OBSTÁCULOS À MEDIUNIDADE

1 - Obstáculos à mediunidade

A mediunidade tem, como fim providencial, a elevação espiritual da Humanidade e do planeta que habita.

Como consequência, faculta o intercâmbio dos desencarnados com os homens, rompendo a cortina que aparentemente os separa, destruindo na base a negação e o cepticismo a que muitos se aferram. Da mesma forma, oferece a correta visão da realidade de ultratumba, ampliando a compreensão em torno do mundo primeiro e causal onde todos se originam e para o qual retornam; dá ensejo ao esforço de promoção cultural e moral, graças ao qual se torna possível a libertação dos vícios e dos atavismos mais primários que lhe predominam em a natureza.

A faculdade mediúnica propicia o esclarecimento dos que se demoram na rebeldia espiritual, num ou noutro lado da vida, auxiliando a terapia das alienações e, sobretudo, da desagregação interior que resulta do desconhecimento das Leis que os Espíritos Superiores explicam e ajudam a ser respeitadas, em face da finalidade que têm de manter a ordem e o equilíbrio, que constituem fundamento primacial no Universo.

Assim, o exercício mediúnico fortalece os laços da fraternidade entre os habitantes das duas esferas de diferentes vibrações, ampliando a área do afeto e eliminando o ódio cáustico que infelicita grande faixa de seres; estimula a humildade, pois que demonstra, diante da grandeza da Vida, a pequenez do homem, não obstante ser o grande investimento do Amor que o promove e eleva através dos milênios, trabalhando pelo seu engrandecimento.

A mediunidade bem exercida leva o trabalhador ao mediumato, que tem, em Jesus, o Modelo, por haver sido, por excelência, o perfeito Médium de Deus, graças à sintonia ideal mantida com o Pai. Apesar de tais objetivos, há escolhos graves que se lhe antepõem, intentando impedir-lhe os logros elevados. O mais cruel são as imperfeições morais do próprio médium, que permitem a interferência dos maus Espíritos como dos frívolos, que com ele se afinam, mantendo identificação de propósitos, naturalmente de natureza inferior. Concomitantemente, esse intercâmbio de características negativas ou vulgares determina o aparecimento das síndromes obsessivas que, não cuidadas em tempo próprio, se transformam em malsinada fascinação e subjugação, com graves riscos, inclusive, de vida para o invigilante.

Essa inferioridade em a natureza moral do médium, quando não encontra conveniente educação e aprimoramento, responde por incontáveis males que não deixam o medianeiro alcançar o elevado mister a que está destinado. Por essas razões, variam os graus de mediunidade, em decorrência dos registros que tipificam as credenciais intelecto-morais de cada um. Da mesma forma, diferem os tipos de mediunidade, e graças à sua larga faixa, a documentação da sobrevivência melhor se afirma, fazendo que se esboroem as hipóteses que se lhe contrapõem com arroubos de negação da sua real procedência.

O médium deve, como efeito dos perigos a que está exposto, trabalhar pelo aprimoramento íntimo constante, exercendo o seu ministério com abnegação e desinteresse, mediante o que granjeia a simpatia dos Bons Espíritos, que passam a assisti-lo, ao mesmo tempo em que haure recursos fluídicos entre aqueles que lhe recebem os benefícios, adquirindo mais segurança e capacidade de autodoação. Assim se fortalece e sai das frequências mais baixas vivendando, então, os ideais relevantes e altruísticos.

O orgulho e a presunção, a indolência e a irresponsabilidade, tão do agrado das pessoas descuidadas em relação aos compromissos de alto porte, não devem vigernas atitudes de quem abraça a tarefa mediúnica, pois que aquelas qualidades perniciosas do caráter tornam-se-lhe escolhos perigosos. Vemos, no dia-a-dia, esses indivíduos instáveis e incorretos, exercendo a mediunidade com insegurança e descontrole, com altibaixos que bem denotam a sua conduta reprochável e o seu deplorável estado íntimo.

Não é a mediunidade responsável por esses comportamentos ridículos e perigosos, conforme fazem crer alguns médiuns inescrupulosos, mas eles mesmos, por serem de constituição moral frágil e emocionalmente atormentados, tenteando com os episódios obsessivos que terminarão por vitimá-los, mais tarde. Exercem a faculdade mediúnica para autopromoção, sem escrúpulo nem consciência correta dos próprios atos.

