MEDIUNIDADE DE TERREIRO

1 - CAVALOS

Os espíritos que atuam na umbanda chamam os seus médiuns de cavalos, porque exigem deles abdicação de personalismo, temperamento, cultura, linguagem correta e preocupação com a oratória. O médium de terreiro, como o cavalo domesticado, deve ser dócil e submisso à vontade do seu dono, sem protesto e sem negaças. Embora seja culto ou um bom orador, fala arrevesado e limita-se à filosofia doméstica, miúda e popular dos pretos velhos. Malgrado o seu prestígio no mundo profano, o curso acadêmico ou a graduação superior, há de ser humilde, comunicativo e tolerante, capaz de atender seriamente às solicitações...
RAMATÍS, A Missão do Espiritismo

2 - A HUMANIDADE

Não há como unir a humanidade numa única fé. Se as estrelas do Universo, que são criações de Deus, são todas diferentes, tal como ocorre com os homens, é prudente nos acostumarmos com o fato de que o Criador se manifesta igualmente em muitas e diversas formas, e que em nenhuma Ele se encontra ausente. Perceber Deus no outro é sentir Deus em si mesmo. Já enxergar Deus na religião do outro, é como estar montado num possante cavalo branco e, das calmas pradarias, olhar as estrelas numa linda noite de lua cheia e sentir-se parte da Criação divina.
CABOCLO VENTANIA

3 - PALAVRAS DO MÉDIUM

Prezados irmãos

Este singelo livro é composto por uma série de artigos, seguidos de perguntas e respostas complementares. É como se o médium "escrevesse" os artigos e depois o mestre viesse esclarecer o conteúdo através de um diálogo fraterno: uma maneira didática de atingir o melhor nível de compreensão possível por parte dos leitores.

Como vivencio intensamente a mediunidade de terreiro nesta atual encarnação, julgo importante compartilhar experiências enriquecedoras com o leitor. Desse modo, começo comentando que, embora ainda não haja consenso quanto à ritualística dentro da umbanda, as diversas matrizes que a compõem possuem uma mesma essência espiritual. Para simplificar, seria como ocorre com os instrumentos musicais de uma orquestra: cada um possui um acorde específico, em que juntos compõem a sinfonia final.

Nos terreiros sérios e comprometidos com a caridade, essas raízes são ininterruptamente reinterpretadas, justamente porque a umbanda não possui uma codificação. No entanto, quando confrontadas, não apresentam quaisquer incoerências, pois os símbolos míticos que ganharam "novos" significados mantêm-se com o sentido esotérico original, que segue a máxima: "Amai-vos uns aos outros", conforme enunciou o Caboclo normas do culto nascente. Apesar disso, muitos conflitos ocorrem entre os adeptos umbandistas, pois cada um puxa a brasa para o seu lado, em função da profusão excessiva de elementos utilizados nos ritos, que podem ser originários de fundamentos contrários aos ditados pelo fundador da umbanda.

Incontestavelmente foi o Caboclo das Sete Encruzilhadas a entidade missionária que elencou os fundamentos básicos da umbanda: não sacrificar animais; não cobrar; usar a roupa branca; ter o Evangelho de Jesus como roteiro maior; aprender com os espíritos que souberem mais, ensinando aos que souberem menos; e praticar a caridade, todos de mãos dadas. Tudo mais são elementos de rito que foram sendo incorporados com o crescimento do número de terreiros, trazendo em seu bojo novos simbolismos relacionados com esta ou aquela outra doutrina de origem diversa, mas que não contradizem os fundamentos esquematizados no Espaço, dos quais (insisto em registrar) o insigne Caboclo foi o porta voz do nascimento da umbanda entre os homens, pelo canal da mediunidade.

A umbanda é uma vivência ritualista, o que não a diminui diante das outras formas organizadas de doutrina que se baseiam em roteiros e diretrizes de trabalho, embora reconheçamos que a verdadeira espiritualização ocorre no íntimo de cada ser e não com a mera aplicação de fórmulas exteriores. Nos dias de hoje, já há comprovações pela medicina, especificamente através da psiquiatria, que mostram que os rituais religiosos mediúnicos estão invariavelmente associados a benefícios à saúde.

Os rituais públicos, como as sessões de caridade umbandistas para a assistência, e privados (iniciações internas e sessões de desenvolvimento mediúnico), são métodos poderosos para manter a saúde mental e prevenir o início ou a progressão de distúrbios psicológicos, auxiliando as pessoas a enfrentar o terror, a ansiedade, o medo, a culpa, a raiva, a frustração, a incerteza, os traumas e a alienação; enfim, a lidar com emoções e ameaças de origens diversas, oferecendo um mecanismo de apoio que as distancia desses desequilíbrios ou ensina a conviver melhor com os problemas da vida. O resultado é que a tensão pessoal ou do grupo acalma, a agressividade diminui, a solidão, o sentimento de inferioridade e a depressão amenizam, a sensação de não se ter saída para detrminado problema se extingue.

