MEDIUNIDADE SALUTAR

1 - MEDIUNIDADE SALUTAR:

Incontestável é o fato de que no mundo, amiúde, muitos dos que buscam a informação mediúnica fazem-no movidos por interesses particulares, nem sempre nobres. Diferentes são as razões que aproximam as pessoas do fenômeno mediúnico. Quando não se acham
pruridos vaidosos, personalistas, demarcadores de estupenda enfermidade do caráter, assistimos às buscas em torno de questões de saúde; ansiosa sede de notícias, quando do passamento de algum ente caro; melhoria das condições econômico-financeiras; perdas de objetos ou benefícios nos relacionamentos sociais, onde se pretende obter lucros de vários tipos; afastamento daqueles que são aparentes empeços aos interesses comuns, muitas vezes escusos.

E, aí, desfilaríamos um sem-número de outros motivos que levam indivíduos à procura de médiuns e mediunidades, considerados como lixívia, capaz de limpar de todos os males a alma, ou como beberagem rápida de efeito paliativo, para aqueles que se associaram aos circuitos do imediatismo ou da vulgaridade, embasados em desconcertante ignorância. Alguns movimentam-se por entre diversos cultos mediúnicos, mimoseando médiuns e contemplando os que os cercam, como se quisessem garantir direitos não conquistados, perante Entidades que se lhes associam, que valorizam adulações, prometendo auxílios que não se acham no seu campo de possibilidades, uma vez que tudo está submetido à lei de causalidade. São enganados-enganadores, sem dúvida.

Geram nefárias dependências; manietam criaturas incipientes que desconhecem a necessidade dos esforços diários, pessoais e intransferíveis, para o encontro com a ventura. Forja-se, então, a mediunidade enfermiça, pestilenta, qual se fora um foco miasmático, onde o intercâmbio com o Além se converte, em cadeia retentora, envilecedora, conduzindo o ser para os pauis de loucura iminente, nos dédalos das obsessões, ao invés de tornar-se seara de saúde e de bênçãos.

Não terá sido outro o motivo que levou o célebre Lider dos Judeus a pronunciar-se peremptório, decretando proibição e ameaças à continuidade dos contatos entre os dois planos da Vida. Em realidade, Moisés se expressa, no Deuteronômio, no capítulo dezoito, em seu versículo onze, contrariamente ao intercâmbio espiritual. Tal atitude, entrementes, é demonstrativa de que tal intercâmbio pode ocorrer, que o fenômeno pode dar-se, verdeiramente, entre os homens encarnados e os desenfaixados da carne, caso contrário, não teria sentido a referida proibição.

Quando o Legislador Hebreu tomou essa providência, não tinha, certamente, a intenção de desacreditar a mediunidade, que raia como flor dos Céus sobre o mundo conturbado, naquilo que ela guarda de autêntico e sagrado. Entretanto, o seu escopo era o de coibir o excesso abusivo. Seu povo estava deseducado e a ele cabia reeducá-lo; sua gente estava limitada no discernimento, sendo seu empenho o de fazer que distinguissem do mal o bem. Formara-se uma situação em que os indivíduos não se davam mais ao esforço de pensar por si mesmos, de decidir, de ampliar-se, desejando, para todos os fins, a consulta indiscriminada ao Mundo Espiritual. Era contínua a cata das informações oniromânticas, por demais comuns ao seu tempo, da nicromancia, da hidromancia e quejandos.

Era de praxe, ainda, o uso dos objetos sagrados como o urim e o tumim, complexos, que revelavam as respostas dos Espíritos. De diversos modos exoravam às orientações do Invisível, deixando de lado, muitas vezes, o dever de responsabilizar-se pelos próprios atos, de dirigir a embarcação da própria vida.

Na imensa esteira do tempo que passa insofreável, muitos afirmam, vitoriosos, que Moisés proibia a dialogação com os Espíritos Defuntos, sem que compreendam suas razões, na obsessão de contestar os que reverenciam a Vida Imortal nos dias de hoje, valorizando o contato com o Além, pelas luzes do Evangelho, onde Jesus decantou as mais belas páginas de salutar mediunidade, na Sua condição de tirete luminoso entre o Criador e a criatura.