Acreditando-se criaturas especiais, permitem-se contínuas leviandades, brincando com as forças da vida, que atiram aos jogos espúrios dos interesses imediatos, descambando para graves situações nas quais se infelicitam e aos demais prejudicam. Ardilosos, mentem, dissimulam, disfarçando esses sentimentos inferiores como sendo influência dos Espíritos maus, o que realmente sucede às vezes, porém pela simples razão de serem eles mesmos os responsáveis pela ocorrência, em face da afinidade recíproca existente, assim se comprazendo em permanecer na postura que fingem deplorar.

Os médiuns seguros, conforme definiu Allan Kardec, ouvem as comunicações de que se fazem intermediários, aplicando-as em favor do próprio progresso, cônscios dos compromissos dignos que assumiram e buscam desincumbir-se com dignidade. São, por isso mesmo, homens honrados, que mais facilmente se engrandecem pelos exemplos de que dão mostras, tornando-se merecedores de ser seguidos pelo bem-estar que exteriorizam, porque o fruem na sua vivência cotidiana.

O diluente eficaz para esses obstáculos da mediunidade é, desse modo, o aprimoramento moral do sensitivo, que encontrará no trabalho da edificação do bem e da caridade, na oração e no estudo edificante, as forças para romper os impedimentos próprios da sua natureza em estágio de progresso, alcançando os patamares da libertação.

2 - EDUCAÇÃO ÍNTIMA

A prática da mediunidade espírita consciente proporciona inimagináveis satisfações. Não apenas dulcifica aquele que se lhe propõe ao ministério como enseja a paz interior que decorre do prazer de servir, repartindo emoções saudáveis e distendendo esperanças de consolação. Acrescente-se a esses valores o aprendizado que decorre da convivência psíquica com os Espíritos Superiores e a impregnação de energias hauridas enquanto se operam os fenômenos nas suas diversas expressões, e pode-se ter idéia das bênçãos que se recolhe.

Para que, no entanto, se atinja essa situação, todo um largo período de experimentação se faz indispensável, como técnica de educação das forças latentes que devem ser canalizadas com o equilíbrio próprio para cometimento de tal jaez. A mediunidade, que se encontra presente em todos os indivíduos, requer cuidados especiais que lhe facultem o conveniente desabrochar, ou, a posteriori, o correto conduzir.

Excetuam-se, naturalmente, os casos em que ocorrem as obsessões, quando, pela violência, os sensitivos são dominados pela interferência do invasor da sua casa mental, conforme o grau em que se estabeleça a parasitose psíquica. Outras vezes, em razão do descurado comportamento moral do médium, há intercorrêncías que se estabelecem como condições viciosas, levando-o a estados de alienação ou dependência perniciosa, nas quais desestrutura a personalidade e marcha para a consumpção dos objetivos dignificantes da vida.

Para que ocorra uma educação desejável, é necessário o estudo da própria faculdade, assim como da Doutrina Espírita, a fim de identificar-se o mecanismo das forças de que se dispõe, bem como dos valores éticos e instrutivos do Espiritismo, que devem ser incorporados ao dia-a-dia, gerando conquistas morais que libertam o médium das paixões inferiores e atraem os Seres Espirituais interessados no progresso da Humanidade.

Adicione-se a disciplina como fator relevante, graças ao contributo da qual se fixam os hábitos salutares no exercício da faculdade, para que se colimem os fins específicos dessa função a que denominam de natureza extra-sensorial. Outrossim, são fatores de considerável significação a vida interior do medianeiro, a sua capacidade de concentração, de fixação de propósitos na área da meditação, com o objetivo de libertação das sensações mais grosseiras que respondem por vasta cópia de prejuízos na conduta e na individualidade profunda do ser.

Numa sociedade que se apaixona pelos ruídos e que se movimenta em torno da balbúrdia, atravancando-se de coisas-nenhumas que perturbam a paz e a integração nos ideais relevantes, faz enorme falta o silêncio íntimo e o equilíbrio das emoções. Para o conveniente registro das comunicações espirituais é exigível que se estabeleça, mediante a concentração, o aquietamento das ansiedades e das turbações constantes, ruidosas e insensatas, de modo que ocorram espaços mentais silenciosos, nos quais se captam as informações, os pensamentos das Entidades desencarnadas.

