19 - MALDADE

Maldade ou crueldade é cometer alguma coisa fora da ética padrão de determinada sociedade quando envolve danos à saúde de algum animal, em especial à saúde humana.

Maldoso ou cruel é a característica de alguém de ser mau ou cometer maldades.

A transitória maldade humana

E as paixões hoje são quase as mesmas de ontem,
senão mais açuladas, mais violentas e devastadoras,
no homem que prossegue inquieto.
Joanna de Ângelis

A maldade dos homens sempre inquietou os pensadores dos mais diversos campos do saber e da ação humana: filosofia, ciência, arte, religião.

Recentemente o Jornal do Brasil publicou em seu caderno Idéias uma resenha sobre uma obra que trata deste tema. O livro em questão é O mal no pensamento moderno, de Susan Neimam e o título e subtítulo da matéria, assinada por Joel Macedo, é também expressivo: “O mal nosso de cada dia - Filósofa parte do terremoto de Lisboa para mostrar como o mal deixou de ser divino para se tornar criação do homem”.

Para a autora, o terremoto de Lisboa em 1755 é um divisor de águas nas concepções sobre o mal. Antes deste evento que abalou a Europa, prevalecia “a visão de males naturais como punição para males morais”.

Nas palavras do resenhista:

Lisboa aboliu as causas morais, absolveu Deus e os pecados coletivos, e os terremotos passaram a ser vistos como desastres naturais, algo fora da intenção divina ou responsabilidade humana. Explicar o mal como processos naturais, implicando mais a natureza em si, foi uma forma de tornar o mundo menos ameaçador.

Deus não é mais agente punitivo, causa de males que retornam aos homens como forma de castigo. O mal depois de Lisboa é reduzido ao seu aspecto moral, aquele praticado pelo homem, por deliberação de sua vontade.

Dentro de certos padrões previsíveis os males humanos pareciam não mais destinados a inquietar os filósofos, pois que o mal parecia ter limites... O Holocausto (extermínio dos judeus e outras vítimas durante a Segunda Grande Guerra), no entanto, reavivou a discussão sobre os limites da barbárie, da perversão humana, lançando na atmosfera intelectual européia e mundial uma onda de pessimismo e descrença.

Apesar da descrença na Providência Divina, que se acentuaria no pós-guerra, vozes se levantaram para absolver Deus, por sua possível omissão diante das atrocidades.(Não se acredita muito Nele, mas quando ocorre algo grave, O acusamos de não se fazer presente, quando Ele na verdade, nem mesmo fora convidado a participar de nossas vidas, antes das tragédias...)

Estamos nos referindo particularmente a Hanna Arendt. Filósofa judia, radicada nos Estados Unidos, ela estudou profundamente as questões do mal e suas discussões estão presentes no livro Eichmann em Jerusalém, que trata do julgamento do carrasco nazista, responsável pela morte de milhares de pessoas.

Partindo do caso Eichmann ela pondera que o mal pode tornar-se banal e espalhar-se pelo mundo dos homens como um fungo, porém apenas em sua superfície. As raízes do mal não estão definitivamente instaladas no coração do homem e por não conseguirem penetrá-lo profundamente a ponto de fazer nele morada, podem ser arrancadas.

A sua defesa da Divindade encontra-se no trecho de uma carta enviada a um amigo, na qual afirma que “O mundo como Deus o criou parece-me um mundo bom.''

Com Deus absolvido (mesmo que parcialmente) pela criação do mal e suas conseqüências, vejamos a visão espírita sobre esta questão.

A visão espírita do mal

Para a doutrina dos espíritos o mal é criação do próprio homem e não tem existência senão temporária, transitória, pois no arranjo maior da Vida não tem sentido a permanência do mal. O mal, desta forma, faz parte do aprendizado, porém na condição de resíduo; por isso, ele deve ser descartado em algum momento.

Conforme Kardec aponta em Obras Póstumas “Deus não criou o mal; foi o homem que o produziu pelo abuso que fez dos dons de Deus, em virtude de seu livre arbítrio.” Este pequeno trecho compõe um dos mais belos ensaios que Kardec deixaria, não intencionalmente, para publicação posterior. Trata-se de O egoísmo e o orgulho: suas causas, seus efeitos e os meios de destruí-los.

O mestre lionês, ao desenvolver o tema, parte do pressuposto de que o instinto de conservação, natural e necessário para a sobrevivência do homem está na origem do egoísmo e do orgulho. Este e outros instintos têm a sua razão de ser. No entanto, o homem abusa destes instintos, por conta do apego às sensações que as impressões da matéria lhes causam.

Vive então, (e aqui começa nossa análise), a sua longa epopéia rumo à maturidade, devendo liberar-se de tudo que signifique retenção a esta fase infantil, de imaturidade, de apego ao ego, em que tudo deve girar ao nosso redor.

Na mensagem “A lei de amor”, de Lázaro, presente em O Evangelho Segundo o Espiritismo, o autor afirma que

Em sua origem, o homem só tem instintos; quando mais avançado e corrompido, só tem sensações; quando instruído e depurado, tem sentimentos. E o ponto delicado do sentimento é o amor...

Os instintos, as sensações e os sentimentos estarão presentes na existência humana em determinadas combinações, durante todo o processo evolutivo, com a preponderância de alguns sobre os outros.

Na fase inicial de sua jornada – na condição de simples e ignorante – é possível que o instinto lhe seja o melhor guia; à medida que desenvolve as potências da alma – a inteligência, a vontade – ele tende a apegar-se às sensações, pois não desenvolveu ainda, na mesma proporção os sentimentos, que permanecem como presença latente e promessa futura; como a inteligência desenvolve-se mais rapidamente, na ausência de sentimentos como a fé, a esperança, a caridade, o homem tende a prender-se à sensações materiais; por fim, aliando a inteligência (instruído) e as experiências de vida (depurado), o sentimentos começam a ocupar maiores espaços de manifestações anímicas no homem.

Podemos, assim, afirmar que os instintos e as sensações ainda convivem conosco hoje, pois como espíritos encarnados, imersos em um corpo físico, estamos sujeitos às leis e às atrações da matéria, porém os sentimentos tendem a dominar-nos a alma, aliado à inteligência, que já temos desenvolvido sob as suas diversas modalidades.

Retomando o ensaio de Kardec, este vai insistir no debate em torno do egoísmo e do orgulho, situando-os como causa de todos os males.

Abel Sidney de Souza

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