. É o amor que permite o renascimento após a morte e o constante aprendizado até a perfeição. O Cristo já nos ensinou a seguir esses passos.

- Não é o que a Igreja diz.

- Nem tudo o que alguns homens dizem é a expressão da verdade. Por que não sondas o teu coração, auscultando a voz do teu espírito? Ele não te negará a verdade que tanto procuras.

- Eu medito, penso e procuro em toda parte uma razão para ter perdido meu irmão Hugo dessa forma, por não mais rever Gustav, por ter perdido o rastro de Herta e Helga... Juro-te, meu pai, que procuro.

- E procuras também uma razão para agredires tua mulher e teus filhos do modo como o fazes? Procuras um motivo para ser tão violento e tão rancoroso?

- Tenho causas a justificar...

- Não podes ter. A razão é uma só e ela não está ao teu lado. Como podes querer justificar a violência dos teus atos, a opressão?

- Ela é a culpada de tudo. Quando nos casamos, és testemunha, tentou dominar-me, retirando-me o amor-próprio. Afastou-me de minha família e tornou-me infeliz.

- Durou pouco, não? Logo reagiste à altura e passaste dos limites. Quiseste então te vingares do que consideravas uma agressão à tua personalidade; para isso reprimiste-a com fúria e não permitiste sequer que te pedisse perdão. Ela era jovem e mimada; quis fazer contigo o que fazia em casa. Por que tiveste tamanha reação contra ela se não era apenas para dar vazão ao teu natural instinto violento?

Estais contra mim?

- Não é caso disso. Estou relembrando contigo momentos da tua existência. E teus dois filhos? Ages do mesmo modo com eles...

- São do lado da mãe.

- E não era para ser? Quem, em sã consciência, iria aprovar o que fazes? Não afastaste tua mulher de todos da comunidade? Que vida viveis, meu filho? Que rumo queres que teus filhos tomem?

- Não sei, papa, apenas tenho compulsão para ser assim. Não consigo evitar.

- Erros são passíveis de remédio; admiti-los como tais é o primeiro passo.

- Não posso reconhecer que errei. Estaria desmoralizado na comunidade e perante os meus. Eles é que devem pedir-me perdão.

- Perdão, se são eles os ofendidos?

- Sim, papa, perdão por terem contrariado a minha autoridade e por me terem obrigado a ser como sou.

- Peter, meu filho. Muito ainda viverás para saber que ninguém, absolutamente sem exceção, é levado ao mau caminho porque foi obrigado por outrem. O livre-arbítrio é pleno e sempre soubeste o que fizeste e o que estás a fazer. A responsabilidade é tua, do mesmo modo que ocorreu quando não perdoaste teu irmão Hugo. Ele não te pediu perdão? Por que foste implacável?

- O caso é diferente.

- Não é. O problema está contigo. Es muito altivo, prepotente e carregas uma dose de razão desequilibrada para o teu fardo humano. Pensas ser o único ser perfeito que vive; tens muitos erros de modo que não podes julgar o semelhante com a arrogância com que fazes. E se não és ouvido, partes para a cólera e para a violência.

- Mas, papa, sinto minhas entranhas ardendo quando não reajo a uma agressão.

- E quando já não reagiste? Sempre te vi dando o troco a quem te provoca.

- Faço o que não consigo deter. É da minha natureza.

- Não. É fruto do teu espírito rebelde. Às vezes fico imaginando quem deves ter sido no passado para seres assim tão independente, frio e calculista. És duro com todos que te cercam, menos contigo mesmo. Abre os olhos enquanto é tempo. Ouve a voz do teu pai.

- Grato, papa, mas sei o que faço. Apreciei de qualquer forma o teu interesse. Devo ir... Gerdha deve estar preocupada.

- Está bem, Peter! Voa com tuas próprias asas... Medita, Lieb Vogei, vai para tua esposa...

1656

A cadeia de montanhas do Wetterstein, na confluência dos rios Loisach e Partnach, ficava coberta de neve quando o inverno chegava à Baviera. Era uma das épocas mais belas para a meditação, pois o branco vestir das montanhas dava-nos a impressão de estarmos viajando numa jornada infinita, cujo limite era nossa própria imaginação. Apreciávamos ficar à beirada dos riachos, que lutavam para não congelar e nem sempre tinham sucesso, ou no topo de colinas, vislumbrando o magnífico cenário, para combater a sensação de solidão que o frio intenso nos trazia.

Nessas épocas friorentas, quando o gelo caía do céu incessantemente, ouvíamos as histórias que rodeavam o fascínio despertado pelos alpes bávaros. Saboreávamos os momentos em que Otto, com sua peculiar ternura, não se cansava de repetir o enredo que envolvia nosso vilarejo. Narrava-nos que Partenkirchen era a mais antiga das gêmeas do vale, nascida no século VIII a.C., e somente três séculos mais tarde deu lugar a Garmish, que se avizinhara ao seu lado. Legiões provenientes da Dalmácia fundiram-se com os celtas e deram origem ao nosso povo sofrido, a maioria composta por camponeses e pastores. Sempre vivemos com dificuldade, enfrentando a turbulência do tempo hostil no inverno e a escassez de chuvas no verão, mas tínhamos força interior, como Otto apreciava descrever, de modo a construir uma comunidade unida e trabalhadora.

A Guerra dos Trinta Anos não chegara ao nosso povoado, mas seus efeitos sim e muitos de nós morreram de peste ou ;?lera. A maioria vivia na base das montanhas. Éramos uma exceção por habitarmos um pouco mais acima, na inesquecível colina verdejante. Havia uma superstição reinante nesse contexto: os campônios temiam que os picos das montanhas 'ossem habitados pelos demônios, visto que os que tentaram subir, pereceram no caminho. Otto nos explicava que a causa provável da morte teria sido a falta de condições de enfrentar o terrível frio que a mais de 2000 metros fazia, mas preferíamos acreditar na lenda disseminada para termos motivação às conversas em redor do archote.

Tudo era mágico nessa época do ano, das fábulas ribeirinhas às narrativas históricas; havia sempre uma conversa para colorir o jantar ou mesmo para preencher o isolamento que a frialdade extrema provocava.

Foi num desses dias nevoentos que bateu à nossa porta um montanhês que trazia nas costas de um animal de porte avantajado um homem desfalecido, parecendo estar morto.

- Desculpa-me o incômodo, senhor - proferiu o montês - mas esse moribundo disse-nos na vila que morava aqui... Tive dúvidas, embora diante do seu lastimável estado tenha resolvido trazê-lo para que não perecesse em nossas mãos.

- Fizeste bem... Inga, traz água quente... Gustav voltou para casa.

Mansamente, Otto ajudou o forasteiro a desmontar nosso irmão do animal, colocando-o num dos leitos que, em poucos segundos, Fréia havia arrumado. Agradecendo ao estranho, que voltou logo ao vilarejo antes que a nevasca aumentasse, entrou novamente.

- Meu filho, meu filho... - murmurava Inga sem deixar-se levar pelo desequilíbrio.

- Mama... - conseguiu balbuciar o mortiço.

Mariel olhou para Fréia e, sem dizer uma palavra, percebeu o que estava ocorrendo. Gustav estava tomado por uma doença terrível, a peste ou a cólera. Não iria sobreviver. Assustadas, elas foram chamar a atenção de Otto.

Calma! Deixai ao nosso encargo... Sabemos como tratá-lo.

- Mas, papa, é contagioso. Correis perigo de vida. Por favor, vamos encaminhá-lo a uma hospedaria ou a outro lugar.

- É teu irmão, Mariel. Voltou para casa e aqui é o seu lugar. Vamos cuidar dele até o último minuto. Deus sabe o que faz. Nada nos acontecerá se não for da Sua vontade.

Assim foi feito. Ao longo de quatro dias, quase por milagre, Gustav, recebendo carinho e atenção de todos, recuperou-se um pouco e conseguia falar, apesar de saber que não tinha como combater a terrível doença. Inga desdobrou-se como nunca e não arredava o pé do seu leito. Sabia que era o seu último gesto de mãe para com ele.

- Mama, desejo explicar-me...

- Não é preciso. Dorme, estás febril.

- Não, sinto minhas forças sumindo como se minha chama interior estivesse fenecendo. Quero falar...

- Dize, então...

- Fui levado para a abadia de Ettal e lá fiquei trancado nesses últimos anos. Paguei tudo o que desviei trabalhando como escravo para aqueles desgraçados...

Inga franziu a testa.

- Desculpa pelo termo... Eles me trancafiaram... Tiraram-me o amor-próprio, torturaram-me física e moralmente. Oh, Deus, soubesse eu no que daria e não teria feito.

- E Karl não te avisou? - interveio Fréia.

Gustav pensou por alguns segundos e confirmou:

- É verdade! Ele disse quais seriam as conseqüências, mas não acreditei. Por que, mama? Por que não levei em conta? (choro)

- Porque não estavas preparado a ouvir a verdade. Teu coração estava dormente; todos somos assim. Só ouvimos o que queremos e só compreendemos o que desejamos. Fingimos não entender muitas coisas óbvias, meu filho... E da natureza humana.

- Mas, mama, isso me custou a vida... Vou morrer, sabes disso.

- Como todos nós vamos um dia. Não somos eternos.

Tu vais um pouco na frente, como alguns de teus irmãos já foram.

Não aceito, foi uma violência, uma injustiça... Não merecia tanto. Aqueles monges do inferno... perdoa-me a expressão... somente me soltaram quando souberam que eu seria um risco para o mosteiro e não tinha mais como viver.

- Graças ao bom Deus.

- O que, mamai Minha morte ou minha prisão?

- Tua libertação. Por que enxergas tudo pelo lado negativo? Deves dar graças a Deus porque vais terminar teus dias em casa, conosco, tua família. Receberás amor e palavras de conforto... Não é isso que todos queremos?

- Mama - murmurou Mariel - estais dizendo que ele vai morrer...

Inga continuou autêntica.

- Sim, meu filho vai morrer e deve saber lidar com isso. Seu âmago já o acusa, por que eu vou esconder?

Gustav lacrimejou.

- Como mãe, somente eu posso avaliar o sofrimento que me causa ver um filho partindo, mas, por outro lado, como cristã que sou, devo agradecer a Deus a oportunidade que deu a esse Espírito, que tanto aprendi a amar, de retornar a este espaço e cumprir sua jornada. Quantas vezes mais, Gustav, tu não vais voltar? É a Lei. Por isso, não tema. Estou e estarei sempre contigo.

- Mama... estou com frio... preciso de vossa mão...

- Aqui está... Tuas irmãs estão contigo também.

- Quem está aí?

- Papa, Mariel, Fréia, Etel e eu.

- E os demais? Como estão Peter e Hugo?

- Eles estão bem, onde quer que estejam... - completou Otto.

Alguns minutos foram passados no mais absoluto silêncio, enquanto todos vibravam intensamente por Gustav.

Ele acordou do seu entorpecimento e continuou:

- Foram tantos erros, não? E Charlotte, como está?

- Ela foi embora, meu filho. Voltou para a Casa Branca.

- Fez bem, nunca prestei para marido. Reconheço. Ela fez bem...

- O perdão te fará bem.

- Não é o caso. Acho que ela fez o que era certo, o que não significa que perdoei sua traição; nem tampouco perdoarei jamais aqueles monges assassinos.

- Gustav, tem bons pensamentos! Afasta o sofrimento.

- Por que a realidade fez-se tarde em minha frente? Não poderia ter ouvido os vossos sábios conselhos?

- Poderia, mas não o fez. Quem sabe no futuro tu te lembres de ouvi-los?

- Que futuro, mama? Tudo acaba aqui.

- Pudesse eu te dar a esperança que teu coração tanto clama... O futuro não é feito de minutos para ti, meu filho. Tens a estrada da eternidade para seguir e haveremos de nos reencontrar.

- Oh, mama, quisera eu fosse verdade...

- E será, asseguro-te que será!

Gustav parecia cansado. Segurando ternamente as mãos de Inga, adormeceu com suavidade. A família ficou algumas horas ao seu lado, orando e amando-o como nunca, enquanto mama anediava seus cabelos molhados pelo suor abundante da testa febril. Não mais despertou.

Foi enterrado debaixo do arvoredo onde costumava cortar lenha alegremente com Peter durante as tardes ensolaradas da Baviera. Ali poderia cultivar para sempre os seus sonhos. Continuaria a nos simbolizar uma eterna lembrança das refeições em que narrava com emoção contagiante o seu intrépido dia, enfrentando lobos e raposas, protegendo o irmão lenhador e voando além da sua própria imaginação.

