ENTRAVES À MEDIUNIDADE

Acha-se muito mais disseminada do que pode parecer à primeira vista a faculdade mediúnica. Muitas vezes, na vida diária, um indivíduo assume atitudes estranhas, que contradizem seu comportamento normal, e se admite que esteja agindo sob a influência de perturbações esplênicas ou hepáticas. Nem sempre é assim, porém. Há casos em que ele nada mais sofre do que perturbações de origem medianímica, por se tratar de médium que desconhece sua condição em face do psiquismo ou, se a conhece, não procura estimular metodicamente pela prática bem orientada as faculdades mediúnicas latentes. Certos desentendimentos se originam na denominada "retenção da mediunidade". Já procuramos esclarecer em trabalhos anteriores o que isso é e o que pode representar como elemento de normalização ou anormalização da vida terrena de um Espírito que, por ignorância ou displicência, não movimenta a força medianímica de que veio dotado. Eis por que se torna muito conveniente a todos os indivíduos de senso comum o exercício destinado ao desenvolvimento mediúnico.

Isto de se afirmar que nem todos são médiuns é assertiva arrojada e sujeita a erro, porque, de um modo ou de outro, todos detêm algo de mediúnico. Os exercícios metódicos são, de qualquer modo, mesmo que se admita a inexistência de mediunidade, bastante úteis. Quando menos, para aqueles que não se consideram portadores da faculdade medianímica, eles constituem magnífico programa de educação da vontade e os resultados a obter são sempre louváveis. Nada mais perigoso para o médium do que a volubilidade de caráter, a ausência de uma vontade firme, a incapacidade real de resistir a desejos e solicitações capazes de preparar surpresas desagradáveis.

Há médiuns que procuram justificar seu afastamento do dever mediúnico com a declaração de que não estão ainda em condições de assumir responsabilidades e somente desejam "meter-se" nos trabalhos de desenvolvimento quando puderem freqüentá-los com assiduidade e dispensar todo o carinho às tarefas que lhes forem cometidas. É o que se ouve com freqüência. Semelhante desculpa, no entanto, é mero ardil para fugir ao cumprimento de deveres assumidos quando o Espírito ainda se encontrava no Além. Ninguém traz o dom da mediunidade em vão. Todos devem, portanto, utilizá-lo, depois de convenientemente desenvolvido, empregando esforços para que ele beneficie a Humanidade. Há sempre tempo para se fazer alguma coisa, pois o exercício da mediunidade não é tarefa tão transcendente que exija muito do médium, além de simples predisposição para os exercícios e alguma dose de boa vontade.

Mesmo no lar, o médium pode valer-se de sua capacidade mediúnica, por menos estimulada que esteja, para o bem, entregando-se a meditações diárias, realizando preces pelos que sofrem nos dois planos da vida. Fazer o bem, cooperar para aliviar um enfermo do corpo ou do espírito, colaborar para evitar ou desfazer desentendimentos ou equívocos, apaziguar ânimo, debelar crises morais ou procurar atenuá-las, exercer os mandamentos do perdão, exemplificar o amor pela caridade, tudo isso pode ser um meio para promover o desenvolvimento mediúniico, até que seja possível o trabalho mais objetivo, numa sessão superiormente orientada, sob a assistência de Guias devotados.

A rebeldia tão comum aos médiuns nada mais retrata que lamentável defeito de educação moral. O mundo contemporâneo se acha de tal maneira avassalado pelo materialismo, que os homens muitas vezes se deixam seduzir pelas atrações mundanas, transitórias e perigosas, em vez de se preocuparem mais com os problemas da evolução espiritual, eterna e redentora.

Outro ponto digno de menção, que exige, aliás, um estudo ponderado dos médiuns, é o que diz respeito à auréola de santidade que indivíduos sem compreensão doutrinária lhes atribuem. Consideram os médiuns como seres excepcionais, mágicos, detentores dos segredos do Além ou possuidores das chaves miraculosas que podem abrir os mistérios do Invisível. A propósito, tivemos sob as vistas interessante editorial da revista espírita norte-americana - "Psychic Observer", de 25 de setembro de 1954. Intitula-se o artigo "Worship of Mediuns" ("Adoração dos Médiuns"), cujos argumentos se enquadram sem esforço no que acabamos de dizer. Semelhante procediimento é prejudicial aos próprios "médiuns", porque lhes excita a vaidade e pode levá-los a situações delicadas e perigosas. O articulista norte-americano pondera com justa razão: "Experimentemos tratar os médiuns como pessoas comuns - não como deuses nem também como demônios. E acreditamos que a maior parte deles prefere essa espécie de tratamento." Assim é que está certo.

Vejamos, porém, outros trechos do magnífico editorial:

"Não invejamos a sorte dos médiuns. Sabe-se quanto é difícil sua tarefa e como são numerosos os seus problemas. A adoração de qualquer coisa ou de alguém, excetuando Deus, é perigosa. Tratem os médiuns honesta e justamente, nunca, porém, como semideuses. Tratemo-los como mortais e evitemos muitos aborrecimentos que seguirão duramente na esteira da superadulação. "

O médium verdadeiramente inteirado de seus deveres no Espiritismo deve evitar que tentem "canonizá-lo". Médium não é santo, mas santa é a sua tarefa, desde que a exerça perfeitamente de acordo com as determinações da nossa Doutrina.

Pessoas pouco esclarecidas, ou sem orientação doutrinária, gostam de estimular a vaidade dos médiuns, não só com palavras como com presentes. Constitui isto um erro grave e suscetível de trazer conseqüências muito desagradáveis para o médium. Devemos respeitá-lo como criatura humana, mas precisamos evitar tudo quanto possa contribuir para o enfraquecimento de sua função mediúnica.

Quanto mais puder o médium desprender-se dos preconceitos terrenos, mais e mais irá obtendo do Alto para o desempenho de seu trabalho. Desta forma, colherá benefícios espirituais progressivos, assim como estará sempre em condições de ser positivamente útil a quantos necessitem de se socorrer da sua mediunidade.

Indalício Mendes