ALEGRIA DE VIVER

ALEGRIA DE VIVER

A montanha se erguia qual muralha de pedra, protegendo a cidade que descansava a seus pés. Vegetações rasteiras de um verde acentuado e escuro cobriam os espaços vazios entremeados de árvores secas, desfolhadas pela fúria da queimada que deixara vestígios da última estiagem, em que o fogo a quase tudo destruíra. Mesmo assim a montanha estava ereta e forte como a nos mostrar sua coragem e seu poder de renovação. Algumas árvores já apresentavam as copas fechadas e floridas, enfeitando a encosta na qual ainda podíamos perceber as lesões que o fogo deixara.

Admiro a perenidade das montanhas. Em sua grandiosidade permanecem, apesar das mudanças do tempo, das vegetações, das intempéries a que estão sujeitas. A distância, pouco se vê além de suas formas, na exuberância de seus limites que tocam o céu e se destacam na paisagem. Algumas vezes, nuvens passageiras como flocos de algodão descansam em seus cumes à espera do vento para prosseguirem em sua viagem, buscando outras terras, outras gentes...

Contemplo as montanhas de Minas desde que nasci, e elas estáticas erguem-se aos céus... Algumas foram agredidas pela modernidade, servindo ao homem em seu desejo de expansão. Mutiladas, perderam o colorido das vegetações e se cobrem de casas, ruas, postes de iluminação urbana, antenas, nas mais variadas formas. Geralmente isto acontece na cidade, porque no campo, nas regiões rurais, ainda conservam suas antigas formas em suas estruturas primitivas, protegendo as várzeas, embelezando a vida e abrigando outras vidas.

Admirando as montanhas de minha terra, percebi quanto somos pequenos e limitados em nossas conquistas reais, tolhidos em nossas buscas e frágeis na descoberta dos reais valores da vida.

Diante da dor e das expiações, deixamo-nos levar pelo desânimo, pelo desencanto e perdemos longo tempo em lamentações.

Sob o travo da injúria e da maledicência, ficamos estanques e, revoltados, buscamos justificar nossa conduta sem nos dar conta de que o agressor é alma enferma requerendo nossa compaixão e tolerância.

Nas dores acerbas que moralmente nos abatem, esquecemos do bálsamo da prece, da busca do entendimento ante as Leis Divinas e nos colocamos como vítimas em processos de alienação diante da vida, de seus objetivos maiores.

E muitas vezes perdemos a alegria de viver, cansados ante as múltiplas dores que nos chegam em momentos difíceis da existência. Esses são dias de sombra e desencanto, nos quais teremos que investir mais coragem e aplicação do valor moral que já possuímos Nestes dias em que nada parece dar certo, quando as ocorrências desagradáveis se sucedem e nos perturbam, é que devemos buscar novas energias na prece, na meditação, e agir com prudência, vigiando nosso pensamento para não nos prendermos nas cadeias da aflição nem nas sombras do desencanto. O importante é reagir com coragem e discernimento.

"A coragem", diz-nos Joanna de Angelis, "nasce dos valores morais do homem que elege a conduta correta para uma vida feliz".44 FRANCO, Divaldo P. Jesus e atualidade. P. 58.

Prosseguir vivendo mesmo diante dos desafios que infelicitam nossos dias é ter a coragem de enfrentamento das dificuldades e óbices naturais em nossa jornada evolutiva. É natural que soframos diante das perdas, das dores morais e enfermidades físicas, contudo é necessário mantermos nossa dignidade, nossa coragem e nossa fé para que, vencendo as barreiras que nos cercam, alcancemos nossos patamares do progresso espiritual a que estamos destinados.

A coragem de viver deve ser treinada continuamente, vencendo as pequenas barreiras da timidez, dos receios de fracassos, dos complexos de inferioridade, das doenças reais ou imaginárias, fortalecendo o ânimo em cada triunfo e reconsiderando a ação em cada insucesso.55 Id., ib.

Ao falar da perenidade e do destemor das montanhas, busquei em seu exemplo a alegria de prosseguir vivendo mesmo sob sofrimentos, mostrando-nos com sua coragem a beleza da vida, o encantamento que a Natureza nos propicia quando sabemos observar sua harmonia, a simplicidade de suas formas e o convite que nos faz por meio de seus exemplos para uma existência rica de bênçãos e realizações.

A alegria de viver faz parte de uma programação de vida que devemos buscar pelo exercício do perdão, da caridade, da generosidade e da renúncia. Somos livres para decidir, para buscar a coragem de viver com serenidade mesmo ante a presença da dor, da ansiedade pela incerteza da cura de uma enfermidade, pela ausência dos seres que amamos, pelo fracasso temporário em determinada tarefa e, ainda assim, ver em cada dificuldade um novo desafio, considerando-os naturais em nossa condição moral. Porque acreditamos - vencida a etapa difícil - saímos vitoriosos e mais fortes para novos empreendimentos e lutas.

Fortalecidos pelo conhecimento espírita, podemos tornar nossas vidas mais ricas e produtivas. Teremos um novo sentido existencial, conduzindo-nos a um viver mais pleno, rico de experiências, e assim saberemos que o bem viver é a meta dos que já conhecem o caminho e não se preocupam tanto em viver bem. Os valores do mundo são medidos pela renúncia e pela generosidade dos que os possuem e não pela grandeza de suas posses materiais.

E na voz da poetisa que se fez sábia, sofrendo, as belezas dos que sabem renunciar:

Sabedoria! Sabedoria!

Só te encontrei nos abismos, quando vim descendo da altura da solidão... Depois do renunciamento... Depois de tudo e de todos... Depois de mim...

Sabedoria ! Sabedoria !

Abençoa-me, porque sofri, buscando-te !

E por encontrar-te e querer, fazer-te meu destino...

Deixa-me viver em Ti !... Meireles, Cecilia Poesia Completa, vol 1 p.85

LUCY D.RAMOS