GOZO E FELICIDADE

O gozo é satisfação que irrompe imediata, genericamente como resposta da sensação atendida.

O que, no entanto, num momento constitui prazer, noutro se transforma em incontido desagrado.

O gozo, logo passa, deixando marcas de cansaço ou expressões de novas ansiedades.

Estabelecido pelos cânones do capricho carnal, exterioriza a situação pessoal de cada criatura, que se faz caracterizar pelo tipo de emulação que lhe proporciona o estado de prazer.

O gozo não harmoniza o homem com a vida, antes atormenta-o, ora porque não se torna um estado permanente, sendo desgastante, portanto, vezes outras pelas implicações frustradoras que dele decorrem.

O gozo pode ser considerado qual labareda voluptuosa que, ao atingir o máximo de voracidade, inicia, também, a diminuição da chama, que logo se apagará por falta de combustível. . .

O gozo exige coisas, pessoas, circunstâncias a fim de colimar o apogeu da sensação.

É claro que nos não referimos ao gozo decorrente das satisfações intelectuais e morais, às alegrias nascidas no dever cumprido, aos júbilos do sentimento puro.

A felicidade é o estado íntimo, em que a emoção libera os ideais de beleza e de harmonia, convidando a criatura ao crescimento, à libertação.

Apoiando-se, às vezes, em determinadas condições que facultam alcançar-lhe a meta, não depende, necessariamente, delas.

Mais de ordem metafísica, as suas expressões partem do íntimo do ser e dominam todas as fibras exteriores, favorecendo-o com plenitude e vida.

Alimenta-se dos ideais de enobrecimento e não se desarticula quando defronta dificuldades, porquanto, fundamentalmente solidária ao bem, faz o homem esquecer-se de si mesmo, a fim de que trabalhe em favor de todos, com os quais comparte as suas manifestações.

Supera circunstâncias e eleva-se acima das penosas conjunturas, encontrando alento nos momentos ásperos por alimentar-se de aspirações superiores.

Pode ser comparada à linfa cristalina, que dessedenta e refresca, não produzindo outra satisfação que se não vincule à paz, à harmonia.

O gozo é fácil de lograr-se, enquanto a felicidade exige labor de largo porte.

O gozo exterioriza-se pelos implementos do corpo, no entanto, a felicidade procede e se demora na área do espírito.

O gozo limita as aspirações maiores da vida, todavia, a felicidade dilata as forças para uma visão da vida face a eternidade.

O gozo asselvaja o homem e é, ainda, remanescente do primitivismo do qual procede o ser; entretanto, a felicidade promove a ascensão do homem, tornando-o dúctil às expressões da vida mais alta.

O gozo leva à ardência dos sentidos, conquanto a felicidade apazigua e emoldura de ternura o homem.

Um é rápido, a outra duradoura.

Não é por outra razão que o Eclesiastes afirma: "A felicidade não é deste mundo" e Jesus, dando validade ao conceito corroborou-o, na assertiva de que o seu "reino não é deste mundo", porquanto, não obstante a felicidade não possa ser totalmente fruída na Terra, aqui pode e deve ser trabalhada, constituída para atingir o seu estágio superior, fora do corpo, no reino do espírito, que é o reino de Cristo.

Joanna de Ângelis