MANIFESTAÇÕES FÍSICAS - MEDIUNIDADE

Os fenômenos das mesas girantes e falantes, da suspensão etérea dos corpos pesados, da escrita medianímica, tão antigos quanto o mundo; mais vulgares hoje, dão a chave de alguns fenômenos análogos espontâneos, aos quais, na ignorância da lei que os regia, lhes atribuíram um caráter sobrenatural e miraculoso. Esses fenômenos repousam sobre as propriedades do fluido perispiritual, seja de encarnados, seja de Espíritos livres.

É com a ajuda de seu perispírito que o Espírito age sobre o seu corpo vivo; é ainda com este mesmo fluido que se manifesta agindo sobre a matéria inerte, que produz os ruídos, os movimentos de mesas e outros objetos que levanta, tomba ou transporta. Este fenômeno nada tem de surpreendente, considerando-se que, entre nós, os mais poderosos motores se encontram nos fluidos mais rarefeitos e mesmo imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade.

É igualmente com a ajuda de seu perispírito que o Espírito faz os médiuns escreverem, falarem ou desenharem; não tendo mais corpo tangível para agir ostensivamente, quando quer se manifestar, serve-se do corpo do médium, do qual empresta os órgãos, que faz agir como se fora o seu próprio corpo, e isso pelo eflúvio fluídico que derrama sobre ele.

É pelo mesmo meio que o Espírito age sobre a mesa, seja para fazê-la mover-se sem significação determinada, seja para fazê-la dar golpes inteligentes indicando as letras do alfabeto, para formar palavras e frases, fenômeno designado sob o nome de tiptologia. A mesa não é, aqui, senão um instrumento de que ele se serve, como faz do lápis para escrever; dá-lhe uma vitalidade momentânea pelo fluido com a qual a penetra, mas em nada se identifica com ela. As pessoas que, em sua emoção, vendo se manifestar um ser que lhe é querido, se abraçam à mesa, fazem um ato ridlculo, porque é absolutamente como se abraçassem o bastão de que um amigo se serve para dar pancadas. Ocorre o mesmo com aquelas que dirigem a palavra à mesa, como se o Espírito estivesse encerrado na madeira, ou como se a madeira se tornasse Espírito.

Quando as comunicações ocorrem por este meio, é necessário supor que o Espírito, não na mesa, mas ao lado, tal como era quando vivo, e tal como seria visto, podendo se tornar visível. A mesma coisa ocorre nas comunicações pela escrita; ver-se-á o Espírito ao lado do médium, dirigindo a sua mão ou transmitindo-lhe o seu pensamento por uma corrente fluídica.

Quando a mesa se destaca do solo e flutua no espaço sem ponto de apoio, o Espírito não a ergue com a força do braço, mas a envolve e a penetra com uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza o efeito da gravidade, como o faz o ar com os balões e os papagaios. O fluido com a qual ela está penetrada, lhe dá, momentaneamente, uma leveza específica maior. Quando ela está, pregada ao solo, está num estado análogo ao da campânula pneumática sob a qual se faz o vácuo. Aqui não temos senão comparações para mostrarmos a analogia dos efeitos e não a semelhança absoluta das causas. (O Livro dos Médiuns, cap. IV).

Compreende-se, depois disto, que não é mais difícil a um Espírito levantar uma pessoa do que levantar uma mesa, transportar um objeto de um lugar para outro, ou lançá-lo em qualquer parte; estes fenômenos se produzem pela mesma lei.

Quando a mesa persegue alguém, não é o Espírito quem corre, porque ele pode permanecer tranqüilamente no mesmo lugar, mas lhe dá impulso por uma corrente fluídica que produz o efeito de um choque elétrico. Ele modifica o ruído como se podem modificar os sons produzidos pelo ar.

Um fenômeno muito freqüente na mediunidade é a aptidão de certos médiuns para escrever numa língua que lhes é estranha; o tratar, pela palavra ou pela escrita, de assuntos fora do alcance de sua instrução. Não é raro ver os que escrevem correntemente sem terem aprendido a escrever; outros que fazem poesias sem nunca saberem fazer um verso em sua vida; outros desenham, pintam, esculpem, compõem músicas, tocam um instrumento, sem conhecerem o desenho, a pintura, a escultura, ou a ciência musical. E' muito freqüente que um médium escrevente reproduza, a ponto de enganar-se, a escrita e a assinatura que os Espíritos que se comunicam por ele tinham quando vivos, embora nunca os haja conhecido.

Este fenômeno não é mais maravilhoso do que o de ver uma criança escrever quando se lhe conduz a mão: pode-se, assim, fazê-la executar tudo o que se quer. Pode-se fazer o primeiro que chegar escrever numa língua qualquer ditando-se-lhe as palavras letra a letra. Compreende-se que possa ser o mesmo na mediunidade, reportando-se à maneira pela qual os Espíritos se comunicam com os médiuns, que não são para eles, em realidade, senão instrumentos passivos. Mas se o médium possui o mecanismo, se venceu as dificuldades práticas, se as expresssões lhe são familiares, enfim, se tem em seu cérebro os elementos daquilo que o Espírito quer fazê-lo executar, ele está na posição do homem que sabe ler e escrever correntemente; o trabalho é mais fácil e mais rápido; o Espírito não tem senão que transmitir o pensamento que o seu intérprete reproduz pelos meios de que dispõe.

A aptidão de um médium para coisas que lhe são estranhas, freqüentemente, prende-se também aos conheecimentos que possuiu numa outra existência, e dos quais seu Espírito conservou a intuição. Se foi poeta ou músico, por exemplo, terá mais facilidade para assimilar o pensamento poético ou musical que se quer fazê-lo reproduzir. A língua que ignora hoje pode lhe ter sido familiar numa outra existência: daí, para ele, uma aptidão maior para escrever mediunicamente nessa língua (A aptidão de certas pessoas para línguas que elas sabem, por assim dizer, sem tê-las aprendido, não tem outra causa do que uma lembrança intuitiva daquilo que souberam numa outra existência. O exemplo do poeta Méry, narrado na Revista Espírita de novembro de 1864, página 328, disso é uma prova. E evidente que se o Sr. Méry fora médium em sua juventude, teria escrito em latim tão facilmente quanto em francês, e ter-se-ia apregoado o prodígio).

Allan Kardec