1657

Não tardou para que Herta fosse expulsa de casa. Descoberto o seu comportamento leviano, ela não teve outra alternativa a não ser admiti-lo diante do esposo e detestemunhas, para depois deixar Munique sem dinheiro e sem rumo.

Transitou por estradas inóspitas e dormiu em hospedarias mundanas durante vários dias. Sentiu frio e fome e ressentiu-se por não ter coragem de voltar para a hospitaleira colina verde.

Desejou rever a irmã gêmea mas não tinha nem noção de onde ? ?deria encontrá-la. Rumou, então, para Innsbruck, disposta 2. tentar recompor a dignidade de sua vida, ao menos o suficiente para um dia voltar a pisar em solo bávaro.

A capital da província austríaca do Tirol, ao sul de Munique e às margens do rio Inn, afluente do Danúbio, cujo ale constitui uma espécie de corredor, numa altitude de 500 _ SOO metros, volteada por montanhas imensas com mais de 2500 metros, era a encruzilhada entre a Alemanha e a Itália,

_ Suíça e os países danubianos.

Essa pequena vila, fundada em 1239, mas cujas origens -emontam a 1180, era um centro comercial pertencente ao condado bávaro de Andech, talvez por isso Herta sentira-se confortável adotando-a como morada. Reminiscências do passado faziam-na transportar-se à colina verde toda vez* que ■ ia as paredes azuis e brancas das íngremes encostas dos Alpes a cercar a cidade.

Em pouco tempo de peregrinação à procura de um trabalho íínalmente lícito, conseguiu ser contratada para cuidar de uma parte do imenso castelo da família real, Schloss Ambras. Fora aí que o arquiduque Ferdinando, regente do Tirol, e a oelíssima Philippine Welser, sua primeira e única esposa, cassaram grande parte de suas vidas.

A coleção de obras de arte que o nobre deixou era monumental e deslumbrava qualquer um que tivesse acesso ao castelo. Herta nunca presenciara tanta riqueza num mesmo local e estava fascinada.

Trabalhava em Schloss Ambras no último ano de vida de Ferdinando III, que havia consolidado o poder da administração central e dera os últimos toques na Contra-Reforma. Era, além de hábil administrador, um compositor invejável. Suas músicas encantavam o castelo, tocadas por serviçais atentos ao amo e chegavam a tocar Herta em seu âmago indefeso.

Afeiçoou-se à governanta Olga, de origem eslava, a única pessoa que lhe dava ordens com carinho e respeito. Era estrangeira, mas fora bem recebida na Áustria porque seus pais a trouxeram para o Tirol com dois anos de idade. Cuidava de organizar os trabalhos do castelo com presteza e pontualidade, mas jamais descontava nos empregados sob sua orientação qualquer erro ou desvio. Assumia perante a realeza, a quem prestava contas, todo e qualquer problema ocorrido nas cercanias, fosse ou não sua culpa. Seu exemplo começava a tocar Herta, que se lembrava de sua mãe, igualmente terna e doce no trato com as vicissitudes.

- Frau Olga. posso folgar no próximo sábado?

- Por que nà > Herta? Se quiseres, podes também ficar fora no domingo. Dou um jeito.

- De forma alguma. A senhora é tão boa para mim que não sei nem como agradecer... Acho que ficarei perenemente em débito.

- Herta, minha filha. Noto que tens um complexo de culpa muito grande. Creio que já fizeste muita coisa errada na tua vida, pois já não és tão jovem. Entretanto, entende que somente errando é que se vai aprender qual o caminho correto a seguir; não cultives, pois, o amargor no coração. Liberta-te do passado e constrói um futuro promissor.

- A senhora fala como minha estimada mãe.

- E julgo falar a verdade. Por isso, não te sintas culpada. Vive tua vida sem constrangimento. Quem já não errou?

- Queres saber o que fiz?

- Não, somente se sentires vontade de me contar, ainda assim para ajudar-te.

- Fui leviana no passado, acho que ainda sou... Não consigo manter uma união afetiva sólida, quero dizer, com um homem. Acho que todos são meros objetos para o prazer sem compromisso. Fui casada... Falhei. Expulsa de casa e com vergonha de retornar ao lar de meus pais, aqui estou. Fui acolhida em Innsbruck e, especialmente, nesta Casa. Não devo queixar-me...

- Mas?

Com sabes que há um “mas”?

- Porque não és feliz... Estás freqüentemente solitária e triste. Acho que sei o que precisas.

- O que seria?

- Voltar para casa. És uma moça, no fundo, carente e amas tua família. Se tua mãe é tão boa quanto descreves por que não aproveitas a ocasião e vai de vez de encontro aos teus. Se tudo correr bem, fica lá e não volta. Do contrário, o emprego ainda é teu. Que te parece?

- Frau Olga, nem sei o que dizer. Acho que passei o último ano pensando em ouvir-te dizer isso... Deus te possa recompensar.

- Vai, minha filha; já fui jovem um dia e sei o que é errar. Quando envelhecemos, tornamo-nos mais calmos e pacíficos, mas nem sempre fomos assim. Tivemos nossas rusgas e nossos desafios. Alguns chegam à velhice compenetrados e conscientes do que foram e são. Outros precisam de mais tempo... Acho que no meu caso é momento de reflexão e de recomposição comigo mesma. Por isso entendo-te, minha querida. Deus te ilumine.

Herta partiu sorridente como há anos não se via; deixou para trás uma só recordação eterna: a imagem amiga e angelical de sua amiga Olga.

1658

Em Mittenwald, Karl já não tinha motivos para sorrir, alr nem tampouco para considerar válida a sua opção wlr pelo casamento em troca da vida eclesiástica. Heiderose e seus dois filhos, Bertha e Nicolas, não cessavam de cobrar-lhe uma postura imparcial em relação à sua participação no lar, enquanto ele só tinha olhos para o mais velho, Josef.

Em verdade, sua obsessão pelo filho primogênito era um escape para seu trauma e frustração pessoal quando deixou o mosteiro e tomou-se comerciante, abandonando por completo a pregação religiosa, algo que estava entranhado em seu âmago. No início, desenvolvera sua educação nos postulados católicos, mas logo aprendera a apreciar as obras e mensagens dos condutores da Reforma protestante, Lutero e Calvino. Seguiu-se a isso seu ingresso na ordem dos beneditinos que durou até as proximidades do seu matrimônio.

A partir daí, voltou-se com exclusividade ao primeiro filho, que lhe simbolizava um novo objetivo na vida, deixando de lado os demais membros da família. A esposa, indiretamente, culpava por ter abandonado a “missão” religiosa que tanto apreciava e os dois outros descendentes lhe representavam somente um acréscimo inútil na tarefa de ser pai.

As pressões, ainda que volumosas, eram compensadas pelo carinho que recebia do privilegiado filho. Este, no entanto, era apenas uma criança, sem desejos próprios e sem manifestação do seu real caráter. Quando passou à fase da juventude e tornou-se um rapaz com seus caprichos e anseios individuais, o sonho começou a desfazer-se sem que Karl conseguisse evitar as consequências.

- Papa, soube que os violinos estão começando a ser montados em Mittenwald - disse-lhe Josef.

- Ouvi dizer...

- E então?

- Então?

- Quero o meu; já não te solicitei antes e a desculpa era sempre a mesma: falta de condições econômicas?

- E ainda permanece o mesmo motivo. Não temos condições de adquirir tal instrumento, pois os artesãos estão começando sua montagem e dão preferência aos fidalgos e membros da Corte. Querem fazer nome e com isso garantir a perpetuidade do seu negócio. Por enquanto, seus preços são caríssimos.

- Mas a madeira sobeja nesta região...

- Entretanto, a mão-de-obra é especializada e não há colaboradores em número suficiente. Talvez, no futuro, eles ampliem sua produção e outras famílias integrem essa fabricação, barateando o custo e possibilitando-nos adquiri-lo para ti.16

- Não, absolutamente errado. Quero-o agora, não posso jguardar indefinitamente a tua boa vontade para comprá-lo. Vende algo, consegue o dinheiro.

- Não é uma questão de boa vontade, Josef. Trata-se de um problema material; não temos a quantia e não tenho de onde retirá-la.

- O problema não é meu, consegue-o para mim.

- Não fala comigo nesse tom, pois sou teu pai e mereço respeito.

- Antes de mais nada, convido-te a dar-se ao respeito, não prometendo nada do que não possas cumprir.

- Que petulância a tua! Desde quando te prometi fazer algo e não cumpri?

16 - Nota do autor material: Mittenwald tem na sua crônica histórica a fabricação de violinos. Consta que o garotto Matthias Klotz, com dez anos, fora levado para Cremona, por um carroceiro, a Nicolo Amati, mestre na fabricação de violinos. Lá trabalhou com Giuseppe Guarnieri e Antonius Stradivarius, mas precisou ir embora após desentendimentos ocorridos entre eles, fruto da inveja. Durante algum tempo esteve na cavalaria, porém terminou procurando outras cidades que tivessem mestres na sua especialidade. Dotado de rica experiência e conhecimento, bem como munido de modelos e desenhos de violinos, violas, violoncelos e outros instrumentos, retornou à Baviera após vinte anos de ausência. Principiou, então, a fabricação de violinos nessa cidade, que se tornou famosa por isso. Muitas famílias tornaram-se também fabricantes do instrumento, que era levado a todas as partes do país e vendido diretamente pelos feitores. Como desta maneira perdia-se muito tempo de trabalho, logo surgiram os comerciantes especializados nessa área. Eles mandavam fabricar os instrumentos e negociavam por sua conta, tornando-se representantes.

Os violinos, violas e violoncelos eram pendurados ao ar livre para tostar e secar. As madeiras empregadas nos instrumentos eram cortadas nas florestas das montanhas circunvizinhas. Após longo tempo de secagem, aproximadamente dez anos, surgiam todos os tipos e modelos de instrumentos de corda.

Atualmente, Mittenwald possui o Museu do Violino, com inúmeros exemplares raríssimos expostos para conhecimento e apreciação dos visitantes.

- Quando disseste-me que iria estudar com meu próprio violino e até agora não o adquiriste.

- Não vou discutir. Não posso comprá-lo, o que seria de meu gosto fazê-lo. Paciência!

- Isso não é resposta. Não tenho paciência para esperar...

- Pois é momento de começar a cultivá-la pelo teu próprio bem.

- És um inútil... - murmurou revoltado.

- O que disseste?

Irado, o rapaz altivo voltou a insistir:

- És um inútil!

A reação de Karl foi impensada e súbita, própria de quem se sente profundamente ofendido, desferindo-lhe um tapa no rosto.

- Jamais repete isso! Não tens o direito de ofender teu próprio pai que dedicou sua vida a ti.

- Mentira! És um impostor! Mama sempre teve razão dizendo-me que quando verdadeiramente precissasse de ti irias voltar-me as costas. Aconteceu. Além de me negares uma promessa que fizeste, agrediste-me... Não és meu pai, mas um fascínora.

- Como pode isto estar ocorrendo? Nada fiz a esse menino a vida toda, nem mesmo corrigi-lo o fiz... Qual a razão dessa explosão de cólera? - pensou em voz alta.

Heiderose resolveu intervir.

- A sua má formação deveu-se a ti, Karl. Era esperado que ele te desafiasse um dia. Foste não um pai, mas um corruptor de caráter, permitindo que teu filho fizesse sempre o que queria e não lhe dando a merecida reprimenda quando necessário. Nunca conseguiste de fato enxergar teus erros. Será que o faz agora?

- Não é possível! Não se pode dedicar toda uma vida a um filho e ele, por razões de somenos, repelir o pai com tanta fúria. Deves ter envenenado o menino contra mim...

- Mama nada fez. A culpa é toda tua - esbravejou Josef.

- E ainda a defendes?

- Por que não? É minha mãe.

- Nunca a preferi em teu detrimento. Estás sendo ingrato.

- Pobre de ti que sempre achaste poder manipular-me quando crescesse. Deste-me desde a infância nada mais, nada menos do que tu desejaste. Não te exigi nada, mas agora estou a fazê-lo. Tenho consciência do que tua figura de pai nos representou e sempre observei que tua discriminação aos meus irmãos não te auxiliaria. Meus planos são meus... Quero o meu violino para começar a ganhar a vida sozinho, sem precisar da tua esmola, do teu sustento.

- Estás louco, só pode estar... - argumentou Karl.