A prova cabal de que Moisés nada tinha contra o intercâmbio, em si, encontramo-la nos escritos do livro dos Números , quando no seu capítulo onze, nos versos vinte e sete a vinte e nove, perante a admoestação do filho de Num, Josué, contra Eldade e Medade que, nos campos de Israel, se punham na prática mediúnica, sem que estivessem fazendo parte do grupo dos setenta anciãos, selecionados pelo Grande Líder, que, no Tabernáculo, apenas eles poderiam servir de instrumentos do Mais Além. No auge do diálogo, retruca o "salvo das águas": "Quem dera se todo o povo de Israel pudesse profetar e que o Espírito do Senhor o inspirasse..." Analisados, sem cuidado, parecerão paradoxais os pronunciamentos feitos pelo mesmo homem.

A proibição enérgica e, ao mesmo tempo, o louvor à mediunidade. Observamos, contudo, qual era a preocupação do Missionário Hebreu. Desejaria que a mediunidade grassasse com equilíbrio, com claridade, sobre toda a gente do seu povo, mas que fosse inspirada pelo Senhor, utilizada, para o progresso e para o bem. Nos dias em que se derrama sobre a Terra a bênção do Consolador, que representa Jesus de retorno ao convívio humano, insuflando-nos bom ânimo, esperança, coragem para encetar a marcha renovadora, evocamos a figura do Guia Israelita, para concluir que, também na atualidade, carece o exercício mediúnico da disciplina, que norteia; do respeito, que valoriza; dos dedicados estudos, que geram entendimento; das meditações elevadas, que equilibram, a fim de que se consigam frutos sazonados da árvore da mediunidade.

Foi com o Mestre Galileu, o luminoso médium de Deus, no entanto, que a Humanidade se encontrou diante dos episódios com o médium atormentado da Sinagoga de Cafarnaum; com Legião, nas montanhas da Decápolis; com o Espírito surdo-mudo, ao descer do Tabor, onde partilhara de momento de luz e paz, ladeado por Elias e pelo próprio Moisés, que retornava do Invisível, após quase um milênio e meio, como que a afirmar a grande realidade do intercurso, tanto com as almas sofredoras quanto com os Numes Eleitos.

Perante a Doutrina Espírita que revive o Evangelho de Jesus, saudamos a Allan Kardec, o Apóstolo do Consolador na Terra, aquele que cantou para os ouvidos humanos as mensagens alentadoras da Codificação, norteando a lide mediúnica, balizando-a para que, com Cristo, se emancipasse pela prática do bem e pela vivência do amor ao próximo, a fim de que jamais viesse a sofrer proibições restritivas, mesmo que tentadas pelos adversários da Verdade, em função da amadurecida e saudável atuação dos que se ofereceram para demonstrar a pujante Imortalidade, ainda que com sacrifícios, na condição de médiuns espíritas, inspirados pelo amor a Deus e ao próximo.

2 - DESENVOLVIMENTO DA MEDIUNIDADE

Os Centros Espíritas dignos dessa titulação, enquanto realizam amadurecido trabalho na esfera dos estudos, das reflexões, para o aclaramento das concepções de vida dos indivíduos, atuam em outros variados campos, atendendo a lides bastante nobres, que exigem disposição e responsabilidade, bom senso e prontidão. No conjunto desses serviços de cooperação com a evolução gradual do ser humano, as Instituições mantêm, quase sempre, um quadro de servidores da mediunidade, prestando-se a intermediar as vozes da imortalidade que falam do Invisível para a Terra.

É na faixa dessa atividade mediúnica que se apresentam inumeráveis indivíduos desejosos de se candidatar ao mister mediúnico, ansiosos por desenvolver suas faculdades psíquicas. Se o ensinamento espírita em nada se opõe a semelhante desejo, quando honesto e racional, também é certo que previne os lidadores da Doutrina para que não se enredem nas tolices de muitos que anelam por desenvolver as ditas faculdades, com o objetivo de solucionar dificuldades que lhes assinalam as existências ou mesmo por torvos pruridos da vaidade.