Mas, em decorrência de nosso individualismo primário, a falta de frequência a uma religião, ou a sensação do não-pertencimento a uma comunidade religiosa, ainda nos priva dos benefícios produzidos pelos rituais, que se tornam alternativas para a saúde psicológica, pois incorporam cognições, filiação grupal, ação litúrgica coletiva e catarses individuais, como por exemplo as chamadas "incorporações" dos terreiros (estados alterados de consciência) de entidades espirituais.

Os usos e costumes cerimoniais dos terreiros umbandistas utilizam-se de sugestões (sons, gestos, cheiros e cores), adesão à comunidade e participação dinâmica de grupo, despertamento das emoções, liberação de sentimentos negativos e reintegração emocional, criando sensação de paz, direção e controle do próprio psiquismo, uma vez que os assistentes participam de ambientes carregados de emoção positiva e encontram caminhos para "escape", purificação, catarse e alcance do poder de realização pessoal ou fortalecimento da vontade.

Vivenciar a umbanda tem grande valia para as catarses dos adeptos, com redução de ansiedades, fobias, recalques e situações psicológicas estressantes. Notadamente as experiências iniciáticas internas, através do apoio vibratório das abnegadas entidades espirituais e dos eflúvios divinos dos orixás, permitem o reconhecimento e instalação do alívio emocional em um ambiente controlado e adequado aos cerimoniais indutores de estados alterados de consciência (experiências místicas mediúnicas), com limites precisos para expressá-las adequadamente, dando segurança e sentimento de integração ao grupo para os participantes.

Essa liberação de sentimentos reverte a repressão que doutrinas castradoras impõem às criaturas, impedindo a naturalidade do movimento do corpo. Afinal, o indivíduo nunca é, e não pode ser, só mental. O ritual engaja o participante em comportamentos que reforçam a conexão com o divino, o sagrado e o sobrenatural do mundo dos espíritos que amparam uma comunidade religiosa de umbanda. É o sentimento de pertencer a uma egrégora ou corrente mediúnica que facilita a resposta catártica, através da qual as emoções e ritmos corporais reprimidos são permitidos e podem ser trazidos à manifestação pela consciência alterada, expressando-se naturalmente e sem preconceitos: o brado do caboclo, a dança do orixá, a benzedura do preto velho, a alegria da criança, a gargalhada do exu...

Ao psicodigitar as linhas que compõem este guia de estudos afloraram em meu psiquismo lembranças de um passado muito remoto. Por ser um espírito "rebelde", e instintivamente ainda primário ante às leis cósmicas, fui trazido de outro orbe como um exilado em retificação. Não havendo coincidências vãs na mediunidade, desde os primeiros anos de vida, nesta atual encarnação, enxergava um triângulo esmeraldino a me proteger, envolvendo-me, o que se intensificou nos trabalhos práticos caritativos mediúnicos.

Não por acaso, faz alguns anos, "lembrei-me" repentinamente que fazia parte de um agrupamento que no Espaço compunha uma confraria orientalista denominada Fraternidade do Triângulo, dado a nossa índole psíquica ligada à magia e movimentação mental do fluido cósmico, que conhecíamos de eras remotas como "energia vril". Mas contrariamos gravemente os ditames de equilíbrio da Lei Divina Aumpram. E, sendo consciências fracassadas sentenciadas à retificação na Terra, através da intercessão e amparo do amoroso mentor Ramatís, foi-nos esquematizado amplo projeto de vida entre as reencarnações sucessivas, para que conseguíssemos nos reabilitar com nossos pesados débitos.

Muitos de nós (no que me incluo) estão reencarnados com a concessão da mediunidade, em última instância de oportunidade intercessora a nosso favor, a fim de não falharmos novamente e sermos mais uma vez "removidos" para outro orbe inferior à Terra, dado que este que nos abriga mudará de classificação de mundo de "provas e expiações" para mundo de"regeneração".

Se cairmos novamente, quem nos acompanhará desta vez? Resposta emblemática podemos encontrar na história do preto velho Rei Congo, que em vez de ascensionar optou, amorosamente, por tutelar um agrupamento de médiuns fracassados, "caídos" para um orbe mais baixo na escada evolutiva. Dessa feita, no entanto, nosso incansável e amoroso tutor não nos acompanhará. Por compromissos assumidos diretamente com Jesus, Ramatís reencarnará em nosso planeta,1 participando diretamente do grande plano para "salvação" da humanidade esquematizado pelo Governo Oculto do Terra, assim como chegam à Terra, neste momento da consciência coletiva, espíritos das estrelas, cidadãos cósmicos e irmãos galácticos mais velhos, para assumir importantes postos de serviço no lugar dos Mestres da Luz que reencarnarão.

Paz, força e união!

