LUZES DE SANTA LUZIA

DIANA DE AGUIAR - PSICOFONIA DE JOÃO BERBEL

PREFÁCIO

Os dons do espírito são os dons que falam dos valores eternos. Todavia, deles o ser humano anda, quase sempre, descuidado, mais se agraciando com os valores transitórios. Assim, vai ele marcando passo no caminho da evolução.

Há, contudo, aqueles que sabem desprezar os bens materiais, as riquezas, os mil chamados às ilusões do mundo. E aqui está a história verídica de algumas dessas criaturas que sabem entender a verdadeira função da vida: aprimorar o coração para iluminar a alma.

Sob a proteção da admirável mística Santa Luzia, despontou no sertão aquela mulher simples que soube valorizar a própria simplicidade para acudir as tantas criaturas sofredoras que aportavam à sua singela cabana como que buscando o oásis de uma água viva. E, com o seu olhar bondoso e o seu coração de ouro, a benzedeira Chica era o bálsamo consolador, era a palavra reveladora, era a conselheira transformadora de almas.

Com muita alegria recebemos este relato maravilhoso que nos vem presentear com a ação sublime de Santa Luzia, mostrando o poder do amor a enlaçar todos os seres no Coração de Deus.

OS EDITORES

1 - O PLANTIO E A COLHEITA

O mundo dá voltas e voltas, e a cada renascer do dia surgem, sob a luz dos céus, novas esperanças, onde os homens se ligam com o coração em disparada, tentando organizar a vida, conduzir a sobrevivência, para que um dia possa repousar no seu próprio império.

Às vezes, porém, o homem faz da sua vida uma complicada trajetória, esquecido de que somos todos carentes — carentes de uma palavra amiga, um aperto de mão, um abraço.

Eis a figura de um homem simples, nascido numa fazenda. Não estudara, nada tinha de posses, mas carregava consigo a fé e a esperança de um dia vencer na vida. No seio da sua simplicidade almejava dar um melhor futuro à família. Sendo o mais velho de nove irmãos, sentia o peso da responsabilidade, a obrigação de olhar por aqueles que dele tanto necessitavam.

José Pedro, pai da sua numerosa família, vinha da simplicidade, bem assim Zenaide, sua mãe.

Esse pai sempre fazia questão de mostrar à esposa a beleza dos filhos reunidos, quando deixavam o leito e pediam as bênçãos celestes para mais uma jornada diária na lida dura. E na hora de dormir era a mesma coisa, todos rezando juntos a Ave-Maria.

Naquele império de simplicidade, aquilo batia forte nos corações, lá na moradia singela em que trabalhavam como colonos do fazendeiro Dr. Diogo, homem de muito respeito entre os demais.

José Pedro sentia o peso daquele encargo de chefe de família com filhos ainda pequenos. Era muita dificuldade e ele era um dos que com mais afinco trabalhavam naquela fazenda, sendo por isto muito respeitado por todos.

Eram tempos difíceis, marcados pelas esperanças dos sofridos trabalhadores, que eram meeiros, dividindo com o patrão o fruto do seu suor de cada dia, tudo o que viessem a plantar.

José Pedro confiava firmemente em que aquela lida um dia daria melhores frutos para a sua família.

Setembro... O Sol castigava, mas a char-rua sulcava o chão, sob os olhares de toda uma esperançosa família. O boi seguia aqueles trilhos na terra, que, de tão vermelha, parecia borrificada de sangue, e a abençoada chuva vinha para amainar a dureza do terreno.

O trabalhador fita então o céu, aguarda o seu sinal para que os grãos possam ir à terra.

Era um momento de satisfação, marcado por uma oração, um pedido de sucesso.

O cansaço é forte. A noite desce, as estrelas mostram a alegria e o milagre da vida estará dependente da chuva que não haverá de faltar.

Todos aguardavam, pacientes, a chegada da chuva e ela de repente chega... Modifi-ca-se o cheiro da terra e então o artista da terra, aquele que a sulca com maestria, sabe que é o momento de pontear o instrumento para o lanço das sementes.

A chuva agracia aquelas famílias ansiosas e, de repente, da terra brota a vida, a alegria da fartura. É um momento de satisfação enorme. Reacende-se a esperança de uma ótima colheita, para que o colono possa, no próximo ano, alimentar, calçar, vestir a sua família. E se nada der certo, a tristeza tomará conta daquela gente, que, contudo, estará sempre fitando o céu em busca de novas oportunidades.

As plantinhas vão crescendo, sob os olhares de contentamento de todos. O tempo está bom, chove na época certa. Há que trabalhar, expulsar as ervas daninhas que pudessem prejudicar aquela lavoura, e o colono trabalha, todo dia, toda hora...

Deus ouve aquelas preces, uma boa colheita marca um novo cenário no sertão e a alegria é a força que anima a todos.

De repente apita na curva uma suave buzina, anunciando a chegada de um caminhão. A metade da colheita é para o patrão e a outra metade é para o meeiro. Porém, a alegria do colono é passageira. Ora, uma vez carregado de grãos o veículo do patrão, eis o motorista saindo da cabine com umas anotações: eram as despesas que aquela família havia feito no armazém e que foram garantidas pelo patrão. Aí, então, é levada para o patrão quase toda aquela outra parte, aquela que era do colono.

Apesar de tudo, aquele colono não desiste. De joelhos, ora para que no próximo ano a fartura seja ainda maior e ele possa ser mais agraciado.

Aquele homem que trabalhara todo um semestre naquele plantio vê, de repente, que de tudo sobrou bem pouco para a sua família.

— A vida é difícil! Temos um ano pela frente, temos que comer... Como é que vamos fazer?! Precisamos de dinheiro para nos vestir...

Aquela casinha simples era, porém, cercada por um amor divino, porque aureolada na fé daqueles corações, algo que não se podería ver noutro lugar.

E aquela família permanecia unida, sabendo que as esperanças dos corações somente seriam preenchidas com o trabalho, sem espaço algum para a ilusão. O calçado está acabado, as vestes estão rotas e a colheita não lhes propiciou grandes chances...

O arroz não haverá de faltar na panela. José Pedro separa aquilo que lhe acudirá no próximo ano e o resto, tão pouco, negociará para ter às mãos algum dinheiro para suprir as outras necessidades.

Tempos difíceis... O trabalhador incansável reúne a família e agradece a Deus.

Quem sabe na próxima colheita?...

E José Pedro não pode ficar inativo. No serviço extra, na limpeza dos pastos ele busca amealhar mais alguma coisa para o sustento da numerosa família.

E aquele círculo vicioso continuava vigorando...

— Para onde irei com a minha família? Aqui temos água para beber, temos o querosene para manter acesa a lamparina...

E o homem vai trabalhando, passando pelo tempo, sentindo a vista a diminuir, o branquear dos cabelos. Os dias parecem todos eternos naquele clima de dificuldades e sacrifício.

Mas, em meio a tanta confusão, há um momento de alegria: as festas juninas. É dia de fazer fogueira, tocar sanfona. É a semana da festança, o Dia de São João, o santo padroeiro do sertão. As crianças estão pulando por todo lado, muitas de pé no chão, pela falta do calçado. É uma euforia que abre nos céus um clarão, atraindo a aproximação dos anjos-de-guarda que participarão dos momentos de felicidade daqueles irmãos.
Era uma harmonia...

Ah! Foi assim o nosso Brasil! Foi através do sacrifício, de muito trabalho que a prosperidade de hoje se construiu. E a gente de hoje não tem nem mesmo a disposição de orar por aqueles irmãos, por aqueles sofridos colonos que fincaram os esteios de nossa agricultura.

2

O GARIMPO

Aquele menino trabalhador, filho de José Pedro, de repente viu que ali chegava um grupo de pessoas desconhecidas e que estacionou no riacho. Desconfiado, ficou a espiar.

Aqueles homens começaram a escavar o riacho. Peneiravam aquele monte de terra e a devolviam ao chão.

O menino, curioso, gostava de ficar espiando aquilo e logo recebeu ali o apelido de João Lambão. Sentiu-se ofendido com tal alcunha. Mais ele se enervava e mais eles o chamavam daquilo.

O aborrecimento do menino Severino chegou ao conhecimento do pai, que o chamou e, olhando nos olhos tristes do filho, disse:

— Não fique bravo com isso, meu filho, porque quanto mais nervoso ficar, mais e mais eles alegrarão em dizer o seu apelido. E, também, lembre-se das festas de São João. Ele é o nosso padroeiro. Não ligue então por lhe colocarem o nome dele.

Aquele apelido prevaleceu, enquanto aqueles garimpeiros porfiavam naquele trabalho de extrair do riacho as pedras preciosas. E o menino espiava, espiava. Ali ele conheceu Carlos Henrique, apelidado de Car-lão, que o chamou e disse:

— Não fique triste pelo nome que lhe desse. Os dois se tornaram grandes amigos e Carlão ia explicando ao curioso menino o que sabia daquela arte de garimpar.

Lá na palhoça do garimpo ficava sempre um violão que era dedilhado toda tarde por Carlão, e por lá sempre estava João Lambão, a maravilhar-se com o canto do amigo.

Ora, aqueles companheiros todos de Carlão se foram um dia, ali permanecendo apenas ele e o menino João, que também passou a garimpar.

Dr. Diogo, o fazendeiro, tinha nas mãos uma grande ambição e começou a fiscalizar de perto aqueles dois garimpeiros no seu sa-crificante trabalho.

João Lambão se aplicava de corpo e alma naquilo, sempre alimentando a esperança de extrair do solo um diamante para poder ajudar o seu pai e seus irmãos. Trabalhava ele nos tempos em que as terras de plantio descansavam e começou a encontrar algumas pedrinhas. Estas eram levadas ao patrão, que as vendeu, dizendo que pouco valiam. Desse pouco, João recebeu umas moedas, que, alegre, levou ao pai.

— Este pouco será muito e muito para nós! — disse o pai, satisfeito.

Chegou o dia de arar a terra, no que João deveria trabalhar. Para não ficar sozinho, Carlão também foi ajudar, ele que jamais pegara na charrua e ora adquiria aquela experiência. Não demorou para que Carlão fosse morar na casa de José Pedro.

Tudo pronto, aguardava-se a chuva para o plantio. No meio tempo, João e Carlão foram para o garimpo, na esperança de tirar dali boas pedras, bom dinheiro.

Era um trabalho exaustivo que lhes presenteava com algumas pequenas pedras. A sorte parecia ter melhorado: acharam uma pedra um tanto maior. Carlão a contemplou em sua mão e disse:

— Esta aqui tem um bom valor! Vamos entregá-la ao nosso patrão. Veremos se ele é honesto, pois bem sei o valor dela.

Não era uma grande pedra, mas daria um certo alívio àquela gente: valia por toda uma colheita. E Carlão disse:

— Do que o patrão nos der, metade é para mim e metade é para você. Estou certo de que isto muito ajudará o seu pai. Ele poderá ficar um, dois anos sem mexer com plantação.

Entregou a pedra a Dr. Diogo, que a contemplou e disse:

— É uma boa pedra!

Aquele homem rico acondicionou a pedra num canudinho de bambu, colocou-o no bolso e rumou à cidade, dizendo ir fazer a avaliação.

Os dois garimpeiros retomaram o estafante trabalho.

Um dia, dois dias e o patrão não aparecia. Quinze longos dias depois, ei-lo chegando à fazenda. Não manifestava um sorriso e inspirava no olhar uma desconfiança, o que morar na casa de José Pedro.

Tudo pronto, aguardava-se a chuva para o plantio. No meio tempo, João e Carlão foram para o garimpo, na esperança de tirar dali boas pedras, bom dinheiro.

Era um trabalho exaustivo que lhes presenteava com algumas pequenas pedras. A sorte parecia ter melhorado: acharam uma pedra um tanto maior. Carlão a contemplou em sua mão e disse:

— Esta aqui tem um bom valor! Vamos entregá-la ao nosso patrão. Veremos se ele é honesto, pois bem sei o valor dela.

Não era uma grande pedra, mas daria um certo alívio àquela gente: valia por toda uma colheita. E Carlão disse:

— Do que o patrão nos der, metade é para mim e metade é para você. Estou certo de que isto muito ajudará o seu pai. Ele poderá ficar um, dois anos sem mexer com plantação.

Entregou a pedra a Dr. Diogo, que a contemplou e disse:

— É uma boa pedra!

Aquele homem rico acondicionou a pedra num canudinho de bambu, colocou-o no bolso e rumou à cidade, dizendo ir fazer a avaliação.

Os dois garimpeiros retomaram o estafante trabalho.

Um dia, dois dias e o patrão não aparecia. Quinze longos dias depois, ei-lo chegando à fazenda. Não manifestava um sorriso e inspirava no olhar uma desconfiança, o que logo foi notado por Carlão.

— A pedra que vocês encontraram — disse aquele homem — não tem muito valor. Ela tem uma trinca e não suporta a lapidação. Dará duas partes e bem pouco me pagaram por elas.

Tirou do bolso um dinheiro e o entregou a Carlão, que contou, embolsou e saiu, sem agradecer ao patrão.

— Vamos embora, João! — disse, con-trafeito o experiente garimpeiro.

Chegando na casa de José Pedro, com o dinheiro à mão, disse-lhe:

— Este patrão não é nada honesto! Estou certo de que ele nos pagou menos da metade do que valia aquele diamante.

Pôs o dinheiro sobre a mesa, separou a metade e deu para José Pedro. Este ficou imensamente satisfeito e disse ao filho:

— Este dinheiro é seu!

— Não, pai! É do senhor.

— Não, meu filho! Foi você quem escavou e não tenho o direito de ficar com isto.

— Então é de nós todos, pai, do senhor, dos nossos irmãos. Pegue e faça dele o que quiser.

Carlão observou aquilo e exclamou:

— Há tanta honestidade no coração de vocês! Neste mundo fui criado sem pai e nem mãe. Não sei ler nem escrever, porque nunca tive a oportunidade. Vou contar-lhes agora o quanto foi difícil para mim aprender a garimpar...

3

HISTÓRIA DE CARLÃO

Toda reunida, aquela família passou a escutar o relato daquele amigo que até passara a integrar aquele núcleo de dedicados trabalhadores.

E Carlão dizia:

— Parece que há uma maldição em torno desse negócio de garimpo. Já achamos muito e muito diamante e ficamos apenas com o direito de trabalhar. É pior do que a escravidão. Às vezes o tempo está frio e temos de enfrentar a água gelada.

Foram muitos e muitos os garimpeiros que se envolveram na bebida, mas eu nunca aprendi a beber.

Éramos três pequenos irmãos e meu pai era garimpeiro dos mais afamados. Papai conhecia toda pedra que tinha no chão. Sabia o nome de todas as pedras. Nem precisava fazer a sondagem: bastava olhar para o chão e já sabia da qualidade do local, se ali tinha ou não diamante.

Com os meus quatro para cinco anos mudamo-nos para uma palhoça à beira de um córrego, eu, meus dois irmãos e os meus pais. Uma casinha simples, um fogão... Mamãe cuidava de tudo.

Eu descia com papai para o córrego e ele conversava comigo, tudo me ensinando daquela lida.

Papai sempre trabalhava sozinho, sem ajudantes estranhos.

Um dia, papai descobriu que mais acima do riacho o cascalho era diferenciado e, trabalhando por lá, logo achou boas pedras. Achou três diamantes de ótimo tamanho. Subiu até a sede da fazenda e, tão inocente, mostrou as pedras valiosas ao patrão.

Ora, aquele homem logo rumou à cidade e o avaliador, admiradíssimo com a qualidade das pedras, pagou-lhes bom preço. Com todo aquele dinheiro no bolso, uma verdadeira fortuna, o patrão, no caminho, separou para si a maior parte e, chegando até o meu pai, disse:

— Eis aqui a sua parte. A minha é esta parte maior, porque sou dono da fazenda e de toda a terra.

Meu pai não achou muito justo aquilo. Chegou em casa com aquele dinheiro e disse à minha mãe:

— Iremos embora daqui! Vou garimpar aqui apenas mais um pouco e esconderei as pedras, para que possamos comprar para nós uma casa na cidade e começarmos outra vida. Já sinto muita dor no corpo...

E assim fez. Quatro, cinco dias... Ele até achou uma boa pedra. Entregou à mão de mamãe e pediu que ela a escondesse, o que ela fez.

O fazendeiro, homem ambicioso, logo chegou ali no garimpo, a perguntar se papai havia achado alguma coisa mais. Papai disse que não, mas o patrão percebeu outra intenção nos olhos do homem que jamais conta mentira. Porém, não criou problema no momento.

No outro dia, eis que chegava no garimpo um grupo de homens. Acompanhado do fazendeiro, foram rasgando a terra, pressuro-sos, e nada encontraram, pois garimpavam no lugar errado.

Frustrados, eis que mandaram dois homens até o meu pai. Chapéu grande, espingarda na mão, eles provocavam medo. Mamãe nos abraçou, enquanto levaram o meu pai.

Joelhos ao chão, mamãe pediu a Deus a proteção.

Papai não quis revelar onde é que estava a promissora escavação. Negro Tião, um daqueles homens, disse ao patrão:

— Este homem não está contando a verdade. Deixe eu dar cabo na vida dele!

Com severidade, Negro Tião fixou papai e ameaçou:

— É melhor você ir falando onde é que estão os diamantes!

Filisbeu, um mestiço índio-branco, tomou a frente e, diante do silêncio de papai, disse;

— Não tem problema! Eu vou lá e mato um filho dele... Se ele não contar, acabaremos com a família toda!
Papai, desesperado, mostrou-lhes o lugar certo da escavação. Lá chegando, enfiaram no chão a sonda e constataram que realmente o terreno era bom. Iniciaram a garim-pagem e logo encontraram um diamante. Não era uma pedra grande, mas era algo satisfatório.

— Aqui tem! — exclamou um dos homens. — Precisamos de mais gente.

Sempre ameaçado, meu pai ouviu:

— Como é que você encontrou isto aqui?!

— Subindo o riacho...

— Então você tem mais pedra escondida lá... Você vai contar! Se em pouco tempo achamos uma pedra, você deve ter pedras guardadas.

— Não, não tenho!

Ameaçaram violentamente o meu pai. Conduziram-no, aos pontapés, até a nossa palhoça.

Fitei papai e vi o sofrimento no rosto dele. Fui abraçá-lo e levei um empurrão de um dos homens. Caí e mamãe me socorreu.

— Conte onde é que estão os diamantes! — ameaçou aquele homem, desesperando mamãe, que lhe mostrou aquela pedra que guardara.

— Você conta mentira — disse o homem, encarando papai — e mentiroso não tem vida conosco!

Pegou aquela pedra e lá foi mostrá-la ao patrão. Este passou a fria ordem: papai teria de ser morto.

Escutamos de longe o tiro. Mamãe começou a chorar e, deixando nós três amedrontados, saiu em louca correria. Lá em cima, no trilho, encontrou papai tombado, mão no peito.

Lá já chegávamos nós e ouvimos de mamãe, chorosa:

— Ele ainda está vivo!

E ele disse:

— Pegue os nossos filhos e saia logo daqui! Eu já não tenho mais jeito.

Ao respirar, papai fazia sair sangue no canto da boca. Do local do disparo saía sangue espumoso que mamãe tentava estancar. Ele logo morreu.

Saímos de lá às pressas, sem saber para onde ir.

No caminho encontramos André, um daqueles garimpeiros.

— Não nos mate! — implorou mamãe, abraçando-nos. — Pelo amor de Deus!

— Não tenha medo! Vamos fugir daqui! Vou ajudá-la!

Fugimos mata adentro.

O patrão logo soube da nossa fuga e ordenou que nos caçassem. Procuraram, procuraram e não nos acharam.

De repente se fez ouvir um forte barulho. Descobriram-nos. Buscaram cães na fazenda e os soltaram no nosso encalço.

Uma escuridão medonha tomava a mata.

André nos guiava na fuga. Para apagar as pistas, tínhamos de caminhar dentro da água do riacho.

Mamãe enfrentava muita dificuldade naquela fuga. Sem condição de seguir pelo riacho, disse a André:

— Leve os meus filhos e deixe-me aqui! Cuide deles para mim!

— Não! Levarei a todos!

Mamãe escorregou e caiu à margem. Exausta, implorou:

— Se eu não conseguir, por piedade, salve os meus filhos!

Não havia mais chance para mamãe. Ela não mais conseguia correr, suas pernas não aguentavam.

André segurava meus dois irmãos, um em cada mão, e eu segurava na correia dele.

De repente, um disparo. Mamãe deu um gemido, mas continuou andando, dificultosamente.

— Precisa andar mais depressa! — disse-lhe André.

— Não posso mais! Salve os meus filhos!

André viu que corria sangue na barriga de mamãe e disse:

— Desgraçados são esses homens, que matam a troco de nada!

