28- VÍCIO

Pernicioso condicionamento

Segundo os padrões usuais, o vício é uma espécie de condicionamento que prende o indivíduo a determinada prática nociva. Para o fumante, por exemplo, o cigarro é uma necesssidade tão premente quanto o dormir ou comer, porquanto os elementos constituintes do fumo, principalmente o alcatrão e a nicotina, gerando reações orgânicas condicionadas, provocam mal-estar, sempre que desaparecem da Circulação sangüínea.

A iniciação no vício é quase sempre um problema de auto-afirmação. Para o adolescente, tirar o cigarro da carteira, levá-Io aos lábios, riscar o fósforo e expelir a primeira baforada, é um ritual que lhe dá segurança e o faz sentir-se "gente", principalmente quando está sozinho, em lugar público.

Por isso, suporta corajosamente o gosto amargo e a tentação de tossir. Depois, acostuma-se e chega até a sentir algum prazer. Mas logo vem o condicionamento e o fumo torna-se indispensável. Sem o cigarro, sente-se inquieto, nervoso. Completa-se o ciclo, que começou no desejo de auto-afirmação e terminou na necessidade.

Acresça-se que o vÍCio é também um problema de compensacão psicológica, em que o indivíduo procura, mergulhando no domínio das sensações, atender sua fome íntima de paz. Todavia, este é o pior caminho, pois o vício é um deus insaciável, que exige plena submissão dos "fiéis", transformando-os em autênticos escravos.

Todo viciado é um "suicida inconsciente" e, ao desencarrnar, enfrentará problemas difíceis de adaptação, pois além do condicionamento físico há um condicionamento espiritual. O Espírito do viciado experimenta crises angustiantes, atormenntado pela necessidade de álcool, fumo, psicotrópico, tóxico ou qualquer outra viciação cultivada na Terra. Não raro, acabará perseguindo companheiros de infortúnio, a fim de que, por um processo de associação psíquica, experimente as sensações desejadas.

Conhecemos, há tempos, um homem portador de câncer no estômago. Como sentisse muitas dores, começou a usar, sob prescrição médica, doses moderadas de morfina. Após alguns dias, inusitadamente, passou a exigir doses mais elevadas, mostrando-se insaciável. Estranha reação, já que a aplicação da morfina era recente e nem chegara a criar um condicionamento ... Mais estranha era sua superexcitação _ agressivo, nervoso - o que contrariava seu comportamento normal.

Sua esposa, fervorosa e dedicada, certo dia em que o marido se mostrava mais inquieto, ajoelhou-se aos pés da cama e em prantos implorou a proteção do Céu. Qual não foi a surpresa de outros familiares presentes, ao constatar que a ansiedade do marido se transferiu para ela que, embora sem nunca ter usado morfina, sentia irrefreável necessidade da droga! A crise durou várias horas e somente foi debelada com o concurso de passes e orações. Soubemos depois que nosso amigo estava sob a influência de um Espírito viciado em morfina. Quando sua mulher perdeu o controle, médium sensível e indisciplinada que é, sintonizou com a entidade e passou a sofrer sua influência.

Em relação aos alcoólatras, há uma expressão que define bem sua posição diante dos viciados do Plano Espiritual. São "canecos-vivos". Alcoólatras desencarnados os assediam, estimulando-os à bebida, a fim de que, pelo mesmo processo de associação psíquica, possam satisfazer-se. O álcool, no organismo do viciado, passa por um processo de eterização e é absorvido pelo parceiro invisível. É porque não está bebendo sozinho, que o "caneco" consegue resistir à ingestão de grandes doses de bebida.

O viciado sempre renascerá com limitações físicas.

O alcoólatra terá problemas gástricos, fígado debilitado ... O fumante terá propensão às moléstias do peito: bronquite, asma, enfisema ... O toxicômano ressurgirá com limitações na inteligência e fragilidade nervosa ...

Estes males serão não apenas as conseqüências dos excessos cometidos no passado, mas, sobretudo, recursos de contenção destinados a sofrear as tendências inferiores que desenvolveram no íntimo da personalidade. Serão "muletas" que os ensinarão a caminhar com cuidado, evitando a reinncidência.

Um único "vício" nos é lícito e proveitoso cultivar: o "vício" de praticar o Bem, que começa quando procuramos esquecer um pouco de nós mesmos, e se consolida quando aprendemos a servir. ..

Então superaremos em definitivo a tendência humana de procurar nos vícios da Terra a ilusória satisfação de nossos anseios de paz e conforto, sempre sucedida de inquietações e desequilíbrios.

Richard Simonetti