PSIQUIATRIA E MEDIUNISMO

Não se trata, no presente estudo, de uma obra filosófica no sentido estrito da definição clássica do termo. Não é, também, uma nova versão das variadas escolas da Psiquiatria ou uma inédita Teoria da Personalidade, campo vasto da Psicologia, filha caçula da Filosofia, que realiza hercúleo esforço para se inserir no âmbito das ciências exatas. Por outro lado, não pode ser enquadrado na categoria de ficção científica, literatura ou obra de feição religiosa.

Trata-se, simplesmente, de um pequeno e sumário relatório das experiências vivenciadas ao longo de vinte anos de prática como clínico psiquiatra, quase um decênio como professor adjunto em Faculdade de Psicologia e mais de trinta anos de lides espiritistas. Os resultados de todos esses anos de esforços aleatórios proporcionaram ao autor um sentimento de vislumbre de uma mínima parcela da realidade psíquica do indivíduo, e isso, talvez, seja suficiente para comunicar a outros estudiosos os resultados alcançados.

Parece, à primeira vista, uma temeridade a tentativa de se lançar um elo de ligação entre a Psiquiatria, a Psicologia, a Fisiologia, a Física etc. por um lado, e os fenômenos ditos mediúnicos, metapsíquicos, parapsicológicos ou meros produtos de superstições, charlatanismo ou excrescências psicopatológicas de personalidades enfermas, por outro. É possível que o autor seja rotulado como pretensioso em demasia, detentor de desmedida ambição intelectual ou, simplesmente, portador de algum distúrbio psicopatológico.

Contudo, as impressionantes ocorrências observadas ao longo desses anos permitem supor que esse testemunho seja de real valor a tantos outros que lidam com essa classe de fenômenos, ou tenham algum interesse científico pelos mesmos, seja pela labuta diária com doentes mentais, profissão de fé ou necessidade interior de busca de novos parâmetros que os norteiem em suas vidas pessoais.

Outra justificativa para escrever este ensaio é a confusão generalizada que reina nesse campo do conhecimento humano. Se, por um lado, a ciência acadêmica abomina essa classe de fenômenos, por considerá-los como meros produtos de psicopatia, quando não de fraude ou trapaça, de outro não é incomum a observação de pessoas adotando princípios tão obscuros e bizarros que não raro se colocam em desacordo com a própria corrente religiosa a que se filiam. Em "As Variedades da Experiência Religiosa", o grande psicólogo anglo-saxônico William James observa que "uma autêntica experiência religiosa de primeira mão, como esta, se destina a ser uma heterodoxia para as pessoas que a presenciarem, aparecendo o profeta como simples louco solitário. Se a sua doutrina for tão contagiosa que se estenda a outros, passará a ser uma heresia definida e rotulada. Mas se ela, ainda assim, continuar suficientemente contagiosa para triunfar da perseguição, converte-se-á em ortodoxia; e quando uma religião se converte em ortodoxia, o seu dia de interiorização já se foi: a fonte secou; os fiéis vivem exclusivamente de uma fé de segunda mão ( .. )" Esse notável psicólogo observou a quase universalidade do ódio inato ao estranho e aos homens excêntricos e não-conformistas, e a paixão por impor a lei na forma de um sistema teórico absolutamente fechado. Esses aspectos idiossincrásicos da natureza humana tendem a ser em parte dissolvidos pelas experiências autênticas.

Outro obstáculo é o fato de pessoas portadoras de graves distúrbios psicológicos terem uma tendência atávica pelas correntes que lidam com fenômenos ditos paranormais. É comum, em Psicopatologia, a observação de portadores de idéias delirantes de feição mística, com ou sem distúrbios senso-perceptivos. Aqui, Mira Y Lopez diz que a "distância entre o sublime e o ridículo não vai além de um passo". Talvez esse seja o motivo para a alegoria de ser a senda difícil e estreita como o fio de uma navalha.