Muitas pessoas apelam para o desenvolvimento da sua mediunidade porque não estão bem ajustadas nas questões amorosas, nas situações financeiras ou profissionais, ou, por outro lado, carregam enfermidades que lhes maceram o corpo ou que lhes acicatam a mente. Pensam, então, ouvindo conselhos aqui ou acolá, que para suprimir tudo isso têm que desenvolver-se, pois, supõem, estejam sendo castigadas por seus pretensos 'guias' ou mesmo punidos por Deus.

Alguns chegam ao Centro Espírita e dizem portar um problema mediúnico para o qual necessitam encontrar solução, e o desenvolvimento se lhes apresenta como a saída mais indicada. Vale saber-se, primeiro, que a mediunidade, enquanto recurso que permite aos homens da Terra os contatos com os homens do Além, com vistas ao progresso comum, não é um problema em si mesma, podendo, isso sim, servir de filtro para os problemas trazidos por seu portador, o que ocorre, invariavelmente.

De outra maneira torna-se indispensável que os diretores das tarefas mediúnicas das Instituições Espíritas, com o dever de deter acendrado conhecimento da teoria do Espiritismo, não transformem as sessões práticas que dirigem ou orientam em palcos para encenações indébitas ou em salas de tratamento de mazelas psiquiátricas ou psicológicas de pseudo-médiuns ou de médiuns verdadeiros, mas que necessitam de ajustamentos e cuidados médicos, e muitas vezes hospitalares, antes de qualquer outra coisa.

Propõe O Livro dos Médiuns que não se deve forçar nenhuma eclosão de qualquer mediunidade, permitindo-se que a espontaneidade seja o selo da autenticidade, evitando-se, então, a maior incidência de explosões anímicas ou a desarvorada mistificação, todas de consequências danosas para o grupo mediúnico, uma vez que já o será, antes, para os elementos que lhes dão azo. Quando surjam esses candidatos ao desenvolvimento mediúnico, que se lhes faça conhecer as bases da Doutrina Espírita que os nortearão, pois que saberão o que sentem, porque o sentem e como deverão agir, em termos psíquicos, sempre que instigados em seus campos de registros.

Os acurados estudos do Espiritismo, as discussões felizes sobre a mediunidade, a troca das vibrações afetivas entre os companheiros, tudo isso ajudará o autocontrole daqueles em quem a faculdade já se apresentou com seus matizes iniciais e fará ver aos candidatos que nunca hajam sentido qualquer expressão mediúnica, o quanto existe a fazer-se para lá da sessão mediúnica, esperando as mãos e a boa vontade.

Daqui como dali virão pessoas dizer que estão sofrendo crises de angústia e depressão. Não será isso mediunidade, propriamente, podendo exprimir algum desgaste psicológico, alguma atuação obsessiva, a pedir vigilância e oração ou, ainda, um processo inconsciente de regressão, solicitando ajuda de conveniente terapia. Ocorrerão casos de indivíduos que estarão sempre de corpos suados e álgidos. Não será tal coisa indício obrigatório de mediunidade a desenvolver-se. Poderá indicar distúrbios do sistema nervoso vegetativo, que uma segura orientação médica resolverá.

Haverá exemplos desse e daquele que sofre desmaios em momentos os mais inesperados, constatando-se arritmias nas pulsações elétricas do cérebro. Tão pouco isso será, fatalmente, motivo para desenvolver-se mediunicamente. Um exame detido e sério poderá acenar com a necessidade de tratamento médico para processos esquizofrênicos ou epilépticos e outros, que podem forjar um falso quadro mediúnico.

Fortes cefalalgias, que foram progredindo sem que os analgésicos comuns conseguissem mais dar conta, longe estão de ser mostra de mediunidade, forçosamente. As providências tomadas a tempo poderão sustar processos tumorosos do cérebro ou de outras partes do sistema nervoso central, que se fariam inoperáveis, quando se relaxassem cuidados. Escutar zumbidos indefinidos e sofrer banzeiras, podem mostrar danos no labirinto; "ver estrelas" ou vultos sem sentido, pode apontar dificuldades de visão, problemas oftálmicos, sem que expressem necessariamente faculdade mediúnica.

