DIVERSIDADE DOS CARISMAS

INTRODUÇÃO

Três opções básicas se colocam diante daquele que se propõe a escrever um estudo como este acerca da mediunidade:

1) a abordagem predominantemente teórica, como a adotada por Allan Kardec em O livro dos médiuns;

2) o enfoque experimental caracterizado como depoimento pessoal, do qual dispomos de bons exemplos em Recordações da mediunidade e Devassando o invisível, de Ivonne A. Pereira; e

3) o tratamento integrado de ambos os aspectos, acoplando teoria e prática, segundo podemos observar em "Recherches sur Ia mediumnité e Les apparitions materialisées des vivants et des morts", de Gabriel Delanne, ou, mais recentemente, nas obras da série André luiz que tratam especificamente do problema, como Mecanismos da mediunidade e Nos domínios da mediunidade.

Cada uma dessas opções tem seus méritos e objetivos próprios. Para este livro adotamos a terceira delas: um tipo de modelo que se revelara satisfatório em Diálogo com as sombras e em A memória e o tempo, onde aspectos teóricos ficaram embutidos em narrativas com características de depoimento pessoal.

Com esse plano em mente, procuramos montar este trabalho a partir de três módulos distintos, ainda que inseparáveis em suas implicações e na interação de suas motivações.

1 - O primeiro deles, destinado a documentar problemas básicos que o médium em potencial, ou já em plena atividade, costuma enfrentar;

2 - o segundo, para estudar mais atentamente aspectos particulares do animismo; e, finalmente,

3 - o terceiro, no qual tomamos para análise a mediunidade em si mesma.

A distribuição dos fenômenos psíquicos em duas categorias - animismo e mediunidade - é de mera conveniência da metodologia expositiva, que não lhe tira a condição de classificação arbitrária. Isso porque não há entre as duas categorias absoluta nitidez de fronteiras. Ainda que seja, teoricamente, mais freqüente o fenômeno anímico puro, isto é, sem interferências de entidades desencarnadas, suspeitamos, inferimos ou sabemos que, em larga faixa percentual de eventos, ocorre ou pode ocorrer participação de seres desencarnados.

Já o fenômeno mediúnico não acontece sem o componente anímico, que é da essência do processo. Para suas manifestações, os espíritos precisam de certa espécie e quantidade de energia de que somente o ser encarnado dispõe. A comunicação entre as duas faces da vida, ou seja, entre espíritos (desencarnados) e seres humanos (encarnados), transita por uma ponte psíquica que tem de apoiar uma cabeceira na margem de lá do abismo e a outra no lado de cá, onde vivemos nós.

Insistimos, pois, em declarar que a classificação é simples conveniência metodológica e não deve ser tomada com rigidez exclusivista.

Quanto ao mais, o enfoque fundamental do livro consiste em estudar as faculdades do espírito humano em ação, tanto quanto possível, da ótica do próprio sensitivo, de vez que ele é o laboratório vivo no qual se processam os fenômenos sob exame.

Estaria equivocada, não obstante, a conclusão de que o livro se destina somente aos médiuns em geral, aos dirigentes e aos que militam em centros e grupos espíritas como participantes de trabalhos mediúnicos. Ao contrário, o tema é de vital importância para um espectro de pessoas muito mais amplo do que poderíamos suspeitar à primeira vista. É que os fenômenos da natureza anímica e mediúnica não ocorrem apenas a horas certas, com determinadas pessoas, nos círculos fechados do espiritismo prático, mas a todo momento, por toda parte, com todo mundo. Não estarei exagerando ao dizer que acontecem com maior freqüência na rua, no lar, na escola, no local de trabalho, do que propriamente na intimidade dos núcleos espíritas. A mediunidade não é propriedade do espiritismo e, sim, como fenômeno natural, um dos múltiplos aspectos da própria Vida.

Poucos estudos, em verdade, oferecem tão denso conteúdo humano como o da mediunidade. Quer estejamos de um lado ou de outro da vida, como encarnados ou desencarnados, ela é sempre o instrumento de intercâmbio instalado estrategicamente entre os dois planos da existência.

Alto preço em angústias, decepções e desequilíbrios emocionais e mentais, perfeitamente evitáveis, é pago a cada instante em conseqüência da desoladora ignorância em torno da problemática da mediunidade fora do contexto doutrinário do espiritismo. E não poucos desajustes sérios ocorrem no próprio meio espírita, no qual o conhecimento inadequado, insuficiente ou distorcido acaba resultando em problema mais grave do que a ignorância que busca informar-se de maneira correta.

Seja como for, porém, não há como negar que o maior interessado no estudo da mediunidade é o próprio médium. Daí o esforço em colocar-me, tanto quanto possível, junto dele. Pretendi ver com os olhos dele, sentir com sua sensibilidade, aprender com os fenômenos que lhe ocorrem, descobrir com ele os caminhos percorridos e a percorrer. .. É a única maneira válida, no meu entender, de preparar-se alguém para ajudar, com observações práticas e teóricas, Outros médiuns em potencial na difícil escalada, visando ao exercício adequado de suas faculdades.