Além disso, o sofrimento de milhões de pessoas a necessitarem de cuidados psicoterápicos, nos serviços de pronto-atendimento ou ambulatorial, especializados ou gerais, ou em grupos de ajuda de feição mediúnica, cabines de passes, curadores psíquicos etc., por si só justifica plenamente um estudo dessa natureza.

É, no Brasil, muito grande o número de boas clínicas médicas ou psiquiátricas de orientação espírita. Cresce, a cada ano, o número de médicos, psicólogos, sociólogos, antropólogos, assistentes sociais etc. adeptos do Espiritismo ou de outras correntes de feição espiritualista. Existem mais de cem Hospitais Espíritas de Psiquiatria no país. Fortaleza, Palmelo, Morrinhos, Goiânia, Anápolis, Jataí, Brasília, Rondonópolis, Paranaíba, Campo Grande, Campos, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Uberaba, Curitiba, Campina Grande, Porto Alegre, São Paulo, Franca, Araraquara, Barretos etc., são exemplos de cidades que possuem instituições dessa espécie. No Estado de São Paulo, esse movimento é tão amplo, que existe uma "Federação dos Hospitais Psiquiátricos Espíritas do Estado de São Paulo". Todas essas instituições funcionam a contento, com profissionais idealistas e competentes, devidamente fiscalizadas pelos Conselhos Regionais de Medicina tanto em seus fundamentos técnico-científicos como ético-profissionais, punindo até mesmo profissionais que não seguem esses preceitos, conforme fatos de ampla repercussão nacional através da imprensa.

As dificuldades, tanto teóricas quanto práticas, são imensas para quem quer que se proponha a lidar nessa área. Exemplificando, tem-se o quadro das neuroses histéricas, com crises dissociativas da consciência. Não é fácil o diagnóstico diferencial entre uma dissociação de fundo neurótico e um possível transe mediúnico autêntico, onde também ocorre uma dissociação fisiológica, não necessariamente patológica. Uma conduta simplista poderá não impedir, nessas personalidades, a eclosão de quadros psicopatológicos mais graves, tanto de fundo organopsicogenético quanto de natureza espiritual. Essas possibilidades serão discutidas mais pormenorizadamente nos capítulos subseqüentes.

Não é raro a ocorrência de personalidades finas, sensíveis, portadoras de dons mediúnicos serem interpretadas, por terapeutas de mentalidade organicista, como portadoras de confusão mental, incapacidade de distinguir a realidade da fantasia, distúrbios senso-perceptivos ou mesmo distúrbios de pensamento etc. Após uma avaliação mais complexa, com a aplicação de testes psicométricos, exames especializados, tais como tomografia computadorizada etc., um diagnóstico presuntivo é firmado, com o que advém o uso de medicação tranqüilizante, antidepressiva ou mesmo neuroléptica. Em resumo, uma personalidade fina, sensível e complexa é rotulada como portadora de algum tipo de doença mental e tratada como tal.

O inverso também costuma acontecer. Uma pessoa portadora de grave disfunção mental ou orgânica procura um grupo de cura psíquica pouco esclarecido, que prescreve tratamento de natureza exclusivamente espiritual, recomendando a suspensão de necessários procedimentos de ordem médica. O autor ouviu o relato de um conhecido médium, que foi procurado por paciente portador de Epilepsia Criptogenética, e com crises somente controláveis com elevadas dosagens de anticomiciais. Orientado pelo guia espiritual, de origem alemã (?), o médium suspendeu a medicação neurológica, sob o inquestionável argumento de que se tratava de um caso conhecido como obsessão espiritual. Com a suspensão abrupta da medicação, o cliente entrou em quadro de status epiléptico, com crises subentrantes, vindo a falecer, provavelmente por edema cerebral.