No entanto, nas faixas de ocorrências mediúnicas, podem mesclar-se esses múltiplos episódios, na dependência da intensidade dos débitos espirituais do indivíduo, sem que, a seu turno, a eclosão da mediunidade tenha que se estabelecer com um lastro de perturbações de variada ordem, como passou a ser moda admitir-se.

Importante considerar, ainda que, à medida que se aperfeiçoa o indivíduo, quanto mais aprende, cresce e se ilumina, mais se desenvolve como pessoa, mais sua faculdade mediúnica assimila esse aprimoramento, fazendo com que os candidatos ao desenvolvimento mediúnico anelem, paralelamente, por avançar para Deus, com alegria e coragem, para converter o ser vicioso e acomodado em decidido estafeta da operosidade e da luz.

3 - INSTRUMENTO MEDIÚNICO

No esforço de cooperar com os Prepostos de Jesus, no socorro aos irmãos enfermos do Mundo Invisível e aos atormentados do carreiro humano, não se deve descurar das responsabilidades que cabem a cada um. Compreendendo-se transe mediúnico como um processo de ligação psicoelétrica, baseada na estrutura do sistema nervoso central e nas diferentes propriedades do corpo perispiritual, é notória a participação do ser humano, como um todo, a fim de que tudo ocorra dentro dos níveis de maturidade e engrandecimento que se fazem necessários.

O cirurgião atenderá à cirurgia, previamente marcada, a fim de socorrer o paciente necessitado. Porém, se esse paciente não se impuser as disciplinas devidas, orientadas pelo profissional, não poderá aguardar bom êxito do empreendimento médico, e, certamente, estará correndo riscos imprevisíveis que seriam desnecessários.

O engenheiro calculará todo o material a utilizar-se em importante construção, para o progresso coletivo e para o benefício geral. Entretanto, se os empregados utilizarem material de má qualidade, fora das especificações, e não respeitarem as bases calculadas e as normas prescritas, não se queixarão, mais tarde, dos prejuízos conseguidos ou dos desastres havidos em função da incúria. O professor tudo fará pelo aprendizado do aluno, orientando estudos, indicando literaturas, acompanhando-lhe os passos na esfera dos seus conhecimentos e habilidades. No entanto, se o discípulo se apresenta negligente, irresponsável à frente das lições com que deveria se ilustrar, não poderá admirar-se das reprovações nem dos processos de dependência, que o impedirão de avançar.

Em mediunidade dá-se algo muito similar. Os Irmãos do Infinito recomendam cuidados e disciplinas, reflexão e estudo, vivência sã e bom senso, a fim de proporcionar excelentes ocasiões de bom atendimento, com Cristo, bem como dando oportunidade ao próprio crescimento do intermediário encarnado. Mas, se tais sugestões não forem atendidas, se o medianeiro não se dá ao trabalho do brunimento próprio, estudando para melhor compreender, meditando, a fim de conhecer o próprio íntimo, não se poderá queixar da faixa de tormentos em que se fixará, nem deverá evocar proteção superior se, ao seu turno, deixa-se à matroca, aconselhando-se com a preguiça e a intemperança que são, entre outros fatores, portas abertas às obsessões.

Todo e qualquer médium é responsável pela qualidade do fenômeno que veicula. Assim, na tua movimentação diária, ouvirás sobre todos os assuntos e temas que chegarão aos teus ouvidos por meio de conversas variadas e noticiários, agradáveis uns, enfadonhos outros, infelizes muitos. Entretanto, procurarás selecionar os elementos que te possam enriquecer o entendimento das coisas, deixando em plano secundário, quando não os consigas esquecer, tudo que te possa perturbar a mente, considerando os teus compromissos psíquicos.