Mamãe tombou e pediu:

— Vá! Vá embora com os meus filhos!

Corremos todos dali.

Aqueles homens encontraram mamãe e perceberam que alguém estava a nos guiar, não sabendo de quem se tratava, porque não haviam sido contados os homens da fazenda.

André fazia o que podia. Chegamos em certo ponto e ele me disse:

— É uma cachoeira. Nossa chance única é pular lá embaixo! Pule! Lá é muito fundo!

Pulei e, assim que saí das águas, escutei tiros.

André pulara. Um tiro atingiu um dos meus irmãos e ele caiu morto. O meu outro irmão morreu afogado.

Eu e André disparamos dali e fomos abandonados por aqueles homens, que nos julgaram todos mortos.

No outro dia aqueles homens retornaram lá para verificar o que ocorrera.

Quanto a nós dois, já estávamos longe dali.

Eu chorava, gritava. A tristeza me tomava conta.

André me ensinou a me alimentar das árvores, a caçar, para que sobrevivéssemos. Ele me agasalhava e escolhia os melhores lugares para dormirmos.

Chegamos num lugarejo. Havia um empório à beira da estrada. Tínhamos muita fome, mas nenhum dinheiro no bolso. Estávamos esfarrapados.

André, ali adentrando, disse-me:

— A todos direi que você é meu filho. Qual é o seu nome?
Carlos Henrique.

— Pois bem, Carlos! Doravante você terá que confiar em mim. Lembre-se do que a sua mãe disse, que é para eu cuidar de você. Há três dias e noites estamos no mato e, graças a Deus, sobrevivemos. Diremos que pescávamos no rio, que a canoa virou e ficamos perdidos.

Chorando, eu segurava na mão dele e ouvia:

— Você é corajoso! Eu queria salvar vocês todos, mas infelizmente não consegui. Estarei sempre a ajudá-lo! Jamais me separarei de você!

Abracei aquele homem, senti a sua barba espinhenta no meu rosto.

Chegando até o dono do empório, André disse:

— Perdemo-nos na mata e nosso dinheiro se acabou. Estávamos pescando e agora não sabemos onde estamos.

— Ora, vagabundos iguais a vocês passam muitos por aqui, pedindo as coisas.

— Agradeço a bondade do senhor!

Caminhamos dali e paramos numa residência que estava pouco mais à frente. Atendeu-nos um homem de longas barbas e André foi perguntando o nome dele. Rispidamente, disse aquele homem:

— Como é que o senhor chega assim, pela primeira vez, na minha casa e pergunta o meu nome?!
Ele fitou a nossa péssima aparência e André disse:

— Tenha piedade, senhor! Estivemos perdidos na mata, comendo casca de árvores. Este menino precisa comer algo. Peço-lhe ajuda para ele, não para mim! Estive lá no empório, mas o dono nos chamou de vagabundos e nos mandou embora. Garanto para o senhor: não sou vagabundo! Deixe que eu rache aquelas lenhas ali e assim o senhor dará algo para o meu filho comer.

— Vejo sinceridade nos seus olhos — disse aquele homem, que chamou a esposa e nos apresentou. Ela se chamava Maria e ele Sebastião.

— E os seus filhos? — perguntou André.

— Estão na cidade, na casa do meu irmão, bem longe daqui. Viemos para cá tentar a nossa vida. Façamos então o seguinte. Ainda estou derrubando mato para o plantio. Tenho lá aquele paiol e vocês podem dormir lá, porque minha casa é pequena. O que comermos aqui vocês também comerão.

Maria nos preparou dois pratos de comida e comemos lá fora. Depois dirigimo-nos ao paiol, levando uns velhos cobertores que nos deram e que serviram para nos aquecer na noite que já dominava. Grande medo tinha eu e André me acalmava.

No outro dia começou a lida de André, derrubando mato com o machado. E assim passavam os dias, aquele homem plantando feijão e milho no fértil terreno.

Sebastião e André se tornaram grandes amigos.

Quarenta dias passados, disse-lhe Sebastião:

— Tenho aí um pouco de dinheiro e lhe pagarei pelo seu trabalho. Você muito me ajudou, foi muito útil para mim. Mas devo dizer: não há justificativa de pai e filho virem aqui, assim, sem mais nem menos, da forma que os vi chegar. Não! Certamente que há aí alguma coisa errada! Vocês estão fugindo do quê? Podem dizer a verdade, mesmo se roubaram ou mataram. Isto não me interessa, porque você é um homem bom.

André baixou a cabeça e contou tudo o que acontecera conosco, o drama de minha família.

Depois de ouvir tudo aquilo, Sebastião disse:

— Ouvi mesmo falar dessa história. Você é realmente um homem bom e corajoso! Saiba, porém: esse povo daqui é muito ruim. Tenho aqui um burro, um ótimo animal. Dar-lhe-ei um pouco de dinheiro e vocês sairão daqui. A cidade é o reduto daquele fazendeiro. Ele é muito mau, tem jagunços. Essas terras que ele tem aí são todas terras roubadas. Ele manda matar mesmo! Se descobrir que estão aqui, mandará liquidá-los. Levem o burro e vão em paz!

Olhando para mim, aquele homem indagou:
O seu nome é Carlos, não é?

— Sim, Carlos Henrique é o meu nome.

André montou o animal e me colocou na garupa. Seguimos com os pães que nos deram e com um dinheiro que dava para viajarmos de quinze a trinta dias, aproximadamente.

Saímos da cidade e imbicamos na estrada contrária, buscando outros caminhos.

Depois de quase um mês de viagem, chegamos numa cidade. Hospedamo-nos numa pensão, compramos roupas novas e nos sentimos bem com a nova aparência.

Naquela pensão conhecemos uma mulher fantástica, muito bondosa. Era viúva e se chamava Leonilda. Ela mostrou uma grande simpatia por mim.

André disse:

— Temos pouco dinheiro e ele já chega ao fim. Viemos de bem longe.

— Não tem problema — disse Leonilda. — Faço aqui uns biscoitos, uns pães. Há um pessoal que os vende para mim: colocam na cesta e saem de casa em casa oferecendo. Se você não quiser sair vendendo é só preparar a massa e assar o pão.

André encarou aquele serviço de fabricar os pães e outras coisas.

Eu ficava a observar tudo aquilo, as pessoas saindo dali com os pães para venda.

Logo Leonilda montou ali um posto de venda, num cômodo que preparou para isto.
Por três anos permanecemos ali, André trabalhando sem cessar.

Tínhamos tudo ali. Eu já esquecera aquele trauma.

André me disse então:

— Vamos embora daqui. Visitaremos a nossa família.

Foram acertadas as contas com dona Leonilda, que muito e muito nos ajudara. Ela fora para mim tal uma mãe. Tinha por mim um carinho especial. Ensinava-me a rezar, a bem me comportar. Pediu que eu permanecesse ali, mas André se opôs:

— Não! Ele é meu filho e não ficará com ninguém!

Viajamos vagarosamente, até chegarmos na casa dos irmãos de André, no Estado de São Paulo.

Foi uma festa! E um deles disse a André:

— Meu irmão, você foi em busca de garimpo, em terras distantes, e agora felizmente volta para casa! Melhor do que este aqui não há outro lugar. Este Estado é abençoado por Deus! É o melhor do nosso Brasil. A cidade crescerá e esta propriedade valorizará bastante. Nosso pai comprou apenas um pedaço de terra na beirada do rio, para garimpar, e agora já temos tudo isto!

Comecei então a garimpar com aqueles que eu chamava de tios.

André me ensinava tudo. Tinha muito orgulho de mim e em tudo me ajudava. E ele me dizia:

— Meu filho, o garimpo é uma coisa preciosa, mas perigosa. Você tem de tomar muito cuidado com isto aqui! Viu o que aconteceu com o seu pai e a sua mãe? Os homens ambiciosos não têm amor no coração, não têm pena quando resolvem matar as pessoas. Matam brincando, como se fosse um pequeno animal. Então lembre-se sempre disto! Enquanto eu estiver vivo, estarei do seu lado.

E continuávamos trabalhando, eu me considerando feliz com a companhia daqueles quatro irmãos: Tiago, Mateus, Lucas e André. Tinham nomes bíblicos, porque o seu pai era muito católico e sempre lia a Bíblia em casa.

Meus tios foram contraindo matrimônio, erguendo suas casas ali à volta.

Vi os meus primos nascendo, crescendo.

Um dia meu pai chamou todos os seus irmãos e disse:

— Hoje contarei a vocês toda a história acontecida comigo e com este meu filho. Sou mais velho do que vocês e sei que não viverei muito tempo. Carlos já está grande, já é um moço. Agora prestem atenção!

E contou aquela nossa triste sina, o episódio da morte de toda a minha família.

Ouviram tudo atentamente e, assim que se encerrou o relato, um dos meus tios indagou:
Por que você não nos contou tudo isso há mais tempo?!

— Hoje Carlos é um homem e devo lembrar que tem o mesmo direito quanto àquilo que o meu pai me deixou.

— Não há problema...

— Sou o mais velho. Longas estão as minhas barbas. Sei que não vou mais muito tempo. Mas o tempo é o senhor de tudo. Ando sentindo umas dores nas pernas, já não mais consigo garimpar. Vou até a beira do rio, mas apenas Carlos garimpa. É um homem muito forte: vejam o tamanho e os braços dele! Mas não pretendo ficar garupado nos outros...

— Papai! — disse eu, acercando-me. — Eu tenho somente o senhor. Pode ficar tranquilo que cuidarei do senhor. Pode ficar descansando. Temos comida, roupa lavada, tudo, tudo. O senhor ainda ficará muito por aqui, não morrerá.

— Meu filho, tudo tem a hora certa e temos de respeitar o momento de cada um. Deus nos concedeu a vida e Ele nos pode tirá-la. Sinto essas fortes dores nas pernas e não sei o que é isto. Sofro também com a coluna. Há noites em que a minha cama parece estar cheia de pregos. É a friagem que a gente toma ao longo do tempo, caçando ouro, caçando diamante, caçando o que não perdeu. Mas devo dizer-lhe uma coisa, meu filho! Você sentiu muito bem o que aconteceu com você e sua família. Não é coisa tão fácil esse trabalho. A vida de diamante pode trazer muita complicação. Só Deus sabe o trabalho que teve o meu pai — e o que temos? Vejo você também na beirada do córrego, parecendo tatu, furando aqui e ali, sempre na nossa mesma ilusão de mudar de vida. Garimpeiro, meu filho, é isto mesmo! Mas essa é a sua vontade. Se quiser, pode fazer. O homem é livre.

— Ora, gosto de estar com os pés dentro d’água, pegar os cascalhos. Na semana passada, o senhor sabe, achamos um punhado de pedrinhas.

— Pois você verá o que valem essas pedrinhas se for na cidade vender: um quase nada. Não, nada que se faz e produz na roça é bem avaliado na cidade. Mas continue! Não vou contra você.

Eu estava feliz, sem nenhum trauma do passado. Estava ao lado daquele homem bondoso, um verdadeiro pai que sempre dizia:

— Nenhum dinheiro da Terra compra a honestidade de um homem.

Ele passou a ir mais amiúde à beira d’água. Ali se sentava e ficava a me observar. Jogava pedrinhas na água, ria-se de mim, mais parecendo uma criança. Olhava para mim e dava aquele belo sorriso, mesmo com o rosto enrugado, barba e cabelos brancos. Eu o pegava, punha às costas e subia o barranco. Ele gritava, brigava comigo, temeroso de que eu o derrubasse. E brincávamos, brincávamos...
Um dos seus irmãos dizia:

— André nunca foi atrás de mulher, dessas coisas, e Deus lhe deu um filho! Vejam a alegria desse jovem com o seu pai. Poucos pais e filhos têm tanta alegria assim! Acho que André encontrou mesmo a sua felicidade...

Ali tínhamos muita fartura de alimentação e um belo cenário natural, o que ainda prevalece até hoje.

O tempo passava naquele paraíso, naquela satisfação plena.

Um dia papai acordou antes do dia clarear e me chamou:

— Estou sentindo uma coisa estranha! Minhas mãos estão formigando...

— Vamos ver o que é isto! Vamos para a cidade!

— Não, não é preciso. Isto não é nada.

Chamei os meus tios e lhes disse do estado de papai. Esfregaram as mãos dele e ele logo voltou ao normal. Mas disse:

— Agora estou sentindo apenas uma dor no braço. Acho que é a friagem.

Enrolaram uns cobertores nele e ele lá ficou.

Nesse dia eu não saí de casa. Vi que meu pai gemia, gemia. À tarde ele me chamou e disse:

— Meu filho, algo muito estranho ocorre comigo. Esta dor é muito forte! Acho que é a dor da morte! Fecho os olhos e vejo o meu pai e também o seu pai, a sua mãe. Estão bem perto de mim e pedem que eu não tenha medo, que eu tenha força. Eu não pude ver o rosto da sua mãe durante o dia, mas agora vejo que é muito bonita. Está vestida de cor-de-rosa e tem o cabelo muito bem enfeitado. Seu pai está de terno branco e gravata preta. Estão olhando para mim e me agradecendo por eu ter cuidado de você. Os seus irmãos também estão chegando; um deles está com uma faixa na cabeça e segura em minha mão. Seu outro irmão segura a minha outra mão. Meu pai e minha mãe também estão aqui. Não tenho mais força para viver! Peço-lhe perdão se errei!

Fitei aqueles olhos azuis, tão belos, e disse:

— Pai, eu é quem lhe peço perdão! Ninguém teve um pai igual ao meu.

Minhas lágrimas desciam, cálidas, e ele disse:

— Não, meu filho, não chore pelo seu pai. Peço a Deus que você não tenha medo da vida e possa fazer tudo o que lhe ensinei!

Começou a passar mal. Saí à porta e gritei meus tios e todos ali chegaram.

Papai já não tinha forças para falar, já não mexia. Deu um suspiro e morreu.

Foi uma tristeza sem tamanho.

Eu não tivera a oportunidade de amar meus pais legítimos, mas tive um grande amor pelo pai adotivo. Vocês nem imaginam! Uma pessoa boa, sem coragem de matar, roubar.
Arriscou a própria vida para salvar a minha família. Foi o homem mais valente que pisou nesta Terra! Ele construiu o que hoje eu sou! Então vocês peguem esse dinheiro aí... Não vamos brigar por causa disso. Porém, parece que eu tenho de ir embora daqui, pois não quero que aquilo aconteça novamente em minha vida! Acho que voltarei lá para a casa do meu pai, assim como fizeram os meus primos que por aqui estiveram. Quem sabe eu possa ter lá um pouco mais de alegria?... Eu não suportaria viver tudo novamente. Tudo acontece por causa dessa pedra! Acham que esse patrão pode ser diferente daquele lá do Mato Grosso? Pois acho que não!

4

AS VISÕES

Olhos lacrimosos, Carlão encerrou o seu relato.

José Pedro lhe disse:

— Conheço-o há pouco tempo e sei que você é um homem de bem. Vejo nos seus olhos a sinceridade. Sei de tudo o que você é capaz de realizar. Não! Encararemos a realidade. Se Deus colocou algo de bom lá embaixo e se devemos tirá-lo, então iremos fazê-lo. Desta vez irei com vocês!

Passou aquele dia e José Pedro disse na manhã do outro dia:

— Vou à cidade para comprar umas coisas e gostaria que você, Carlos, fosse conosco.

— Temos que ir lá embaixo buscar as peneiras. Vou lavá-las para que não ressequem ao Sol.

Desceram então ao riacho os dois amigos e, limpando as peneiras, colocaram-nas sob um jequitibá altaneiro que havia na margem.

Em seguida todos rumaram à cidade.

José Pedro comprou o necessário e retornaram todos à fazenda, muito contentes.

De repente viram que os demais colonos das nove casas da fazenda estavam animados quanto a enfrentar o garimpo. Era um reboliço causado pela retirada daquela pedra valiosa.

Tudo começou a girar então em torno daquilo. Mas aqueles colonos não sabiam nada de garimpo, nem ao menos conheciam diamante. Todos queriam achar a sua pedra. Carlos lhes explicava que aquele terreno não era próprio, que as coisas não eram como imaginavam, que às vezes poderiam até ter sorte, mas que tudo era muito diferente e demandava tempo e muito trabalho.

Pediram então que Carlos tomasse a frente e lhes mostrasse o certo procedimento.

Com isto, os trabalhadores foram desprezando a lavoura, fascinados com o garimpo.

A situação preocupou o fazendeiro. Porém, ele sabia que, de uma hora para outra, uma grande pedra poderia ser encontrada e que isto lhe resolveria grande problema de dinheiro. Assim, começou a chamar as pessoas à lavoura, mas também chamou José Pedro, João e Carlos para uma conversa.

Lá na sede, os três foram muito bem recebidos pelo patrão, que encheu os copos de boa cachaça e lhes passou. Brincou com eles, forçou uma amizade, obviamente interessei-ra. A certa altura, disse a Carlos:

— Tenho um problema e somente você pode ajudar-me. Veja bem! Os colonos não estão produzindo. Estão todos voltados ao garimpo. Daqui a pouco virá o plantio e então teremos problemas gravíssimos. Então eu gostaria que vocês lhes dissesse que as coisas não são bem assim. Vá você e o filho do José Pedro e toquem sozinhos o garimpo. Quanto a você, José Pedro, não se preocupe com eles: vá tocando a sua roça. Se faltar dinheiro, tiro do meu bolso e lhe dou.

Carlos disse:

— Ora, não posso ir falar com aquela gente, pois poderia criar uma inimizade e nem mesmo eu poderia realizar o trabalho que venho realizando. Então cabe ao senhor, que é o patrão, falar com eles.

— José Pedro é o mais velho — disse o fazendeiro. — Ele poderia fazer isso.

— Não posso! — disse José Pedro. — Vou criar uma grande inimizade, e não quero isto. Ora, o senhor, patrão, é a pessoa indicada para falar com eles.

— Então está tudo bem! Vou chamá-los a uma conversa. E vocês vão garimpando por lá. Quem sabe Deus permita que achem uma boa pedra? Aquela não foi muito boa, mas pode aparecer coisa melhor.

Os três se foram. O fazendeiro chamou todos os colonos para uma reunião e lhes disse:

— É o seguinte! Acharam uma pedra ai — e nas verdade falam muito e não é nada daquilo que se fala. Quando essa turma veio para cá e assumiu o garimpo, disse eu que o lucro seria à meia, e realmente assim foi. Se aquela pedra fosse uma coisa grande como vocês imaginam, eles teriam ido embora com o dinheiro que teriam recebido. São pedras como as outras. Vocês não conhecem nada: irão cavucar o córrego, danificarão tudo e não virará nada. Vocês estão aqui para trabalhar na lavoura. Aquele que não quiser enfrentar a lavoura e achar que deve garimpar, tudo bem: será mandado embora, não poderá mais morar na minha fazenda. Aqui vai ser deste jeito!

— E o João Lambão? Ele continuará lá? — indagou um colono.

— Isto é problema dele! Com vocês tem de ser como falei!

Cabisbaixos, entristecidos, aqueles colonos se foram.

O garimpo continuou com os esforços de Carlos e João, concedendo a José Pedro um fluxo de maiores esperanças para o conforto da sua família.

Severino voltou a se irritar com o seu apelido. Já se sentia diferenciado, porque o garimpo lhe propiciava uma melhor consideração e lhe acendia um certo orgulho. Sentia-se então dono da verdade e criava certas confusões. Não aceitava, de forma nenhuma, ser chamado de João Lambão.

Quanto mais prosperava o garimpo, mais revolta provocava nos colonos. Muitos deles desciam até lá e trabalhavam com muito alento. Carlão lhes dava todo o apoio, o que começou a desconfortar bastante o orgulhoso João. Os dois amigos já não mais se entendiam.

Carlos foi colocar a situação para José Pedro e este tentava reconciliá-los, dizendo:

— Não ligue para essas coisas do João. Ele é assim mesmo...

— Agora ele não é mais o antigo João Lambão. Veste-se um pouco melhor, usa até calçado. Isto tudo lhe provoca todo esse orgulho. Acho então que, aos invés de eu estar ajudando, estou a atrapalhá-lo. Já há muito estou fora de casa e preciso ir até lá, rever os meus irmãos, que certamente também estão saudosos de mim. Tenho a vontade de deixar de vez o garimpo e mexer com plantações, criar gado, algo assim. Parece que esse serviço de garimpo não é abençoado por Deus. Vi só desgraça nessa profissão!

Numa noite, João acordou e se assustou com a presença de duas crianças desconhecidas no seu quarto. Com muito medo, sentou-se na cama, temeroso também de acordar os irmãos e lhes falar daquela visão. Mas logo o cansaço lhe tomou conta e ele readormeceu. Mas sonhou com as mesmas duas crianças no seu quarto. Elas se postaram bem próximo à cabeceira da cama dele e ficaram a fixá-lo. Inerte, tolhido em seus movimentos, João os fixava também, com o maior medo.

