A GRANDE VIAGEM

A GRANDE VIAGEM

"O homem é aquilo que pensa no seu coração." (PROVÉRBIOS, 7)

Quando sofremos a dor da separação de entes queridos que nos antecederam ao mundo espiritual, ficamos pensando nos acontecimentos que ocorreram ao longo do processo desencarnatório, tão diversificado e tão pouco compreendido por muitos, no valor do conhecimento espírita que nos dá suporte para atravessar momentos difíceis e irreversíveis ante a inevitável certeza da morte física.

Compreendemos que a morte após uma longa enfermidade, quando suportada com resignação e serenidade íntima, possibilita uma desencarnação mais fácil, e o rompimento dos laços que nos prendem à matéria vão se diluindo no processo de enfraquecimento físico e debilidade orgânica. Felizes os que conseguem morrer e logo libertar-se; entretanto, não é o que ocorre normalmente.

Todos os homens deveriam refletir mais intensamente acerca do morrer e do viver para que, enquanto na terra, fossem se preparando efetivamente para uma desencarnação mais tranquila, seguida da libertação dos laços que o retêm à matéria densa e na conquista da paz nesta nova dimensão de vida que aguarda a todos nós. Aprendemos a morrer enquanto vivemos na Terra, e este aprendizado requer desprendimento, renúncia e abnegação. Ao longo da vida podemos exercitar o perdão, a compreensão, o desapego às coisas e pessoas, a renovação e educação dos sentimentos, direcionando o pensamento para aiitudes altruístas e enobrecedoras. Este aprendizado nos facultará um morrer mais tranquilo e uma libertação mais consoante com nossos desejos e aspirações.

Das experiências vividas, costumo relatar, à luz da Doutrina Espírita, alguns fatos que levariam aos meus leitores um pouco de compreensão e de conforto quando estivessem em situações idênticas ou vivenciassem momentos semelhantes. Não como amostra de virtudes que não possuo, mas enaltecendo o valor do conhecimento espírita e da ajuda espiritual que recebemos em situações de difícil travessia.

Quando permanecemos durante três meses no hospital, acompanhando meu marido em sua enfermidade, na fase terminal, tivemos oportunidade de receber o apoio dos amigos, médicos, familiares e companheiros das lides espíritas, que navizavam as dores e os momentos de solidão. Mas foi na constante assistência espiritual dos benfeitores e familiares já desencarnados que as forças chegavam de forma acentuada para mitigar a dor e suavizar a angústia da separação.

Consegui manter a serenidade íntima e ajudar meu companheiro que, aos poucos, ia se desligando da vida física. Isso conforta meu coração, apesar da saudade e da falta que sentimos de sua companhia nos hábitos da vida diária, nos encontros familiares, do relacionamento estável ao longo de cinquenta anos que permanecemos juntos.

A morte é um fenômeno biológico natural e a desencarnação, aprendemos com os amigos espirituais, é um processo mais lento e irá depender do estado moral e do desapego material, variando de indivíduo para indivíduo. Diz-nos Manoel Philomeno de Miranda que o sofrimento resignado tem papel relevante, porque faculta a superação dos condicionamentos... em outros casos, a desencarnação se inicia mesmo durante a vida física, através das atitudes idealistas, missionárias, em que a abnegação, a renúncia, o sacrifício e o amor em dimensões mais amplas sutilizam o peso específico da organização material, transformando as correntes de energia que transitam do ser espiritual para o corpo e vice-versa, agindo nos implementos orgânicos de forma menos densa.3"30 FRANCO, Divaldo P. Temas da vida e da morte. P. 80.

Há uma conceituação geral, principalmente para quem não é espírita, de que nós não sofremos quando nos vemos separados fisicamente dos que amamos, como se tivéssemos a obrigação de suportar sem dores ou saudades a partida de um ente querido para o mundo espiritual. Ou que sofremos menos. Talvez seja verdadeira, em parte, esta crença, porque sabemos que a resignação e a certeza da vida futura nos leva a compreender a situação de quem partiu e a necessidade de nos mantermos equilibrados e confiantes por meio da fé e da compreensão das Leis Divinas. Choramos de saudade, buscamos recordar os momentos felizes da vida que passamos juntos e vamos, aos poucos, nos readaptando, reorganizando nossas rotinas diárias e braçando as tarefas espíritas que nos levam mais rapidamente a suportar a solidão e a ausência do ente querido que partiu antes de nós.

Muitas vezes, conversávamos a respeito da vida além da morte, sem grande aprofundamento, porque meu companheiro não era espírita, mas era habitual nossa preparação para esta fase em que um iria antes do outro, e ele costumava dizer: "São tantos amigos que nos esperam, acho mesmo que a maioria, e não terei dificuldade em me adaptar...1''. Depois enumerava alguns companheiros e comentava sobre algum fato agradável que este amigo vivenciara conosco.

É, realmente, uma grande viagem e um de nós teria que partir primeiro.

Não há o que lamentar porque foram anos de intensa cumplicidade, de muito amor, em que juntos organizamos uma família, construímos valores na área profissional, conquistamos amigos generosos e nos sentimos confortados pela certeza do reencontro que será determinado segundo a programação de vida de cada um de nós.

O pensamento modela nossa vida, nosso ser e, se direciona-do para o bem, para o belo, adorna nossa vida e acalma nosso coração ante os desafios da existência.

Os recursos espíritas, a prece, a meditação que nos faculta o encontro com nosso mundo íntimo vão nos alimentando de forças e coragem para prosseguir até o dia em que estaremos prontos para o embarque nesta grande viagem de retorno ao
lar espiritual.

Agradeço a Deus todos os dias a bênção do conhecimento espírita que me sustenta e direciona meus passos pelos caminhos da vida.

LUCY D. RAMOS