Recolherás na retina as imagens variadas do cotidiano. As cenas grotescas da violência nas ruas; a crueza da indiferença e do desrespeito em muitos setores de atendimento público; os rituais apelativos do erotismo nas bancas de revistas e jornais, nos gestos e nas vestimentas; a miséria que habita sarjetas e guetos infectos quanto os excessos dos que exibem poder e pompa, em pleno delírio da vaidade. Saberás classificar cada quadro e seus matizes a fim de que não te aturdas, nem te desequilibres, embora nem sempre te possas evadir dos constrangimentos e indignações compreensíveis na tua experiência humana, mas que deverás controlar pensando na interferência perturbatória que poderás sofrer em teus deveres psíquicos.

Viverás os conflitos do próprio íntimo, perante as circunstâncias mais diferentes. A medida que passem os dias, buscarás aprofundar o conhecimento de ti mesmo, evitando que tais embates, entre os valores e os desvalores da alma, provoquem desarmonias nas experiências do psiquismo sob tua responsabilidade. Desse modo, os comunicantes espirituais poderão ser alucinados de dor ou de revolta, poderão estar embotados pela amargura ou se encontrar em explosões de violência, porque o médium contará com a possibilidade de vigilância, procurando filtrar devidamente, coerentemente, o comunicado de que se vê instrumento, em virtude dos exercícios de orgazação mental e disciplina moral que realiza todos os dias, na pauta da sua atividade humana.

Muitos são os que procuram informações quanto aos modos pelos quais se poderá melhor desenvolver a mediunidade, ou educá-la, para servir com maior proveito. É necessário se entenda, nesse caso, que à medida que o indivíduo com deveres mediúnicos se renova e se amplia, como criatura humana, quanto mais se aprimora como ser, mais conhecendo, mais amando, mais sentindo e sendo melhor pessoa, obviamente suas características mediúnicas, sejam quais forem, igualmente se desenvolverão.

Não há milagres sob os Céus. Tudo é fruto de ingentes esforços, de árduos trabalhos em prol da evolução desejada. Quando te ponhas no labor da mediunidade, saibas que os pruridos de inarmonia que te visitem, vindos do exterior, os excessos de que sejas veículo ou as impropriedades morais às quais te acomodes, correrão por tua conta, uma vez que o Senhor te confia os talentos mediúnicos para que, sabendo usá-los para o teu e para o bem de todos, faças-te cooperador consciente e digno da construção do Reino de Luz a ser inaugurado na Terra, logo mais, com a tua participação efetiva.

4 - MEDIUNIDADE E ORGANISMO

Por mais que um grande contingente de companheiros das lides mediúnicas continue a afirmar a sua estranheza ou incompreensão, ante os ensinamentos apresentados nas páginas lúcidas de O Livro dos Médiuns, o fato é que as expressões de Allan Kardec seguem eivadas de lógica e correção, que necessitam do devido entendimento.

O referido ensino é o que se reporta à mediunidade como uma faculdade radicada no organismo. A partir daí sobrevêm uma série de acaloradas discussões ou pertinazes processos de frieza à frente de tal pronunciamento do Codificador. O costume do indivíduo de não associar a experiência mediúnica ao organismo do médium, vendo-a somente como algo relativo ao Espírito, absolutizando indevidamente a situação, provoca-lhe dificuldades na compreensão da questão.

O que ocorre, porém, por outro lado, é que tudo está correto e nobremente situado pelo notável mestre de Lion. Sem qualquer dificuldade, compreender-se-á que toda percepção do Invisível, isto é, toda captação da presença dos Sempre Vivos, é detectada pelo Espírito. É a alma que possui os instrumentos para fazer os registros provenientes de outras almas. No entanto, parece-nos de fácil compreensão que a exteriorização dessa captação estará em função do corpo somático.

A sistematização neurológica deverá ser responsável por deixar jorrar para o exterior a luz da apreensão espiritual. Todo o material assimilado pela alma do médium escorrerá por meio dos canais nervosos, pelo organismo que ele enverga, a ponto de sentir que não haveria a corporificação do fenômeno sem a cooperação do corpo fisiológico. Utilizemo-nos de algum exemplo singelo, mas que tem tudo para ajudar na compreensão da questão.