Eis que, assustadíssimo, João deu um grito e com isto acordou os irmãos.

— O que foi?! — indagaram.

— Tive um pesadelo...

Já era madrugada e logo todos se ergueram para o café e a lida.

Meio passado, João rumou com Carlos para o garimpo. Lá chegando, outra visão: sobre uma pedra estavam os mesmos dois meninos.

Aparvalhado, pensou João: Estou ficando louco!

Retomou o trabalho, almejando tirar dali a fortuna que lhe propiciasse uma boa vida. Mas voltou-se para a pedra e viu de novo os meninos. Assustou-se e Carlos bem o percebeu, indo ao seu encontro e indagando:

— Você está bem?

João continuou mudo, extático, e Carlos, preocupado, disse:

— Você parece estar vendo assombração!

— Que foi?! — gritou João.

— Acorde, rapaz! Temos de trabalhar!

Mas era a hora do almoço e Carlos propôs:

— Vamos largar isto aqui e vamos almoçar.

Subiram dialogando. Apertado, João mudava o assunto, mas Carlos insistia:

— O que está acontecendo com você? Ficou parado, parecendo ver algo estranho...

João nada disse daquilo.
Almoçaram, João sempre quieto, sem conversar com ninguém. Depois retornaram ao garimpo, e João, inquieto, fixava aquela pedra a todo momento.

À tarde, o sol já se escondendo, João viu de novo os dois meninos e muito se assustou.

Cansados, os dois encerraram o trabalho e subiram.

José Pedro já preparava o terreno ao plantio, porque do garimpo nada saía e era preciso trabalhar, porque era meeiro e, não trabalhando, perderia o direito de morar naquela casa, que certamente o patrão destinaria a outra família desejosa de trabalhar, mormente aquele casal com muitos filhos, muitos lucrativos trabalhadores.

Naqueles dias, João já nem se incomodava que o chamassem de Lambão, porque o medo o desviava de qualquer outra reação normal. Ademais, todos já manifestavam o cuidado de não proferir aquele apelido, em face do transtorno que isto vinha gerando.

O trabalho do garimpo prosseguia e começou a mostrar um tipo de cristal diferenciado, parecido com diamante. João se entusiasmou grandemente com aquele achado, mas ouviu do experiente Carlos:

— Não, isto não é diamante: é o diamante do bobo. Com ele muitos tentam enganar a muitos.

— Vamos guardá-los? — propôs João.
— Não! Isto não vale a pena ser guardado. Isto é falso diamante. Basta olhar para entender. Não foram poucos os que compraram isto ai enganados, achando que é diamante. É quase da mesma forma, mas está muito longe de ser o verdadeiro e precioso diamante.

— Mas vamos guardar...

E foram retirando aquelas tantas pedras e João a guardá-las num saquinho de pano que logo já se enchia pela metade daquele falso diamante. João escondeu aquilo, mesmo sob a advertência de Carlos.

Por mais uma vez Carlos manifestou fortemente o desejo de partir, abandonar aquela lida ingrata.

Ora, com isto retornou aquela fase de nervosismo de João, que muito se perturbava com qualquer coisa.

Nesse clima de desequilíbrio foi que ele voltou a enxergar aquelas mesmas duas crianças a fixá-lo demorada e enigmaticamente. Elas lhe apareciam em sonho, seguravam-lhe as mãos.

Naquela madrugada, João acordou assustado, ao impacto daquela visão. Ergueu-se e foi para o quintal. No sabugueiro à frente da casa viu de novo os dois meninos, de pé, ao lado daquela vistosa árvore. Assustado, correu para a cama. Naquele momento, José Pedro percebeu aquele estranho comportamento e lhe indagou:
-Meu filho, o que está acontecendo? Você não anda bem da saúde. O que está sentindo de diferente?

— Nada!

Ele saiu para o quintal e lá viu mais uma vez os meninos. Apavorado, correu para dentro de casa e de lá não mais quis sair. Disse ao pai:

— Hoje ficarei aqui em casa.

— Não! Você vai trabalhar!

Mas ele se colocou ao lado da mãe, com o maior medo de sair para o quintal e reencontrar aqueles dois que, já sabia, eram dois espíritos a persegui-lo.

A mãe o crivava de perguntas:

— Alguma coisa ocorre com você, meu filho? Por que não quer falar comigo?

E ele nada dizia. Sentia grande vontade de ir lá fora, no banheiro, para fazer as necessidades, mas se segurava, com o maior medo de sair da barra da saia da mãe. Aguentava-se, com sacrifício, até que chegou a hora do almoço e não mais suportou: saiu e viu lá os dois meninos. Estes sorriram para João, que saiu de lado e correu em rumo ao banheiro, para logo correr de volta à mãe.

: — Você precisa ser benzido — disse a mãe, acompanhando preocupada tudo aquilo. — Você não está bem, meu filho! Você está passando mal das bichas, das lombrigas. Precisa ir no médico. Conte-me: o que está acontecendo?
Enfim ele resolveu se abrir:

— Saio lá fora e dois meninos aparecem para mim. Ficam à minha espera e provocam um grande medo em mim. Vá lá para a senhora ver...

Saíram e ele disse:

— Estão lá, mãe... Está vendo?

— Ora, filho, não vejo criança nenhuma...

E era só ele sair e via as crianças.

No almoço, Carlos se aproximou dele e indagou:

— Você não se importa mais que eu lhe chame de João, não é mesmo?

— Não...

A mãe se adiantou:

— Vou levar este menino na benzedeira. Ele está muito estranho! Diz que vê duas crianças... Este menino está ficando louco...

—- Você vê duas crianças?! — indagou-lhe Carlos.

— Sim, elas aparecem para mim e tenho muito medo. Não falei nada para não acharem que estou doido. Não estou louco! Vamos lá fora e você verá!

Carlos o acompanhou e lá não viu ninguém.

— Ora — disse João —, estavam aí e agora não estão mais...

— Você precisa deixar de ficar nervoso. Essa sua braveza prejudica você. Deixe que o chamem de João, não ligue para isto. Todos o chamam apenas de João, e não mais de Lambão, e está bom demais. Deixe as coisas assim mesmo...

João aceitou aquilo.

As visões, contudo, persistiam. As crianças reapareciam à noite e ele já nem dormia. Durante o dia, um grande medo o assaltava, o receio de se avistar com os meninos.

Carlos propôs:

— Temos de levar o João no médico, em algum lugar.

Foram então para a cidade. O médico o examinou, ouviu tudo e disse:

— Ele não tem nada. Tenho aqui umas ervas que servirão para acalmá-lo. Já está ali manipulado. Porei num vidro. Ele deve tomar três vezes ao dia: cedo, no almoço e na hora de dormir.

Foram-se com aquele remédio e ele funcionou: João se mostrou bem mais calmo e reassumiu a garimpagem.

Algumas pedrinhas de maior valor afloraram. Entregaram-nas ao patrão e este as negociou na cidade. Mas procedeu da mesma forma: tomou para si a parte maior do dinheiro e lhes passou a parte menor.

Carlos se revoltou e lhe disse:

— Ora, estamos trabalhando há meses e achamos essas pedras. Elas não valem apenas isto! O senhor deve estar vendendo essas pedras de forma errada. Bem sei que, lá por onde eu morava, essas pedras têm um maior valor. Por tão pouco que nos dá, não adianta então ficar garimpando, passar friagem... Trabalhar apenas para comer?! Não, não perderei mais o meu tempo com isso! Trabalharei de retireiro para o senhor, ou noutro serviço...

— Está bem! Mas vá trabalhando aí... Quero ver se, conseguindo aqui umas boas pedras, desta vez vou para São Paulo. Acho que lá na Capital acharei melhor preço. Enquanto vocês vão garimpando, darei uma pesquisada na cidade para ver se estamos mesmo sendo tapeados por esses compradores. Se for o caso, negociarei apenas na Capital.

— Ora, estamos entregando por uma mixórdia umas pedras de quatro, cinco quilates... São pedras sem nenhum defeito e de repente vem o senhor dizendo que viram nelas um monte de defeitos... A coisa está então complicada! Devem estar enganando feio o senhor... Não, as pedras que estão saindo de lá não são assim, cheias de defeito. Eu bem conheço disto!

— Está bem! Tomarei o devido cuidado da próxima vez. Continuem lá com o trabalho.

— Não! Ficarei por um tempo longe do garimpo. Trabalharei na lavoura e depois, mais à frente, voltarei a garimpar.

Assim foi feito. Carlos foi lá, recolheu as peneiras e as guardou, secas, no paiol, na esperança de abandonar de vez o garimpo.

Carlos já considerava os familiares de José Pedro a sua própria família. Tinha naqueles quatro irmãos os seus próprios filhos, tanto quanto as meninas. Grande era o seu amor por aquela gente toda e, pela forma que também o tratavam, sentia-se mesmo um membro da família.

E, de fato, Carlos era muito amado por todos daquela casa. Dormia no quarto com os filhos de José Pedro.

Disse Carlos a João:

— Vou entregar a José Pedro a minha parte deste dinheiro, para pagar a minha pensão e ajudar no plantio.

5

A BENZEDEIRA

Voltaram as crises de João. O médico lhe passou o mesmo remédio e com isto ele se acalmou, mas por pouco tempo, pois, a partir de certo tempo, os remédios já não faziam efeito.

As crianças voltaram a aparecer e João quase chegava à loucura. Elas ficavam à margem do riacho, ao lado do jequitibá que ficava bem à frente da casa. Ele já não saia ao quintal, tão grande era o seu medo.

Ora, com tais visíveis perturbações, as pessoas mais ainda zombavam dele, das suas atitudes, já que ele vinha querendo ser melhor do que os outros, porque procurava vestir-se melhor.

Chegando ele ao médico, este disse aos familiares:

— O que eu tinha de remédio para ele já dei. Aconselho buscarem um outro tipo de tratamento, a exemplo de uma benzedeira, porque tudo pode piorar e não haverá jeito de cuidarem dele. Conheço, lá pelo lado de vocês, dona Chica, uma benzedeira. Muitos a procuram para acudir as crianças e a gente tem mesmo ouvido falar das curas que ela faz. Não sou de mexer com essas coisas; sou da medicina tradicional, mexo com as ervas e não tenho mais o que passar para ele. Poderíam até levá-lo à Capital, se fosse uma doença física, e não mental, como é. Procurem dona Chica e talvez que seja bom para ele.

Aquele era um bondoso médico, chamado Simão Alves, filho de rico fazendeiro e que ajudava a todos na região, sendo muito querido por todos.

Saíram dali com a carroça e, no percurso, estando João sentado na frente, de repente voltou-se para trás, para conversar com Carlos, e viu ali, sentados, balançando as pernas para fora da carroça, as duas crianças. Levou a mão à cabeça e pediu:

— Pai, olhe para trás! Veja quem está sentado lá atrás!

— Vejo somente o Carlos — disse o pai ao dar uma olhada para trás.

— Pai, estou ficando louco! Não sei o que vai ser de mim!

— Tenha calma, meu filho! Chegando em casa, todos nós rezaremos um terço. Chamarei dona Maria e ela rezará conosco. Vamos pegar com Deus, meu filho, porque somente Ele mesmo pode ajudá-lo. A gente sabe que há muitos espíritos que estão penando por aí...

Rezaram e pediram o auxílio a João e ele se acalmou. Uma lamparina ficava acesa no quarto, para que ele se tranquilizasse e ele amanheceu repousado. Ele saiu lá fora e nada viu, mas resolveram ir até dona Chica...

— Vamos sair agora — disse aquele pai porque daqui lá é bem longe. Chegaremos somente na hora do almoço. Pegaremos uns pães e uns queijos para comermos.

Carlos disse:

— Vou também...

José Pedro disse:

— Façamos o seguinte, Carlos. As coisas aqui estão complicadas e preciso cuidar da roça. Você poderia acompanhá-los até dona Chica. Zenaide, minha esposa, sabe o caminho. Vá com eles.

Partiram então. Além da própria comida, levavam pães e queijo para presentear dona Chica.

No caminho, Carlos indagou:

— João, que aparência têm os dois meninos.

— Têm o cabelinho liso e branco, bem lourinho. Os olhos são azuis claros. Um é pouco maior do que o outro.

Carlos sentiu um arrepio. Lembrou-se imediatamente dos seus dois irmãos que haviam morrido. Engoliu seco e pensou: Meu Deus! Será que os meus dois irmãos estão penando? Será que estão sofrendo? Que será que acontece com eles?! Será possível?! E minha mãe, meu pai — como será que estão?

Aquilo pegou forte no coração e na mente dele. Os arrepios se intensificaram e parece ter sentido alguém passar a mão na sua cabeça. Segurando as rédeas, fechou os olhos e sentiu uma suave brisa o atingindo. Uma voz lhe falava no interior:

— Meu filho, estou do seu lado! Meu filho, estou com saudade de você!

Aquela vibração era bem forte. Carlos respirou fundo e expirou lentamente.

Zenaide estranhou aquilo e indagou:

— Está sentindo alguma coisa?

— Não! Não! São os meus pensamentos. Tenho vontade de ver minha mãe, meu pai... Não sei se existe a vida depois da morte...

Chegando a hora do almoço, avistaram a casinha ao longe. Pararam num reguinho d’água e almoçaram. Montaram na carroça almoçados para não incomodar a benzedeira.

De longe dona Chica viu aquela carroça. Estava apenas com duas crianças que ali haviam deixado para que ela as cuidasse.

Carlos desceu, amarrou a rédea no galho de uma árvore.

Zenaide e João se aproximaram daquela mulher e ouviram:

— Que ventos os trazem aqui, comadre? É a Zenaide, mulher de José Pedro, não é?

— Sim! — gritou Zenaide, que comentou com Carlos: — Vem tanta gente aqui e ela me reconheceu!

Aquela mulher simples pediu que todos se sentassem num banquinho da varanda. O almoço dela já estava pronto e ela disse:

— Jair já vem para almoçar e vocês aproveitem para almoçar conosco.

Segurando o cachimbo, ela tirava baforadas e disse:

— Sente-se aqui, comadre. A vida não anda muito difícil para vocês lá, não é? Vou contar uma coisa para vocês: muito cuidado com aquelas pedras que estão guardando. Sim, muito cuidado mesmo!

— A senhora deve estar enganada... Não guardamos nenhuma pedra!

— Aquilo pode ser bom, mas também pode ser uma desgraça...

Ela puxava a fumaça mas não a engolia: soltava aquelas baforadas. Virou-se para Carlos e deu aquela baforada, para depois dizer:

— Já é um homem formado... Deus tem um desígnio para você, meu filho, e você nem imagina o que vem pela frente. Você tem uma proteção muito grande!

Ela fixou João e disse:

— Venha cá! As coisas não andam muito boas para você, não é, filhinho?

— Não! As coisas estão boas para mim sim...

Zenaide atalhou:

— Já o levamos no médico. No início o remédio foi bom, mas agora não faz mais efeito. O médico não sabe mais o que fazer.

— Por quê? — indagou a velha mulher.

— Porque ele tem tido umas visões. Enxerga duas crianças.

Chica deu uma gostosa gargalhada e disse:

— Pois bem, meu filho! A velha Chica
aqui vai fazer umas benzeções para você. Mas esses dois meninos que estão ai do seu lado não são do mal: são do bem. É porque pela sua cabeça não tem passado muita coisa boa, meu filho. A sua cabeça anda muito atrapalhada...

Chica pôs a mão na cintura, virou-se para um lado, para o outro, ergueu-se, andou para aqui e para ali, entrou dentro da casa e retornou para se sentar de novo. Depois disse para Carlos:

— Filho, vou passar-lhe um recado de uma mulher que lutou até o último momento para salvar os seus filhos. Ela viu o marido morrer...

Carlos tremeu de baixo em cima e a benzedeira, percebendo-o, disse:

— Acalme-se, filho! Vocês estão muito enganados, mas muito enganados mesmo. Existe coisas que vocês não sabem. Enquanto vocês ficam se preocupando com encher a buxada de comida, com colocar sobre o lombo as boas vestes, enquanto muito se preocupam com essas coisas, esquecem-se de olhar para cima e saber que lá em cima existe um Criador, Aquele que criou tudo o que aqui existe. O que vocês não sabem é que quando se deita na terra a velha carcaça, a alma também volta para o seu lugar. Se ela fez um trabalho bom, vai para um bom lugar, e se não fez um bom trabalho, não vai para um lugar bom — e se ela é ruim, vai é diretamente para os Infernos mesmo! Mas esta mulher que está aqui manda dizer que se chama Maria. É Maria sim! Ela disse que, no caminho para cá, ela estava perto de você e estava com saudade de você...

As lágrimas de Carlos eram copiosas. Ele se ajoelhou aos pés da velha Chica. Esta levou a mão à cabeça dele e deu uma baforada, para depois dizer:

— Filho, sua mãe é uma mulher muito boa. Ela não teve muito tempo de olhar para as coisas da vida, e nem também o seu pai. Mas Aquele lá em cima, que dá a vida aqui na Terra, tem sempre algo para fazer conosco. Meu filho, Deus deixou você na Terra porque precisa de você...

Carlos não continha as lágrimas. Mergulhava lá naquele passado angustiante, quando se deixava conduzir por André, a fuga louca, os cães latindo, o tiro atingindo a mãe e ela indo ao chão.

E a bondosa Chica lhe dizia:

— Sua mãe pede para lhe dizer que não está morta. Ela diz que há muita maldição naquelas pedras que estão guardadas e das quais você sabe muito bem...

João permaneceu em silêncio e, de repente, pôde ouvir:

— Aqueles meninos são dois anjinhos-de-guarda que o Pai lá do Céu, a pedido da sua mãe, mandou para proteger você, filho. Mas tem uma coisa: muita coisa acontecerá com este menino e que pode não ser muito bom para ele. Agora chegou aqui um homem que está vestido de terno branco e com uma gravata preta, e perto dele está outro homem, com muita barba e também vestido de terno. O primeiro homem se aproximou da sua mãe e colocou a mão no ombro dela. Ela agradeceu, a abraçá-lo. O outro homem se aproximou dela, enquanto o outro se afastou e segurou na mão dela. Os três dizem que estão sempre perto de você. O de branco chora muito por sua causa e manda dizer que ele é o pai que não o criou mas esteve do seu lado, e que tem muito orgulho de ver você como está, de ter sobrevivido a tanta desgraça.

Chorando, Carlos segurou na mão de Chica e disse:

— Diga-lhes que os amarei eternamente, que jamais esquecerei o que fizeram por mim e que carregarei comigo tudo o que me ensinaram, porque este é o meu destino, este é o meu caminho!

Disse Chica:

— Severino, você tem vergonha de ser chamado de João Lambão, mas é muito melhor ser João Lambão do que querer ser aquilo que não é. Escute, meu filho, o que esta velha tem para passar a você. Olhe lá dentro da minha casinha, veja lá o fogão aceso. Tem lá um arrozinho, um feijãozinho e mais uma coisas. Quem passar por aqui e sentir fome poderá comer. Daqui a pouco chegará o meu velho. Ele já está torto, calejado, mas está feliz, está alegre. Não tivemos filhos neste mundo. Aquelas duas crianças que ai estão foram trazidas para que eu as possa benzer, ajudar. Hoje há poucas, mas sempre muitas crianças estão aqui. Isto é a maior riqueza, meu filho! Olhe para o céu, olhe para a chuva que cai lá na sua casa e cai aqui também, para esta velha e para esse velho. Acendemos à noite a lamparina e escutamos o barulho dos animais, mas eles nem aqui perto chegam, porque acho que somos aqui protegidos por Aquele que está lá em cima — pois parece, meu filho, que Aquele lá de cima também mora conosco aqui nesta palhoça. Isto eu falo para você se lembrar, meu filho. Lá no dia em que você vestir o seu terno de linho, no dia em que se sentar numa cadeira e se sentir muito poderoso, acho que não se lembrará desta velha aqui, mas chegará sim o dia, meu filho, em que se lembrará. Agora você pode ir embora para a sua casa, meu filho, mas muito cuidado com o que vai fazer, para que as coisas não se possam complicar! Cuidado filho, muito cuidado mesmo! A vida não é nenhuma brincadeira, meu filho — isto posso garantir! Então tome muito cuidado. Agora esses dois menininhos que você sempre vê passarão a ficar aqui comigo. Um dia, se você sentir saudades deles e quiser vê-los novamente, venha aqui!

João fez o sinal da cruz e disse:
— Deus me livre! Não quero ver isso nunca mais!

— Filho — disse a benzedeira —, não fale coisa assim! Vão com Deus — e que Deus tenha piedade de vocês! Está longe a morada de vocês, mas vão em paz!