- Louco por que não te dou mais apoio? Louco por que quero que cumpras uma promessa antiga? Não, não me sinto assim. Tua preferência por mim não é problema meu. Bene-ficiei-me, por certo, mas enquanto nada me era negado. A partir do instante que já não me és útil, de que adianta continuar bajulando-te?

Karl encostou o rosto nos joelhos, dobrando-se sobre o tronco com as mãos nos ouvidos.

- Cala-te. Não quero mais ouvir-te, não quero mais ver-te. Some daqui. Vai para onde quiseres mas não me dirijas mais a palavra - balbuciou sôfrego o pai.

- Não sairei. Esta é a casa de minha mãe e de meus irmãos. Sai tu se quiseres...

Há certos golpes que ocorrem na existência das pessoas que soam insuportáveis ao âmago do espírito. Nessas ocasiões o perdão é raro e a misericórdia inexiste.

- Pois bem. Sei que nesta casa não tenho apoio e, em grande parte, eu mesmo criei essa situação. Sei também que iremos todos pagar, um dia, essa desavença terminal que estamos tendo, mas paciência. Não tenho forças para continuar a ouvir tais vitupérios, afinal, sou também tão orgulhoso quanto qualquer mortal. Viraste subitamente um monstro que eu mesmo idealizei sem saber ou assumindo o risco de fazê-lo. O sofrimento que me causas é inestimável. Não conto com o suporte de teus irmãos, pois ignorei-os desde o berço. Parto eu. Não dividirei o teto com inimigos de alma.

- Faze como quiseres... - desdenhou o moço.

Heiderose, achando que Karl blefava, não interferiu e deixou a casa juntamente com os menores, Bertha e Nicolas.

Foi seu erro. Ele arrumou em poucos minutos alguns pertences e riscou a família de sua vida em definitivo. Seu único motivo para ali ter permanecido tinha sido quebrado pela agressividade e ingratidão do primogênito, que congregava na sua figura de “filho dileto” todo o amor que Karl era capaz de sentir por um parente. Finda essa conexão afetiva, seu casamento realmente pareceu-lhe um embuste, sem motivação para continuar.

Instantaneamente, percebeu que havia errado consideravelmente na sua jornada e não deveria ter abandonado o clero, instituição para a qual vivera a maior parte de seus anos e com a qual sabia lidar, desde as tramas até os momentos de eventual sinceridade. Com sua família, esteve entregue a um contexto de amor e ódio quase inexplicável, não fosse assim mesmo a natureza do ser humano.

Antes de sair, voltou-se ao filho e, num lampejo intuitivo, disse:

- Haveremos de nos reencontrar um dia... Pagaremos mutuamente nossas dívidas, mas não será nesta vida, garanto-te. Adeus, sejas feliz!

Sua insatisfação com a vida doméstica e diante do comércio era evidente. Fracassada sua tentativa de encontrar sustento emocional em Josef, sentindo-se traído, Karl aproveitou de imediato a oportunidade que via à sua frente e voltou para a colina verde, decidido, no entanto, a retomar sua missão no contexto religioso.

Sua final observação iria cumprir-se, pois nunca mais tornou a ver a família. Ao menos naquela jornada.
enfermidade, em face da agônica morte de Gustav LZI diante da família, tomara conta de Inga e Fréia, as que mais estiveram próximas ao doente, sem as precauções que o amor de mãe e irmã permitiu-se conceder. Findavam suas jornadas em paz, assistidas pelo incansável

Otto, já idoso, porém firme e dedicado, sem esmorecer na sua tarefa de sustentar os filhos, os netos e quem dele precisasse até o último suspiro de sua existência. A situação no lar de Peter e Gerdha não se estabilizara, de modo que Markus e Adolf estavam sendo praticamente criados pelo avô paterno. Nesse momento difícil, uma nova cabana foi erguida às pressas ao lado da antiga somente para abrigar as enfermas, evitando-se, com isso, o contágio às crianças e aos demais parentes.

Inga estava lúcida em seus momentos finais. Mantinha-se atenta aos passos de todos os filhos que circulavam pela colina verde, dava conselhos a quem a visitasse e encarava a morte com a mais absoluta naturalidade, a ponto de chocar visitantes estranhos, que vinham do vilarejo para dela despedir-se.

Entendia ter cumprido sua missão de mãe e esposa e confiava plenamente na Justiça Divina. Seu coração era um centro polarizador das emoções dos Bergvolk, de modo que os filhos sobreviventes estavam mais confusos do que as moribundas.

Os familiares ficavam mais calmos, contudo, quando mama os chamava para perto do leito, dando-lhes uma mensagem de afeto e esperança, prometendo revê-los quando estivesse no outro plano da vida, que muitos não compreendiam o que seria, mas acreditavam porque jamais duvidaram de Inga e seu insuperável Mutterliebe.

Fréia, por sua vez, que sempre fora uma companheira incansável para a mãe, sentia-se até mesmo feliz por estar partindo juntamente com Inga, sabendo que o desenlace lhe seria mais doloroso se tivesse que permanecer na colina verde sem aquela que dava o toque de união e ternura entre todos da família. Otto sempre fora um bom pai, mas também dependia do imenso amor que brotava naturalmente da figura materna.

Alguns dias foram suficientes para reunir, novamente, todos nós sob o mesmo teto.

Karl já estava conosco há algum tempo e Peter morava em local próximo. Ula, acompanhada do marido, subia à colina todos os dias para saber notícias de mama. Herta voltara para casa, depois que deixou Innsbruck, e fora recebida com o mesmo carinho que lhe era destinado quando pequenina colhedora de flores. Mariel e Etel reconciliaram-se após a morte do professor Mathaeus e em nome do pedido feito por Inga, quando Gustav estava moribundo. Helga voltou do ostracismo voluntário, também acompanhada do marido, o circense Melvio, aparentemente feliz no seu matrimônio. Nunca se soube como a notícia da doença de mama chegou a todos os filhos, unindo-os em torno de seu leito. Talvez tenham sido os “emissários invisíveis”, como diria Inga, a propagar seus apelos dentre os cantões mais longínquos do Globo.

- Helga, minha irmã! Achei que não te tornaria a ver...

- Isso seria impossível para gêmeas e cúmplices como nós.

Abraçadas, elas caminharam mansamente até o riacho mais próximo da cabana enquanto conversavam sem pressa.

- Tantos anos a te contar que não sei por onde principiar - disse Herta.

- Não te apresses. Temos bastante tempo... Dize-me se casaste, tiveste filho?

- Como te disse, foi um longo percurso. Vou narrar-te.

Durante vários minutos Helga ouviu silente a história da irmã, seus erros, seu aprendizado e a experiência acumulada. Não proferiu uma só palavra de repreensão. Aproveitou para contar à irmã que tivera com Melvio sete filhos, todos saudáveis e vivendo em Florença, onde fixaram residência. Não se queixava do casamento, embora o único fato que lhe trazia certa angústia era a freqüente ausência do marido de casa, em razão do seu trabalho com o circo. A mudança para a Itália e os cuidados com a considerável prole impediram-na de voltar a Garmish-Partenkirchen, mas não de ter notícias da família, pois os artistas circenses, andarilhos do mundo, cuidavam disso.

- Tive a infelicidade de não ter filhos... Bem, ao menos acho que foi um fracasso.

- Não dize isso! Cada um tem um temperamento e um modo peculiar de ser; talvez tu não tiveste condições de ter um filho, o que é bem diferente. Pelo que me contaste de tua vida, minha irmã, a prole só te traria mais sofrimento do que já foste obrigada a vivenciar. A maternidade deve ser responsável, como mama nos ensinou. Se não temos condições de ser mãe, é melhor que não sacrifiquemos nossos filhos em nome de nosso egoísmo. E se os tivermos, devemos saber que tudo que é nosso passa a ser secundário; deixamos de respirar se for preciso para garantir o conforto de nossas crianças.

- Não, mãe não poderia ter sido... Desse modo não.

- Então? Se não pudeste ter sido do modo correto, foi melhor não tê-los.

- Consideras que na tua vida tudo é perfeito?

- Não, Herta. Tenho muitos obstáculos a vencer e sacrifiquei minha vida pessoal em nome de meus filhos. Deixei até mesmo de ver minha família por muitos anos... minha querida mama, meu idolatrado papa e tu... Sim, tive contingências. E quem não as tem? Melvio é um bom homem, mas sempre teve muitas amantes, é da sua índole. Tive um momento de muita dor quando descobri tal situação, após o nascimento de nosso terceiro filho.

- E o que fizeste?

- Tinha duas opções. Largá-lo era a primeira. A segunda era compreendê-lo. Sabia que o que estava fazendo era uma limitação sua. Posso parecer complacente e até fraca, eu sei, mas o que não faria pelos meus filhos? Tudo, faria tudo por eles. Talvez tenha sido omissa e até tenha aceitado ao meu lado, sem qualquer contestação, um adúltero. Entretanto, nunca liguei para isso seriamente. Gostava de tê-lo ali, em casa vez ou outra, e pouco me importava, no fundo, que ele tivesse outros relacionamentos, pois sabia que seu destino final era sempre conosco.

- E se ele se apaixonasse por outra e te largasse?

- Estaria preparada, creio. Era um risco que corria. Mas sempre achei difícil homens como Melvio apaixonarem-se em suas aventuras. Eles só querem prazer, mas não a responsabilidade que um amor traz. Ainda assim teria meus filhos. Somente eles me importam, hoje, Herta. Julgo-me feliz no casamento, apenas porque eu soube administrá-lo bem, mas nunca fui uma mulher apaixonada, sabes disso. Quando Melvio me escolheu, confesso-te, sabia que ele, no fundo, teria ficado contigo...

- Que me dizes?

- Sim, é o que acho... Aliás, tenho certeza. Somos gêmeas, fisicamente idênticas. Ele simplesmente encantava-se com tua personalidade, muito mais forte que a minha. Sempre foste altiva, cruel com os homens...

- Tu parecias ser também.

- Fazia gênero. Não conseguia seguir-te os passos. Ele te queria, mas sabia que ao teu lado haveria de ser fiel, pois, do contrário, o traído seria ele. É do teu temperamento, não?

Herta assentiu.

- Pois bem. Esse foi o nosso destino. Foste procurar uma vida de emoções e prazeres, como te era peculiar. Acomodei-me num casamento de conveniência, dedicando minha vida aos meus filhos e suportando um homem infiel dentro de casa.

- Que suplício! Achei que a desgraça era meu privilégio...

- Não somos donos dos infortúnios. Todos o têm, uns mais, outros menos. Nesses momentos de dor, lembrava-me muito de mama, com seus sábios conselhos no sentido de que deveriamos nos conformar com o que o destino nos havia reservado, enfrentando os problemas com fé em Deus. Acho que fiz parte disso. Conformei-me em ter essa vida; fiz a opção e não posso dela reclamar.

- Mas não vives para ti e sim para os outros - afirmou Herta.

- Meus filhos. Sim, é verdade. Que iria fazer? Qual de nós teve um casamento feliz? Quem teve essa chance? Parecemos predestinados a sofrer no amor e na escolha do nosso companheiro ou companheira.

- Tens razão, excetuando Otto e Inga, somos um fracasso sentimental absoluto - arrematou Herta.

- Que mal já não fizemos em vidas passadas?

- Tu também a seguir os passos de mamai

- E por que não? Conheces teoria melhor a justificar tanta penúria emocional e aflições de toda ordem? - indagou Helga.

- Mas fomos felizes... Lembro-me que sim.

- Quando éramos bem pequenos. Todos ainda ingênuos, levados pelo amor profundo e contagiante de nossos pais. Foram os anos mais felizes de nossas vidas. Lembro-me de Karl brincando conosco de professor... Ele imitava com perfeição o nosso mestre Mathaeus. Ficávamos todos em volta da fogueira e fingíamos ser seus alunos. Era realmente um bom momento. Hugo e Peter eram mais que próximos. Viviam juntos e pensavam juntos. Os dois trabalhavam desde cedo animadamente com Gustav, no arvoredo, cortando lenha -resumiu Helga.

- É, cara irmã, belos momentos que não voltam mais.

- Voltam em nossa lembrança e nos reconfortam o coração. Recordo-me das brigas constantes de Etel e Odo. Tu te lembras de onde eles começaram tal contenda?

- Desde o berço, pelo que me recordo - completou Herta voltando os olhos para o céu.

- E assim foram, disputando brinquedos, atenção e aventuras. Eram felizes assim. Também Fréia o foi.

- Quase impossível de crer; era tão fechada e fria...

- Frieza, Herta, é sintoma da timidez e, às vezes, do orgulho. Não querer mostrar-se pode ser fruto da altivez.