Apesar das dificuldades serem tremendas e, aparentemente, insuperáveis, isso não invalida o pressuposto socrático do "conhece-te a ti mesmo". Essas dificuldades aparentemente insuperáveis somente poderão ser superadas a partir de uma atitude interior de isenção e humildade. A atitude do Cristo, diante da leviana pergunta de Pilatos a respeito do que seria a verdade, não poderia ser mais eloqüente: o silêncio. Certamente que a penetração psicológica do condenado captou muito bem que o interrogante não possuía olhos de ver nem ouvidos de ouvir, conforme expressão do próprio Evangelho.

Diante do exposto, o direcionamento do presente trabalho seguirá uma linha eminentemente empírica, tendo como roteiro o bom senso aliado às experiências pessoais do autor. Outros poderão discordar, de um lado e de outro. Por isso, as idéias aqui expostas devem ser tomadas como mero ensaio, sem qualquer pretensão além de comunicar uma experiência pessoal, de natureza profissional.

Segundo o psicanalista junguiano Progroff, inúmeras questões devem ser discutidas ao se tentar uma abordagem do tema aqui proposto, embora a Psicologia Complexa de Jung não tenha admitido oficialmente o mediunismo, mas não pode evitar o confronto com fenômenos estranhos, a que denominou Sincronicidade.

Ouais são os tipos de fenômenos mediúnicos? De que forma aparecem? Ouais são as suas características particulares? Oue fatores os introduzem ou lhes dão sua forma cristalizada? Existem características especiais que permitam reconhecer eventos mediúnicos no instante em que estão prestes a ocorrer? Ouais são os processos por meio dos quais os eventos mediúnicos acontecem? É correto falar em processo na medida em que o princípio em questão é um princípio não-material, pelo menos no sentido comum do termo? Há necessidade de novos termos para a compreensão do fenômeno? Existe a possibilidade de que as pessoas desenvolvam uma habilidade maior de fazer com que ocorram eventos mediúnicos? E qual é a vantagem em fazê-lo? Quais os riscos que essa prática implica? Será possível desenvolver uma sensibilidade maior ao funcionamento do processo mediúnico? Podem-se desenvolver meios de entrar em relação mais estreita com ele? Convém dizer que o conceito junguiano de sincronicidade difere do conceito espírita de mediunismo, embora, no julgamento do autor, alguns fenômenos sincronísticos possam ser classificados como mediúnicos.

Em relação aos postulados teóricos em que se baseiam as observações que aqui serão feitas, existe, por um lado, a Psiquiatria Clínica, inserida no campo mais vasto das Ciências Médicas, embasada na Fenomenologia, Anatomia, Fisiologia, Endocrinologia, Genética, Farmacologia etc, Contudo, a maioria dos psiquiatras concordam que a Psiquiatria, enquanto um ramo da Medicina, não atende às necessidades de uma mais profunda e abrangente compreensão do indivíduo, Destarte, serão também levados em conta os avanços das correntes psicológicas das profundezas, isto é, que admitem que a personalidade humana é um conjunto muito maior do que o faz supor a mera descrição fenomenológica da vida de relação ou de suas bases anatômicas, funcionais e sociais.

Dessas correntes, que admitem a existência de instâncias inconscientes, o autor mais proeminente é o grande psiquiatra suíço Carl Gustav Jung que, segundo a opinião abalizada de Hall e Lindzay, "(...) é o psicólogo mais em evidência, depois de Freud, e a sua influência nos meios acadêmicos tem crescido de modo impressionante depois de sua morte nos anos sessenta" ("Teorias da Personalidade'').

Do outro lado serão básicos os postulados do Espiritismo científico, tal como o sistematizaram A Kardec, A. Aksakof e outros, dando-se especial destaque à impressionante coletânea do autor espiritual André Luiz. Isso porque, no entendimento do autor, é a Posição Espírita a mais simples, concisa, eficiente e de maior poder heurístico entre as diversas escolas espiritualistas, além, como já foi dito, do seu extraordinário desenvolvimento no país.