Chegou ali, naquele momento, o velho Jair. Portava às mãos uma abóbora e umas raízes de mandioca. Andando dificultosamente pela avançada idade, foi até a biquinha e de lá cumprimentou a todos.

— Vá almoçar, velho — disse Chica. — E se vocês quiserem almoçar, tem almoço para todos.

— Acabamos de almoçar — disseram os visitantes, que se despediram e se foram, felicíssimos por tudo o que ouviram e presenciaram junto àquela extraordinária mulher.

Carlos alertou João:

— Você ouviu o que ela disse? Então pegue aquelas pedras, aqueles falsos diamantes, e jogue aquilo fora, bem longe de lá, porque aquilo pode não lhe ser bom.

Chegaram à tarde na fazenda e Carlos foi logo comentando:

— Aquela é uma mulher maravilhosa. Se eu achasse alguma coisa por aqui iria presenteá-la.

José Pedro disse:

— Ora, bem conheço aquela velha. Parece que ela parou no tempo. Eu era rapazinho e tive um problema: fui mordido por uma cobra. O veneno dela não foi muito forte, mas aquilo me provocou uma grande dor. Levaram-me então até a velha Chica. Ela masse-tou o tabaco do seu cachimbo, colocou no local dorido e disse que a cobra não tinha veneno para me matar. Fiquei bom, sem me-nhum problema. Ora, ela é sempre daquele jeito: não aceita nada em pagamento. Mas faça como fez Zenaide: enrole num pano uns pães e uns queijos e leve lá para ela. É disto que ela irá gostar. Não fale, porém, em dinheiro, porque eles nem sabem o que é dinheiro. Muita gente dá umas coisas para eles e esta é mesmo a vida deles.

— Tudo o que ela falou sobre os meus pais é correto. Aquelas duas crianças que João via eram meus irmãos.

6

O CRESCIMENTO DE JOÃO

Chegou a colheita e ela foi muito farta, e José Pedro, dessa vez, não devia mais nada ao armazém. Guardou o alimento necessário e com o tanto que restou foi à cidade e fez um bom negócio.

Carlos comentou com João:

— Virão só?! Ficamos aí correndo atrás de ouro, dessas pedras... Por que então não trabalharmos na lavoura? Quem sabe, no ano que vem, juntando mais dinheiro, não consigamos comprar uma terra? Foi o que aconteceu com o meu pai, com os meus avós, e logo nos safaremos dessa situação de meeiros.

João estava ótimo e se movimentava daqui e dali.

O patrão começou a pressionar aquela família para garimpar, para grande pesar de Carlos, que não mais queria saber daquilo. Mas, mesmo a contragosto, lá se foi ele, acompanhado de João e José Pedro.

O mato já havia crescido à margem do garimpo e eles limparam tudo. Fizeram novas escavações e nada encontraram, para desconforto do patrão.

Carlos, a certa altura, fez uma sondagem mais acima e encontrou uns cascalhos diferentes, um pouco melhores. Dali foram saindo pedrinhas e pedrinhas de diamante, B da de pouco valor mas em grande volume.

O patrão fora para São Paulo, onde o seu pai fora internado no hospital, em estado bem crítico.

José Pedro desistira do garimpo, enquanto seu filho e Carlos iam juntando umas pedras grandes que de repente foram surgindo, para grande surpresa dos dois. Era algo de muito valor. João cortou um grosso bambu e foi guardando lá dentro os diamantes.

João propôs a Carlos:

— O patrão irá tapear-nos novamente.

Vamos esconder isto dele e lhe passar apenas algo mais que viermos a achar.

Mais e mais diamantes foram surgindo, uma verdadeira fortuna, e João os escondia todos.

Carlos julgava, diante das admoestações da sábia Chica, que João havia jogado fora aquele saquinho de falsos diamantes que também escondera, mas aquilo ainda permanecia guardado e ocultado. Logo surgiu na cabeça de João uma idéia um tanto perigosa: passar ao patrão os falsos diamantes e ficar com aqueles tantos e tantos de subido valor. E pensava e pensava numa forma certa de fugir dali portando aquela fortuna, sem que ninguém viesse a saber.

Assim, João se preparava para o grande golpe. Ia guardando um dinheiro daqui, outro dali, para sustentar a sua fuga.

Paulo, pai de Dr. Diogo, morreu. João sentiu que era o seu momento. Comprou um bom cavalo e foi dando seguimento ao golpe que não saía da sua cabeça. Estava tudo bem arquitetado.

Assim que o patrão chegou, Carlos o procurou e disse:

— Achamos uns diamantes e estão guardados, mas não venderemos pelo preço que o senhor estipulou.

— Tudo bem! Amanhã cedo vou lá buscar.

— Não! — atalhou João. — Pode deixar, pois eu mesmo os trarei ao senhor, ainda hoje.

Carlos comentou com João:

— Precisamos estar junto do patrão quando ele for avaliar aquelas pedras. Com o dinheiro delas poderemos comprar mais do que esta própria fazenda!

Ouvindo aquilo, o olho do patrão cresceu.

João disse:

— Pode deixar que trarei aqui.

Ora, João voltou para casa, pegou o saquinho de falsos diamantes e foi lá entregá-lo ao patrão. Este, vendo aquilo, ficou admira-díssimo.

Carlos nem imaginava que João armara e executara aquela tramóia de muita esperteza.
João, cuidadosa e ocultamente, pegou os diamantes verdadeiros, montou no seu cavalo e se foi, na calada da noite.

Ao amanhecer, todos se preocuparam com o sumiço de João. Procuraram-no por toda parte e não o encontraram.

Muito esperto, o fazendeiro também saíra de madrugada com os falsos diamantes e rumara à cidade. Mas era o domingo e o comércio de pedras estava fechado. Foi até o seu escritório na cidade e guardou no cofre aquelas pedras.

Ora, todos julgavam que João tinha ido para a cidade juntamente com o patrão, para a negociação das pedras.

Entrementes, João imbicara na estrada e cavalgara o dia todo. Chegando na estação ferroviária, subiu no trem e foi ter em São Paulo. Dali partiu ao Rio de Janeiro. Com o dinheiro que levava, instalou-se numa hospedaria. Percorrendo a cidade, negociou uns diamantes e com aquele dinheiro comprou roupa nova, se aprumou, parecendo mesmo um cidadão de alta classe.

Naquela segunda-feira, o fazendeiro mandou avaliar as pedras e caiu das pernas quando lhe disseram que aquilo nada ou quase nada valia. Ficou louco com aquilo e disparou para a casa de José Pedro, que logo foi indagando:

— Onde está o João? Não estava com o senhor?!
Não, não estava comigo.

Carlos logo percebeu que João passara a perna no patrão e fugira, mas nada disse a ninguém: permaneceu no seu silêncio. Mas o patrão o apertava:

— Ora, você não sabia que as pedras nada valiam?!

— Não, não sabia...

— Mas com o grande conhecimento que tem, era para saber!

— Não sei... Não ando muito bem... Fi-quei muito sem garimpar... Perdi a noção, não sei...

Com tal atitude, Carlos tentava evitar qualquer problema para aquela família e para o próprio João. E o patrão indagou:

— Mas onde está João?

— Viajou para a cidade, foi passear...

O patrão se foi e Carlos disse a José Pedro:

— É o seguinte! João realmente resolveu vingar-se do patrão. Passou-lhe as pedras falsas, que achei que ele havia jogado fora, e fugiu com as pedras verdadeiras.

— Onde será que esse rapaz está?!

— Só Deus para saber...

A mãe de João não se continha em sua preocupação quanto ao sumiço do filho. Resolveu procurar a benzedeira. Foi até lá com o marido e Carlos.

Chica lhes disse, baforando:
— João usou o diamante do bobo para enganar o bobo... Mas não se preocupem: ele está do bom para o melhor. Por causa disso ele não vai mudar, mas se dará muito bem. Há quem está de olho nisso, mas, para Aquele que está lá em cima, está furando buraco para se enfiar dentro do próprio inferno. Então, vocês não se preocupem muito com isso. Façam as suas orações e peçam para Deus perdoar aquela alma.

Retornaram então à fazenda com as preocupações um tanto diminuídas.

Lá no Rio de Janeiro, João mudou de identidade: passou a se chamar Frederico. Ia dispondo aos poucos das pedras preciosas, comprando imóveis aqui e ali, logo melhor se inteirando dos segredos do ramo imobiliário. Comprou para si um enorme imóvel com três pavimentos, instalando no mais alto o seu escritório. Ali ele trancava a sete chaves a sua fortuna.

Passava o tempo e, lá na fazenda, Carlos levava avante o garimpo. Conseguiu mais umas pedras de valor e as entregou ao fazendeiro, dizendo:

— Desta vez, para que façamos tudo corretamente, iremos juntos avaliar.

Temeroso de que aquelas pedras fossem também falsas, o patrão aceitou de bom grado a companhia de Carlos.

Lá no avaliador foi-lhes dito que eram pedras verdadeiras e muito boas. O patrão pagou a metade a Carlos, que, feliz, embolsou aquela grande soma, retornou à casa de José Pedro e lhe disse:

— Agora podemos... Nós não, e sim o senhor poderá irá à cidade e ver o que consegue com este dinheiro.

José Pedro já guardara um bom dinheiro da ótima colheita e, somando-o ao de Carlos, foi* à busca de terras. Uma pequena fazenda estava à venda e ele a comprou, ficando novamente sem dinheiro algum.

A família se mudou dali e assumiu a própria propriedade, cuja terra era muito fértil.

José Pedro começou a agir da mesma forma que Dr. Diogo: arrendava as terras. E a própria família foi também plantando e crescendo.

Enquanto isso, lá no Rio de Janeiro prosperava Frederico, que começou a receber aulas particulares, transformando-se num homem de boa fala, respeitável no comércio e na sociedade. Recebeu o diploma de advogado.

O tesouro de Frederico continuava guardado.

Com o tempo o rico doutor conheceu Isabel, bela jovem de boa classe cujo pai era sócio de uma firma de área pesqueira. Casaram-se.

Todos queriam saber da família de Dr.Frederico, mas ninguém se informava de nada a respeito.

Dois filhos teve o casal e lhes foram postos os nomes de José Pedro e Zenaide.

Indo para São Paulo, Frederico viu ali um amplíssimo campo de negócios imobiliários e resolveu então aplicar um pouco de dinheiro nessa área promissoras da Capital em grande crescimento. Nisto foi muito bem sucedido.

Frederico crescia, crescia, e com ele os filhos.

Um dia se manifestou no rico homem a saudade de sua terra de origem, dos seus pais, dos seus irmãos. E a própria esposa dele falava sobre isto, queria saber de sua família desconhecida, mas ele sempre se esquivava, ocultava as informações, de uma forma ou de outra.

Em São Paulo se estabeleceu Frederico, enquanto seu pai e os filhos trabalhavam arduamente na sua fazenda, imaginando onde poderia estar o seu filho fujão, se estava morto ou vivo, bem ou mal.

Carlos visitava bastante dona Chica, os dois se tornando grandes amigos. Como ele estava numa propriedade já bem mais próxima dela, ficava bem fáceis as suas visitas. Levava-lhe pães e queijos, extraindo de Zenaide os elogios:

— Você é muito bondoso, Carlos! Poucos da Terra agem assim. Perdi meu filho João mas ganhei você!

Um dia, indo até Chica, Carlos a encontrou bem enfraquecida. Ela pouco se erguia da cama e então Carlos começou a ajeitar a casa dela com carinho. E ele, vendo a fraqueza também de Jair, dizia:

— Vó, a senhora não pode mais ficar sozinha. Ajudarei a senhora.

Chica melhorou bastante e já caminhava, enquanto o marido se acamou e não mais se ergueu, até chegar à morte. Enterraram-no sob uma vistosa árvore de óleo, segundo a própria vontade dele, o próprio Carlos tendo furado a cova e colocado ali uma cruz.

Chica se entristeceu e Carlos, indo para casa, disse:

— Ficarei uns tempos lá com dona Chica. Ela está muito tristonha.

— Como é bom o seu coração! — exclamou Zenaide. — Vá sim, meu filho, e leve arroz, feijão e algo mais. Fique por lá o tempo que quiser. Irei visitá-lo.

Carlos levou até lá uns serviçais e arrumou melhor a casinha de Chica.

— Agora vou morar com a senhora — disse Carlos.

Ao lado da formidável mulher, Carlos foi adquirindo um excepcional ensino espiritual. Ela lhe mostrava tudo de bom que acontecia no seu trabalho, no seu contato com os bons espíritos.

Carlos disse um dia:

— Eu tenho vontade de ver a minha mãe, mas, vê-la assim, como vejo a senhora. Por que é que o espírito dela não aparece para mim?

— Filho, as coisas não são como imaginamos. As coisas acontecem do jeito que Deus quer que aconteçam. Da forma que ele manda em quem está no nosso corpo, manda também em quem está fora do corpo. Ele manda nas almas...

7

A HISTÓRIA DE CHICA

Buscando a linha das suas reminiscências,

Chica foi relatando a Carlos:

— Eu era menina e já via muitas coisas.

Eu morria de medo, meu filho, e meu pai sempre ficava muito bravo comigo. Mas a minha mãe tinha muita paciência, muita calma comigo. Ela também se chamava Francis-ca, o nome com que ela me presenteou.

Espedito, meu pai, era um mestiço. Você não vê a minha cor? Nem preta nem branca... E mamãe também não tinha a cor muito clara, daí saindo esta pele suja igual a minha.

Mas, meu filho, eu tinha o mesmo medo que você via naquele seu colega que vocês trouxeram aqui um dia, o Severino.

Uma moça aparecia para mim, chorando, chorando. Eu tinha medo de olhar para aquele rosto triste, mas minha mãe me dizia:

— Minha filha, você não pode ter medo das almas. Se tiver medo, aí que elas perturbam mesmo...

— Mãe, essa moça é muito, muito triste!

Com o passar do tempo, passei a ver um menino a puxar pela mão aquela moça e então fiquei mais medrosa ainda. O menino a arrastava e ela não soltava a mão dele.

Eu saía, ia para o terreiro. Lá havia uma roseira que era muito espinhenta e algumas vezes aquela moça aparecia lá no meio da roseira.

Eu dizia a mamãe:

— Não posso aproximar-me! Tenho medo!

Eu era uma menina e nada entendia. E mamãe me disse um dia:

— Chica, vá e converse com ela! Eu vou com você!

Criei coragem e fui até lá na roseira. Ela chorava e chorava. Deixei o medo de lado, de tanta dó dela.

— Por que chora? — perguntei.

— Meu pai me expulsou de casa porque um compadre dele fez mal para mim. Fugi e ele, com raiva, me mandou embora. Eu carregava uma criança na barriga e com ela fui embora. Cheguei na porteira, pulei e saí andando. Eu sabia de um trilho que levava até a casa da minha tia Zica e então rumei até lá para perguntar-lhe o que é que eu poderia fazer da minha vida. Um gado bravo desem-bestou atrás de mim. Com muito medo, corri e me enrasquei numa moita de arranha-gato. Aqueles espinhos me espetavam todo o corpo. A tarde chegava e eu estava lá, sem conseguir sair, presa no meio dos espinhos. Comecei a gritar, gritar e ninguém escutava. Morri lá e o meu corpo está lá até hoje, depois de muitos dias. Eu só queria que vocês enterrassem o meu corpo, apenas isto!

Aquela roseira estava com as rosas vermelhas de sangue. Mamãe gritou:

— Pergunte onde é...

Ela disse mais ou menos o lugar e mamãe disse:

— Vamos para lá!

Andamos, andamos. Era muito longe. À distância vimos os urubus em cima do espi-nheiro. Voltamos correndo, chamamos o meu pai e o pessoal.

Chegamos lá e vimos o corpo já apodrecido. Aqueles homens, com as foices, foram tirando devagar o corpo.

Eu observava tudo lá de cima da porteira. Todos olhavam para mim e diziam que eu tinhas na mão um poder e que com ele podería ajudar as pessoas.

Foram lá no arraial e chamaram o padre. Ele benzeu o corpo e depois o enterraram.

Passou um tempo e nada mais vi.

Um dia saí e vi uma moça brincando com um nenezinho. Vi que era aquela mesma mocinha. Ela me disse que se chamava Fátima e perguntou:

— Você não tem mais medo de mim?

— Não! — respondi. E ela disse:

— Vim aqui para lhe pedir um favor, só mais um favorzinho. Este menino que você vê aqui precisa voltar à Terra. É o seguinte! Vá lá na casa do meu pai. Ele está muito triste, chorando, chorando, e a minha mãe também. Quero que você peça para eles não ficarem chorando por mim, porque estou muito bem. A única coisa de que preciso é que parem de chorar e de se sentirem culpados daquilo. Este menino tem que voltar a viver na Terra, porque ele tem uma missão muito boa na Terra. Então, por favor, vá lá!

Olhei para ela, com muita pena, e perguntei:

— O seu nome é mesmo Fátima?

— Sim, é Fátima.

— Mas eles não vão acreditar em mim...

— Vão sim! Você lhes dirá que dentro daquele malote velho está aquela boneca de pano que mamãe fez para mim quando eu era pequenina. E fale também para mamãe sobre o dia em que eu estava pertinho dela e me queimei no tacho, quando ela fazia rapadura. Vá contar isto para ela!

Saí de lá e fui conversar com a minha mãe:

— Venha cá, mamãe. Aquela moça me disse que se chama Fátima...

— É lógico que é Fátima. A mãe e o pai disseram que é Fátima...

— Mas eu não sabia... Ela apareceu para mim e pediu para eu ir lá na casa da mãe dela. Ela chora porque aquele menininho tem de voltar para a vida.

— Ora, minha filha, deixe dessas coisas! Se morreu, como pode voltar para a Terra?!

— Foi ela quem disse...

E minha mãe não me deixou ir.
No outro dia, vi a mocinha naquele mesmo lugar e lhe disse:

— Minha mãe não está deixando eu ir lá na sua casa.

— Vá escondida! Faça este favor! Eu preciso muito de libertar este meu filhinho. Ele ficará ligado em mim se eles não o perdoarem. Ele está amarrado em mim e somente eles podem aliviar. Vá à igreja e peça ao padre para rezar uma missa. Isto será muito bom. Peça para rezarem para a criança, pois para mim não precisa. Peça para eles, por favor! Ele chora a todo momento e se agarra em mim. Ele está com medo, com medo, com medo, e chora, chora, chora, e somente você pode me ajudar!

Comecei a chorar e ela também. Ela chorou um bom tempo ali comigo e disse:

— O que ainda me assusta não são aquelas vacas bravas correndo atrás de mim; o que me assusta é este bebê chorando e chorando sem parar!

Fui contar à minha mãe. Ela ouviu e disse:

— Está bem! Então vamos lá na casa dela.

Ela chamou papai e rumamos para a casa de Fátima.

Quando aquele casal nos viu, muito se assustou. Mamãe disse:

— Esta minha menina quer conversar com vocês.
Eu disse:

— Senhor José e dona Margarida...

— Como é que você sabe o meu nome?! — estranhou aquele homem.

— Foi a filha de vocês quem me disse. Mas estou aqui porque ela mandou pedir para que vocês vão à igreja e mandem rezar para o menino dela. Pediu também para vocês não ficarem se culpando, porque vocês não têm culpa nenhuma, e que a tristeza de vocês está atrapalhando muito que ela siga a vida dela. O menino está pregado no corpo dela e somente através do perdão de vocês e da missa é que ele vai se libertar.

— Como é que posso acreditar em você?!

— Ela disse que na mala velha tem uma bonequinha de pano que ela deixou no dia em que saiu. Vá lá olhar e a senhora verá...

Aquela mulher muito se assustou com aquilo. Levou as mãos à cabeça e começou a puxar o cabelo, a chorar em descontrole. Ela olhou para o marido e disse:

— Você é um desgraçado! Você matou a nossa filha! Você destruiu a minha vida! Você acabou comigo! Esta menina está falando a verdade! Vá lá e veja!

Aquele homem caiu de joelhos, pedindo perdão e dizendo:

— Ela está perdoada!

Fomos todos à igreja.

Aquela mãe se ajoelhou à frente da imagem da Virgem Maria e derramou as suas lágrimas, e o mesmo fez aquele homem.

Logo chegou Padre Domingos, que já sabia de tudo aquilo. Margarida lhe contou a história e ele olhou para mim e disse:

— Você está contando mentira! Os mortos não falam, os mortos não vivem!

Eu disse com voz firme:

— Eu vi sim! Não estou contando mentira!

Margarida, debaixo de lágrimas, olhou para o padre e disse:

— Ela falou a verdade! Ela falou da boneca da minha filha e a boneca estava lá onde ela disse.

Olhei para aquele casal e disse:

— Ela pediu para eu lembrar também o dia em que ela se queimou no tacho, quando a senhora fazia rapadura.