- Achas, então, que Fréia era assim?

- Um pouco sempre foi. Por ser a mais velha das mulheres, estava ao lado de mama quando esta nos chamava a atenção, de modo que se sentia superior a nós, evitando assim as brincadeiras infantis que cultivávamos. Isso não significa que não nos amasse. Creio sinceramente que gostava da família. Não foi ela uma das únicas a ir visitar Odo no cárcere? - concluiu Helga.

- É verdade!

- No tempo em que éramos felizes, todos os problemas pareciam solúveis. Werter seguia Karl, mas tinha uma personalidade forte quando pequenino. Anulou-se, depois, quando chegou à adolescência.

- Lembro-me que era ele o condutor das brincadeiras às margens do riacho.

- O que demonstra que estou certa. Mariel, por sua vez, era uma menina linda, que adorava a Natureza. Nunca entendi o porquê de ter mudado tanto, especialmente quando dizia já não suportar viver conosco na colina verde.

- Não era a colina... Nós éramos o problema. A partir de determinado instante, Gustav passou a importuná-la com maior freqüência e os mais velhos queriam controlar seus passos. Nós tivemos sorte, minha irmã, pois quando chegamos à idade adulta já não tínhamos censores ao nosso lado -lembrou-se Herta.

- E Ula então? Desde cedo adorava imiscuir-se em assuntos que não lhe concerniam. Ainda assim era a mais alegre de nós, sempre tinha uma palavra amiga e um sorriso terno a nos dirigir. Fomos muito felizes, Herta. Muito...

- Até 1630...

- Por que marcaste esse ano?

- Foi o ano de nossas primeiras discussões mais aguerridas à mesa de refeições. Esse foi o termo de nossas existências pacíficas e plenas de amor. Quando passamos a questionar pontos de vista, não mais aceitávamos uns aos outros tais como éramos, deixamo-nos levar pelo orgulho e pelo egoísmo, enfim, quando quisemos impor nossas perspectivas de vida, bem nesse momento tudo começou a terminar - disse a mais nova das gêmeas.

- Não discordo. Eras criança e lembras tão bem...

- Um marco como esse, Helga, não esquecemos jamais.

- Helga, Herta! - chamou Peter - Entrai!

O chamado foi seco e duro. Havia chegado o momento.

Estávamos todos reunidos em torno do leito de Inga, que sorria placidamente. Esticando o braço com dificuldade, ela tocou a mão de um a um dos presentes. Chamou Otto e sussurrou-lhe ao ouvido que já havia dito tudo o que queria aos filhos quando passou os melhores anos de sua vida na colina verde.

Tudo o mais seria inútil falar naquele momento de despedida. Murmurou-lhe, inclusive, que o amor transcendia o horizonte da Baviera e era universal. Tão imenso que iria nos unir por séculos. Partiría certa de ter feito o melhor e queria que todos soubéssemos que esse era o sentimento que a envolvia naquele instante de saudade antecipada.

era, de fato, eterna e que em breve novamente estaríamos a viver exatamente aquelas sensações que nos uniam na Baviera do século XVII.

Mais uma etapa em nossas conturbadas vidas cessara. Por alguma razão, não choramos naquela noite e reunimo-nos

Bem torno do velho archote para apreciarmos o relento, trocando experiências e relembrando o passado, quando verdadeiramente fomos felizes.

1659

Após o desenlace de Inga, Karl, também idoso, resolveu dedicar-se ao protestantismo, certo de que aquela era sua missão e havería de pregar a essência do que realmente acreditava ser o certo.

Ninguém havia balançado a forte estrutura do catolicismo bávaro, nem conseguira romper sua dominação em Garmish-Partenkirchen antes. Com Karl não fora diferente.

Alguns meses foram suficientes para que ele atraísse toda a fúria dos prelados locais, alguns seus velhos conhecidos de abadia e seminário.

Pregando em alto e bom som a teoria calvinista, da qual se tornara discípulo, logo conquistou mais inimigos do que havia conseguido em sua vida inteira. A cúpula local do catolicismo, que tivera a sorte de evitar a aproximação da Guerra dos Trinta Anos e a influência da Reforma naquele cantão, agiu com rapidez.

Acusado de alta traição, heresia e prática de bruxaria, a Igreja ressuscitou um esquecido procedimento que datava do final do século XVI e levou Karl para um julgamento em Florença, numa abadia dominicana da qual ninguém tivera notícia antes. Condenado, sem chance de apelo, sua sentença foi a morte cruel.

Ele, no entanto, jamais voltou a negar sua fé.

Peter teve a oportunidade de vê-lo antes da execução da sentença porque, dando vazão ao seu instinto sacerdotal adormecido, ingressara tardiamente na abadia beneditina de Ettal e entrosara-se facilmente com o prior e com os monges. Conseguiu, assim, acesso à prisão onde o sentenciado aguardava sua reprimenda.

- Karl, vim ver-te... Posso entrar?

- Meu irmão, caminha para perto da tocha, pois desejo ver o teu rosto familiar... Estou solitário há muito tempo. Tua presença me é um bálsamo. Estou grato por vires...

- Não poderia deixar-te nesse momento. Sei o que praticaste, as teorias que pregaste, as pessoas que desagradaste. Sou monge, agora, como sabes... Era um estranho sentimento inerente ao meu âmago, contra o qual deixei de relutar. Achei que deveria libertar-me das amarras do casamento, como fizeste, dedicando-me a uma vida inteiramente diferente daquela que me levou a maior parte dos anos. Aqui estou, feliz, integrado, equilibrado novamente.

- Que mundo, meu irmão! Fui católico, beneditino, casei-me, deixei os meus, tornei-me protestante e acabo meus dias nesta masmorra, esperando minha morte porque fui condenado por heresia e bruxaria.

- Sei que não és bruxo. Não concordo com tua sentença, mas a Inquisição ainda está forte na Itália.

- Por isso me trouxeram da Baviera para cá.

- Eles não tiveram outra alternativa. Não poderías continuar blasfemando contra a Igreja em nosso vilarejo. Tu sabes que eras conhecido e poderias influenciar outras opiniões. E a lei, meu irmão.

- Sei disso. Não aceito, mas entendo que meu fim não seria outro. Não te culpo por teres ingressado naquela maldita ordem. Se é tua vocação, deves segui-la, como eu segui a minha... mesmo que tarde.

- Teus filhos te enviaram lembranças...

- Lembranças a um pai moribundo? Quero que eles me esqueçam, do mesmo modo como já os esqueci.

- E tua esposa disse-me que...

- Por favor, Peter! Não quero notícias de casa, aliás de uma casa que nunca foi minha. Mudemos de assunto. Como estão papa e os demais?

Helga voltou para cá com Melvio. Ula, como bem sabes, leva a sua vida beguina, sem cansar-se um só minuto de atormentar os padres e ao mesmo tempo os políticos. Herta resolveu ficar definitivamente com papa, que já está bastante idoso. Mariel, ah, finalmente uma boa notícia, criou coragem e, na companhia de Etel, voltou para Viena. Reencontrou seus filhos. Não foi difícil porque eles não haviam deixado o setor da cidade onde ela morou com Hans. Não sei se ficará lá ou voltará para Garmish-Partenkirchen. No mínimo, trará seus filhos para papa conhecer...

- Fico feliz! Parece que a paz voltou a reinar em nossa família. E os teus filhos e esposa?

- Gerdha voltou a morar com seus pais e irmãos. Adolf e Markus, como sabes, encantaram-se com Otto e cuidam dele o tempo todo. Acho que suprem a carência de pai... Estive com a família de Helga outro dia. São sete belos rapazes e moças. Orgulho-me de nossa irmã, uma mãe dedicada e cuidadosa...

- Tal qual mama...

- Sem dúvida. Das gêmeas, ela é a que mais se ligou ao seu papel na família.

- Peter - gritou o guarda - a visita encerrou-se.

- Já vou sair. Karl, queres alguma coisa? Que posso fazer para amenizar tua dor?

- Não te deixes envolver por esse sentimento odioso de revanchismo e injustiça que abarca toda a ordem dos beneditinos. Terminarás como eles se não fores equilibrado.

- Mas agiste erradamente, Karl. Deus te está castigando. Não é por acaso justiça?

- Não me respondas agora. Compreendo que és um deles e eu também já fui. Medita a respeito, é o que te peço. Responde ao teu coração no futuro.

- Está bem. Prometo que irei pensar sobre isso.

- Peter, por favor, a visita está encerrada - advertiu novamente o guarda.

- Adeus, meu irmão. Que Deus tenha piedade de ti.

- De nós, Peter. Até breve.

Um abraço de amor e esperança renovada uniu os dois irmãos demoradamente, até que um monge retirou Peter da cela, levando-o dali.

1660

Na colina verde estavam somente Otto, Herta, Markus e Adolf. Mesmo assim, todas as noites conversavam animadamente durante as refeições e reuniam-se em tomo do fogo manso produzido pela madeira montanhesa, trocando as vivências do dia. Os meninos adoravam as histórias do avô, que já estava cego, mas possuía uma memória límpida e rica em reminiscências. Herta revelara-se uma tia excepcional, cuidando dos filhos de Peter com presteza e amor, tal como se estivesse recuperando os anos perdidos e frustrados como a mãe que deixara de ser.

Naquele dia, Adolf trouxera uma notícia diferente. Enquanto aprendia a cortar lenha, achou debaixo de um dos troncos mais robustos da região um pequenino pacote, deixado por Gustav e dirigido à família, contendo um bonito brasão manufaturado na própria madeira originária daquele arvoredo, simbolizando a marca dos Bergvolk. Seu talento para criar e materializar brasões frutificara numa lembrança que Otto já não podia enxergar com os olhos da carne, mas que sua visão espiritual abençoou como uma dádiva do filho querido, que tanto amou e que deixara o mundo material magoado e rebelde. Quando o neto colocou o brasão em suas mãos enrugadas, segurou-o bem forte, aproximando-o do coração e contraindo-o contra o peito.

Herta chorou, lembrando-se dos sonhos e das fantasias criadas pelo irmão ali mesmo, em torno do facho breado, cantarolando lorotas e ouvindo os versos criativos de Peter e Hugo.

1662

Otto partiu sereno e lúcido. Pediu a Herta que não avisasse os “meninos”, como ainda chamava os filhos. Afinal, Mariel reencontrara o amor filial entre os seus, graças ao empenho de Ovila, que os criara contando-lhes toda a verdade sobre a partida subjugada da mãe. Etel havia assumido o lugar do professor Mathaeus, há muito falecido, e dedicou os últimos anos de sua vida ensinando as primeiras letras aos filhos dos camponeses e pastores da região. Passava longos períodos fora de casa, viajando pelas cercanias bávaras. Helga estava com a família em Florença e não lhe seria fácil voltar à colina verde. Ula, envolta com a paróquia e os afazeres domésticos, foi poupada por insistência de papa. Peter, o único remanescente dos homens, estava enclausurado na abadia, vivendo seus anos mais felizes, por mais estranho que isso nos parecesse.

A alegria e a inocência dos netos fiéis e amorosos, Markus e Adolf, foram suficientes para encantar o velho nos seus últimos versos em louvor da vida. Ele deixou a matéria celebrizando as palavras que mais o maravilharam, quase o enfeitiçando magicamente, desde que chegou à Baviera.

- Filha - disse ele a Herta - amo tanto esta colina, que desejo levá-la comigo em minha partida. Há muito só a vejo com os olhos do espírito, mas mesmo assim não a esqueço. Feliz do dia em que decidi vir para cá, após casar-me com tua mãe, minha adorada Inga. Chego aos oitenta anos realizado por ter na minha existência pisado o solo da colina verde. Graças ao bom Deus. Minha querida colina verde...

Essas foram suas últimas duas palavras.

1692

Meus pensamentos vagaram pela imensidão do tempo e a Baviera parecia tão real, tão próxima, tão querida. Como fomos felizes! Otto e Inga foram os anjos de nossas vidas e somos gratos a Deus por termos tido a
oportunidade de os terem como pais. Estamos quase chegando ao século XVIII e nunca mais tive a oportunidade de rever meus irmãos. Sou avó, tenho minha vida preenchida por meus netos e filhos maravilhosos e já não conto com meu esposo, que partiu anos antes.