A mente deve tornar-se um espelho que refuta sem sinuosidades nem distorções as imagens que lhe sejam projetadas, o que requer uma lâmina correta, de elaboração bem cuidada. Num psiquismo irrequieto, caracterizado pela irreflexão e por suscetibilidades, não se encontram áreas de paz, de silêncio, que ensejem a tranquila captação das paisagens e mensagens que se lhe transmitam.

Certamente, esta não é uma tarefa para ser realizada de um golpe, em momento de empatia ou de entusiasmo, antes decorre de um processo de autocontrole de largo curso, que se logra mediante exercício constante, gerador do clima emocional harmonioso que favorece o silêncio mental indispensável. Ninguém estabelece que o médium deva ser um espírito perfeito para atingir esse estado; no entanto, é desejável que ele se esforce por melhorar-se sempre, galgando mais altos degraus da evolução, aspirando por mais significativas conquistas morais.

O silêncio íntimo preserva a paz do indivíduo em todo lugar, sem que ele seja atingido pelos petardos da ira ou do ciúme, pelos gravames da maledicência ou da calúnia, que lhe sejam atirados. Da mesma forma, pouco importa a balbúrbia em sua volta, conseguindo transitar em qualquer clima físico e mental sem perturbação ou desordem, não se afinando com as ondas de violência que se entrechocam em torno da sua atividade.

O estudo doutrinário estimula a criação de um estado íntimo otimista, equaciona os problemas afugentes que cedem lugar à confiança na fatalidade do bem, que a todos se destina. Origina-se aí a autoconfiança, com o consequente libertar-se das preocupações exageradas e da valorização de insignificâncias que se responsabilizam por muitas aflições.

Nesse campo de harmonia mental estabelecem-se o silêncio, a quietação interior, a passividade mediúnica, responsáveis pelo registro e fidelidade do intercâmbio. Os outros fatores morais completam a qualidade do conteúdo da mensagem, como efeito da sintonia do médium com os seus Instrutores, que se deixam atrair pelo esforço por ele desenvolvido, assim como pelo aproveitamento e aplicação das lições recebidas.

Não se levando em consideração esses requisitos mínimos, o fenômeno mediúnico não vai além de trivialidades e incongruências, perturbações e distonias, quando a função, em si mesma, não sofre bloqueios decorrentes do baixo teor vibratório das companhias psíquicas do próprio médium. Desse modo, a prática espírita da mediunidade não se restringe a momentos, a situações e lugares, mas a um permanente estado de sintonia com o Alto e de equilíbrio pessoal, porquanto o intermediário, onde se encontre, não se apresenta dissociado nem liberado das forças e faculdades paranormais de que está investido.

A sua atuação deve ser constante, embora não se faça necessária a interferência ostensiva dos Espíritos, tendo em vista ser ele mesmo um Espírito em processo de crescimento para a Vida e para Deus.

3 - PSIQUISMO MEDIÚNICO

A hipótese de que o subconsciente é o responsável pelas personificações parasitárias e anômalas foi a primeira levantada contra a mediunidade, dando surgimento às conceituações negativas apressadas, como patologias inerentes ao indivíduo, por cujo intermédio pareciam comunicar-se as almas dos mortos. A histeria, por sua vez, foi posta para coadjuvar tão aberrante diagnóstico, que teria fundamento fisiológico no polígono cerebral, de Wundt, encarregado de arquivar os conflitos e as frustrações que se corporificariam como estados de alienação, credora de tratamento especializado, em detrimento da possibilidade de comunicação espiritual.

Mais tarde, o inconsciente, de Freud, assumiu a responsabilidade por tal degradação da personalidade, que ocultava, na sua gênese, qualquer tipo de distúrbio da libido. Além dessas explicações, foram adicionadas as hipóteses da fraude, da dissimulação, da telepatia, da hiperestesia, em vãs tentativas de negar a veracidade do intercâmbio entre os encarnados e os desencarnados.

Não afirmamos que sejam totalmente destituídas de respeito tais possibilidades, porquanto o fenômeno anímico é ocorrência presente, como se pode depreender, na estrutura do mediúnico, sem prejuízo para este. Todavia, sobrepondo-se a toda a gama de mecanismos automatistas do inconsciente e das interferências psíquicas outras, flui cristalina a mensagem dos imortais, confirmando a sua realidade e oferecendo largo campo de estudos a respeito da vida e do homem em si mesmo.