Margarida disse:

— Somente eu e o meu marido sabemos disto!

E eu disse ao padre:

— Ela pediu para o senhor rezar uma missa, não para ela, e sim para o menino.

O padre exclamou:

— Meu Deus do Céu! Depois de velho a gente ainda vê uma coisa desta! Mas Deus tem os Seus mistérios e vamos então respeitar os mistérios de Deus. Vou marcar uma missa para domingo.

Margarida discordou:

— Não, padre! Reze hoje mesmo!

— Hoje é sexta-feira e hoje não pode.

A missa foi preparada para a manhã de domingo.

Eu também estava presente na igreja. Vi Fátima, já sem o menino. Ela estava tão bonita! Vestia-se de noiva, muito bela mesmo! E ela me disse:

— Diga à minha mãe que a minha missão na Terra foi cumprida e que eu muito agradeço a ela. Diga que se for para se lembrar de mim, que o faça apenas numa oração. Se Deus permitir, estarei sempre perto dela.

Fátima deu aquele sorriso maravilhoso e foi saindo. Dois belíssimos rapazes pegaram nos braços dela e a levaram.

8

COLÓQUIOS DE LUZ

Chica encerrou o seu relato dizendo a Carlos:

— Foi assim, meu filho, que perdi o medo dos espíritos. Hoje eu levo a vida benzendo uma criança aqui, outra ali. Assim segue a vida. Quanto àquele nosso irmão, o Se-verino, ele está muito bem, muito rico. Ele é muito inteligente. Daqui a algum tempo ele verá para onde é que vai essa riqueza dele e nesse dia ele não terá como reencontrar esses amigos que estiveram perto dele. Mas você ainda vai se encontrar com ele e ele ainda muito precisará de você.

Carlos permaneceu ao lado de Chica, sempre ouvindo com enlevo as suas histórias e os seus ensinos. Começou a ajudá-la na benzeção e fazia tudo com muito carinho. Cuidava da horta, da casa, de tudo o mais. O alimento vinha da fazenda de José Pedro.

Carlos hauria ali os sublimes ensinos de uma vida voltada aos necessitados e se maravilhava com tudo o que via e ouvia.

Naquela tarde, Chica fitava o horizonte com satisfação e dizia a Carlos:

— Você foi mandado aqui por Deus, porque bom é o seu coração — o coração que bate no peito daqueles que têm humildade, que têm amor. Acredite em Deus, que ele está do seu lado! O meu tempo já vem chegando. Cada vez menos verei o Sol se escondendo atrás dos montes. Mas você ainda verá muito e muito o nascer e o esconder do Sol, ainda verá muito da beleza da Terra. Meu filho, Aquele que está lá em cima mandou você tomar conta desta velha que já está no fim. Vejo do seu lado a minha mãe e o meu pai, e vejo também muita gente boa que deste mundo já foi para o Céu e que agora veio para ficar ao lado desta velha que já chega ao fim do caminho. Meu filho, o seu coração é bondoso! Nada de mal lhe acontecerá neste mundo e por tudo o que fizer de bom, Deus lhe dará a recompensa. Vou estar do seu lado no dia em que eu não puder mais estar aqui e ajudar as crianças, aqueles que batem na minha porta. Nesse dia, quando esta velha fechar os olhos, peço a você que não use de muita cerimônia: enterre-me ao lado daquele que Deus me mandou para seguir os meus passos, para que as nossas almas se unam lá em cima.

Tais palavras falaram fundo ao sentimento daquele jovem. Seus olhos lacrimejavam e ele via turvo aquele crepúsculo.

— Dona Chica — disse ele —, enquanto a senhora viver, quero estar do seu lado! Quero até esquecer o meu modo de falar para poder falar igual à senhora...
Meu filho, você já é homem grande, homem que tem nas mãos a sabedoria, mais do que esta velha. Então não lhe cabe falar igual a mim. Nasci no meio do mato e no mato me criei. Nunca estive numa cidade. Então sou daqui e vivo aqui mesmo. E não fique aí com esses olhinhos cheios de lágrimas, com essa sua tristeza, porque ainda há muita coisa para você fazer na Terra. Se você fracassar, todos os que estarão do seu lado também fracassarão. Não é por nada que Aquele que está lá em cima mandou que você viesse à Terra. Então viva com amor e carinho, aceite a realidade da vida e veja a vida do jeito que ela é. Se a gente dorme um bom sono e pode ouvir a passarada cantar quando chega o novo dia, está aí, meu filho a hora certa de fazer uma oração e agradecer a Deus somente pela bênção desse dia. Agora, se vierem outros e outros dias, mais ainda agradeceremos. Nessas mãos há muita coisa boa — porque o que está dentro do seu coração é o que está nas suas mãos. E é para isto então que você está neste mundo.

O jovem fitava os olhos da benzedeira e neles enxergava uma grande sinceridade, um horizonte diferenciado. Sentia a força do espírito, notava que aquela alma não era aquele monte de matéria que estava ali à sua frente, que tratava-se de um espírito de escol que Deus mandara à Terra para ajudar a muita gente.
Tem que estar em toda parte. Você olha para mim assim, assim, mas não sou ninguém. Agradeço ao Pai e não sei lhe explicar isso muito bem. Um dia o padre falou que Ele foi Nosso Senhor Jesus Cristo, mas, na verdade, acho que Jesus Cristo é somente o Filho de Deus e que morreu na cruz para fazer com que melhorássemos o nosso coração, melhorássemos a nossa vida. A gente sabe que somente coisa boa ele fez para o mundo. Quando eu podia descer lá na fazenda onde tem a igreja, muitas vezes, no domingo, eu muito ouvia falar de Nosso Senhor Jesus Cristo, e também da sua Mãe, dizendo que é a Mãe de todos nós, a Mãe do mundo. Então acho, meu filho, que esse Jesus, pelo que a gente ouve falar, é um anjo que Deus mandou à Terra para nos salvar, livrar-nos dos perigos, mostrar a todos um novo rumo. Ele foi levado à cruz e tinha na cabeça uma coroa de espinhos. Você precisa vê-lo lá na igreja: ele lá está a sangrar. Pois saiba, meu filho: esse também está do seu lado, e está do lado de todo aquele que sabe olhar para o seu irmão e compreender a dor do seu irmão, daquele que sabe entender o jeito certo das coisas. Mas eu somente isto lhe sei dizer. Ora, meu filho, nunca aprendi a rabiscar nada... Ah, meu filho, a nossa vida foi muito difícil! Por aqui nunca houve escola para nos ensinar, e então nada aprendemos. Mas aprendíamos, com a nossa mãe e o nosso pai, a rezar. No pouco que ia à igreja, que era muito longe, a gente ficava observando aquelas imagens e pensando, pensando. Mas eu ainda era mocinha. Depois nos casamos e ganhamos este pedacinho de terra do nosso irmão Espedito. Aqui viemos morar e aqui passei toda a minha existência. Era sempre lavar lá alguma coisa na biquinha, plantar alguma coisa na horta, criar algum animalzinho para nos dar sustentação. Pude então encontrar aqui a alegria. E o tempo foi passando... Eu e o meu Jair não pensá-vamos em muita coisa, a não ser num arrozi-nho para comer, no nosso pãozinho, e pedíamos que ele nunca faltasse na nossa mesa. Quando era mais novo, Jair ia comprar sementes e fazia a sua lavoura, mas ele foi sendo vencido pelo tempo e já entortava o corpo. Então cuidávamos apenas do nosso mandio-cal e plantávamos apenas o milho para tratar das nossas galinhas. Mas nunca nos faltou nada e nada desejamos de ninguém. Sempre ganhei arroz e feijão, e isto já estava muito bom. Em troca, as pessoas levavam uma rama de mandioca, uma abóbora, alguma coisa. O resto ia acontecendo... Mas saiba que nesta minha vida encontrei muita gente em desespero, muita gente aterrorizada, mas, graças a Deus, a nossa fé foi sempre um calmante muito grande. Eu pensava no dia em que eu ou o meu velho partíssemos e um de nós ficasse sozinho nestas bandas isoladas e dificultosas, mas veja quem é que Deus colocou agora do meu lado! Você ajeitou a minha casinha, até trem novo trouxe para cá, para eu mexer com as panelas. Eu acho, meu filho, que, na verdade, tudo isto é muito bom e por isto tenho agradecido a Deus. Mas o seu lugar, meu filho, não é aqui. Muito agradeço pelo que faz por mim, mas isto muito me incomoda: no meu coração, na minha cabeça. Sim, incomoda muito mesmo, porque você tem muito o que fazer...

Carlos, segurando nas mãos da admirável benzedeira, disse:

— Sou livre igual aos pássaros. Eles estão aqui porque aqui há alimento para eles e não se aventurarão noutro lugar que lhes seja difícil. Vejo, à tarde, a senhora jogar o milho às galinhas e vejo os tantos passarinhos que estão se aproximando. Ora, eles estão aqui por que, dona Chica? Estão aqui porque aqui têm o alimento. E então por que é que eu estou aqui, dona Chica? Porque a senhora é o meu alimento! Eu gostaria de ter uma mãe igual à senhora, para que eu olhasse nos olhos dela e contemplasse a alegria! Eu gostaria de, um dia, encontrar alguém que tivesse muito conhecimento, não apenas das coisas da Terra, mas que soubesse falar também um pouco de Deus. Eu me lembro das vezes que eu deitava a cabeça no colo do meu pai André e ele me acariciava os cabelos. Nessas ocasiões, eu me imaginava deitado no colo de mamãe. Pude sentir a ternura do coração dele. Ele foi para Deus e me largou sozinho, e então saí para encontrar novo rumo, nova situação à minha vida. Foi quando, de repente, encontrei a senhora. Vejo verdade no seu rosto, ternura na sua alma, bondade no seu coração! Sim, irei embora daqui se me arranjar uma outra pessoa que seja igualzinha à senhora, alguém que possa benzer as criaturas, ajudar as pessoas, sem nada desejar em troca; uma pessoa que saiba agradecer a Deus cada momento da vida, uma pessoa que não tem tristeza, mas somente amor no coração. Ah, se for assim, então deixarei a senhora!

Chica deu uma gostosa risada, fixou os olhos no jovem e disse:

— Nunca encontrei coração que dissesse tantas verdades, nunca encontrei uma boca que dissesse tão certas coisas! Se você está aqui, aqui mesmo pode ficar. O seu quarto está lá arrumadinho: você mesmo fez tudo aquilo. O meu coração está muito alegre por ouvir as suas palavras, mas ao mesmo tempo triste por saber que você tem outra vida para viver lá fora. Muita gente está à sua espera. É por isto que gosto de você! Mas, meu filho, neste mundo existe muita coisa que precisa aprender... Então, se está aqui, precisa aprender a olhar as coisas. Está vendo lá aquela moita de arruda? É este mesmo o nome daquilo. Está vendo, filho? Há tanto poder naquela planta! Vê aquele sabugueiro? Ah, as plantas têm muito poder! Então o que é que acontece? O que aprendí, aprendí com esses galhinhos... Quando a gente os vai passando nas pessoas, vai-lhes pedindo que retirem delas as pestes, as pragas, as doenças, e assim vai acontecendo. Então vou ensiná-lo a benzer!

— Mas como foi que a senhora conseguiu aprender essas coisas?

— Ah! Vou lhe contar...

9

SANTA LUZIA

A experiente benzedeira foi então recordando o seu abençoado aprendizado:

— Eu era mocinha ainda quando aconteceu aquilo com Fátima, a morte dela nos arranha-gatos.

O povo, sabendo daquilo, começou a olhar para mim com olhos diferentes. Então uma pessoa me procurava para que eu ajudasse numa coisa, outra pessoa para que eu resolvesse outra coisa.

Um dia, dona Rita, a mulher do fazendeiro, lá por aquelas bandas, ficou doente. Antônio Magalhães mandou então me chamar. Esse Antônio era muito respeitado pelas coisas que fazia. E assim cheguei lá naquela casa grande, muito bonita. Mamãe me acompanhava.

Ora, quando vi aquela mulher lá na cama, você nem imagina, rapaz, o que eu via: uma cara dentro de outra cara! Muito me assustei e disse à minha mãe:

— Isto não é coisa de Deus! É coisa do outro mundo! Vocês têm que chamar o padre aqui, e não eu, pois eu nada posso fazer.

Foram atrás de Padre Espedito. Ele chegou e deu uma olhada naquela situação.

Logo pegou uns raminhos e enfiou na boca de uma vasilha. Pôs aquilo sobre a mesa e começou a fazer a sua benzeção. Rezou, jogando gotinhas daquela água pela casa. Pediu-me que eu o acompanhasse e rumamos ao quarto de dona Rita.

Ora, quando entramos lá, aquela mulher ficou muito brava, mas muito brava mesmo. O padre começou a jogar aquela água na mulher e logo aquele rosto horrível que estava ao lado da mulher pulou de lado. Assustei-me e me atarraquei em mamãe.

— A coisa é feia, mãe! — exclamei. — Ele pulou de lado e está aí... Não está mais dentro dela.

A mulher se acalmou, ficou boa.

Uma farta mesa tinha sido arrumada lá na sala, cheia de coisas gostosas para a gente comer. Eu contemplava aquilo e ficava de olho na minha mãe: quando ela tirava um pedacinho, eu fazia o mesmo.

O padre, alegre, falava e falava, contando as suas coisas, a sua vida, as dificuldades da sua igreja.

De repente voltou aquela gritaria lá do quarto. Aquilo ficou ainda pior. Quando che-guei lá, vi de novo aquela coisa, aquela careta na mulher.

Mamãe me disse:

— Filha, você foi ajudada por Deus para ver essas coisas e por que então não vai lá ao lado dela?
Deus me livre! Não gosto disto! Não quero ver isto, não posso fazer isto!

Saí de lá, deixando aquela mulher passando mal. Encostei-me num cantinho da varanda e lá comecei a chorar, com muito medo daquilo.

De repente, vi uma mulher vestida de azul. Ela se aproximou de mim, bem devagar, olhou nos meus olhos e disse:

— Minha filha, o meu nome é Luzia... Sim, filha, Luzia é o meu nome... Olhe para os meus olhos!

Olhei para os olhos dela e vi que eram belos. Era uma mulher linda e disse:

— Ofertei a minha visão para poder ajudar os necessitados e Deus me deu outra vista bem melhor. Se você tiver medo em tudo o que ver, minha filha, você fracassará em sua missão. Deus mandou você na Terra para ajudar as pessoas necessitadas — e aquela mulher lá dentro é uma pessoa necessitada. Somente você pode ajudá-la. Está vendo aquela arruda ali? Pegue um pouco dela. Primeiro você deve amassá-la, para depois esfregar na mão, esfregar no seu corpo, e verá que mal algum lá de dentro penetrará em você. Você estará bem protegida. Passe bem no seu rosto, pegue uns galhinhos e vá lá dentro. Vou estar do seu lado.

— A senhora é lá do Céu ou da Terra? — perguntei. E ela me disse:

— Estive na Terra e estou ao seu lado, para que você não tenha medo. Se você deixar, ficarei do seu lado e você verá... Levante-se!

Levantei-me, fui lá, peguei arruda e es-freguei bastante nas minhas mãos, no meu rosto. Depois peguei um maço dela e caminhei para o quarto, vendo que aquela mulher andava do meu lado. Cheguei lá e vi que todo mundo tentava segurar aquela mulher, que estava muito brava. E quando entrei no quarto ela deu aquele grito mais feio e disse:

— Você voltou aqui! Agora você trouxe uma para lhe ajudar...

Naquela hora perdi o medo. Peguei aquele ramo e passei no rosto dela, numa forma de cruz. Ela deu um grito tremendo. Pedi ajuda a Luzia, peguei outro ramo de arruda e esfreguei no rosto, nas mãos de dona Rita. Pedi uma caneca com água, limpei a água e coloquei nela aquela arruda. Num instante aquela água ficou verde. Dona Rita estava paralisada, sem mexer os olhos. Abri a boca dela e a fiz beber aquela água. Ela arregalou os olhos e perguntou o que estava acontecendo. Eu não sabia explicar e o padre aliviou aquilo tudo.

Saí dali e fui para a cozinha. Vi Luzia, que olhou para mim e deu um sorriso.

De repente vi aquela coisa feia lá fora. Luzia olhava para ela. Chegou um punhado de sombras, envolveu aquela cara numa capa negra e aquilo sumiu.
Luzia se aproximou de mim e disse:

— Agora sim! Agora você pode dizer àquela mulher que ela não será mais atormentada. Mas diga para ela que precisa ir na missa todo domingo e que precisa também ajudar a igreja, porque o padre está lá com muito problema.

Voltei ao quarto e vi que dona Rita já estava boa, sentada na cama, conversando com o padre. Ela me perguntou:

— O que foi que você fez?

Olhei para ela e disse:

— Padre, eu tinha saído daqui porque estava com muito medo. Pensei em largar isto aqui e ir embora, mas eu sabia que minha mãe não deixaria, de jeito nenhum. Lá do cantinho, comecei então a pedir força para Deus. De repente me apareceu uma moça muito bonita, de olhos maravilhosos. Ela estava de azul e tinha um pano na cabeça. Chegou pertinho de mim e disse que havia perdido a visão por causa de muitas pessoas necessitadas, mas que Deus lhe havia dado uma nova visão. Pediu que eu fosse na moita de arruda e arrancasse uma porção. Fiz da forma que ela me ensinou. Ela disse também para eu benzer as pessoas com esses ramos e que ela ficaria sempre do meu lado. Mas ela pediu também para a senhora, dona Rita, ir na igreja. Disse que a senhora não vai rezar e que foi por isto que aconteceu com a senhora. Pediu também que o seu marido ajude um pouquinho a igreja, porque o padre está precisando.

O jovem padre colocou a mão na minha cabeça e disse:

— Minha filha, você também precisa ir na igreja. Você precisa aprender as coisas de Deus, as coisas de Jesus. Precisa aprender muito mesmo...

O padre se foi, mas dona Rita não deixou que eu e mamãe fôssemos embora. Arrumou um quarto para mim, para que eu ficasse morando com ela.

Acenderam as lamparinas e fui com mamãe para o quarto.

Mamãe se sentou na cama e fez uma rezação que somente ela sabia fazer. E depois me disse:

— Minha filha, estou muito orgulhosa de você, mas muito mesmo. O que você fez ninguém desta Terra sabe fazer!

Olhei para os olhos dela e disse:

— Mãe, tenho tanto medo!

— Medo do que, minha filha?

— Ah, tenho tanto medo! Não gosto de ficar vendo essas coisas...

— Então vamos rezar e pedir que você nunca veja coisa feia, que veja somente coisa bonita.

Pulei para a cama. Foi uma noite muito gostosa. Eu via a Lua despontando na serra e entrando pelo meio da mata. Era uma Lua Cheia e clareava tudo aquilo...
De repente vi um caminho e comecei a andar por ele.

Vi novamente aquela mulher de azul que me ajudava. Ela segurou em minha mão e fomos andando.

Vi umas paisagens bonitas, um lugar todo diferente. As árvores eram todas enfeitadas.

Chegamos num local que era muito lindo. Havia um banco e ela me chamou para que ali nos sentássemos.

Naquele momento ela segurou nas minhas mãos, olhou bem dentro dos meus olhos e disse:

— Se eu não tivesse os olhos que tenho, pediria a Deus os mesmos olhos que você tem.

Eu lhe disse:

— Tenho medo de ver as coisas feias, mas muito medo mesmo!

Ela sorriu e disse:

— As coisas feias não são como você imagina. É feio você olhar para uma pessoa sobre uma cama e cheia de feridas? É feio você olhar para alguém fedendo numa cama? É feio você olhar para uma pessoa que está muito doente, coberta de feridas?

Respondi:

— Não! Olho para eles com dó, com compaixão.

— Dó sim, mas talvez que compaixão não seja a palavra certa que devemos usar. Olhar sim com amor, com carinho e usar da caridade — porque estas suas mãos irão curar muitas feridas. Serão muitos os que estarão à sua procura e você deverá estar sempre usando daqueles ramos que estarão sempre à sua mão. Veja como é bonita a noite! Por mais tenebrosa que ela seja, vem a Lua e ela clareia toda a parte da escuridão — porque Deus não quer que ninguém fique na escuridão. Porém, muitos insistem em permanecer na escuridão: apagam a luz da Lua e então se tornam feios perante os olhos daquele que não compreende estar diante da enfermidade. Escute: use a sua própria beleza para vencer o medo daquelas pessoas que insistirem em querer fazer com que você fracasse na sua missão. Lembre-se de que sempre estarei do seu lado. Mas eu lhe trouxe um presente!

Ela me mostrou e vi, naquele presente, muitas coisas. Era um punhado de plantas: arruda, alecrim, bálsamo e muitas outras que eram usadas para fazer chá.