Meu desejo seria rever meus irmãos, mas perdi completamente o contato com todos. A colina verde era o nosso ponto de apoio, de sustento e de encontro. Após a morte de papa, Herta deixou-a, sem rumo certo, levando consigo os sobrinhos Markus e Adolf, que não quiseram voltar a residir com a mãe. Mariel nunca mais saiu de Viena e Etel fixou residência em alguma vila da Baviera, cujo nome até hoje desconheço. Meu irmão Peter terminou seus dias na abadia, talvez ainda meditando sobre as derradeiras palavras que Karl lhe dirigira no cárcere. Ula, pobre dela, teve um derrame numa das novenas que coordenava em sua casa, mais falando mal das vizinhas e beatas, do que propriamente elevando a mente a Deus. Foi fatal. Não teve o sofrimento de ver-se inválida e servindo de comentário a todo vilarejo, nos moldes em que mexericava sobre os outros.

Sinto-me amparada pelos meus, mas não é o mesmo. O vazio do meu coração esgota-se na falta que me fazem as estrelas bávaras, os riachos e as flores das montanhas, o céu azulado e especial de nosso vilarejo germânico, os ares alpinos e, sobretudo, a força emanada da nossa velha e querida colina verde.

- Vamos, vovó. Cansei-me de brincar, quero ir para casa. Agora é definitivo!

- Está bem, Mabel! Vamos indo...

Retiro os olhos da linha do horizonte, deixando para trás a Ponte Vecchio, quando ouço uma voz chamando-me com insistência:

- Helga, Helga, irmã! Que tal um abraço?

- Não é possível! Herta! Minha adorada irmã! Deus ouviu-me suplicar. Que fazes aqui? Ao teu lado esse rapaz? Markus? És tu, meu jovem?

- Sim, titia. Resolvi fazer o último gosto dessa velha rabugenta e trouxe-a para ver-te. Não morrería em paz, nem dando-nos paz, se não te visse de novo. Acho que é um mal dos gêmeos... Tenho dois filhos idênticos para provar.

- Deus, que dia estupendo! Meus queridos, que felicidade! Vê, Mabel, são teus parentes. Esta é tua tia-avó Herta...

- Mas é igual à senhora, vovó.

Sim, querida. Somos gêmeas. E esse é o teu tio Markus.

- Olá, sou Mabel. Achei que não tinha mais parentes...

- disse a menina com simplicidade.

- Vai, querida - pediu-lhe Helga -, acompanha Markus e conhece tuas primas que estão em casa.

Assim que a menina e Markus foram embora, deixando as anciãs ainda nas proximidades do Arno, elas não perderam a oportunidade de iniciar de imediato a conversa que há tanto esperavam.

- Novamente diante das águas de um rio encontro-te, minha irmã - proferiu Herta, emocionada.

- A última vez era a despedida de mama e o riacho era o da colina verde - disse Helga.

- Sei que não posso compará-lo ao majestoso Arno, mas arrisco-me a confundi-los em nome do nosso passado.

- E bem o fazes. Acompanho o pôr-do-sol nessa ponte, Herta, desde o dia em que voltei da Baviera e não mais pude para lá retornar. O Arno e eu já nos tornamos confidentes.

- Tenho saudade, querida. Muita.

- Sempre é tempo para um reencontro e acho que Deus ouviu-me as preces. Tu estás de volta... Nada poderia ser mais emocionante para quem chegou ao final da trilha.

- Sim, é verdade. Mas existe algo mais que te contarei - confidenciou-lhe a caçula das gêmeas.

- E o que seria, minha irmã? Aplaca-me a curiosidade.

- Falei com mama. Ela vela por nós.

- Estás decrépita, Herta! O que me dizes?

- É isso mesmo. Depois que ela se foi, papa ensinou-me a fazer um tipo especial de oração, quando podemos nos soltar de nossos corpos e viajar no tempo e no espaço com a leveza de uma pluma... Numa dessas ocasiões, tive oportunidade de ver mama, toda luz, envolta numa aura prateada e acenando-me com amor. Era ela, Helga, tenho certeza. Dizia-me que a jornada estava somente começando e que iria estar conosco onde quer que estivéssemos, mortos ou não. Ela é um Espírito, minha irmã, e como tal não morre jamais.

- Sei que Espíritos não morrem. Mas vê-la? (...)

Sim, eu a vi. Contei ao papa e ele me confirmou, pois já a tinha visto várias vezes, especialmente empenhada em nos garantir um tranqüilo final de jornada.

- Mama... Doce mama. Quase não acredito no que ouço.

- Pois certo, Helga, agora não tenho dúvida. Haveremos de nos reencontrar algum dia, todos nós...

- Os doze?

- Não, melhor que isso, os quatorze. Por que não? Não deixamos tantas pendências entre nós? Ou acaso desistimos de errar enquanto estivemos juntos?

- Ao contrário, foi o que mais fizemos...

- Devemos, pois, ter resignação. Se falhamos agora, repararemos nossos erros mais tarde. Será que Deus me dará a dádiva de, um dia, qualquer dia, no futuro estar de novo convosco?

- Oh, sim! Se mama nos garantiu é porque é possível, Herta.

- Preocupa-me somente quanto tempo irá levar para que isso ocorra.

- E o tempo te angustia, minha irmã? Não durou pouco toda essa nossa existência? Tantos encontros e desencontros... Vidas marcadas e relacionamentos maculados, tudo passado em um piscar dos olhos. Ontem colhíamos flores na colina; hoje estamos em Florença, findando os dias que nos pareciam eternos.

- Lembro-me do desespero que me dava quando não percebia que estava crescendo; achava que seria menina para sempre - sorriu Herta.

- E agora és uma velha caduca...

- Oh, não! Lúcida como há muito não estava... Consciente dos meus erros e da necessidade que tenho de mudar.

- Será que conseguiremos guardar essas lembranças muito tempo? Quem nos garante que ao deixarmos esses corpos não iremos perder a memória?

- Não sei, mas acho que, quando for o momento, iremos ter o nosso reencontro e, nessa ocasião, de algum modo, saberemos que é nossa família reunida de novo. Haveremos de reviver a colina verde e seu tempo de amor e encanto.

Cuidaremos de resgatar nossas dívidas e voltaremos a nos tratar como irmãos inseparáveis que fomos durante os primeiros anos de nossas vidas.

- Até 1630... - completou Helga.

- Sim, até 1630! Esse período ficará perenizado em nossa longa jornada.

- Prometa-me, então, que voltarás e quando isso acontecer não nos separaremos jamais.

- Está prometido! Vamos deixar esse momento gravado em nossa memória. Um dia ainda escreveremos um livro sobre esse épico que foi nossa caminhada.

- Certamente! Será a saga dos Bergvolk... A força da nossa terra! Um canto de louvor à Alemanha, onde fomos felizes, crescemos e aprendemos...

- Chamar-se-á Baviera - sentenciou Herta, animada e jocosamente.

- E será nossa história.

- Que sonhos temos, minha irmã!

- Delírios de velhas decrépitas... Mas seremos perdoadas.

- Pois sim. Viva aos sonhos!

- Viva! Voltemos a casa, quero que conheças meus outros netos.

- Não sem antes um adeus ao horizonte...

Da Ponte Vecchio, elas se envolveram com o fascínio do poente e sonharam dessa vez com o futuro, deixando suas mentes navegarem pelas trilhas da fecunda imaginação. Terminaram num ponto comum: a colina verde da pungente e imortal BAVIERA.

F I M

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RESUMO GERAL DA EVOLUÇÃO ESPIRITUAL

1. CHARLOTE: Caroline (XH-Conde Giscard D’Antoine) - Nadine (XXVIII-Na Corte do Rei Filipe Augusto) - Charlote (Baviera);

2. CHRISTEN: Klaus Augusto Von Büher (XIII-A Abadia dos Beneditinos) - Christen (L-A Guerra dos Trinta Anos e Baviera);

3. ETEL: Etel (Baviera) - Vicente (LVII-A Última Jornada na Crosta);

4. FREDIANO: Eustáquio (I-A Batalha de Dijon) - Cario (IX-O Reinicio em Cosenza) - Pietro (XI-0 Reencame como Pietro)

- Giscard D’Antoine (XH-Conde Giscard D’Antoine) - Tatuí-Piaba (XIX-Desvendando um Continente Selvagem) - Samuel (XXI-Expiação na Eslovênia) - Patrick (XXII-Calais) - Charles de Bogondier (XXVI-Charles de Bogondier) - Ádila (XXXIII-Remindo o seu Passado) - Mirandela (XXXV-Reeducando-se) - Jean Paul (XXXVIII-Em Busca do Tempo Perdido) - Maximiliano (XLI-A Abadia de Florença) - Luvi (XLVIII-Do Mundo das Artes à Escravidão) - Frediano (L-A Guerra dos Trinta Anos e Baviera)

- Lisandro (LII-A Revolução Francesa) - Eduardo (LIV-A Saga de Napoleão Bonaparte) - José Antonio (LVII-A Última Jornada na Crosta);

5. FRÉIA: Chakar (XXXIII-Remindo o Seu Passado) - Eugênio (XXXV-Reeducando-se) - Fréia (Baviera)-,

6. GUSTAV: Günther (XIII-A Abadia dos Beneditinos) - Big Joe (XLVIII-Do Mundo das Artes à Escravidão) - Gustav (Baviera);

7. HANS: Razuk (VII-0 Resgate) - Neil (X-A Fuga) - Hans (Baviera) - Emest (LII-A Revolução Francesa);

8. HEIDEROSE: Duprat, Duque de Orleans (XIII-A Abadia dos Beneditinos) - Claude (XXXVIII-Em Busca do Tempo Perdido)

- Heiderose (Baviera);

9. HELGA: Charles Bidet (XV-O Passado Beneditino) - Arnaud (XXXVIII-Em Busca do Tempo Perdido) - Helga (Baviera);

10. HERTA: Gedião (VI-A Cisão nas Zonas Trevosas) - Pirnílio (X-A Fuga) - Herta (Baviera) - Gilbert (LII-A Revolução Francesa) - Davi (O Peregrino das Ilusões)',

11. HUGO: Rita (V-A Destruição do Vilarejo) - Mirtes (X-A Fuga)

- Françoise (XIII-A Abadia dos Beneditinos) - Anita (XXXII-As Conseqüências do Suicídio) -Hugo (Baviera);

12. KARL: Guilherme (II-Eustáquio na Erraticidade) - Marcei Debusson, Bispo de Orleans (XIII-A Abadia dos Beneditinos) -Gualberto (XXXIX-0 Encontro com Joana D’Arc) - Pierre, Conde de Revergy (XLVII-A Noite de São Bartolomeu) - Cauim (XLVIII-Do Mundo das Artes à Escravidão) - Karl (Baviera);

13. MARIEL: Ana (IX-0 Reinicio em Cosenza) - Peter (XIII-A Abadia dos Beneditinos) - Mima (XXX-Destruição na Terra Santa) — Mariel (Baviera);

14. MATHAEUS: Ricardo Igor Von Büher (XH-Conde Giscard D’Antoine) - Mathaeus (Baviera);

15. NICOLAS: Hilário (XVIII-0 Retomo à Espiritualidade) -Nicolas (Baviera);

16. ODO: Filipo - (IX-0 Reinicio em Cosenza) - Rocco (XXX-Destruição na Terra Santa) - Odo (Baviera);

17. OVILA: Constance/Melina (XH-Conde Giscard D’Antoine) -Clemence (XXII-Calais) -Ovila (Baviera);

18. PETER: Capitão Tergot (VI-A Cisão nas Zonas Trevosas) -Nadia (Inquisição - A Época das Trevas) -Cardeal Ubaldo (XLIII-Os Recônditos Caminhos da Abadia Rumo ao Vaticano) - Vana (XLVIII-Do Mundo das Artes à Escravidão) - Peter (Baviera);

19. ULA: Ula (Baviera) - Maria Isabel (LVH-A Última Jornada na Crosta).

20. WERTER: Gorot/Paulus (XH-Conde Giscard D’Antoine) -Émile Bogondier, Duque de Bogondier (XXVI-Charles Bogondier) - Werter (Baviera);

17 - As referências entre parênteses dizem respeito à reencarnação do mesmo Espírito, constante em capítulos do livro “Eustáquio - Quinze Séculos de Uma Trajetória" e também das obras "Baviera - Saga Secular de Amor e Ódio", "Inquisição - A Época das Trevas” e "O Peregrino das Ilusões".

18 - A ordem aqui disposta é a cronológica.

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Apêndice Doutrinário FAMÍLIA MATERIAL E FAMÍLIA ESPIRITUAL
Família material: formação

e pressupostos

1 - A família material e sua importância:

Trata-se de um núcleo de integração que se forma no planeta de modo a favorecer a evolução do ser. É constituída de pais, filhos e irmãos, em linhas ascendentes e descendentes, sendo que todos os encarnados pertencem necessariamente a uma família material. A sua importância cinge-se ao fato de propiciar uma convivência essencial entre seus membros, ante as provas e resgates que devem vivenciar na Crosta para galgar a depuração espiritual, com deveres e direitos recíprocos.