Norberto Peixoto
1 Esta informação foi revelada por Ramatís ao médium Hercílio Maes, no ano de 1956. Vide detalhes na obra Simplesmente Hercílio, do autor Mauro Maes (capítulo 19, página 88), EDITORA DO CONHECIMENTO..

4 - PREÂMBULO DE RAMATIS

Deus é único, apesar de todos os rituais, normas, procedimentos e cerimoniais instituídos pelas diversas doutrinas espiritualistas. E não Se modifica somente porque os homens O imaginam desta ou daquela maneira, aqui ou ali, pois as formas de concebê-Lo em livros "sagrados" nada mais são que o jugo sufocante da intelectualidade expressando-se sob aspectos pessoais limitados à transitoriedade da existência carnal. A verdadeira realidade não é fruto de tradições e costumes admissíveis à compreensão humana de uma época em particular, mas exatamente o contrário, do mesmo modo como uma carroça não se põe à frente dos bois.

Reflitamos que Deus é Deus, em todas as localidades cósmicas, quer represente o Jeová sentencioso dos judeus, o Tupã dos silvícolas guaranis e tupinambás brasileiros, o Brahma dos hinduístas, o Sucellus dos celtas, o Grande Arquiteto do Universo dos maçons, o velho cansado dos céus católicos, o Zambi ou Oludumaré dos africanos, o Rá dos egípcios, o Eterno Absoluto dos ocultistas, a Lei Eterna para os iniciados cabalistas, a Suprema Lei dos espíritas ou o Oxalá dos umbandistas. O que importa é que Ele seja percebido conforme a capacidade de entendimento de cada povo, cultura, religião, etnia ou nação.

Sendo um Deus único, mantenedor do Universo, os conflitos ocorrem quando diferentes religiões impõe, reciprocamente, partes percebidas do Criador, como verdade absoluta para as demais. Mesmo o ateu, respeitoso com a fé alheia e que desacredita de um Deus das religiões terrenas, tempo dentro de si em estado latente, e muitas vezes até mais do que os sacerdotes fanáticos das portentosas catedrais da atualidade.

Os espíritos mandatários da umbanda atuantes no Espaço entendem perfeitamente a necessidade das experiências e conclusões de cada cidadão, obtidas pelo intercâmbio "psicofísico" com o mundo oculto, sob os auspícios da mediunidade de terreiro. Gradativamente, os homens se apercebem da Inteligência Suprema causadora e disciplinadora de todos os fenômenos imagináveis, fonte sublime e infinitamente amorosa e sábia que cria, criou e continuará criando e governando o Universo.

Antigamente, as leis divinas eram compreendidas rudemente pela intimidade instintiva das criaturas. Por isso, os "deuses" eram percebidos como eivados de ira, senhores dos elementos da natureza, entre raios, trovões, tempestades raivosas, sedentos de sacrifícios, e a eles depositavam-se oferendas diversas em troca de suas dádivas. Hoje, são representados pela sabedoria das entidades da umbanda, que reinterpretam à luz do Evangelho tradições do passado e seus fundamentos de "orixás" punitivos, de velhos homens das tribos, amedrontados, querendo agradar as divindades. Fazem reluzir no campo mental o conhecimento de que sem mudança interior não existe mais propósito para obrigações e punições exteriores, ordenadas por "divindades" sádicas que relembram lendas sentenciosas baseadas em mitos que contrariam a Lei Cósmica que estabelece a flexibilidade libertadora da semeadura livre, no presente, para a colheita obrigatória, no futuro.

O momento atual exige união de todos os adeptos espiritualistas encarnados. Estamos junto de vós num esforço planetário único, almejando a mudança da consciência coletiva encarnada em diversas localidades. Independentemente dos rótulos terrenos, somente o exercício do amor minimizará arestas ainda existentes entre vós, escoimando as diferenças de embalagens religiosas e doutrinárias que exaltam a forma separatista em detrimento da essência, que é a união fraternal crística.

Desejamos aos espiritualistas universalistas que lerem estas letras, organizadas com o título Mediunidade de Terreiro, contendo diretrizes esclarecedoras de acordo com as leis universais "escritas" por Jesus, em seu Evangelho redentor, uma compreensão mais dilatada da dinâmica umbandista que, embora não codificada, está unida pela semelhança de conhecimentos disseminados no interior de seus terreiros.

Aos umbandistas, sugerimos uma profunda reflexão a respeito da forma como se deve cultuar o sagrado dentro dos terreiros, não devendo ser este um motivo para separatismos, contendas ou quizilas entre os adeptos, pois a unidade na umbanda se dará pelos estudos continuados, aliando-se a tradição da oralidade interna aos compêndios, a fim de compreender-se a dinâmica dos tempos atuais, em que as diferenças devem unir a todos num mesmo propósito, que é o trabalho caritativo evangelizador, conforme nos afirmou Jesus: "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também".
Muita paz, muita Luz!

Ramatís

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