AS VOZES DA NATUREZA

As VOZES DA NATUREZA

Gosto de ouvir o vento soprando na campina verdejante que se alonga, buscando o horizonte, em tardes tranquilas, na varanda da fazenda.

Distante do bulício da cidade, onde os sons se confundem com o barulho dos carros e das vozes dos transeuntes que caminham em busca dos sonhos e dos deveres de cada dia, a sonoridade do vento se perde. No campo é mais perceptível, mais nítida quando nos dispomos a ouvi-la.

Na tranquilidade da Natureza é mais fácil entender as mensagens do vento, em diferentes horas do dia, em seus movimentos e velocidades que trazem notícias de um tempo distante que se perde na voragem das coisas perecíveis... Poucos conseguem entender o que dizem. É preciso saber ouvir e buscar dos sons difusos e céleres a mensagem da vida que retrata o país dos sentimentos e guarda em suas paragens a alma do amor. Acontece em momentos raros quando nossa alma descansa na serenidade e na paz. Podemos, então, entender as vozes da Natureza.

Em manhãs ensolaradas da primavera, seus sons são alegres, suaves, envolvendo-nos com o perfume das flores que descansam à beira dos caminhos... Chegam até nós com notícias dos pássaros que retornam, após o rigoroso inverno, trazendo-nos de volta os sons do amor que habita os sonhos dos poetas, amantes das belezas da Natureza, distanciando-nos da realidade.

No verão, antecedendo as tempestades, chega com maior velocidade e lava detritos e folhas ressequidas, como a carregar mágoas dos que sofrem na solidão dos dias perdidos, para depois, suavizando as agruras das perdas, recompor a vida em seus objetivos e em sua harmonia.

No inverno, chega mais cedo e permanece em dias que se alongam, com rajadas frias; os nevoeiros teimam em continuar sobre as montanhas, indicando a morosidade da vida para os que não conseguem mais sonhar ou já não choram, ressequidos pelas dores do desencanto e o frio da solidão.

No outono, vem de mansinho, aos poucos, a falar das loucuras do verão que passou tão rápido, varrendo as folhas douradas que caem das árvores, sacudidas pela renovação da vida, preparándo-os para um novo inverno.

O vento, entretanto, traz mensagens apenas para os que sabem ouvi-las, aquietando o coração, aguçando os sentidos na intimidade do ser, buscando o entendimento maior do valor da vida, sem se prender ao que é perecível e se perde no tempo.

As vozes da Natureza são sábias e os mais simples e humildes as entendem melhor e sabem respeitá-las. Como o poeta que sabia "ouvir as estrelas", eles conseguem ouvir o vento nos campos e nas montanhas. Com avisos sobre o tempo, com notícias dos que partiram e com as lembranças evocadas pelo perfume que trazem das flores e das folhagens...

Para entender, porém, o que dizem, é preciso amar e respeitar a Natureza em todas as dimensões e estados da consciência ética.

Ao longo da vida, aprendi a amar e ouvir as mensagens do vento e sei distingui-las em diversas horas do dia. E cada um de nós ouvirá o que sente e o que deseja. Não há mistério algum...

Tudo irá depender do estado de espírito, do humor, da disponibilidade de ouvir e entender o que nos traz o mensageiro das nuvens.

Você se surpreenderá com a riqueza de tudo o que lhe cerca, em se tratando da Natureza. Amando-a e entendendo-a, procuro repassar o que sinto para vocês. Quem sabe um dia todos a respeitarão e o nosso planeta não irá se ressentir de tantas agressões.

Você, querido leitor, já deve estar pensando que estou divagando demais, ouvindo sons de seres inanimados, mas há um elo profundo a nos unir a todos eles. Há milhões de anos estamos interagindo com eles e desde os tempos mais remotos nos servem e nos sustentam.

O que ouço, então, quando estou a sentir os sons não perceptíveis de alguns ou os ruídos mais sonoros de tudo o que nos cerca no seio da Natureza?

As notícias vêm de longe, de um tempo mágico de nossa infância espiritual, quando ainda não estávamos dominados pelo desejo de posse, pelas lutas, disputas e ilusões do poder. Lutávamos, sim, para sobreviver num mundo inóspito e primitivo.

Éramos tão somente simples e ignorantes, sem definir, ainda, nossas propensões ao bem ou ao mal. Rudimentos de inteligência e escassas possibilidades de ideação ou conquistas intelectuais, com os sentidos aguçados ante os desafios da Natureza.

Milhões de anos são passados. Fomos incorporando às nossas vivências novos costumes, novos hábitos...

Com o progresso advindo de novos avanços tecnológicos, fomos deixando nosso habitat, adentrando às cidades em busca de novas oportunidades.

E hoje o que presenciamos? O abandono das leis básicas de uso e aproveitamento do solo, a poluição do ar, o envenenamento dos rios e lagos, a destruição da camada de ozônio com graves consequências para o ser humano. Tão graves que os cientistas e alguns dirigentes de países mais responsáveis estão buscando soluções e alternativas. Tarde demais? Creio que não. Há de se respeitar a Natureza e refazê-la no que for possível. Ela certamente responderá a este novo mundo de respeito e a tudo o que se fizer para salvá-la com gestos de amor e bênçãos para todos nós.

É tão somente uma questão de sentimento e gratidão. E deve começar em cada um de nós...

LUCY D. RAMOS