2 - Como se forma uma família material:

Existem duas maneiras de se formar. Uma delas é* pela concepção, ou seja, um homem e uma mulher, ao gerarem um filho, constituem automaticamente uma família material. A outra ocorre quando eles decidem se unir com o objetivo de formar um núcleo familiar, onde a concepção de um filho pode ou não ocorrer. As razões que eventualmente levam o casal a optar por não conceber um descendente serão analisadas pela Espiritualidade Superior, já que um dos esteios do núcleo familiar é a concepção e a criação dos filhos: interesses egoísticos que levem o casal a não ter descendentes têm por base o materialismo e provocam débitos a serem reparados. Se um homem e uma mulher unem-se numa mesma casa, relacionam-se sexualmente, mas não têm a menor intenção de formar um núcleo familiar com respeito mútuo, levando cada um a sua vida distinta, inclusive com relacionamentos livres, não se constitui aí uma família material. Note-se que essa situação tem sido lamentavelmente comum na atualidade: a união irresponsável, com a prática de sexo livre, significa atraso na trajetória do ser, visto que o objetivo do relacionamento sexual e do amor é serem exercidos com a finalidade voltada para a constituição de um núcleo familiar, centro de evolução por excelência. Entretanto, se esse homem e essa mulher, que têm uma vida em comum desregrada e livre de compromissos, chegam a ter um filho, passam, naturalmente, a constituir uma família material, com as responsabilidades a ela inerentes. A paternidade e a maternidade têm ônus e o principal deles é a necessidade de proporcionar um lar ao ser que está reencarnando e merece ser amado.

3 - A importância do casamento na formação de uma família material:

Ele faz parte da lei dos homens e a sua instituição representa progresso na trajetória evolutiva da Humanidade, em especial pela sua característica monogâmica.

A importância dos filhos e do núcleo familiar

4- Ter mais de uma família: conseqüências.

O homem, provocando a concepção de vários filhos, com diferentes mulheres, está formando várias famílias materiais. Entretanto, essa conduta é danosa para sua trajetória, preju-dicando-lhe a evolução. O objetivo do encarnado deve ser, de regra, buscar, através do amor, a constituição de um núcleo familiar, onde pode ter filhos e vencer várias provas. Quando forma concomitantemente inúmeras famílias, não consegue respeitar com nenhuma delas os pressupostos e bases da família material e falha na sua programação. Coisa diversa ocorre com a formação sucessiva de famílias materiais: o encarnado rompe os vínculos com uma primeira, através do divórcio, da separação ou tem esses vínculos extintos pela viuvez, assumindo uma nova convivência familiar em seguida. Assim, é justa a formação da segunda família, pois cessa a convivência com a primeira. Sua responsabilidade, no caso, cinge-se ao divórcio ou à separação, mas não no tocante à formação de novo núcleo familiar.

5-0 homem que tem várias mulheres ou a mulher que tem vários homens concomitantemente podem possuir várias famílias dependendo do caso.

Se o homem com cada mulher tiver um filho, tem várias famílias. Do contrário, utilizando o homem como exemplo, ele somente a constitui, com aquela com quem idealizou tal situação e as outras são amantes ou romances passageiros. Pode acontecer do homem ter inúmeras mulheres, todas relações livres, sem nenhum ideal de formação familiar: certamente não constitui nenhum núcleo familiar. A responsabilidade das mulheres ou dos homens que se sujeitam a ser um caso passageiro de outra pessoa depende do grau de consciência que têm dessa situação. Isso porque, exemplificando com o caso do homem, pode ocorrer que ele mantenha várias mulheres, em lares diferentes, como amantes ou companheiras, sem contar-lhes a sua verdadeira condição. Caso sejam elas iludidas ante tal postura armada pelo companheiro, sem desconfiarem que ele possui outras famílias, estão sem qualquer responsabilidade, mas do contrário arcam com o negativismo de suas posições.

6 - Pode acontecer de haver autorização religiosa para a constituição de várias famílias:

Na verdade, religiões que permitem várias uniões familiares concomitantes acompanham o estado de evolução atrasado de seus seguidores. O progresso não se faz rumo à degradação da união familiar, pois o encarnado tem dificuldade em evoluir sem o apoio que recebe de sua família material. Os que seguem esse comportamento estão despreparados para a vivência da união monogâmica. Com o tempo e a depuração de seus espíritos conseguirão aclarar suas mentes e não aceitarão mais esses tipos de união.

-0 significado do exemplo que os pais podem dar aos filhos na convivência familiar:

A família é essencial na formação dos filhos, em face da educação que recebem de seus pais. A melhor forma de educar é através do exemplo que os pais dão a seus filhos, pois as crianças , de um modo geral, fixam melhor as condutas que vêem acontecer à sua volta do que simples palavras que lhes são expostas por terceiros. Assim, ante o exemplo de uma conduta correta de seus pais, os filhos naturalmente a aprendem.

8 - A importância da vida em comum na família material:

Os membros da família material devem necessariamente conviver entre si. Esse relacionamento inicia-se no útero da mãe, que já tem intensa integração com seu filho durante a gravidez. (19)19 - Ver o livro “Minha Vida em Gestação". Obviamente, a vida em comum não é tarefa fácil, mas justamente esta é a sua importância. As relações conflituosas são essenciais para a evolução do ser humano, pois permitem várias situações de provas. Cada ser é responsável por seu progresso espiritual; entretanto, ele deve ocorrer numa vivência conjunta com outros seres, pois o encarnado não vive, nem progride sozinho. Logo, sua primeira e principal fonte de convivência é sua família material. Nesse núcleo familiar reencarnam os Espíritos mais diversos e todos devem ser ligados, no plano material, pelo amor existente na família. Assim, antigos inimigos, por insucessos de outras existências, podem passar a se amar, o que facilita a reparação de suas dívidas. Por tal razão, afirma-se que a família é o principal centro de evolução da Humanidade. O berço familiar adquire contornos de rara grandeza quando proporciona estrutura e força para a criatura enfrentar as vicissitudes da vida material. Toda a sorte de obstáculos pode ser mais facilmente vencida se o encarnado tem um lastro familiar, onde aprende a amar e a ser amado. Não há, por enquanto, na Terra, perfeição em nenhum tipo de relacionamento, de forma que a convivência na família também é problemática. A Sabedoria Divina, no entanto, fixou no núcleo familiar, de regra, maior fonte de amor do que de desventuras.

9 - Porque é tão importante a manutenção da união familiar:

Quando dois encarnados chegam a constituir uma família material, passam a existir entre ambos fortes vínculos de ligação, especialmente os sentimentais. Por outro lado, constitui ainda um liame espiritual, que é a programação vivenciada pelo casal para desenvolvê-la em conjunto. A união familiar reveste-se de especial relevância também porque a fraternidade é um dos objetivos básicos a ser alcançado por qualquer pessoa e a vida em família pode propiciar imensa vivência nessa área.

O rompimento da família material

10-0 rompimento da união familiar através do divórcio ou da separação é aceitável, mas apenas dentro de determinadas situações:

Quando o casal se une para a formação de uma família, certamente não é uma ligação casual. Há uma programação a ser vivida em conjunto pelos dois seres. Logo, o rompimento prejudica a convivência necessária tanto para o reparo de dívidas do passado, quanto para a construção de um futuro melhor. A regra é que o casal permaneça unido em família até o desencarne de um deles, para que possam criar seus filhos e vivenciar suas provas. Quando a vida em comum se torna insuportável, a culpa cabe aos dois ou a um deles. O fato é que alguém não foi forte o bastante para conseguir, através de sua reforma íntima, manter um relacionamento promissor em matéria de evolução. Se o casal atinge níveis de convivência deteriorados, passando a contrair mais dívidas em vida conjunta do que se estivesse separado, é preferível que se separe, arcando somente com a dívida da não-continuidade do relacionamento. Assim, o rompimento do casal só é aceitável quando o convívio torna-se foco incon-trolável e permanente de atitudes agressivas e não cristãs. Não se condena, sistematicamente, o rompimento do casal, mas exige-se responsabilidade de ambos ao tomar tão grave decisão. Como nenhum encarnado forma uma família material por acaso, é preciso entender a importância dessa união e preservar seus vínculos, pois o rompimento traz insucesso à programação do casal e, por vezes, indiretamente, à trajetória dos descendentes também.

Tem-se como ideal que o ser humano reencarna com uma programação a seguir, ou seja, deve trilhar uma missão específica. Dentro dessa trajetória insere-se a união em família. Pode ter programadas duas ou três uniões familiares sucessivas numa mesma existência material, mas isso não é o habitual. Deve, pois, lutar por manter sua família unida, sabendo que essa é a regra.

As vezes, a separação do casal é uma prova pela qual deve passar a família material, embora essa não seja a situação ideal. Tendo em vista que o julgamento da conduta do encarnado, a par de sua auto-avaliação, e do sucesso ou insucesso de sua missão, após o desencarne, é atribuição exclusiva da Espiritualidade, não lhe cabe agir levianamente, alegando estar a separação dentro de suas provas, mas perseguir uma situação o mais próxima possível do exposto no Evangelho de Jesus. As variabilidades ocorridas em sua trajetória serão avaliadas pelo Plano Espiritual Superior, no momento certo.

E oportuno lembrar também que o rompimento do casal, como todas as atitudes no plano físico, guardam relação com o livre-arbítrio do encarnado.

11 - Porque ocorrem tantos rompimentos de casais na atualidade:

A facilidade com que muitos defendem o fim de uma união familiar decorre da má compreensão da verdadeira finalidade da vida, pois o argumento, em geral, é de que, se dois estranhos se unem podem se afastar a qualquer momento, já que não têm vínculos de parentesco. Assim, com a separação, estariam quebrando apenas um vínculo material e não consangüíneo. Isso não é verdade: existindo filhos, do ponto de vista destes, ambos, pai e mãe, são seus parentes mais próximos e sua família, portanto. Há, sim, um rompimento também da família material. Por outro lado, o casal não está junto somente por interesses imediatos e materialistas, mas especialmente porque cada um dos companheiros possui com o outro uma missão conjunta. Espiritualmente, apesar do rompimento do casal, permanece o vínculo entre ambos, demonstrando o insucesso da tarefa que seria desenvolvida. Aliás, para o Plano Espiritual Superior, a importância da convivência entre o casal, na família material, é a mesma que existe entre os pais e seus filhos. Os Espíritos, ante as várias reencarnações pelas quais passam, são ora pais, ora filhos, ora companheiros numa mesma família, variando de papéis até atingirem o sucesso completo de seu resgate, na direção do progresso constante.

Quando uma separação ocorre levianamente, os pais acabam muitas vezes desprezando por completo o interesse de outros membros ligados à mesma família - os filhos -, esquecendo que também já foram rebentos e que seus pais unidos foram - ou deveríam ter sido - muito importantes para a sua criação.

Inúmeras separações ocorrem, não raras vezes, porque o casal, ao unir-se, julga ser possível aí encontrar a total felicidade. A partir de então, busca essa felicidade, porém numa falsa concepção do que ela venha a ser. Deseja uma vida em comum repleta de prazeres e satisfações materiais, recheada com muita compreensão pelos erros comuns e desprovida do esforço de reforma íntima. Destarte, romper uma união familiar com base na infelicidade material é um desvio de perspectiva, pois a vicissitude ocorrida no plano físico é uma constante e, muitas vezes, necessária para a evolução do ser, ao passo que a felicidade completa pertence ao mundo espiritual. Justificar uma separação porque não foi atingida a “felicidade” com essa união pode significar postergar ainda mais a conquista da real felicidade no mundo extra-físico, pois a tarefa de depuração pode estar sendo afetada.

Noutros casos, a razão do rompimento está no fato de ter ocorrido uma união baseada em alicerces materialistas, ou seja, feita sem amor, mas por conveniência. Nesse caso, fica fácil desfazer o que foi feito sem muita convicção. E outro desvio de perspectiva, já que prorroga as reparações que deveriam ser realizadas.

As uniões efetivadas em bases de amor e regadas de apoio mútuo são sólidas, de regra, e só se desfazem por invigilância do casal.

