MATERIALISMO E ESPIRITISMO

Materialismo e Espiritismo

(O Espiritismo é o mais terrível antagonista do materialismo. — Allan Kardec (O Livro dos Espíritos, Conclusão, II)

Materialismo, em sentido restrito, é a doutrina que afirma ser a matéria a única realidade do Universo. Negando Deus, a existência da alma imaterial e sua imortalidade, constitui a própria antítese do Espiritismo.

É um ramo da Filosofia que remonta aos velhos tempos dos filósofos jônios. Leucipo, o criador do atomismo filosófico, seu discípulo Demócrito e Epicuro foram os verdadeiros elaboradores do sistema materialista.

O materialismo permaneceu estacionário na Idade Média, em virtude da predominância do Cristianismo, mas ressurgiu vigorosamente na Renascença. O século XVIII distinguiu-se pelas suas acentuadas tendências materialistas.

No fim do século XIX, Karl Marx e Frederich Engels estatuíram as bases do chamado materialismo dialético.

E as idéias materialistas se propagaram intensamente pelo mundo, até que começaram a perder terreno na Idade Contemporânea, depois da Lei da Relatividade e da desintegração do átomo, eventos que valeram por uma nova revolução copérnica.

Assim que a Ciência provou a insustentabilidade de antigos preceitos dogmáticos e proclamou a unidade matéria-energia, fenderam-se os bastiões da cidadela materialista.

Einstein anunciou solenemente: "O materialismo morreu de asfixia por falta de matéria."

Pietro Ubaldi sentenciou em A Grande Síntese: "A matéria é pura energia. Matéria, no sentido de corpo sólido, compacto, impenetrável, não existe."

O astrónomo V. A. Firsoff assinala: a Física moderna mostra que, "no significado tradicional do termo, não existe matéria".

O Espiritismo, por seu turno, ensina: "A solidificação da matéria, na realidade, não é senão um estado transitório do fluido universal, que pode retornar a seu estado primitivo, quando as condições de coesão deixam de existir." (A Gênese, de Allan Kardec, Capítulo XIV, 6) Para Demócrito, existe a alma humana, porém é constituída de átomos e está sujeita à decomposição e à morte.

Poderíamos entrever aí uma longínqua perspectiva do átomo psicobiofísico, do dr. G. B. Quaglia e da teoria corpuscular do Espírito, defendida por Hernâni G. Andrade.

Entendia o filósofo árabe Averróis que a alma é inseparável do corpo, ou mais especificadamente, do cérebro e morre com ele.

La Mettrie, famoso materialista francês, condenou a dicotomia espírito-matéria de Descartes e censurou Leibniz por ter espiritualizado a matéria, ao invés de materializar a alma. Condenaria hoje o seu conterrâneo Jean Charon, autor de O Espírito, este Desconhecido, que sustenta a existência do elétron "espiritual", dotado de psiquismo.

E, em seu livro O Universo Misterioso, sir James Jeans chega a esta conclusão lógica: "O Universo começa a parecer mais um grande pensamento do que uma grande máquina." Psiquismo e consciência em dimensão cósmica.

Materialismo e ateísmo se completam. Um é corolário do outro.

No seu niilismo inconsequente, o materialismo apregoa que a consciência é apenas uma aparência derivada da matéria. Argumenta, com apurado senso crítico, um colaborador da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira:

"Quando considera a consciência como ilusória, o materialismo destrói-se a si próprio, porquanto o materialismo só pode ter sentido para um ser consciente; e se a consciência é tida como vã aparência, pode-se considerar o materialismo como uma das variedades dessa aparência."

Em O que é o Espiritismo, Allan Kardec assegura: "O Espiritismo é a negação do materialismo, o qual depois dele perdeu sua razão de ser."

Ao cogito ergo sum (Penso, logo existo) de Descartes, contrapõe o sábio lionês: Existo, logo o nada não existe.

E elucida: "Já não se apela ao raciocínio, à fé cega, para dizer ao materialista que nem tudo acaba com o corpo. Apela-se aos fatos. Demonstra-se-lhe, permite-se-lhe que toque com o dedo e veja com os olhos. E não será de grande importância esse serviço que presta à humanidade e à religião? Isto, porém, não é tudo: a certeza da realidade da vida futura, o quadro pleno de vida que nos apresentam aqueles cujo ingresso nela precedeu ao nosso, comprovam a necessidade da prática do bem e as consequências inevitáveis do mal."

Com efeito. A bibliografia espírita regista uma imensa gama de fenômenos de efeitos físicos que resistem ao mais aferrado cepticismo: fotografia transcendental, escrita direta (pneumatografia), levitação, materialização de Espíritos, telecinesia (movimento de objetos sem contato com o médium) etc.

No item III das Conclusões de O Livro dos Espíritos, observa Allan Kardec: "Demonstrando a existência e a imortalidade da alma, o Espiritismo reaviva a fé no futuro, reergue os ânimos abatidos, faz suportar com resignação as vicissitudes da vida. Duas doutrinas se enfrentam: uma, que nega o futuro, outra, que o proclama e o prova; uma que nada explica, outra que tudo explica e por isso mesmo se dirige à razão. Uma é a sanção do egoísmo, a outra oferece uma base à justiça, à caridade e ao amor ao próximo. A primeira não mostra mais do que o presente e aniquila toda a esperança; a segunda consola e mostra o vasto campo do futuro."

Ao que ressalta J. Herculano Pires num de seus escritos, foi graças às provas espíritas da sobrevivência da alma e à explicação racional dos problemas espirituais que a onda materialista do século XIX pôde ser refreada.

Sem dúvida. A verdade por si mesma se evidencia. Sobre os escombros do materialismo, paira, providencialmente, a luz radiante do Espiritismo.

Aureliano Alves Netto