A GRATIDÃO

A GRATIDÃO

Poucas pessoas são agradecidas a Deus pelo muito que recebem nos caminhos da vida, por meio da ajuda providencial de terceiros, em situações difíceis nas quais o apoio fraterno lhe foi dispensado, pelo gesto de bondade quando não havia outra saída senão recorrer a alguém para dividir o ônus das obrigações ou suportar as dores superlativas que ensombravam seu viver... Poucos são gratos ou se recordam com generosidade dos que o serviram ou ajudaram em momentos difíceis, principalmente quando estes acontecimentos, recordados no presente, lhe trazem algum constrangimento que desejam esquecer.

Benfeitores espirituais, em diferentes exortações ao bem, nos dizem que a gratidão é "um apanágio de almas virtuosas, de almas nobres", como a nos indicar que é virtude rara em nossos dias. Existem pessoas que buscam apoio e ajuda fraternas crises e dificuldades materiais ou morais, vencendo as barreiras do orgulho; entretanto, depois de socorridas, nem se lembram dos que lhe serviram, como se estas presenças lhes fossem desagradáveis, incomodando-as ao recordar momentos de privações e de desespero. Outras, quando se acercam dos que lhe ajudaram, são generosas, gratas e transmitem vibrações de paz, carinho e reconhecimento. É, portanto, bem diverso o comportamento das pessoas, quando se trata de sentir gratidão ou reconhecer quanto foram ajudadas no passado.

E nós, como nos portamos quando encontramos amigos ou conhecidos do passado, que nos socorreram em instantes de dores e privações?

Somos realmente gratos? Como procedemos ao reencontrar aqueles que nos ajudaram?

Parece um questionamento simples, não é? Mas procurem analisar seu comportamento em momentos assim. Recorde há quanto tempo você não envia notícias ou um cartão de aniversário ou Natal, uma carta ou telefonema para amigos distantes, parentes ou conhecidos que em determinada ocasião foram providenciais em seu caminho.

Você por acaso ora por eles? Recorda-se deles com gratidão?

Se sua resposta for positiva, você está muito bem consigo mesmo e é portador desta virtude tão rara que se chama gratidão. Caso contrário, é orgulhoso e não possui a humildade de reconhecer que um dia eles lhe foram úteis e merecem seu respeito e reconhecimento.

Sentimentos como justiça, benevolência, gratidão são inerentes à natureza humana, mas ainda não sabemos desenvolvê-los quando os instintos atávicos nos prendem a automatismos egoístas e defensivos.

A ingratidão é característica de almas enfermas que não se sentem seguras nem estão satisfeitas com as situações criadas por elas mesmas e manifestam sua insatisfação em atitudes egoísticas e dissimuladas.

Joanna de Angelis nos diz que o ingrato
olvidando-se rapidamente do bem que lhe foi dispensado, silencia-o, mesmo quando não pensa que o recebido não passou de um dever para com ele, insuficiente para o seu grau de importância. A ingratidão é chaga moral purulenta no indivíduo, que debilita o organismo social onde se encontra. Assim, os ingratos são numerosos, sempre soberbos, e autos-suficientes, em dependência mórbida, porém, dos sacrifícios dos outros?27' 1FRANCO, Divaldo P. Jesus e atualidade. P. 108. ' Id., ib., p. 110.

Desconfiados, neurotizam-se; arbitrários, são desamados; soberbos, passam ignorados.

Fechando os comentários em torno da ingratidão, a benfeitora espiritual nos aconselha a não nos preocupar com os ingratos em nossos caminhos de amor. Certamente, um dia, reconhecerão o que receberam da vida e serão gratos a Deus pela beleza de terem sido abençoados com gestos de bondade de ternura.

Quem sabe, ao recordar este passado, despertará em seu íntimo a chama da esperança e do perdão, passando a recapitular a generosidade com que um dia alguém os sustentou em momentos de dor e desencanto?

Nunca devemos nos arrepender de sermos úteis e externarmos a bondade que já possuímos em atitudes de amparo e socorro aos que sofrem. É preciso fazer o bem sem esperar reconhecimento ou gratidão, aguardando o momento em que a vida nos trará de retorno nossos gestos de amor!

Conta-nos Amélia Rodrigues que na fronteira entre a Samaria e o distrito Aul da Galileia, Jesus adentrou-se em pequena aldeia, seguido pelos companheiros, para uma pausa de refazimento... Logo que aí chegara, ouviu um apelo:

- Jesus, Mestre, tem piedade de nós, cura-nos! (Lucas, 17:11 a 19.)

Ele olhou na direção da súplica cuja voz se alteara e se deteve fitando aqueles destroços humanos... Apresentavam as feições desfeitas, os olhos inchados e lacrimosos, as mãos estendidas... Eram dez leprosos. Esta não seria a primeira vez que defrontava as chagas dos pedintes e lavava suas misérias expostas. Ele sabia que a morfeia de fora provinha das regiões recônditas do espírito. (...) A lepra, desde tempos imemoriais, era a doença mais temida entre todas. Viviam isolados e somente Deus poderia fazer-lhes algo (...).

Por isso haviam rogado a Jesus, aguardando que Ele fosse enviado de Deus.

- Que quereis que vos faça? - indagou Jesus.

- Que sejamos curados, se quiseres!

Um oihar de infinita compaixão lhe iluminou a face, levemente pálida, suavemente triste.

- Quero! - Uma palavra apenas e o dia exultante de luz e calor, o ar perpassando, o céu azul, indecifrável espiando.

- Ide mostrar-vos aos sacerdotes, para que eles reconheçam que reentrais na vida... - 0 bando em desalinho corre, grita e se distancia na estrada...

Tristeza poderosa tolda o rosto do Rabi e seus lábios se quedam selados.

Os dez leprosos em caminho ficaram limpos. Um deles, vendo--se curado, voltou para agradecer a Jesus.

- Rabi, venho Jouvar-te. Que devo fazer?

- 0 que recomenda a Lei? Segue-lhe as disposições e cumpre os ritos e impositivos para que te dêem carta de cura e de reingresso na saúde.

0 estranho, comovido, de joelhos, chora. Jesus indaga:

- Não foram dez os curados? Por que este samaritano, tido como estrangeiro, somente ele veio agradecer?

Ninguém respondeu.

- Levanta-te e vai: a tua fé te salvou.29 FRANCO, Divaldo P. Luz do mundo,p. 118 1 121

Amélia Rodrigues comenta que pelo semblante triste de Jesus desfilaram os ignorados leprosos da alma: aqueles que ocultam nas vestes externas os abismos do coração, os intranquilos, os sórdidos, os atormentados, os ingratos. E Jesus, fitando a paisagem triste, ressequida, sem vegetação, naquela aldeia humilde, de gente tão sofredora, chamou os amigos e partiu na direção de Jerusalém...

Não foram dez os curados? E apenas um voltou com o coração pleno de alegria, de gratidão. E este foi realmente curado!...

LUCY D. RAMOS