Peguei aquilo e abracei. Senti o cheiro do alecrim, que era ali mais forte, e respirei fundo, sentindo aquela coisa gostosa...

Ela sorriu e disse:

— Minha criança, doravante levarei embora o seu medo e você não terá medo de mais ninguém — porque você estará sempre recordando que a Luz vence as Trevas, que o Bem vence o Mal, que o Mal não é coisa tão difícil de ser abatida, que deve deixar que o próprio Mal extermine a si mesmo. Sim, porque a Luz vence a Escuridão e todos aqueles que são maus estão sob a sabedoria de Deus para um dia transformá-los para o Bem. Então lembre-se disto quando encontrar uma pessoa toda defeituosa, enferidada, cheia de lepra, e algumas almas insistirem em querer amedrontá-la, afastá-la da sua missão.

Respirei fundo e adormeci.

Acordei cedo no outro dia e me pus de pé ao lado da cama. Ainda estava escuro e me sentei ao lado de mamãe. Ela dormia e eu a beijei. Ela acordou, deu uma olhada naquelas plantas que estavam sobre uma mesinha e perguntou:

— Minha filha, você saiu no escuro para colher essas plantas?! Isto tudo é medo?! Não percebi que você se levantou...

— Não, mãe, não me levantei! Juro! Sonhei que estava seguindo um caminho e nele encontrei aquela mulher que dizia ser Santa Luzia e que estaria sempre comigo para me ajudar. Eu lhe disse do meu medo e ela me disse que ali tinha fim o meu medo. Ela me entregou então todas estas plantas. Mãe, agora sei: não posso ter medo, de forma nenhuma. Vou dizer isto para eles?

— Não, minha filha! Este vai ser o seu segredo e ninguém precisa saber do seu segredo. Diga que você pegou essas plantas lá fora. O pessoal já está lá fora trabalhando. Vamos ficar quietinhas aqui. Vamos sentar-nos, fazer as nossas orações. Vamos agradecer a Deus, pedir a Ele que dê conforto à dona Rita, que a ampare e auxilie, e que prosperem nesta fazenda. Sua missão, filha, é mesmo ajudar as pessoas que tanto precisam de suas mãozinhas.

Arrumei uma vasilha, enchi de água e nela coloquei aquelas plantas.

Eu desejava ir embora para casa, mas dona Rita não deixou. Ela pegou um grande amor em mim. Abraçava-me e dizia à mamãe:

— Ela vai morar comigo. Agora ela vai ser a minha filha!

Por lá ficamos uma semana, comendo do bom e do melhor. Eu nunca comera coisas tão gostosas! Nossa família era muito pobre, pouco podia fazer.

Mamãe me puxava a orelha e dizia:

— Temos de ir...

— Então a senhora pode ir embora e deixá-la aqui.

Mas mamãe não concordava e dizia:

— Não! Ela me ajuda muito mesmo.

Fomos então embora.

Eu olhava para aquelas plantas que ganhara e via que estavam sempre verdes. Ajun-tei-as, enrolei numa casca de bananeira, amarrei e levei aquilo comigo. E as plantas não murchavam. Em casa coloquei todas na água, mas com o tempo elas foram murchando.

Começamos então a plantar alecrim, bálsamo, aquelas plantas todas que estavam ali. Fazíamos chá e bebíamos.

Numa tarde, já anoitecendo, escutei um barulho esquisito na porta. Uma voz me chamava. Quando abri a porta, vi um homem com o rosto todo cortado. Assustei-me no começo, mas, recordando-me da Santa, respirei fundo e imediatamente ela estava perto de mim. E ela me disse:

— Erga as mãos sobre ele e lhe diga que o tempo de vida dele na Terra já venceu, para que ele acredite em Deus e em Jesus, porque neste momento o socorro dele está chegando.

Assim fiz. Aquele homem caiu de joelhos aos meus pés e gritava:

— Eu não quero morrer! Eu não posso morrer!

E a voz no meu ouvido mandava dizer e eu dizia:

— Você não vai morrer! Você está vivo!

Chegaram quatro espíritos, comandados por um quinto de grande barba. Eles me olharam, estenderam um pano no chão, uniram duas pontas, atravessaram no meio um esteio, colocaram lá dentro aquele homem e partiram com ele pela estrada. Eu olhava, olhava e vi que, chegando num ponto, já não andavam mais no chão: os pés deles estavam no ar. E aquela voz me disse:

— Viu? Não precisa ter medo. Ele veio atrás de você, pedindo socorro. Recebera um dinheiro do patrão e foi assaltado no meio do caminho. O seu corpo já foi encontrado e sepultado, mas ninguém de lá fez oração para ele, e então ele ficou perdido, vagando pelo mundo. Por misericórdia dos familiares dele, da esposa e dos filhos, todos estando a orar, ele começou a entrar em desespero. Então os familiares se lembraram de você e em prece pediram a você que o encontrasse, e você então o encontrou. Então hoje você irá dormir, mas amanhã a sua missão será ir na igreja, relatar ao padre o acontecido e pedir que a família se despregue dele. Peça ao padre procurar a família e lhe dizer onde é que ele foi enterrado, lugar que você agora sabe.

E assim então aconteceu. O padre foi lá, disse do ocorrido e aquela família entrou em desespero. Foram rezando para aquela alma, para aquela família. Deus encaminhou outro marido àquela jovem mulher, para poder criar os filhos.

Dai para a frente as pessoas começaram então a bater na porta de minha casa. Era gente de todo jeito e eu sempre benzia.

Às vezes as pessoas tinham problemas com os animais e eu e mamãe íamos até lá, benzíamos os animais, as plantações. E o povo foi gostando daquilo.

Fui crescendo junto de mamãe, de pa-pai e também dos irmãos que estavam por lá, e a casa começou a se encher de gente.

Um belo dia um certo rapaz foi morar lá na fazenda. Era um jovem bonito. Os olhos dele pareciam os daquela Santa. Pelos olhos dele, então, me apaixonei. Era o meu Jair, e nos casamos. Padre Espedito e uns fazendeiros nos deram este pedaço de terra aqui em cima, onde fizemos a nossa choça e viemos morar.

Por aqui começamos a trabalhar e, mesmo assim, o pessoal passou a buscar em nós o que tínhamos para lhe oferecer. Era um lugar bem longe, afastado, e achei que a distância iria incomodar as pessoas, mas não aconteceu. Assim, ganhávamos umas galinhas dali, um porquinho aqui e fomos fazendo as nossas criações. Não é que queríamos essas coisas, mas as pessoas se sentiam na obrigação de doar alguma coisa.

Aquela irmã, Santa Luzia, sempre me visitava e ajudava, mas ultimamente ela me abandonou, me deixou sozinha. Sim, já faz bom tempo que não nos encontramos. Não sei se fiz alguma coisa errada e ela me deixou... Mas acho que ela está perto de nós... É a minha cabeça que já está muito velha e talvez não possa mais ver essas coisas...

10

A PARTIDA DE CHICA

Carlos estava deslumbrado com o que aque-la mulher simples contava. Não concordou com o que ela lhe disse no final do relato: que sua visão espiritual daquela luminosa protetora deixara de ocorrer. E disse:

— Isto não é verdade! A senhora viu a minha mãe, o meu pai...

— Sim! E sabe quem está agora bem pertinho? É André e está satisfeito com você. Pede que você continue com o seu trabalho, mas disse que o seu trabalho não será por muito tempo aqui e que uma coisa ruim vai acontecer. Diz também que, por enquanto, aqui é o seu lugar e que deve aprender tudo o que puder.

— Ah, mãe Chica, ninguém me separará da senhora!

— Ora, os meus dias estão contados. Olhe para você ver: já nem consigo mais andar direito. Se fosse por minha vontade, eu gostaria de ficar aqui ainda por muitos e muitos anos, e poder ajudar muita gente. Se as pernas me ajudassem, eu até desceria o morro e levaria um ramalhete lá para a igreja. Mas esta velha já não tem mais essa condição, porque o tempo passou e passou depressa. Parece que ainda ontem eu me casava com o meu Jair. Mas hoje só fica a saudade do meu velho. Quantos momentos felizes esta velha teve nesta vida! Quantas vezes eu me sentei aqui para ver os passarinhos comendo o milho das galinhas! O meu velho era tão caprichoso que ia lá na pedra e quebrava todo o milho, para servir aos pintinhos e aos passarinhos. E passávamos as horas observando aquilo. O feijão já estava lá no fogo e nos sen-távamos aqui. Eu segurava no braço dele e juntos ficávamos vendo aquilo tudo. Mas viemos neste mundo é mesmo para ajudar as pessoas e ele me ajudava. Eu via o cansaço dele pelo trabalho e entrávamos e íamos jantar. Depois íamos no pote e tomávamos uma canecada de água. Depois, sentávamo-nos aqui e ficávamos observando o resto da tarde. A noite vinha chegando e lá ia ele acender a lamparina. Tínhamos até um lampiãozinho que ganháramos de presente. Este ficava bem ali e ficava aceso a noite inteira para espantar os bichos. Eu sempre deixava o fogão aceso quando íamos dormir. Logo meu velho pegava no sono e eu ficava olhando para o rosto dele. Ele era muito bonito: parecia a santinha que aparecia para mim. E eu pensava: tanta moça bonita lá na cidade e ele se apaixonou logo por mim! Escutávamos o cantar dos galos e Jair já se levantava depressa e ia olhar o galinheiro para ver se algum bicho lá entrara e levara algum animalzinho, o que sempre acontecia. Depois ele ia lá na bica, lavava o rosto, jogava água na cabeça, e eu lá ia fazer o mesmo e pegar água para coar o café. Sempre havia lá um pãozinho e ele comia aquilo com a boca gostosa. E quando tínhamos matado algum capado, em cima do próprio fogão púnhamos aquela carne, e ele pegava o canivete, cortava um pedaço, tomava um copo de café, colocava aquilo no meio do pão e saía mastigando, com a enxada às costas. Eu saía e ficava a observá-lo. Quando ele chegava lá na virada do caminho, ele se virava, dava um sorriso e abanava a mão para mim. Isto era quase todo dia. Fomos ficando velhos, as coisas aqui melhorando e aqui aparecendo muita e muita gente. Às vezes o pessoal vinha buscar-me para ir em algum lugar para ajudar alguém. Nessas ocasiões, Jair dizia que ficaria aqui, mas eu lhe dizia: — Se você não for eu também não irei. E eu dizia ao pessoal que se não levasse o Jair também eu não iria. Sim, o meu velho tinha de estar sempre junto de mim. Ele resmungava, resmungava, mas acabava aceitando. Fechávamos a casinha, recolhíamos as galinhas e então íamos. Às vezes passávamos dois, três dias fora. Você acredita que até parto esta velha fez?! E não foi um nem dois: foram muitas as crianças que assim vieram ao mundo. E dessa forma era o meu trabalho. Não era muita coisa, mas fazíamos o que podíamos.

Após aquelas tantas recordações, Chica e Carlos adentraram a casinha e jantaram. Ela se recolheu e ele foi para fora. Chegara a noite e ele orava, relembrando a figura do seu pai.

De repente, eis um homem se aproximando de Carlos. Assustado, ele passou a mão numa foice que ali mesmo estava, pensando ser um ladrão ou coisa assim.

— Não tenha medo! — disse aquele homem. — Vá descansar, pois amanhã você tem um dia todo de trabalho.

Aquela aparição sumiu, deixando Carlos todo arrepiado, sem entender o que acontecera. Ele foi ao quarto, viu Chica dormindo e deixou a lamparina acesa, com muito medo.

No outro dia ele foi na bica e se lavou. Pegou uma bacia com água e colocou em cima da mesa para que Chica, já acordada, também se lavasse.

— A senhora não sabe o que aconteceu comigo! Eu estava lá fora, sem sono, e de repente apareceu um homem vindo lá de baixo. Ele tinha um capuz na cabeça. Acho que ele sentia frio. Não vi o seu rosto. Ele pediu que eu entrasse para dormir, porque era muito perigoso ficar lá fora.

Chica deu uma risada gostosa.

— Por que a senhora ri assim?!

— Ora, estou rindo pelo seu medo... Era apenas o seu pai que veio pedir para você entrar, porque, realmente estas não têm sido umas boas noites. Há muita coisa ruim acontecendo, mas muita coisa ruim mesmo. É preciso ter muito cuidado, pois tem coisa ruim rondando aí... Mas pode ficar despreocupado, pois, antes de morrer, esta velha vai resolver todos esses problemas.

Os dois dialogavam e, subitamente, eis um barulho entrando lá dentro da casa.

Carlos quis entrar para ver o que era, mas Chica o deteve:

— Acalme-se! Fique aí sentado. Isso não é coisa deste mundo, meu filho... Mas você precisa ir lá na sua casa, porque precisam de você lá. Pode ir tranquilo. Tenho um pouco de comida de ontem e é o bastante.

— Não! A senhora pode cair, se machucar.

— Não vou cair nem me machucar, porque ainda não chegou a minha hora. E será bom, porque preciso mesmo ficar aqui sozinha! Vá! Pegue o seu cavalo e vá agora cedo, pois à tarde precisa estar de volta.

Carlos foi muito bem recebido por José Pedro e os demais, pois há muito se ausentara.

Os filhos de José Pedro já estavam todos encaminhados para o casamento. Fizeram uma festa para Carlos.

José Pedro perguntou:

— E dona Chica?

— Estou muito preocupado. Ela já está muito velha. Depois da morte do velho ela se acabou. Mas nunca vi tanta força! Hoje, pela idade e pelas dificuldades dela, poucas pessoas vão visitá-la. Quando ela estava boa, benzendo todo mundo, era aquele monte de gente ao lado dela. Quantas pessoas iam comer junto com ela! Hoje a coitada recebe pouca gente, mas a mesma alegria se vê no rosto dela.

— Mas foi bom você ter vindo. Recebemos uma informação que me deixou muito triste. Sim, porque você bem sabe: o Severino para mim está morto! A informação chegou lá na escola e a professora Lourdes a trouxe para nós. É uma carta vinda de São Paulo. Não sei como é que ela nos foi endereçada, mas é de um tal Dr. Frederico, que pede a permissão para mandar alguém nos buscar para irmos a São Paulo. Mas lhe digo uma coisa! Compramos isto aqui, temos terra para todos, e tudo com o nosso próprio suor. Você também tem a sua parte e o considero meu próprio filho.

— Eu também, por várias vezes, chamei o senhor de pai...

— Mas não quero, de forma nenhuma, que aquele meu filho pise na minha casa! Ele pode ser doutor, pode ser rico do jeito que quiser, mas para mim não é mais o meu filho! Meus filhos são estes aqui, que 'criei com honestidade, com muito amor e carinho. Aprendemos a lida da roça e temos isto aqui. Hoje não precisamos de um tostão de ninguém, graças a Deus e graças a você! Sim, a minha dívida por você é muito grande. Se aqui estamos é por causa de você.

Triste, Carlos se sentou lá na beira do fogão.

— Por que está triste? — perguntou José Pedro.

— Sei que também eu trouxe coisas ruins para vocês. Foram coisas tão ruins que vocês nem imaginam! Eu deveria ter sumido com aquelas pedras... Dona Chica me disse que coisa boa não é de esperar disso.

— Não tem nada a ver... Cada um de nós é responsável pelo que faz.

— Graças a Deus deixei aquela vida! Aquelas pedras só me trouxeram desilusão. Vocês foram a única coisa boa que me veio delas. E graças a Deus vocês prosperaram! Isto me dá uma alegria, uma felicidade muito grande!

— E o que acha? Devemos permitir que Severino venha aqui?

— O senhor é o pai! É o senhor quem sabe! Não sei se isto pode ser muito bom ou muito ruim. Ele deve ter lá os seus filhos e eles são os seus netos.

— Não tenho neto daquela raça! Daqui a pouco terei os netos dos meus filhos daqui.

— Estou preocupado com dona Chica. À tarde devo estar lá. Quanto mais Deus permitir que ela viva na Terra, mais contente ficarei.

E assim foi. Carlos almoçou e foi ter com Chica, que, sentada, deu um sorriso e disse:
— Pois bem, meu filho! O que tinha que acontecer já aconteceu. Eles já vieram e já se foram...

— Do que é que a senhora está falando?!

— Eu estava muito fraca e havia muita coisa que aconteceria para lhe prejudicar, mas, graças a Deus, consegui retirar esses espíritos de perto de você. Mas o meu dia está chegando. Esta noite quero que você faça uma oração. Esteve aqui a nossa Santa Luzia e disse que estará do nosso lado. É estranho! Achei que ela me abandonara, mas ela disse que não, que esteve olhando para dentro de mim, cuidando do meu coração, dos meus intestinos, para que eu ainda continuasse vivendo e passando para alguém tudo o que sei. Pude passar um pouco para você, filho. Então aprenda, use das coisas boas.

Carlos viu que uma mulher caminhava em sua direção. Ela disse:

— Não tenha medo! Sou sua mãe! Todo tempo estive do seu lado. Não, você não está sozinho!

Em seguida, Carlos viu que um homem se acercava.

— Eu sou o seu pai! — disse ele. — Sou aquele que chamavam de Chicão.

O coração de Carlos bateu em descompasso e ele balbuciou:

— Vocês fizeram com que eu vivesse na Terra...
Sim, meu filho! — disse Chica. — E você também tem um pouco de poder dentro de você. Também você pode ver e conversar com os mortos. Então pedi a Deus que me desse a força para fazer com que você visse esses que lhe deram a vida. Na verdade, meu filho, tudo isso vem do Pai lá de cima...

Carlos estava emocionadíssimo. Chica lhe segurava firmemente a mão, cedendo energia para que aquilo acontecesse.

Duas crianças surgiram ç ficaram ao lado dele. Lágrimas ele deixou escapar e cada um dos seus irmãos enxugou uma sua lágrima, dizendo:

— Nem a morte conseguiu nos separar!

O pai disse:

— Fique também com Deus, meu filho! Que Jesus lhe dê paz para que ela permaneça na sua alma!

Aqueles espíritos amigos se foram.

A voz de Chica se embargara, tal o dis-pêndio da energia necessária àquelas aparições. Olhos lacrimejantes, ela balbuciou:

— Meu filho, a minha missão neste mundo chegou ao fim. Antes que Deus retire a minha voz, quero dizer-lhe: você terá um grande problema e terá de mostrar muita paciência. Quero que você se recorde de tudo o que a Santa me disse: tudo aquilo que achamos feio às vezes é muito bonito, pois mal algum é permanente na Terra, porque a força do bem é muito grande e pode vencer as mais difíceis situações. Vou entrar agora. Eu queria lavar os meus pés e peço que lave também o meu corpo. Mas não se preocupe, meu filho, porque sou uma velha.

Carlos esquentou água e lavou todo o corpo dela. Colocou-lhe uma roupa limpa e a deitou na cama.

— A bênção, mãe!

— Deus o abençoe, meu filho! Você veio, como disse a Santa, para cuidar de mim. Então você é esse meu filho que chegou. Fique com Deus e que Ele o acompanhe por todos os caminhos! Vou descansar, porque amanhã tenho uma tarefa muito difícil.

Ela dormiu e Carlos, sob lágrimas, coração apertado, foi para o seu quarto e adormeceu. À meia-noite, ele escutou um badalar de sino. Lembrou-se da igreja e do seu sino e não se preocupou com aquilo, pois estava exausto. Às seis horas da manhã, ouviu seis badaladas. Ergueu-se, foi à cozinha e não viu Chica: ela já havia partido.

Desesperado ficou Carlos, quebrando o que via pela frente. Saiu ao quintal e se ajoelhou. Santa Luzia lhe disse:

— Meu filho, agora é por nossa conta. A sua protetora da Terra não está mais na Terra: ela voltou para a nossa morada.

Ele olhou para a porta e viu Chica saindo, ladeada de dois espíritos alvíssimos, encimados por uma luz esplendorosa. Ela estava com uma roupa marrom, como se fosse uma freira, e sobre a cabeça um manto de religiosa. Ela fitou Carlos e disse:

— Você sabe o que fazer, o que já lhe pedi. Coloque o meu corpo debaixo da Terra, assim como fez com o meu marido.

Os dois Emissários da Luz pegaram-na pelos braços e levaram-na às alturas.

Era uma visão de maravilha, a encher de luz aquela choupana. Uma intensa claridade, jamais vista noutro lugar da Terra! Algo visto somente lá onde reencarna aqueles missionários de Deus que se esquecem do conforto das coisas terrenas e se vestem da roupagem da simplicidade.

Carlos vestiu em Chica a melhor roupi-nha. Colheu todas as flores do jardim e pôs sobre ela, na varanda em que a depusera. Pegou arruda, alecrim e toda erva que ela havia, um dia, recebido de presente de Santa Luzia e colocou nas mãos dela. Foi até aquela árvore, cavou e preparou uma cruz.