Descartamos as inconsistentes hipóteses da dissimulação e da fraude, porque são parte integrante de determinados caracteres morais do homem, sempre presentes nos diversos setores nos quais se encontram, e que, por aí remanescerem, não invalidam os valores legítimos e nobres das atividades de outra natureza. A mediunidade é expressão fisiopsíquica inerente ao homem, por cujo meio é-lhe possível entrar em contacto com outras faixas vibratórias, além e aquém daquelas que são captadas pelos seus equipamentos sensoriais.

A percepção sensorial humana se encontra adstrita a pequena faixa de vibrações. Somente as eletromagnéticas que transitam entre o vermelho, que é a mais baixa frequência visível, e o violeta que lhe é o oposto, portanto, a mais alta, podem ser captadas em razão de permitirem vibrar as terminais do nervo óptico na retina. As microondas, as caloríferas, as de rádio, porque não correspondem a frequências cuja ressonância atinjam a visão, não são percebidas, embora sejam portadoras da mesma natureza das cores registradas.

Assim, no imenso espectro de frequências que abrange as ondas longas de rádio, chegando aos raios gama e cósmicos, a limitada visão do homem apenas seleciona mui pequena faixa, conforme referido. A audição, da mesma forma, é-lhe muito reduzida, Captando sons que ocorrem entre 16 e 20.000 vibrações por segundo, perde a criatura para os animais, com capacidade muito maior de percepção, qual lhes ocorre também, na área da visão.

Não obstante, a desinformação ou má vontade teimam em associar à loucura e à neurose a presença dos registros mediúnicos. As disposições pessoais para os desequilíbrios são inatas no homem, que neles estão em gérmen, assomando e predominando como psicopatologias em todos os campos de atívidade nos quais se encontram esses indivíduos. Desse modo, é destituído de realidade o conceito que se vulgariza entre os desconhecedores do Espiritismo e, por extensão, da mediunidade, que o exercício dessa predisposição leva o seu possuidor à desarmonia mental, ou propicia-lhe má sorte, desconcertos sociais e econômicos.

O desenvolvimento ou educação da mediunidade oferece uma instrumentação a mais, um sexto sentido de grande valor para complementar a precaridade de recursos e funções de que dispõe o Espírito encarnado. Certamente que um instrumento deixado ao abandono termina por perder a capacidade para a qual foi construído, danificando-se sob a ação perniciosa do tempo e do desmazelo. Com qualquer função sensorial ou paranormal ocorre o mesmo. O órgão não exercitado se atrofia, assim como a mediunidade não exercida perde os registros, a percepção paranormal.

De tal realidade, para se afirmar com leviana convicção que a mesma é geradora de danos e prejuízos vai um largo pego. Os danos e insucessos, as dificuldades e os desafios, que o homem se vê compelido a enfrentar, resultam da sua conduta passada ou presente que lhe proporciona colheita equivalente às ações distribuídas. Convenhamos que a atividade mediúnica bem executada, posta a serviço do engrandecimento das criaturas da sociedade — a mediunidade espírita—, propicia goze e respeito que felicitam aquele que a aplica no bem, conforme é fácil de compreender-se, porquanto a ocorrência idêntica nas demais faixas do comportamento humano.

Adicione-se que o médium diligente e generoso, sempre a serviço do bem e da iluminação das consciências além das simpatias que granjeia entre as criaturas atrai a amizade e o devotamento dos Bons Espíritos, que passar a protegê-lo e guiá-lo com sabedoria, promovendo-o, moral e espiritualmente, como efeito dos sentimentos de amor que os une na tarefa que fomenta o progresso de todos.

Instrumento delicado, a mediunidade mais se afirma quanto mais exercida, granjeando melhores e mais sutis possibilidades como decorrência do exercício a que vá ser submetida. Não procedem, desse modo, as alegações a respeito de que a mediunidade é miséria psicológica ou responsável pelos danos que afligem aquelas pessoas dotadas. O conhecimento de tão peregrina função ou dom da vida auxilia o crescimento moral e o desenvolvimento psíquico, criando um clima de paz invejável, que passa a desfrutar aquele que a respeita e a utiliza corretamente.

Allan Kardec afirmou com altas razões que ela é manifestação anômala, às vezes, na personalidade humana, porque especial; jamais, porém, de natureza patológica, visto que "há médiuns de saúde robusta; os doentes o são por outras causas".

MANOEL P. DE MIRANDA