O CONFLITO DOS SÉCULOS

O conflito dos séculos

"A família será sempre a base das sociedades. — Balzac

A Civilização, evidentemente, está em crise. O homem afastou-se de Deus, ensimesmou-se no seu egocentrismo e se julga o dono do mundo. Só cuida do aqui e do agora. Do proveito pessoal imediato, das gloriólas efêmeras, dos prazeres materiais. Na sua estreita visão materialista, não percebe que está cavando o poço lodoso e profundo em que há de, provavelmente, submergir-se e do qual só conseguirá vir à tona após um longo período de reajuste, pontilhado de dores e de lágrimas.

Em termos de imortalidade, o homem só entende a perpetuação do corpo físico. Espera conquistar a imortalidade biológica, embalado nos cantos de sereia da Ciência terrena, que lhe acena com os prodígios da Criología e outros cerebrinos recursos de igual quilate.

Os governos, em regra geral, refletem as tendências e os anseios dos seus governados. Daí porque é de certo modo compreensível o acomodamento das entidades governamentais ao status sociocultural vigente em suas áreas de atividade.

Compreensível, mas não convincente, de vez que esse comportamento acomodaticio revela, muitas vezes, incúria e inaptidão dos dirigentes de massas, em quem se presume alto nível de capacidade administrativa. Negação do princípio de autoridade. Verdadeira anarquia de cegos guiando cegos.

Estas considerações refluíram-nos à mente após a leitura de O Conflito dos Séculos, do prof. Arnaldo S. Thiago — esse catarinense insigne cuja vida e cuja obra foram um atestado vigoroso de honradez e trabalho, de cultura e idealismo.

Louve-se, preliminarmente, o substancioso Prefácio, escrito por Nilton S. Thiago, neto do Autor. Trabalho de fôlego, uma espécie de aperitivo para o régio banquete que viria em seguida.

Diz o prof. Arnaldo S. Thiago que desejaria fosse O Conflito dos Séculos "considerado um apelo da Família Espírita, quiçá da Família Humana, às potências terrestres, em prol da Paz, a fim de que o
Instituto da Família possa cumprir sua bendita ação educadora".

É, na verdade, um apelo, mas também um brado de alerta e um roteiro.

Logo no início do livro, mostra-se o equívoco em que laboram muitos que não entendem o verdadeiro sentido da expressão "Civilização Cristã".

Textualmente: "O homem espiritual não existe para os governos dos povos cristãos, como não existia para os dos pagãos. E chama-se à civilização que tal caminho segue, uma civilização cristã."

Uma impropriedade de conceituação, com efeito. Tal como o Cristianismo sem Cristo e a Psicologia sem alma que certos energúmenos insistem em impingir-nos.

Em sua análise sociológica do mundo atual, o eminente pensador espírita aponta a desídia dos estadistas que não se preocupam senão do homo aeconomicus, como se o ser humano só precisasse de comer e um pouco de se divertir... "quando lhe é possível dar-se a esse luxo". Reprova o aviltamento das artes, notadamente da Poesia, da Pintura, da Escultura e da Música. Condena a comercialização do esporte e sua prática insidiosa, "dando à canela uma incrível superioridade sobre o cérebro". Insurge-se contra as guerras e a pena de morte. Discorda da ampla permissividade de certas leis que facultam (senão mesmo estimulam) os delitos, para depois, então, punir os culpados, porque o que importa não é punir, mas prevenir. E adverte com muito senso: "O de que precisamos urgentemente é de educar o povo". O que faz lembrar a célebre frase de Miguel Couto: "No Brasil só há um problema social: a educação do povo". Com o que concordamos plenamente. Conquanto não se entenda educação como "mobralização".

O prof. Arnaldo S. Thiago oferece uma sugestão digna de todo apreço: que se reúnam, sob a égide da O.N.U., os chefes de todas as nações e constituam uma equipe de eruditos legisladores para a elaboração de uma Carta Magna da Humanidade, "com dispositivos peremptórios quanto à utilização de qualquer dos instrumentos, aparelhos ou processos criados pela ciência com objetivos superiores, fora das regras educacionais que lhes foram traçadas, proibindo-os, portanto. Por exemplo: Proibição absoluta de fabricar bombas atómicas ou de qualquer natureza idêntica que seja, proibição absoluta de filmes alheios a objetivos sérios de cultura científica, recreativa e educacional, o mesmo se fazendo com relação a programas de rádio e de televisão e à publicação de livros, revistas e jornais desonestos. Só o que é útil e bom é que merece divulgação".

Numa das páginas finais do livro, indaga o Autor:

— Posto, assim, o problema da paz social em equação, tendo como um dos termos essenciais a educação do homem, a quem cumpre resolvê-lo?

Ele próprio responde:

— Precipuamente, é claro, nem o assunto é mais suscetível de discussão: aos pais de família. Sem a família, organizada civil e religiosamente, em um mundo como o nosso, não há processo algum viável de educação. Fora do seu âmbito, haverá possibilidade de adaptação do indivíduo a regras e costumes de sociabilidade, a regimes de trabalho honesto e de aperfeiçoamento nas ciências, nas artes, nas letras, na própria filosofia, mas educação, nunca.

Claro como a luz meridiana. Já dizia Lacordaire: "A sociedade nada mais é do que o desenvolvimento da família; se o homem sai dela, entrará corrompido na sociedade".
Hosanas ao pacifista prof. Arnaldo S. Thiago. O seu apelo de Paz, inspirado pelas Potências do Alto, precisa ecoar nos ouvidos dos potentados da Terra.

Aureliano Alves Netto