2 - AMBIÇÃO

A Doutrina Espírita nos ensina que o direito de viver é "o primeiro de todos os direitos do homem", cabendo-lhe, subsequentemente, também o de "acumular bens que lhe permitam repousar quando não mais possa trabalhar. "

Se todos os homens fôssem previdentes e, ao invés de malgastar seus rendimentos no Vício e no luxo, tratassem de formar um pecúlio com que assegurar a tranquilidade de sua velhice, a Sociedade não teria que arcar, como hoje acontece, com o pesado ônus da manutenção de tantas criaturas que chegam ao fim de seus dias na maior indigência, precisadas de teto, alimento, agasalho, remédio, etc.

O desejo de possuir, com o fim de resguardar-se das incertezas do futuro, não justifica, entretanto, os meios que certos homens soem empregar para conseguir bens de fortuna.

Propriedade legítima - di-lo o Espiritismo - só é aquela que foi conseguida por meio do trabalho honesto, sem prejuízo de ninguém".

Ora, se se pudesse investigar a origem de muitas fortunas acumuladas nas mãos de determinadas famílias, verificar-se-ia, com horror, que são frutos de roubos vergonhosos, traficâncias infames e crimes execráveis.

O tempo, porém, tudo santifica, de sorte que, após algumas gerações, tais haveres se transformam em "sagrado e inviolável patrimônio", defendido com unhas e dentes pelos netos e bisnetos dos ladrões, traficantes e criminosos que o erigiram.

Não raro, essas fortunas se transferem, por herança, a pessoas que solicitaram, no plano espiritual, a oportunidade de voltar ao proscênio da Terra para dar-lhes uma aplicação nobre, proporcionando assim uma reparação àqueles que inicialmente as adquiriram mal, reparação essa que, se efetuada, lhes suavizaria os remordimentos de consciência.

Quase sempre, todavia, não resistem ao fascínio das riquezas e, longe de corresponderem ao que delas se esperava, deixam-se tomar pela cobiça, tratando de aumentar, egoisticamente, aquilo que receberam.

Daí a afirmação do Mestre, de que "é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus" '(Mat., 19 :24) .

Neste mundo e no grau evolutivo em que nos encontramos, a aquisição e a defesa da propriedade individual devem e precisam ser consagradas, porque a ambição é, e tão cedo não deixará de sê-lo, um dos mais fortes sentimentos humanos, constituindo-se, mesmo, em mola propulsora do progresso.

Pretender-se que, a curto prazo, o homem renuncie aos interesses pessoais em nome de um ideal igualitário, é desconhecer-lhe a natureza e esperar o impossível.

Tanto assim que a União Soviética, onde essa prerrogativa democrática foi proscrita, começa a admitir ser isso um erro, um entrave ao seu desenvolvimento, dispondo-se a uma revisão do assunto, de modo a reinstituir o direito de propriedade, por ser ele o mais poderoso estímulo à produtividade do indivíduo.

O que de melhor se deve fazer não é confiscar os haveres de quem quer que seja, mas aperfeiçoar nossas leis, criando condições para que aumente o número de proprietários, mediante uma participação mais equitativa da riqueza.

À medida que se adianta espiritualmente, o homem passa a compreender que, em última análise, ninguém é dono de nada, pois tudo pertence a Deus, sendo, todos nós, meros usufrutuários dos bens terrenos, já que eles não poderão seguir conosco, de forma alguma, além das fronteiras da morte. Por conseguinte, se a Providência no-los confia, por determinado período, não é para que os utilizemos em proveito exclusivamente familiar, mas para que aprendamos a movimentá-los em benefício de todos, dando-lhes uma função social.

Filhos que somos do Pai Celestial e portanto co-herdeiros do Universo, dia virá - se bem que assaz longínquo -- quando, libertos, por merecimento, do ciclo de reencarnações em mundos grosseiros como o nosso, haveremos de tornar-nos puros espíritos, tendo por morada as suaves e maravilhosas esferas siderais.

Será, então, com imensa autopiedade que nos recordaremos desta fase de nossa evolução em que tão grande é o nosso apego a uns pedacinhos de chão lamacento e tão desesperada a nossa luta por uns papeizinhos coloridos, estampados na Casa da Moeda ...

Rodolfo Calligaris

COM DISCERNIMENTO