As lágrimas dele já não eram de desespero, e sim de alegria, de conformação. Pegou um cobertor, na falta de lençóis, cobriu o rosto dela, beijou-o e a enterrou. Ao lado fincou a cruz. Foi até o galinheiro, o curralzinho e soltou os animais. Preparou o cavalo e, lentamente, foi cavalgando.

Ao passar perto das duas cruzes, eis uma visão confortadora: Chica e Jair, sorridentes, rejuvenescidos, acenavam a sua despedida.
— Adeus! — disse Carlos, ajeitando na cabeça o chapéu.

Era pouco depois do almoço.

Carlos desceu a serra, chegou num riacho e dessedentou o cavalo. Lavou o rosto, bebeu da pura água e, olhando para cima, viu André, seu pai adotivo. Sorriu, montou no animal e galopou.

Lá na fazenda de José Pedro, viram Carlos chegar visivelmente abatido, entristecido.

— O que aconteceu? — indagou José Pedro.

— Dona Chica morreu! Enterrei-a da forma que pediu.

— Então vamos pedir uma missa ao padre.

— Iremos amanhã cedo.

No outro dia foi rezada a missa. Retornados à fazenda, disse Carlos a José Pedro;

— Vou até lá para desmanchar aquela casa. Construirei lá uma igreja. Doaremos aquelas terras.

Foram lá e prepararam tudo. Logo estava erguida uma igreja.

Preparado o altar, eis que Chica apareceu para Carlos e, percebendo que pensavam em colocar no templo o nome dela, disse:

— Não me cabe dar nome a esta igreja. Coloque o nome daquela Santa que tanto me ajudou na vida.

E assim a igreja tomou o nome de Santa Luzia.
Lá na fazenda morava um colono muito prestativo, chamado Joaquim. Construíram uma casinha para ele ao lado da igreja, e ele, muito católico e dedicado, assumiu o trabalho de deixar sempre limpa e formosa aquela igreja que despontava lá no alto, formando belíssimo panorama.

Com o tempo, Joaquim foi dividindo a propriedade aos parentes, aquele local se tornando uma vila próspera.

11

DERROCADA DE DR. FREDERICO

Carlos visitou a sua família e matou a saudade.

Lá todos haviam prosperado e disseram a Carlos da parte da propriedade que lhe pertencia por herança, mas ele disse:

— Passo a vocês os meus direitos. Não quero nada neste mundo. Vim aqui apenas para me divertir.

Fizeram uma festa muito alegre e, um mês depois, Carlos pensou em tomar outro rumo, instalar-se na cidade, mas no caminho seu pai lhe apareceu e disse;

— Você tem uma missão! Não pode fugir da responsabilidade! Volte lá para a fazenda de José Pedro. Lá é o seu lugar. Aquelas terras também lhe pertencem.

— Não quero terra nenhuma! Quero ser igual à dona Chica!

— Ela também tinha as terras dela... Ela teve um lugar onde morrer, e você não. Meu filho, você pode fazer o que pensar e quiser, mas escutou o que ela lhe disse? Deixe que ela agora fale. Você não precisa vê-la: basta ouvi-la.

Carlos sentiu a presença de Chica e ouviu:
— Volte à fazenda!

Ele retornou. Chegou muito cansado e foi muito bem recebido. Houve um casamento do filho de José Pedro e todos participaram da grande festa.

De repente chegou nova carta na escola, anunciando a breve visita de Dr. Frederico à fazenda.

Foi uma nova bomba. Carlos disse:

— Vou encontrar-me com ele em São Paulo.

Todos se agitaram. Os colonos queriam saber quem era aquele misterioso Dr. Frederico comentado até pelos alunos da escola.

José Pedro, vendo a determinação de Carlos, ponderou:

— Se você for, poderão desencontrar-se, pois ele já está a caminho.

Carlos ficou então à espera.

Logo chegou Dr. Frederico na porteira da fazenda. Vinha bem vestido, com terno, chapéu, parecendo um rei, acolitado de protetores. Foi abraçar o pai e este se esquivou, dizendo:

— Nenhum filho meu nasceu para ser um ladrão!

Àquelas palavras fortes, disse Severino:

— Eu me chamo Frederico e então não posso ser o seu filho, mas pelo menos um abraço na minha mãe quero dar.

Zenaide o abraçou e disse:

— Seja o que for, meu filho, você nasceu de dentro de mim e jamais negarei que é o meu filho! Mas você fez muita coisa errada, meu filho!

Carlos apareceu ali e foi dizendo:

— Seja bem-vindo, João!

Abraçou-o fortemente e Severino disse:

— Não sou João! Sou Dr. Frederico!

Carlos se afastou e disse:

— Já volto para conversar com você.

Carlos viu André, que lhe disse:

— Peça a esse irmão que doe a sua fortuna aos pobres, aos necessitados e volte a morar com a sua família.

Carlos aconselhou:

— Pai, não dê as costas ao seu filho. O seu filho voltou! E você, João, pegue todo o seu dinheiro e dê aos pobres e venha viver conosco, para ser abençoado por Deus. Nenhum daqueles que usam o ouro do tolo consegue prosperar na vida. Você foi manipulado pelas forças do mal, mas eu estou aqui para lhe ajudar! Eu não lhe darei as costas!

A reação de João foi pronta:

— Como pode?! Você é louco! Tenho uma riqueza incalculável que pode comprar muitas fazendas iguais a esta...

— Nenhuma grama desse ouro de tolo lhe colocará perante Deus e você muito clamará! Arrependa-se, irmão, e volte para o seu pai, para a sua mãe! Traga a sua família!

João saiu dali rapidamente, aborrecido.

Grande era a vergonha de José Pedro, homem que não se vendia de forma alguma.

Carlos, entendendo a dor daquele filho escorraçado, saiu a galope e o alcançou.

Porém, a atenção era pouca para ele. Fixou o olho do rico homem e disse:

— João, meu irmão, deixe que eu lhe ajude!

— Não sou seu irmão. Sou um doutor e não me chamo João!

Carlos viu os olhos lacrimosos de’ João e disse:

— Não se desespere! O seu pai criou todos vocês com muito orgulho. Hoje os seus irmãos estão todos casados e estão aí na fazenda. Quanto a você, escolheu outro mundo — e não o incrimino por isto. Não! Pelo amor de Deus, quero ajudá-lo! Você conheceu o seu pai muito mais do que eu e sabe que ele não iria dar o braço a torcer tão facilmente e só porque chegou aqui de repente. Não é assim. Dê um tempo a ele. Vou conversar com ele.

— Você pediu que eu jogasse fora aquelas pedras, mas de que nos adiantaria? O que de bom fora feito para nós? Você perdeu a sua família, perdeu tudo, enquanto os ricos dominam cada vez mais os mais fracos. Re-solvi então ser um deles. O que fez Dr. Diogo? Trabalhávamos de sol-a-sol e ele dizia que a menor parte era nossa e a maior parte era dele. Não, não era justo! Você sabe o que fiz. Sei que do meu pai não será fácil e nem quero também o perdão, mas fique bem claro que nunca me arrependí e não me arrependo.

— Não é bem por aí...

— Se eu não tivesse ficado doente, se eu não tivesse ido naquela benzedeira, as coisas comigo seriam bem diferentes.

— Ora, ela lhe curou! Mas ela viu em você o orgulho e a ambição e, vendo isto, sabia que isto provocaria essa distância entre você e o seu pai. Ela sabia o quanto o seu pai é honesto.

— Ela arruinou a minha vida dizendo essas coisas! Nem sei porque Deus deixa viver uma pessoas dessas!

— Essas são almas bondosas que Deus nos manda para nos confortar. Se você me oferecer toda a sua riqueza, jamais aceitarei. Acredito em dona Chica e nas almas que ela via. É uma pena que Deus a tenha levado!

— Como pode uma mulher daquela morar com Deus?! Ela me separou do meu pai e da minha mãe. Se ela não tivesse dito nada daquilo, até vocês me apoiariam no que eu iria fazer. É por causa dela que vocês se revoltaram contra mim.

— Não eu! Jamais me revoltaria contra você. Você é dono dos seus atos, sabe muito bem o que pode fazer. Mas lembre-se: lá em cima está Deus! De você não quero nenhum tostão, mas apenas aproximá-lo do seu pai, porque somente ele pode ajudá-lo.

— Nunca mais quero vê-lo! Ele me expulsou de sua casa!
— Você olhou para sua mãe, viu o brilho dos olhos dela quando o viu? Já imaginou, Doutor, nunca mais poder fitar os olhos da sua mãe, somente por causa do ouro do tolo, daquele que escolheu a vida da fartura no lugar da vida da roça? Quantas não são as pessoas endinheiradas que estão doentes e o dinheiro não pode curá-las? Estes trocaram a sua fortuna por este trabalho árduo aqui, porque não têm a saúde que lhes pudesse dar alimento ao seu ouro, à sua fortuna. Não quero que você me leve a mal e também não vim aqui para brigar com você. Quero afirmar que, apesar de tudo, a nossa amizade continuará a mesma. Se você permitir, irei visitá-lo, conhecer sua esposa, seus filhos.

— Estarei nesse lugar — disse Dr. Frederico passando-lhe um cartão com o seu endereço.

— Levarei o seu abraço ao seu pai, o seu pedido de desculpa e o pedido de bênção à sua mãe. Vá com Deus!

— Carlão, poucas pessoas no mundo são iguais a você! Você não se preocupa com dinheiro, com nada. De onde vem essa bondade do seu coração?

— Porque sabendo que não tenho nada sendo amigo de todo mundo, todo mundo será amigo meu. Então não me preocupo. No dia em que eu morrer, não darei problema para ninguém. Sinto-me feliz assim. Mas, quanto a você, tenha cuidado, mas muito cuidado mesmo, pois pressinto algo ruim para você!

Carlos montou no seu cavalo e cavalgou vagarosamente. De repente, viu um homem a acompanhá-lo. Aquele homem tirou da cabeça o capuz e Carlos viu: era o seu pai.

— Meu filho — disse-lhe aquele espírito —, você deve ir para São Paulo, daqui a uns dias, pois a coisa por lá estará muito complicada. As coisas têm ouvidos e, quando menos imaginar, verá uma grande confusão. É essa confusão que você tem que tentar evitar. Talvez que não consiga. Depende de os corações estarem abertos para aceitar a bondade de Deus e de Jesus. Muita paciência, muita calma! Procure respirar fundo antes de responder alguma coisa, pois isto será muito importante doravante.

Carlos cavalgou até a casa de José Pedro observando, alegre, a natureza bela. Viu dona Chica e se maravilhou: ela apenas sorriu, colocou o capuz na cabeça e se foi.

Na fazenda encontrou Zenaide em pranto. Abraçou-a e disse:

— Mãe, ele não morreu! Pediu a sua bênção. E onde está José Pedro!

— Lá embaixo...

Carlos foi ter com José Pedro e o encontrou também chorando.

— Por que chora? — indagou Carlos.

— A coisa mais dorida é ter de expulsar de casa um filho, aquele que vi nascer, crescer. Quanto sofreu ele aqui na roça! Quanto trabalhamos neste chão! E hoje eu o reencontro, depois de tanto tempo, e tenho de man-dá-lo embora!

— Não se preocupe. O senhor fez a melhor coisa, o que pediu o seu coração. Tudo servirá para ele refletir. Mas vamos até ali...

Sentaram-se perto de um rego d’água que descia em meio a umas pedras e Carlos disse:

— Que maravilha! Como esta propriedade é rica em água! Vou contar-lhe uma coisa. No tempo que estive com Chica, pude aprender muita coisa com ela. Ela me mostrou coisas que até então eu não conseguira ver. Eu andava tateando na escuridão. Comecei a ver meu pai, minha mãe e uma bela mulher que se chama Santa Luzia. Aquela mulher, com seus olhos lindos, apareceu para mim quando eu menos esperava e me disse que eu seria muito feliz neste mundo e que eu ainda teria um trabalho muito importante a realizar. Ora, esse trabalho é trazer de volta para nós o seu filho. Ele me passou o seu endereço e quero ir até lá.

— Você, realmente, é diferente dos demais! Você não gosta de nada do que os outros gostam. Muitas vezes teve a oportunidade de ficar rico, mas sempre viveu para ajudar os outros.

— Vou à cidade, comprarei uma roupa pouco melhor e darei um jeito de ir para São Paulo.
Ali na fazenda morava Dionísio, rapaz muito trabalhador. Era aquela pessoa que estava em todo lugar, que tudo fazia. Mas José Pedro sempre desconfiava dele, porque era muito esperto e bisbilhoteiro.

Ora, Dionísio logo tomou notícia da visita daquele Dr. Frederico que ninguém sabia quem era. Perguntou daqui, dali e descobriu que tratava-se do filho de José Pedro que havia sumido. Sabia do episódio das pedras preciosas de Dr. Diogo e se motivou a garimpar. Pediu a Carlos que o ensinasse, mas Carlos se esquivou.

— Sei que vocês compraram com diamante estas terras — insistiu Dionísio.

— Não foi apenas com pedras: também trabalhamos duro para uma boa colheita.

— Mas o senhor sabe do local dos ga-rimpos, sabe do lugar em que estão lá os diamantes.

— Dionísio, não quero mais saber de garimpo! E você, se trabalhar com amor na lavoura, também conseguirá ter alguma coisa, o que terá mais valor do que o dinheiro do diamante. Aquilo é vida de ilusão! Até hoje não vi nenhum garimpeiro que tenha conseguido dar-se bem na vida.

José Pedro ali chegou e captou as intenções de Dionísio. Em voz forte, disse-lhe:

— Dionísio, você tem muito mais o que fazer! Não se intrometa nas coisas! Mas, Carlos, o que está acontecendo?
— Ora — disse Carlos —, ele insiste em garimpar e tento desviá-lo disto.

— É sim, senhor Pedro — atalhou Dioní-sio. — Sei que vocês compraram isto aqui com dinheiro de diamante e então por que é que eu também não posso fazer isto?

— Rapaz — disse José Pedro —, não se intrometa na minha vida! Se for para você ficar aí bisbilhotando, pegue as suas coisas e vá embora. Não gosto de gente intrusa e vejo você bisbilhotando daqui, dali. Ora, pago-lhe tudo com exatidão e então vá cuidar das suas coisas. Minha vida já é difícil e dela cuido eu! Vá cuidar da sua vida! É em respeito ao seu pai que ainda mantenho você aqui!

Dionísio se foi, emburrado, e Carlos ponderou com José Pedro:

— O senhor foi muito áspero. Ele saiu magoado...

E Carlos foi atrás de Dionísio e lhe disse:

— Não leve a mal. José Pedro está muito machucado por causa daquele filho dele que veio aqui. Não é de bom agrado você conversar com ele por enquanto.

Dionísio resolveu mudar de serviço. Por três dias não foi trabalhar. Pensou em procurar serviço na fazenda de Dr. Diogo, pensando em obter uma chance de garimpar.

— Pai — disse ele —, vou dar umas voltas por aí para arranjar outro serviço. Peço receber de José Pedro o que tenho para receber. Vou ver se arrumo alguma coisa melhor.

Logo ele chegou na fazenda de Dr. Dio-go. Era tarde quando ele se apresentou e disse da sua intenção de garimpar. Um serviçal lhe arrumou pouso e no outro dia se entur-mou com os garimpeiros.

Naquele dia nenhum diamante foi encontrado e os garimpeiros retornaram à tarde.

Por ali estava Dr. Diogo e conversou com Dionísio:

— Como é que está José Pedro?

— Está assim, assim... Descombinei com ele porque chegou lá um filho dele, dizendo-se um doutor muito poderoso, e o pai não o aceitou de volta. É o que sei... Ele se foi. Carlos foi atrás dele, mas não sei o que aconteceu.

— Como é esse doutor?

— Ele se veste muito bem. Usa terno e gravata. Tem até segurança.

— Alguma coisa tem de errado ai — balbuciou o fazendeiro. — É o seguinte. Retorne lá e tente saber de tudo. Você será bem pago para me trazer alguma informação.

Dionísio já saía quando o abordou o fazendeiro e lhe passou um pouco de dinheiro.

— Sim, doutor! — disse o rapaz, muito contente. — Estarei de volta assim que souber de alguma coisa.

Dionísio chegou em casa, escondeu o seu dinheiro e no outro dia foi trabalhar normalmente. Pegou um serviço de empreita com José Pedro.

Zenaide, muito inocente, começou a tratar muito bem aquele rapaz. Dava-lhe o café e o leite, conversava com ele.

Dionísio disse àquela dedicada mulher:

— Vi aquele homem... Chamavam-no de doutor, doutor...

— É o meu filho. Ele está em São Paulo. Meu marido fez aquilo com ele e o aborreceu. Ele agora é um doutor. Hoje ele não é nada de Severino ou de João: é Dr. Frederico. É um homem de grande poder e mora lá na Capital. Mas eu gostaria que ele abandonasse aquilo tudo e viesse morar aqui.

Carlos chegava da cidade, viu Dionísio saindo dali e perguntou a Zenaide:

— O que foi que a senhora conversou com ele?! Não fez bem em conversar com ele. Mãe, a senhora não sabe quem é esse rapaz!

— Você, Carlos, é o único que não tem aqui a sua casinha. Veja os meus filhos, todos casados... Você não é da minha barriga, mas é do meu coração!

— É um perigo conversar com esse rapaz. Mas estou cansado e vou repousar.

Mais tarde, sabendo do que ocorria, Carlos foi à procura de Dionísio e não o encontrou. Dirigiu-se à cidade e no caminho lhe apareceu dona Chica, a lhe dizer:
— Filho, tudo já está começando. Tenha paciência, tenha calma! Lembre-se: Deus o ajudará!

Dionísio foi ter com Dr. Diogo e lhe passou tudo o que ouvira.

Dr. Diogo logo se deu conta de que os diamantes eram os responsáveis pela fortuna de Dr. Frederico. Tinha dois filhos em São Paulo, chamados Napoleão e Leopoldo, também advogados, e os contatou.

Carlos se movimentou. Sabia que um trem-de-ferro passava por ali às manhãs. Mas o esperto Dr. Diogo passou a vigiá-lo com os seus serviçais.

Indo à cidade para encetar viagem, Carlos foi visto por Dr. Diogo. Na sua simplicidade, foi ter à estação e ficou à espera do trem. De repente foi abordado por um senhor desconhecido, que lhe disse:

— Há alguém ali que precisa conversar com você.

Sem perceber o perigo, Carlos o acompanhou e logo viu que se tratava de Dr. Diogo, que lhe disse:

— Você não irá embarcar! Temos de conversar! O nosso assunto ainda não acabou!

Levaram Carlos à fazenda e o ocultaram.

Na propriedade de José Pedro todos julgavam que Carlos viajara para São Paulo.

Carlos foi torturado, indagado por toda forma. Foi uma semana de tortura. Na sua fé, ele rogava a proteção divina. Seu rosto estava desfigurado de tanto apanhar. E ele sempre dizia:

— Eu não garimpo mais... Não sei de nada...

— Aquelas pedras — dizia o fazendeiro — que você me trouxe eram falsas.

— Eu não trouxe nada e o senhor sabe disto — e não sei quem sabe disto. O que o senhor quer de mim?

— Quero saber onde está o João Lam-bão. Ele sumiu e agora dizem que foi visto lá na fazenda.

— O senhor está cometendo uma besteira muito grande, mas se tiver a intenção de me matar, por que não me mata de uma vez? Não tenho nenhuma informação para o senhor. Ora, se ele voltou, veio visitar a fazenda. Não sei onde ele vive, onde ele está.

O cartão de Dr. Frederico estava bem guardado no bolso de Carlos e ninguém o revistara.

Judiaram e judiaram dele. Amarraram-lhe uma venda preta nos olhos, montaram-no num cavalo e levaram-no para um lugar bem distante. Espetaram com espinhos todo o corpo dele para que sangrasse até à morte e soltaram-no na mata, julgando que ele não teria nenhuma escapatória.

Carlos não tinha nenhuma noção de onde estava. Sozinho, sem cavalo, com fome e sede, saiu a caminhar. Chegou numa nascente e pensou: se seguir riacho abaixo, chegarei em algum lugar. E assim fez.
Chegando a noite, eis que ele ouviu uma voz:

— Saia da água e venha cá!

Ele subiu o barranco e seguiu a direção da voz. Viu à frente uma planície. Deitou-se sob uma árvore, exausto. Quando estava por adormecer, viu a aproximação de Santa Luzia. Ela o cobriu e ele adormeceu.