Progroff assinala que os eventos sincronísticos, em linguagem junguiana, são muito mais comuns do que se supõe, ocorrendo de maneira trivial e sem que sejam percebidos ao longo de toda a vida pessoal. Eles afetam de maneira decisiva o destino pessoal de várias formas, não necessariamente reconhecíveis, porque não são, geralmente, estudados à luz da sincronicidaade, ou do mediunismo, ou outra terminologia específica. O fato ou o motivo de passarem em geral tão despercebidos é o de não se saber o que realmente se procura ver, ou compreender, ou descobrir. Para tal é preciso "listenning with the third ear" como dizem os ingleses.

Quem desconhece uma história semelhante à da pessoa que está tentando se tornar um artista e que, por isso, reúne suas escassas economias e vai morar num quarto, esperando poder vender um quadro antes que o dinheiro acabe? Ela, porém, não consegue vender nenhum quadro, e o seu dinheiro se esgota. Mas no momento em que está desistindo de sua arte, já em desespero, chega um telegrama avisando que um parente distante faleceu deixando-lhe uma pequena herança? (Progroff).

Esse exemplo demonstra o quanto ocorrências triviais e aparentemente fortuitas podem estar carregadas de significado, o que leva à hipótese de não serem meras coincidências. Esse modo de interpretar não tem nada a ver, do ponto de vista psicopatológico, com as "percepções delirantes", tão bem analisadas pela Fenomenologia. Coincidências estatisticamente significativas, portanto passíveis de ser submetidas à análise matemática, foram bem demonstradas por J. B. Rhine, da Duke University, e reconhecidas pela Associação Americana de Psicologia como cientificamente válidas.

Saindo do campo da normalidade e adentrando no baldio terreno do patológico, Jung afirmava em 1959 que "(. . .) sabemos muito pouco sobre os conteúdos e a importância dos produtos mentais patológicos e, contra o pouco que sabemos, temos ainda certos preconceitos teóricos". Essa impressionante afirmativa foi feita após cinqüenta anos da mais profícua labuta psiquiátrica de que se tem registro.

O presente ensaio é baseado na vivência e da prática diária, ao longo de duas décadas, no campo na clínica psiquiátrica. Todavia, mais que as experiências e pressupostos teóricos, o pensamento do autor é direcionado pelas vivências pessoais, de caráter subjetivo, difíceis, portanto, de ser transmitidas em níveis meramente cognitivos. Contudo a Moderna Física já demonstrou que a dicotomia cartesiana entre o ego do experimentador e o seu experimento não tem o menor embasamento nos fatos, pois no Universo somente existe uma realidade da qual faz parte a mente e a subjetividade do observador. Essa descoberta fundamental da Física das partículas confirma os pressupostos da Posição Espírita, como será visto mais adiante.

Solicita-se ao leitor relevar a feição sumária e esquemática do presente trabalho, que não pretende esgotar o assunto, em si mesmo inesgotável. Simplesmente sugere, à luz da experiência do autor, na apaixonante labuta com a alma enferma, um posicionamento holístico. Assim, o escopo deste ensaio é contribuir com idéias e sugestões para futuros especialistas, terapeutas ou não, no sentido de alargar os horizontes ainda demasiado estreitos das ciências médicas em relação à alma de seus clientes.

Leopoldo Balduíno

..CAPÍTULO I - POSICIONAMENTO FILOSÓFICO
..CAPÍTULO II - A NATUREZA DA MENTE
..CAPÍTULO III - O PROCESSO DA INTUIÇÃO
..CAPÍTULO IV - AS FUNÇÕES PARANORMAIS
..CAPÍTULO V - AS FUNÇÕES MEDIÚNICAS
..CAPÍTULO VI - MEDIUNISMO E PSICOPATOLOGIA
..CAPÍTULO VII - O TRANSE FARMACÓGENO
..CAPÍTULO VIII - DOENÇA MENTAL E MEDIUNISMO
..CAPÍTULO IX - DOENÇA MENTAL DE FUNDO ESPIRITUAL
..CAPÍTULO X - MEDIUNISMO NA INFÂNCIA