A mediunidade não é doença, nem indício de desajuste mental ou emocional - é uma afinação especial de sensibilidade. Como na música, somente funciona de maneira satisfatória o instrumento que não apresenta rachaduras, cordas arrebentadas, desafinadas ou qualidade duvidosa.

Não é nada fácil à pessoa que descobre em si os primeiros sinais de mediunidade encontrar acesso ao território onde suas faculdades possam ser entendidas, identificadas, treinadas e, finalmente, praticadas com proveito para todos. O médium precisa de recolhimento para o exercício de suas atividades, mas não deve ser um trabalhador solitário. Ele necessita de todo um sistema de apoio logístico, de uma estrutura que lhe proporcione as condições mínimas que seu trabalho exige.

Peça decisiva nesse contexto é o grupo incumbido de trabalhar mais diretamente junto dele. Exige-se dessas pessoas não apenas um bom preparo doutrinário e experiência, como outros atributos, de maturidade e sensibilidade, que lhes permitam posicionar-se como amigos e companheiros de trabalho e não como chefes, mestres, gurus ou proprietários do médium. E que não se deixem fascinar pela eventual espetaculosidade dos fenômenos ou pelo teor de 'revelações' de autenticidade duvidosa, ao gosto de alguns companheiros desencarnados. Isto quer dizer que não apenas o instrumento tem de estar afinado e em bom estado, mas harmonicamente integrado na orquestra em que atua.

Sou grato à médium cujo nome escondi sob o pseudônimo de Regina, pelo rico material que generosamente colocou à minha disposição, e pela sua insistência comigo em escrever mais este trabalho que, pensava eu, não estaria na minha programação (Estava!). Sem o toque pessoal que suas vivências emprestaram ao nosso estudo, o livro teria recaído facilmente na aridez da teorização especulativa.

Tal gratidão estende-se aos inúmeros autores consultados no processo de concepção e elaboração deste trabalho, a partir de O livro dos médiuns, de Allan Kardec, generosa e fecunda matriz de tudo quanto se tem feito no estudo criterioso das complexidades do tema. Constam da bibliografia aqueles que mais contribuíram para reduzir espaços na minha ignorância, iluminando e ampliando faixas no território explorado.

Devo agradecer também aos autores dos quais me senti impelido a discordar, nesse ou naquele aspecto. Eles costumam ter importante contribuição a oferecer, de vez que até mesmo a divergência pode ser criativa, no sentido de que tem algo a ensinar-nos quanto à melhor definição de conceitos que, de outra forma, talvez permanecessem vagos ou ignorados por nós.

Cabe, finalmente, uma palavra de gratidão aos amigos espirituais que, no seu modo discreto, silencioso, amoroso e competente, sempre acompanham todo o difícil processo de elaboração dos meus (meus?) escritos, desde a germinação da idéia original até o aparecimento do livro nos catálogos, vitrines, estantes e, finalmente, em suas mãos, leitor, pois este é o destino deles.

Em Diálogo com as sombras, examinamos o problema da doutrinação; em A memória e o tempo, abordamos o da regressão de memória; em Diversidade dos carismas, o tema é a mediunidade. Não estarei recorrendo à falsa modéstia se confessar, humildemente, que somente percebi que havia escrito uma trilogia após contemplá-la pronta, na perspectiva que a objetividade então me concedeu.

Se as observações e experiências contidas nestas páginas forem de utilidade a alguém, sentir-me-ei encorajado a me apresentar, um dia, aos meus queridos mentores como aquele obreiro - de que falou Paulo a Timóteo (II Timóteo 2,15) - que não "tem de que se envergonhar" do trabalho realizado. O leitor prestou atenção? O severo apóstolo dos gentios entende que já estaremos bem se nossa modesta obra, seja ela qual for, não nos causar vexames. Quanto ao orgulho, nem pensar... Afinal de contas, orgulhar-se de quê?

Hermínio C. Miranda

..CAPÍTULO I - O MÉDIUM
..CAPÍTULO II - MINIBIOGRAFIA
..CAPÍTULO III - ANIMISMO
..CAPÍTULO IV - INTERAÇÃO ANIMISMO/MEDIUNIDADE
..CAPÍTULO V - DESDOBRAMENTO
..CAPÍTULO VI - DESDOBRAMENTO COMO PRECONDIÇÃO
..CAPÍTULO VII - CONDOMÍNIO ESPIRITUAL
..CAPÍTULO VIII - CLARIVIDÊNCIA
..CAPÍTULO IX - PSICOMETRIA
..CAPÍTULO X - DÉJA VU
..CAPÍTULO XI - MAU-OLHADO
..CAPÍTULO XII - FENÔMENO DE EFEITO FÍSICO
..CAPÍTULO XIII - MEDIUNIDADE
..CAPÍTULO XIV - AURA
..CAPÍTULO XV - PSICOFONIA
..CAPÍTULO XVI - SEMIOLOGIA DA COMUNICAÇÃO MEDIÚNICA
..CAPÍTULO XVII - CANAIS DE COMUNICAÇÃO
..CAPÍTULO XVIII - DESENVOLVIMENTO
..CAPÍTULO XIX - O MÉDIUM EM AÇÃO
..CAPÍTULO XX - ATIVIDADES PARALELAS E COMPLEMENTARES
..CAPÍTULO XXI - OS CARISMAS E A CARIDADE