O Sol do outro dia bateu no rosto dele e o acordou. Olhou para as suas feridas e se pôs a lavá-las no riacho. Bem limpo, subiu de novo o barranco. Foi quando viu algo gratifi-cante: dona Chica apontava lá para cima, indicando um caminho que ele devia trilhar. Ele foi naquela direção e, chegando lá em cima, avistou ao longe uma construção. Seguiu para lá e viu que era uma igreja, onde encontrou um seu amigo que lhe deu apoio.

Quando enfim chegou em casa, Carlos foi crivado de perguntas e relatou todo o ocorrido.

Indignado, disse José Pedro:

— Chamemos todos os familiares! A coisa agora irá complicar-se! Iremos naquela fazenda. Se Dr. Diogo tem gente, nós também temos! Conheço muitos na cidade que matam por pouco dinheiro.

— Não! Não é assim! O nosso problema não está aqui: está lá na Capital. João corre sério risco lá em São Paulo. Aquele homem irá caçá-lo por lá. Sei que esse fazendeiro tem os filhos dele e que são doutores em São Paulo. Preciso ir para lá!
— E eu também! — disse José Pedro, resoluto.

— Não, não precisa...

— Vou sim! Meus filhos ficarão aqui e irei com você! Não, você não sai daqui sem mim!

Carlos conseguiu curar mais ou menos as feridas e seguiu para a estação com José Pedro.

Em São Paulo, Leopoldo e Napoleão já haviam localizado Dr. Frederico. Este, sem saber o que ocorria, foi chamado pelos dois advogados para uma negociação.

Napoleão mostrou-lhe um grande empreendimento imobiliário, tentando atraí-lo para o seu lado. Levou-o até lá e rendeu-o com os seguranças.

— Sou filho de Dr. Diogo — disse-lhe Napoleão. — Viemos aqui buscar o dinheiro que você roubou, o dinheiro das pedras do nosso pai. Dizem que você o tapeou, deu pedras falsas para ele e fugiu com as verdadeiras. Estamos sabendo de tudo e você não terá ninguém para ajudá-lo! Você assinará este papel aqui, confessando e passando para nós os seus bens.

— Tudo bem! — disse Dr. Frederico. — Mas posso ficar com alguma coisa para mim ou perderei tudo?

Dr. Frederico começou a mostrar-lhes uns prédios, umas residências, e eles Ora, Dr. Frederico realmente estava en-tabulando negociação com tudo aquilo, mas não era nada dele. Tinha consigo todos os relatórios daquilo e os mostrava ali, como se tudo fosse realmente de sua posse. Em suma, enganava-os com a sua esperteza e eles morderam a isca. Relacionaram tudo aquilo e Dr. Frederico assinou a transferência.

Tudo assim efetuado, Dr. Frederico foi levado a um local isolado e baleado. Levou um tiro no peito e, sendo atingido no pulmão, respirava com dificuldade.

Vicente, uma testemunha daquilo, saiu correndo e chamou socorro, muitos acorrendo ali.

Naquele clima, eis chegando ali José Pedro e Carlos e ainda conseguindo ouvir de João:

— Se eu tivesse jogado fora aquelas pedras, nada disto ocorrería. Mas não me arrependo, porque aquela gente é muito ruim!

Disse-o e morreu. Fizeram o velório e o enterraram.

Carlos e José Pedro conheceram a esposa de João e os seus filhos. Estes, para sua surpresa, tinham os seus mesmos nomes: Carlos Henrique e José Pedro. Este, mais velho, disse a José Pedro:

— O senhor é o meu avô! Meu pai me deu o meu nome por causa do senhor.

E José Pedro, depois de confortar aquela família, disse a Carlos:
Agora posso retornar à fazenda e levar esta triste notícia.

Aquele crime abalou a Capital.

Os dois advogados constataram que haviam sido enganados. Perseguidos pela polícia, foram para a fazenda do pai e este os enviou para a Europa.

Carlos se sentiu na obrigação de cuidar daquelas duas crianças até que crescessem e se via na contingência de administrar os bens daquela família. Disse a Dalva, esposa de João:

— Ora, não sei fazer essas coisas...

— Eu sei mais ou menos — disse ela.

— Você é tão jovem ainda e precisa arrumar um outro marido.

Carlos continuou firme ali, pregando uma boa conduta àquelas crianças, que iam crescendo e eram com frequência levadas à fazenda.

Com o tempo, o mais velho, José Pedro, assumiu as finanças do pai falecido.

Com isto, Carlos, bem idoso, voltou à fazenda.

12

COLÔNIA SANTA LUZIA

José Pedro adoeceu e desencarnou.

Carlos mandou construir uma casinha lá em cima do morro e começou a se dedicar ao trabalho de benzer as crianças, os necessitados. Os bons espíritos o auxiliavam e ele cuidava com carinho e amor daqueles desajustados.

Certo dia chegou ali um jovem muito alegre que lhe disse:

— Meu pai é novato por aqui. Está comprando as terras do fazendeiro. Fiquei sabendo que o senhor benze e vim conhecê-lo.

— Que terras estão comprando? Quem é o seu pai?

— Meu pai tem negócios em São Paulo. Resolveu mexer com fazenda e comprou uma lá do outro lado. O dono está muito doente e foi se tratar na Capital. Mas fiquei sabendo que o senhor conversa com os espíritos e faz benzeção, e então vim para conhecê-lo.

— Qual é o seu nome?

— José Henrique.

— É muito bom que tenha vindo aqui.

Carlos caminhou, olhou para os lados e disse:

— Pois bem! Tudo está recomeçando!

— Para cá veio também o meu irmão mais novo. Vou conversar com ele sobre o senhor, pois também gosta dessas coisas.

— E quem era o dono da propriedade?

— Um tal de Dr. Diogo.

— Então vá e amanhã traga aqui o seu irmão.

Ele se foi. Chegou ali senhor Roque e Carlos lhe pediu para que preparasse ali um grande almoço para o outro dia.

No outro dia foi preparado o banquete.

Chegaram os dois meninos e Carlos indagou a José Henrique:

— Como se chama o seu irmão?

— Pedro Henrique.

— Que beleza! Eu me chamo Carlos Henrique e então alguma coisa em comum tem a nossa vida.

Logo Carlos percebeu que os meninos eram os seus dois irmãos, ora reencarnados. E, chegado o momento, convidou:

— Agora vamos comer.

Uma forte afeição unia aqueles três. Carlos contou aos dois a sua vida, desde pequenino. Falou-lhes dos seus dois irmãos, de Chica, mas não disse que tudo se dera naquela mesma fazenda de Dr. Diogo.

Os dois se foram, mas voltaram e voltaram inúmeras vezes, até que Carlos, bem velho, adoeceu e passou a ser cuidado por José Henrique e Pedro Henrique.

Um dia, pediu Carlos a José:

— Levem-me até ali fora. José, entre o céu e a terra há muitas coisas. Já vou embora, porque já chegou a minha hora. Devo dizer-lhe uma coisa: vocês dois foram sim os meus irmãos em outra vida. Sejam honestos, trabalhem, pratiquem o bem, sem ficar olhando somente para o dinheiro, pois ele traz mais miséria do que a própria pobreza. Pobre, a pessoa pode até viver mais.

— Vamos ficar aqui com o senhor!

— Está é a minha última noite. Vejo uma mulher muito bela ao lado de vocês. É a mãe de vocês e é também a minha mãe. Ela segura em minha mão e me diz belas coisas. Agora chegou Chica e ela também está maravilhosa, e pede para que eu fique em silêncio. Ficarei então em silêncio. Vou dormir um pouco, pois amanhã teremos muito o que fazer.

Carlos foi retirado do corpo e chegou num lugar belíssimo, parecendo estar sobre as nuvens, em meio a flores e flores. Sua mãe se lhe aproximou e depois Santa Luzia. De repente, a figura daquela linda mulher loira.

— Quem é você? — indagou Carlos.

— Sou aquela que você chama de mãe. Sou a Chica.

— Mas tão diferente assim?!

— Meu filho, na Terra é de um jeito e aqui é de outro jeito. Venha e lhe mostrarei uma coisa muito bela. Olhe para aquela montanha no horizonte. Aproximemo-nos.

Aproximaram-se e de repente uma igreja se formou à frente deles.
O que você acha que é isto? — indagou ela.

— Não sei...

— Esta é a minha casinha lá da Terra e que você transformou numa igreja. E já lhe mostro algo diferente.

Adentraram aquela igreja e ela muito se expandiu, transformando-se num hospital.

— Está vendo, meu filho? Muitas dessas pessoas tive a oportunidade de benzer na Terra, mas até hoje permanecem doentes.

— Como pode ser isto, mãe?! Ora, elas tinham sido curadas...

— Meu filho, é tão difícil curar a alma! Ela às vezes não se cura apenas com o remédio da Terra. Às vezes você pode aliviar o sofrimento de uma pessoa, para que ela possa curar a sua alma. Foi o que fez Nosso Senhor Jesus, quando pisou na Terra, mostrando aos necessitados o rumo da Salvação. Ele dizia que ninguém chegaria ao Céu se não renascesse. E estes irmãos que você vê aqui são iguais àqueles dois irmãos que você teve e depois retornaram à Terra. Veja bem: eles nasceram e tão pequeninos foram sacrificados, porque sobre as costinhas deles estavam as dívidas deles e lá eles as pagaram. Aqueles mesmos diamantes que escaparam das suas mãos retornaram, de certa forma, a você, porque os dois pediram aquela reencarnação. E sabe por que, meu filho? Para ajudar você a também chegar aqui. Eles se tornarão homens e dividirão aquelas terras. Tudo o que ali era lágrima será transformado em moradia, em auxílio às outras pessoas, porque são duas almi-nhas preparadas para aquela situação. Da mesma forma, estes aqui reencarnarão, e isto não será difícil fazer, porque eles estão mesmo apegados à Terra. Ora, se os ajudamos lá, aqui também os ajudamos.

— Que coisa mais linda! Mas, mãe Chi-ca, há uma coisa que me perturba. Eu estava lá e a senhora me falou de uma missão que eu teria. Ora, achei que a minha missão não foi bem sucedida, a missão de ajudar, curar as pessoas.

— Você ajudou na medida que pôde ajudar. Mas a sua missão era passar por tudo aquilo e você o fez da melhor forma possível.

— E quanto ao nosso irmão João?

— Ah, filho! A situação dele não é lá muito boa...

— Ora, mãe, não pude salvá-lo. Cheguei muito tarde.

— Mas quem disse que você chegou tarde? Você chegou na hora certa. Observe como funcionam as coisas aqui. É muito diferente do que se pensa. Ora, fizemos de tudo para colocar na cabeça daquele rapaz que ele deveria voltar à casa dos pais, valemo-nos de todos os nossos recursos, e ele realmente foi, mas ele, chegando lá, deveria ter superado tudo. O amor se soluciona com amor. Ele se foi de lá e, graças a Deus, você foi atrás dele e aquelas suas palavras muito ajudaram para levar arrependimento àquele coração. Foi dada a ele uma nova chance de se libertar das coisas materiais, mas ele repetiu o mesmo erro: passou para outros o mesmo falso ouro, aquilo que não era dele. Poderia ter-se desfeito de apenas uma pequena parte que não lhe faria falta, mas mesmo assim se recusou. Ora, quem é que agora ficou com o ouro do tolo? Pois então venha cá, meu filho! Agora é coisa que não se pode fazer do jeito que se queira. Venha, abrace-me!

Abraçaram-se e adentraram num local repleto de diamantes. A cada diamante que se pegava, a mão se enchia de sangue. E Chi-ca disse:

— Veja: lá está o Severino, o João e Dr. Frederico — três nomes num só. Severino era um nome que o colocava em regular situação. O apelido de João era para que ele vestisse a roupa da simplicidade, e ele abandonou a simplicidade. Esses diamantes foram obtidos ao peso do sangue, do ouro do tolo. Ele ficará aqui até o dia em que se arrepender, para então sair deste inferno que ele construiu para si mesmo. Não cabe a mim o poder de retirá-lo dali. Ele sairá somente quando realmente manifestar arrependimento. Há vários anos está aí. Veja os joelhos dele: estão calejados de pelejar com essas pedras. Veja as mãos dele. Mas chegará o momento de o tirarmos daí. Deus é um bom Pai e nos uniremos para ajudá-lo. Tenha calma, paciência. Estes momentos servirão para que ele reflita bastante. Mas agora quero mostrar-lhe outra coisa diferente. Venha!

Caminharam dali e atingiram o outro lado daquele pequeno submundo. Lá viram, na mesma triste situação, Diogo: com muitas coisas de valor material à sua frente, mas sem poder tocar em nada. Em plena escuridão, ele lamentava situações e situações e nada podia confortá-lo.

— Como Deus sabe o que faz! — exclamou Carlos.

— Pois bem, meu filho! Agora lhe mostrarei uma situação diferenciada e que o deixará muito feliz.

Chegaram naquela igreja e o altar se abriu. Viu uma jovem que estava circunscrita a um espaço.

— Ela — disse Chica — tem tudo o que se pode tocar. Essa é a sua mãe Zenaide. Ela reencarnará entre os familiares. Aquele outro é o seu pai Francisco, que também se prepara para reencarnar. Não se pode conversar com eles nem tocar neles, para que não perturbemos o preparo deles. Tudo estará por conta deles e serão felizes. Mas venha!

Dentro da igreja se abriu outro espaço e deixou ver um espírito que reencarnaria numa família muito pobre e seguiría o caminho de Chica, benzendo e ajudando as pessoas, para mais à frente encontrar Zenaide reencarnadas, ela que o ajudaria então com o seu dinheiro.

Em Carlos se manifestou o desejo de rever José Pedro. Desceram então numa certa comunidade espiritual. Era como que uma fazenda enorme. De repente, viram um rebanho de belas ovelhas e, no meio delas, José Pedro e sua mãe.

— Está vendo? — indagou Chica. — Lá está aquele que foi o seu terceiro pai e aquela que foi a sua mãe. Ela o ensina como lidar com as ovelhas, porque ele reencarnará, será filho de um fazendeiro e lá terá muitos animais. Aqui ele se prepara, pois lá será um dos protetores de animais. Será rejeitado pelo pai por ser contra o abate de animais. Defenderá os animais selvagens, os rios e as florestas. A mãe dele o ensina e ainda permanecerá aqui por muito tempo. Então tenhamos paciência, meu filho!

Napoleão e Leopoldo desencarnaram na Europa e foram levados àquela mesma região umbralina de Diogo e João. Leopoldo foi juntar-se a seu pai e Napoleão se juntou a João.

Quando viu João, disse-lhe Leopoldo;

— Você passou para nós o ouro do tolo! Você nos enganou por duas vezes!

— E qual é o meu pecado? — indagou-lhe João. — É maior do que o do seu pai? Vocês viviam sacrificando e roubando as famílias, fazendo com que elas ficassem endividadas para explorá-las. As pessoas trabalhavam de sol-a-sol e, no fim, o que lhes sobrava mal lhes dava para o alimento, porque vocês eram os donos da terra. Estou aqui neste inferno, mas você ficará aqui juntinho de mim, o tempo que se fizer necessário, talvez para a eternidade, não sei... Nem sei se existe ou não existe Deus, mas sei que existo e estou aqui. E não me arrependo, porque do que fiz, não deixei ninguém passando fome. E você?! Olhe aqui nos meus olhos e diga para mim! Quantas famílias passaram fome? Quantas crianças morreram sem ter o que comer? Quantas vezes eu, sendo criança, não tinha o que de comer em casa? E vocês abusaram das famílias do sertão. Eu não tenho salvação, mas você também não... Estou aqui há muito tempo. Seu pai está do lado de lá...

— Está de lá?!

— Ele não teve a coragem de ficar deste lado. Vá você para lá. É só atravessar isso aí...

Napoleão foi para aquele lado mas bateu na cerca e, num choque, caiu para trás.

— Não consigo ir de lá — disse, lamentoso.

— Então você tem que ficar aqui mesmo.

Napoleão começou a gritar:

— Não quero ficar aqui perto de você, perto de um ladrão!

— O ladrão não sou eu... O ladrão é você... Agora tente sair daí...

— Você nos tapeou duas vezes.
— Foi ganância da parte de vocês. Se não tivessem ambição, se não quisessem conquistar as coisas à força, nada teria acontecido. Não tenho nenhum arrependimento do que fiz!

E assim ficaram ali os dois. Um mês, dois meses, um ano, dois anos e, de repente, vinte anos.

Napoleão começou a entrar em desespero, a chorar, lamentar. As barbas estavam enormes e eles estavam imundos, fedendo, em meio àqueles diamantes.

Quanto a João, estava calmo. Começou a se lembrar das dificuldades por que passara, da sua doença, de dona Chica. E pensou: Se fosse ela, o que faria aqui? E se dispôs a ajudar Napoleão, dizendo:

— Vou dar-lhe a mão. Venha cá!

E o arrastava para fora daquele brejo. Mas, irritado, berrava Napoleão:

— Solte-me! Solte-me!

Tendo saído daquele fétido lamaçal, Napoleão desabafou:

— Não suporto mais a sede!

João, condoído do seu sofrimento, disse:

— Meu Deus do Céu! Se houvesse aqui pelo menos um pouco d’água!

Naquele momento, seus olhos caíram em cima de uma planta que ali formava quase que um copo com água. Também ele estava sedento, há muito sem nada provar de uma água, mas disse a si mesmo: Tenho sede, mas ele está pior do que eu. E serviu aquela água a Napoleão, que logo se deu conta de que João não era tão ruim.

E assim João o foi ajudando e ele se foi recuperando.

Por mais dez anos permaneceram ali os

dois.

Napoleão disse:

— Meu pai está de lá e deve estar nesta mesma situação. Vamos de lá?

— A cerca nos impede, mas vamos! Já bebemos água e os diamantes já se foram. Vamos pegar água e pedir a Deus que nos deixe atravessar para o lado de lá.

Conseguiram e viram pai e filho sob grande tristeza, em meio a coisas horrorosas.

João lhes ofereceu água e os ajudou.

Em certo momento, pensou: Se eu pudesse ao menos encontrar aquela benzedeira que mandou jogar fora aquelas pedras! Hoje posso entender porque foi que ela disse que o ouro era de tolo! Há cinquenta anos aqui, neste sofrimento! É quase uma existência toda na Terra!

Naqueles momentos, os olhos de João refletiam o arrependimento. Algo o retirou dali. Viu, ao lado de uma pedra, Carlos Henrique. Este lhe limpou todos aqueles miasmas e lhe vestiu uma roupa branca.

— A força do amor vence o ódio! — disse Carlos. — Hoje você foi liberto, porque compreendeu que o verdadeiro ouro é o amor que Deus nos deu, e não o ouro do tolo! Então, meu irmão, Deus lhe deu a liberdade de fugir daquele horrível local. Mas você tem de voltar à Terra para acertar o que fez de errado.

— Sim, estou arrependido! Mas e aqueles três irmãos lá embaixo?

— Está na hora de buscá-los também. Vamos chamar nossa irmã Chica.

Chica se apresentou para João, mas de aparência diferente daquela com que se apresentara a Carlos. Agora era a mesma velha enrugada.

— Por que a vejo assim?! — estranhou Carlos, sem que João percebesse.

— Porque os sofredores da Terra me conhecem desta forma. Aqueles que estão mais acima estão igual a mim, da mesma forma que você. Vamos?

Chegaram lá e viram os três arrependidos. Chica disse a João:

— É você quem tem de retirá-los de lá!

João adentrou aquele local e os três aceitaram o auxílio dele. Foram retirados e lhes foram extraídos aqueles miasmas deletérios. Todos alcançaram um local de refazi-mento e os quatro reencarnaram numa só família, todos na condição de irmãos, para que firmassem a sua reconciliação.

Carlos, feliz, estava instalado lá no hospital que levava o nome de Santa Luzia, lá naquela também assim chamada Colônia de Santa Luzia, que hoje brilha em todo o nosso continente, com muito amor, na alegria de ser os olhos àqueles que não podem enxergar — o próprio símbolo de Luzia, a Mãe dos Cegos, aquela que dá visão aos obscurecidos, aquela que, pelo seu amor, recebeu a luz do Cristo Nosso Senhor, para ser uma missionária, curando e protegendo as criaturas, ao lado de Chica, que brilha nas alturas, na ternura de uma irmã maior e que carrega a sua alegria sob o esplendor da simplicidade.

Nesta obra, exaltamos Jesus na condição de consolador, rendendo louvores aos nossos irmãos, agraciados pela bênção desse eterno amor.

Que essa luz se faça presente em todos os corações, para que todos tenham, a aureo-lar a sua missão, uma Luzia e uma Chica, para que estas lhes possam propiciar a alegria indescritível de se poder amar.

É no seio da simplicidade que surge a verdade, e esta nos mostra que, sobretudo, o que soma é o amor em forma de caridade.

Que esta luz de esplendor abençoe todos os nossos irmãos!
Diana de Aguiar Matheus Batista Jacomete

F I M