12 - Como ficam os filhos diante da separação dos pais:

O rompimento do núcleo familiar é o-último recurso que deve ser utilizado pelo casal. Logo, se assim acontece, os filhos devem conformar-se com a decisão dos pais, prosseguindo suas vidas normalmente, sem revolta, pois nada ocorre por acaso e todas as situações devem ser vividas com resignação, mesmo que tragam sofrimentos morais. Por outro lado, os rebentos não deixam de sê-lo, permanecendo por completo o vínculo familiar com seus genitores, ora separados. A missão de todos prossegue, mesmo sem a convivência diuturna sob o mesmo teto.
13 - Separado o casal, quando deixa de ser uma família material:

Se existem filhos, a família material perdura, não obstante seus pais passarem a residir em locais diferentes. Se não os tiver, a família deixa de existir.

14 - A impotência do homem para a relação sexual ou a infertilidade de um dos cônjuges e a separação do casal:

Se a impotência surge para o homem ao longo da união familiar, é uma prova a ser vivida pelo casal e a separação não tem razão de acontecer. Do mesmo modo, se a mulher sabia da impotência do seu companheiro antes de se unir a ele, deve partilhar a vida em comum, sem alegar essa circunstância para um rompimento da união.

Diferente, no entanto, é a situação do homem que escondeu deliberadamente da mulher sua impotência, sabendo até que ela não teria condições de suportar uma vida em comum sem a prática da relação sexual. Nesse caso, ela fica privada de um relacionamento que lhe faz falta, inclusive organicamente, o que pode resultar em desvios e fracassos ao longo da trajetória comum. Assim, evitando a concentração de maiores débitos, a separação é justificada.

Se o homem não sabia da sua impotência antes da união, pode expor o fato à mulher e fica no campo do livre-arbítrio de ambos a continuidade ou não da ligação conjugal.

Saliente-se, ainda, que eventual frigidez absoluta por parte da companheira pode acarretar ao homem as mesmas decisões e situações acima expostas para a mulher que está diante de um companheiro impotente. A infertilidade de qualquer um dos dois não legitima a separação, porque, apesar da criação de filhos ser um dos pressupostos do casamento, não necessariamente devem ser esses filhos biológicos. A adoção é meio válido de constituição e ampliação de uma família material. Pensar o contrário é fomentar o egoísmo e o materialismo daqueles que acreditam que somente o filho natural pode suprir-lhes a lacuna da descendência, por possuírem vínculos consangüíneos.

15 - Os filhos e o rompimento de relações com seus pais: Na realidade, não existe rompimento entre pais e filhos, porque a ligação biológica é inafastável. Entre eles pode ocorrer somente um afastamento, o qual tende a ser sempre temporário, pois sua missão conjunta não deve ficar prejudicada. A relação que une uma família material é muito forte e qualquer tipo de abandono ou afastamento que aconteça entre pais e filhos jamais conseguirá quebrar o vínculo existente. Quando ocorre algum tipo de afastamento, os encarnados envolvidos devem tentar , em todo o caso, uma reaproximação em nome da missão de amor que se propõem a realizar.(20)20 - Nota do autor espiritual: o termo rompimento é aqui usado com o sentido de fazer cessar todo e qualquer vínculo material que exista entre dois encarnados antes ligados em família, apesar de, no cotidiano, os encarnados usarem esse termo para representar qualquer tipo de afastamento. Preferimos, no entanto, fazer uma distinção entre rompimento e afastamento para que se possa ressaltar a importância terminológica de cada um e as suas graves consequências de ordem prática no mundo material. Por tal razão, não se admite esse tipo de separação entre pais e filhos que poderão, no máximo, sofrer um afastamento.

16 - Quando o filho se afasta para constituir uma nova família material:

Nesse caso o afastamento é apenas físico e não sentimental. Há necessidade do novo casal obter seu lar, o que não significa um enfraquecimento na relação familiar, já que o relacionamento perdura e prospera, especialmente com a chegada dos netos.

17- 0 melhor modo de relacionamento familiar, a fim de evitar qualquer tipo de rompimento ou afastamento é sempre pela exteriorização do amor.

Não basta que o encarnado sinta ou diga que ama seus familiares. Ele deve, com a maior frequência possível, externar esse sentimento, através de comportamentos. Precisa ter compreensão e ser dedicado no tocante aos problemas enfrentados na convivência familiar, além de ter resignação por não conseguir, muitas vezes, todo o amor que pretende receber ou toda a atenção que julga merecer. Lutar pela convivência em família é a melhor forma de demonstrar o amor que sente.

Relações familiares: comportamento e evolução

18- 0 que representa o relacionamento sexual para o casal:

Trata-se de uma forma de externar e trocar amor entre dois encarnados que constituem uma família. O casal deve praticá-lo, pois é também uma necessidade do organismo material. Se um dos dois se recusa a fazê-lo, afeta o outro. A relação sexual só pode deixar de ser praticada no relacionamento do casal quando há consenso entre ambos, em face de uma missão a ser desenvolvida ou por decisão natural e mútua.

19 - A relação que existe entre os membros da família material do homem e da mulher, numa união familiar estabelecida entre eles: .

Os parentes do homem não têm vínculo familiar direto com os da mulher dentro de um núcleo por eles estabelecido.

Eventualmente, por exemplo, o sogro paterno poderá ter um liame espiritual qualquer com o sogro materno, mas isso não representa uma regra. Na maioria dos casos, não há nenhum vínculo material entre eles. Entretanto, o homem passa a fazer parte da mesma família material diretamente ligada com relação aos pais, irmãos, e outros parentes próximos de sua mulher. O mesmo ocorre com a mulher referentemente aos parentes do homem.

20 - A importância da presença da religião na família material:

O exercício da fé e do amor a Deus é essencial para estruturar o indivíduo com vistas a todo e qualquer tipo de convívio que ele tem durante sua trajetória como encarnado. Os pais devem buscar dar ao seu filho, sempre, uma religião que possa conduzi-lo a Deus, afastá-lo do materialismo e dar-lhe conhecimento de que a vida definitiva é a espiritual e, por isso, há necessidade de luta permanente pelo aprimoramento do seu próprio ser.

21 - Os desvios de algum membro da família material podem afetar os outros familiares:

Se cada encarnado tem sua missão individual na Terra, cada família material - além dessa trajetória específica de seus membros - possui sua programação conjunta. Logo, quando um desvia-se do caminho do bem, os outros devem auxiliar o seu retorno e lutar para que esse regresso aconteça. Ignorar o problema sofrido por um é comprometer o sucesso de todo o agrupamento familiar, uma vez que existe a obrigação de ajuda mútua e solidariedade entre os familiares.

22 - Como encarar o adultério:

Trata-se de uma grave forma de desvio de conduta que ocorre no convívio da família material. Tanto o homem quanto a mulher têm oportunidades para praticá-lo, constituindo-se nas relações sexuais obtidas fora do núcleo familiar. O encarnado pratica-o também ao nutrir pensamentos nesse sentido. É uma forma mais branda, mas nem por isso menos censurável. Quando o homem ou a mulher vivem, em pensamento, a prática do adultério, suas vibrações negativas conseguem atingir o outro que compõe o núcleo familiar. Essas vibrações podem também alterar o relacionamento do casal, modificando sua convivência de modo drástico, até mesmo porque essas formas de pensamento atraem Espíritos inferiores que acabam por influenciar na vida da família. Deve-se lembrar, sempre, que o pensamento é percebido pelos desencarnados e, logo, ninguém pensa em total isolamento. Não bastassem essas situações, o mau exemplo provocado pelo adultério, seja no aspecto material ou no espiritual, influencia também entidades em aprendizado que estagiam na crosta terrestre e no próprio núcleo familiar, que pode ser um posto de trabalho (21) da Espiritualidade.

23- A masturbação:

No tocante ao cônjuge ela deve ser evitada. A masturbação gera pensamentos idealizadores de situações que incentivam a excitação sexual e acaba criando uma forma de adultério pelo pensamento. O atual estágio de evolução da Humanidade não afastou, ainda, inúmeras formas de desvio de conduta, especialmente no campo sexual, o que será alcançado pela reforma íntima de cada um, rumo ao progresso ideal.

Família espiritual: conceito e classificação

24- Famílias no Plano Espiritual:

Na Espiritualidade (22) há agrupamentos de Espíritos como se fossem famílias, especialmente nas colônias espirituais. (23) É preciso que se entenda, no entanto, as diferenças existentes

21 - Ver no livro “Conversando sobre Mediiinidade" o capítulo V “Os Postos de Trabalho”.

22 - Nota do autor material: o termo Espiritualidade (com a primeira maiuscula), por convenção, refere-se a planos mais elevados e com a primeira letra minúscula (espiritualidade) é genérico.

23 - Ver no livro “Alvorada Nova” o capítulo XI, “Setores Habitacionais”.

Entre os dois planos da vida. Os desencarnados, por não terem corpo físico, não possuem orgãos genitais, o que não os define, através do sexo, em homem ou mulher, não obstante guardarem, de regra, o aspecto da última reencarnação ou da que mais os marcou. Ora reencarnam na forma masculina, ora na feminina. Dessa maneira, não se pode definir tais agrupamentos como famílias, como conhecidas no plano material, com as figuras do pai (sexo masculino), da mãe (sexo feminino) e filhos (masculino ou feminino). As tarefas em conjunto que os Espíritos desenvolvem no plano incorpóreo fazem com que, ante suas afinidades, esses agrupamentos sejam formados. O amor existente nesses grupos espirituais é intenso, tal como deve ocorrer nas famílias materiais.

25 - As ligações espirituais que o ser humano tem, além da sua família material:

O homem é relacionado com dois outros tipos de família: a espiritual indiretamente ligada e a espiritual diretamente ligada. Quanto à primeira: todos os Espíritos, sejam encarnados ou desencarnados, ligam-se entre si indiretamente, sendo irmãos uns dos outros e fazendo parte da imensa família universal que possui Deus como centro de convergência comum. No tocante à segunda: forma-se pelo relacionamento de encarnados com encarnados e desencarnados, cujas ligações remontam a famílias materiais de outras encarnações, quando resultaram positivas as convivências, ou então a afinidades espirituais oriundas de uma aproximação natural - por amizade ou amor - nessas existências anteriores ou no mundo espiritual.

Assim, por exemplo: a) um indivíduo pertence à mesma família espiritual diretamente ligada que uma outra pessoa que tenha sido, noutra vida, seu pai, sua mãe ou seu filho e cujo relacionamento resultou positivo; b) por outro lado, faz parte também da mesma família espiritual diretamente ligada que um terceiro quando ambos se aproximam por afinidade herdada de uma convivência harmônica, amistosa e feliz, ocorrida noutra encarnação, onde foram, por exemplo, amigos; c) numa outra hipótese, integram a mesma família espiritual diretamente ligada por terem sido companheiros de jornada na Espiritualidade.

Em todos esses casos, quando reencarnam em famílias e locais distintos, podem reencontrar-se no plano físico, sentindo afinidade especial que espelha essa forte ligação de vidas passadas.

Não é por acaso, portanto, que um encarnado, muitas vezes, prefere conviver com amigos do que com familiares materiais. Isso porque com os amigos - que livremente escolhe - tem um relacionamento espontâneo e de apoio, ao passo que na família material - uma convivência necessária e obrigatória

- os laços de sangue ditam um relacionamento indeclinável.

Os que passam a formar uma família espiritual diretamente ligada terminaram suas dívidas mútuas com sucesso, possuindo entre si tão somente sentimentos elevados, pois do contrário, se ainda tivessem algo a reparar, fariam parte de uma família material ou então da família espiritual indiretamente ligada.

Isso não quer dizer que na família material não possam existir dois ou mais encarnados ligados também pelos laços espirituais diretos, ou seja, num relacionamento sem resgates e somente de apoio. Entretanto, essa situação é mais rara, pois a força da proximidade do parentesco na vida material já é suficiente para manter pessoas unidas, o que basta para as provas que as aguardam. Um ser humano pode, concomitantemente, com relação a outro encarnado, ser integrante das três famílias ou não.

26 - A função da família espiritual indiretamente ligada para o encarnado:

Todos os habitantes do Globo, por serem membros da família universal, têm o dever de fraternidade uns para com os outros. Cada um deve respeitar e amar seu semelhante, abolindo todo e qualquer sentimento recíproco negativo.

Cada encarnado tem uma dívida genérica com seu próximo: distribuir caridade, não podendo, portanto, dizer que nada deve a alguém desconhecido ou que não pertença à sua “família”.