Um exímio pianista, detentor de grandiosos talentos, de admirado virtuosismo, somente poderá exprimir a sua arte, com perfeição, no caso em que lhe seja oferecido um piano de excelentes qualidades. Caso não se dê tal oferecimento, deveremos admitir que, por mais notável seja o intérprete, não logrará dar provas da sua capacidade uma vez que se utiliza de um instrumento inferior, defeituoso, impróprio para o mister desejado. Cada corpo funciona como um instrumento e cada Espírito será o intérprete da mensagem captada.

Qualquer indivíduo que reencarne com projeto de atuar na esfera da mediunidade ostensiva, portando, então, o compromisso mediúnico em sua folha de deveres, necessitará de um corpo físico que lhe possibilite a exteriorização da faculdade psíquica.

O sistema nervoso do futuro médium, tanto o central quanto o periférico, e aqui não nos deteremos em minúcias que poderiam tornar mais complexa a compreensão do que desejamos aclarar, é ajustado de tal maneira que o mínimo contato fluídico ou envolvimento psíquico dos desencarnados sobre ele, imponha-lhe percepções automáticas do Invisível. Daí o encontrarmos portadores da faculdade mediúnica que exprimem seu descontentamento com a sua condição. Dizem, agora que estão na Terra esquecidos do seu pretérito de enormes carências, que desejariam sustar esses registros, pelos incômodos que lhes proporcionam, e desfilam um rosário de irrefletidas razões.

Outros, não obstante, vivem ansiando por semelhantes registros mediúnicos, sem que a sua organização neuro-psíquica lhes permita. Não sentem coisa alguma num nível que se possa considerar mediúnico. Tendo-se a mediunidade como passível de exteriorizar-se, graças ao perispírito, a túnica eletromagnética do Espírito, e sendo ele ligado ao corpo físico célula por célula, é compreensível que, quando um Espírito comunicante faz vibrar o perispírito, por meio das energias que consegue movimentar, as células orgânicas acompanhem-no num processo de ressonância perfeito.

É por causa dessa ressonância que as células liberam suas substâncias, desde os processos de sudorese abundante e fria até os componentes citoplásmicos, que formarão o ectoplasma, segundo a nomenclatura de Charles Richet, componentes esses que podem ser ricos em moléculas de A.D.P ou de A.T.P , que propiciarão as ocorrências de ectoplasmias luminosas, quando os médiuns sejam de efeitos físicos.

A intensidade de vibração do perispírito determinará a intensidade de ressonância celular que, por seu turno, expressará a intensidade da exteriorização do fenômeno. É essa interação perispírito-corpo físico que imporá o nível de aprofundamento do transe mediúnico, observando-se que se há maior liberação nervosa dos registros perispirituais, a mostragem do comunicante é mais nítida, mais comprobatória, enfim.

Se em todos os fenômenos mediúnicos é o organismo, representado pelo sistema nervoso, que dá o tom da ocorrência, sem qualquer hesitação, podemos crer que os ditos fenômenos dependem do corpo do médium para que se manifestem. É por isso que na formosura de O Livro dos Médiuns, no item 159, do capítulo XIV, o Codificador informa que "usualmente, só se qualificam como médiuns, aqueles em quem a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva".

Uma vez que a maior ou menor interação perispírito-corpo físico está na dependência das conquistas gerais anteriores, das necessidades, méritos e deméritos de cada pessoa, teremos aí um maior ou menor grau de sensibilidade dos médiuns, chegando a compreender o porquê da variedade enorme de médiuns, tanto no tipo de manifestações que produzem quanto na intensidade em que as podem produzir.

Urge estudar mais detidamente a questão, para que o entendimento se faça e o brilho transcendente desse Tratado de Espiritismo Experimental seja percebido, definitivamente, como roteiro seguro para todos os que se lançam nesses labores felizes da mediunidade a serviço da implantação do Bem sobre o mundo.

J. RAUL TEIXEIRA - (espírito CAMILO)