27 - A finalidade da família espiritual diretamente ligada:

Por ser formada de integrantes afins, é a. de uma convivência basicamente agradável, o que difere dos outros dois tipos, que não raras vezes apresentam problemas sérios de relacionamento. Ela existe para apoiar o convívio nessas outras duas famílias, geralmente carregadas de provas difíceis e duras. Dessa forma, um encarnado encontra nos seus amigos materiais um suporte. Quanto aos amigos espirituais, também da família diretamente ligada servem de amparo na trajetória que ele está trilhando no seu estágio físico, vibrando amor e buscando protegê-lo, especialmente da influência de Espíritos inferiores, interessados em desviá-lo do seu caminho. Às vezes o relacionamento na família material é positivo, noutras oportunidades não. Nesse momento, surge a força da família espiritual diretamente ligada, de onde a pessoa aufere forças para prosseguir na sua jornada.

O encarnado e suas famílias material e espiritual: convivência e responsabilidade

28- O afastamento da família material para a convivência na família espiritual diretamente ligada:

Isso acontece quando o encarnado não é forte o suficiente ou não está satisfatoriamente preparado para vivenciar as provas no contexto de sua família material, desejando conviver somente com um grupo de amigos, no campo de trabalho e até mesmo com outros parentes. Em todos esses locais, ele poderá estar encontrando apoio e amor, até mais do que encontrou ou encontra na sua família material, mas esse relacionamento não supre a necessidade da convivência com seus familiares, por vezes difícil. A família espiritual diretamente ligada representa justamente um apoio excepcional para o encarnado vencer os obstáculos na sua família material e triunfar na sua missão. Não deve, pois, sair do convívio com a família nfaterial em busca de outros tipos de relacionamento mais satisfatórios, pois isso pode significar abandono de tarefa e conseqüentemente estagnação na trajetória evolutiva.

29- O nível de responsabilidade do encarnado diante das famílias espiritual diretamente ligada, espiritual indiretamente ligada e material:

Há três níveis de responsabilidade para o indivíduo relativamente a essas famílias. Ele as tem específicas na família material, ao passo que na família espiritual indiretamente ligada há apenas o dever genérico de fraternidade, caridade e amor. No tocante à família espiritual diretamente ligada, encontra apoio e ajuda, não tendo responsabilidades especiais.

30- Quando convém ao homem saber quem pertence efetivamente à sua família espiritual diretamente ligada:

Não deve o encarnado tentar desvendar quem é e quem não é membro de sua família espiritual diretamente ligada, pois esta é a sua família de apoio. Basta para a sua evolução saber quem é e quais são as suas responsabilidades relativamente à sua família material e também que existe uma família espiritual indiretamente ligada à qual ele pertence e com responsabilidade. Sua família espiritual diretamente ligada será sempre seu constante apoio e conforto e seus próprios sentimentos indicarão quem faz parte desse agrupamento.

31 - Os encarnados e a formação da família material:

Em primeiro lugar, deve-se deixar claro que todos pertencem a uma família material, porque são necessariamente filhos. Entretanto, constituir uma outra família para ter descendentes e, portanto, um núcleo familiar próprio, é objetivo de quase todos os que reencarnam na Terra, visto que a família é o centro de evolução do ser, por excelência.

Ocorre que alguns têm missões específicas que não se ligam exatamente à formação de uma família material. Aliás, formá-la com irresponsabilidade traz mais danos do que não vivenciar a sua constituição. Logo, cada encarnado deve sentir o que seu âmago indica nesse sentido, mas sempre que tomar a decisão, de formar ou não uma família, que o faça com responsabilidade e sem interferência de interesses materialistas ou egoísticos.

O essencial é ter uma participação positiva no núcleo familiar para o qual foi enviado e reparar as eventuais dívidas que tem para com seus pais e irmãos, vivenciando tudo com muito amor.

Cumpre salientar também que, por vezes, a impossibilidade de criar uma família decorre de expiação ou prova específica nesse sentido.

Cada indivíduo tem uma prova diferente e se alguns devem vivenciar a sua dentro da família material que compõem,- outros precisam vivê-la fora do núcleo familiar, excetuando obviamente a família na qual nasceram.

Estabelecer uma família material, portanto, é situação ideal para a pessoa, mas não absolutamente indispensável.

32- De onde vem a responsabilidade específica do encarnado em relação à sua família material:

Ela nasce da importância que a Espiritualidade dá ao seu livre-arbítrio no momento de reencamar, quando tem condições para isso, ou seja, ele próprio escolhe determinado tipo de convivência e de programação, optando pela família com quem deseja relacionar-se. Sua vivência nesta ou naquela família, pois, não se dá por acaso, mas, de regra, por sua opção pessoal, o que significa a obrigação de envidar o maior empenho em vencer os obstáculos e conseguir sua depuração.

Alguns, é verdade, reencarnam compulsoriamente, mas mesmo estes têm necessidade de um bom convívio familiar, a fim de garantir melhores chances de progresso.

33 - Qual comportamento o encarnado deve ter em face das três famílias:

Para cada uma, um tipo de procedimento. Deve manter uma postura de desprendimento, solidariedade e caridade, frente aos quais está, sob o ponto de vista espiritual, indiretamente ligado, bastando, muitas vezes, para isso, uma oração que faz dirigida a seu semelhante ou a algum grupo especial de necessitados.

No aspecto sentimental, na sua família material, distribuir amor e compreensão, dando exemplos a serem seguidos e jamais afastando-se definitivamente do necessário convívio com seu núcleo familiar.

Da família espiritual diretamente ligada somente obterá apoio e, obviamente, deverá tratá-la com o mesmo amor que dedica à família espiritual indiretamente ligada.

34 - Conseqüência na falha do indivíduo em seu relacionamento com alguma dessas famílias:

Os três tipos de famílias, apesar de distintos, estão integrados entre si, interpenetrando-se. Dessa forma, atitudes errôneas no contexto de uma delas pode desestabilizar o convívio com as outras duas. E o que se chama “cadeia de missões” que o encarnado possui relativamente às suas famílias material e espiritual.

Outras uniões entre encarnados.

35- A união homossexual baseada em pressupostos da família material (fidelidade, convivência sob o mesmo teto, vida em comum, ajuda mútua) não pode representar a constituição de um núcleo familiar:

Um dos objetivos da família material é ter filhos, educá-los e dar-lhes a melhor formação possível. O casal homossexual não pode jamais ter filhos, considerando os órgãos genitais exclusivos que foram dados aos homens e às mulheres. Os Espíritos reencarnam sucessivamente nos sexos masculino ou feminino e vivem, portanto, ambas as experiências no curso do seu progresso espiritual. Devem, no entanto, respeitar cada vida material que possuem, ora como homens, ora como mulheres e agindo como tais. O homossexualismo é uma inadaptação do ser humano ao seu corpo, em maior ou menor grau, desejando ele o relacionamento com encarnados do mesmo sexo. Não deve ser reprimido, mas orientado sobre as conseqüências de seus atos e do atraso na sua trajetória evolutiva, caso persista nesse desvio de conduta.

36 - O casal homossexual e a adoção:

Algumas uniões homossexuais atendem preceitos da união familiar, tais como fidelidade, vida em comum sob o mesmo teto, ajuda mútua, entre outros, tornando-se até exemplares nesse sentido. Podem ser uniões que respeitam mais princípios de uma família material do que propriamente o fazem determinados casais que formam de fato um núcleo familiar. Isso tudo é levado em consideração pelo Plano Maior na avaliação da conduta de cada encarnado, porém sem inverter as regras estabelecidas pela Lei Divina. O casal homossexual que adotar um filho e criá-lo com amor pode estar tendo um gesto de raro desprendimento, na medida em que está ajudando o próximo. No entanto, será encarado pela Espiritualidade como um ato de caridade e não de formação familiar. Alguns homossexuais podem ser até relativamente mais depurados do que diversos heterossexuais, já que seu único desvio pode ser no campo sexual. Mas uma coisa independe da outra.

Em resumo: uniões baseadas em desvios do sexo nunca formam famílias materiais.
A formação da família material, o auxílio da ciência e o materialismo

37 - A ciência pode auxiliar nos processos de fecundação: É preciso que seja necessária a sua utilização sem substituir a ação natural dos pais, quando esta for possível. Afinal, a ciência tem por fim o auxílio aos encarnados e não a substituição das suas tarefas típicas. Exemplo disso seria a criação de máquinas que pudessem substituir a atividade dos pais na educação de seus filhos, o que seria inadequado, pois o amor - sentimento indispensável no trabalho educativo - jamais seria alcançado por um artefato produzido pela ciência. O mesmo ocorre na fecundação. O que puder ser feito de modo natural deve seguir esse curso. Havendo necessidade, a ajuda científica pode ser utilizada.

38- Fecundação artificial realizada com espermatozóide de uma celebridade qualquer do mundo físico, já desencarnada:

Nota-se, nesse caso, a presença do materialismo determinando a fecundação, ou seja, a busca da “preservação da espécie”, como se o filho de alguém célebre pudesse ser igualmente famoso, herdando as características do pai. Isso não é possível de acontecer, uma vez que se trata de outro Espírito, que pode sofrer influências genéticas do pai ou da mãe mas será sempre uma personalidade distinta.

Um filho concebido nessas circunstâncias está fadado a nascer sem a presença de seu pai, já desencarnado na época da fecundação. Haverá a formação da família material entre o filho e a mãe, mas o autor dessa idéia - seja ele quem for - comete um desvio de conduta, pois priva uma criança de seu genitor, intencionalmente.

Obviamente, um filho pode perder seu pai ainda antes de nascer, mas se isso acontece é por determinismo do Plano Espiritual e não premeditado pelos próprios encarnados, como no caso daquele que é programado para nascer após o desencarne do genitor.

Toda e qualquer manifestação materialista na formação de uma família deve ser evitada.

39- A responsabilidade da pessoa que fornece seu espermatozóide para essa fecundação posterior:

É a mesma daquele que, por interesses materialistas, prejudica terceiros. Não há justificativa razoável para tal atitude, como a preservação da espécie, por exemplo. O encarnado sabe que estará de antemão privando seu futuro filho da presença e da figura tão necessária do pai.

40- Não é permitida pelo Alto a escolha do sexo da criança, através de técnicas científicas, ao ocorrer a fecundação:

Cabe exclusivamente ao Plano Espiritual Superior determinar o sexo da criança que es’tá para reencarnar. Somente a Espiritualidade sabe a missão que ela tem a enfrentar e conseqüentemente qual o sexo que deve vivenciar.

41- Se os pais souberem que um filho de determinado sexo terá uma doença incurável e de outro sexo não terá o problema, ainda assim não o podem determinar.

A questão é a mesma: confiança nos Desígnios de Deus.

Se a criança de sexo masculino, por exemplo, corre o risco de uma doença e a de sexo feminino não, o casal tem duas opções. A primeira é evitar a concepção, pois isso lhes é lícito. A segunda é gerar o filho e a Espiritualidade Superior determinará o sexo do ser reencarnante. Se o casal tiver que passar pela prova de ter um filho doente, assim será feito, do contrário, a criança nascerá saudável.

42- “Mãe de aluguel”:

É inadequada essa situação. A criança gerada nessas circunstâncias será tida como filha de um casal distinto do corpo em que passou sua gestação. Seus laços afetivos terão início de modo deturpado com aquela que apenas proporciona ambiente para sua gestação. Por vezes, além desse inconveniente, existe ainda o da recompensa financeira pelo “trabalho”, ou seja, passa a representar um negócio, banalizando relação tão importante que é ser mãe e formar uma família.

Se o casal não pode ter filhos, deve aguardar melhor oportunidade para isso, através do progresso da ciência ou, então, conformar-se com essa situação gerada, certamente, por débitos do passado.

Por outro lado, se o espermatozóide é do homem, mas o óvulo não é da mulher que compõe o casal e sim da própria “mãe de aluguel” a situação é mais drástica. A família material será formada entre filho, “mãe de aluguel” e o pai, que pertence a outra família material. Se tudo isso representa a vontade de ter um filho, basta que o casal deixe de lado a vocação materialista e adote uma criança. Não é necessário inverter todas as regras de formação familiar somente para dar vazão a essa ânsia de ter um filho biológico.

43- Mãe é quem gera ou quem cria o filho:

Tanto aquela que gera, quanto a que cria podem ser consideradas mãe\ a que gera, une-se ao ser concebido por laços fortes, pois proporciona-lhe a oportunidade da reencar-nação e participa da formação de sua família material; aquela que o cria tem com ele laços de afinidade e amor importantes, além de possuir a tarefa de educá-lo, propiciando-lhe as melhores condições para sua reforma íntima.

Cairbar Schutel