COMPANHEIROS DE JORNADA

COMPANHEIROS DE JORNADA

Fazendo uma retrospectiva de nossas vidas, recordando vivências e fatos que presenciamos enquanto jornadeamos em busca do crescimento espiritual, iremos notar que alguns companheiros se destacam, aos nossos olhos, por suas condutas equilibradas, por seus testemunhos de fé e generosidade.

De todos eles procuro, em seus exemplos, o estímulo para prosseguir.

De seus gestos de amor e devotamento, o roteiro para não me perder na insensatez ou no desalento.

De suas palavras e ensinamentos, a estrutura segura para crescer em conhecimento e sabedoria.

Foram esses companheiros valorosos que nos ensinaram o caminho.

Podemos representá-los como balizas de luz a nos indicar a segurança ante os despenhadeiros da estrada ou os abismos da imensidão...

Cada um de nós teve a felicidade de encontrar na vida esses irmãos e se formos buscar no passado longínquo essas lembranças, poderemos nos surpreender ao constatar como foram importantes suas presenças, seus ensinamentos, seus exemplos para a formação de nossos caracteres morais e espirituais.

Podemos encontrar, logo no início de nossa caminhada, nossos pais ensinando-nos no recesso do lar as primeiras noções de amor e confiança em Deus. Nas humildes reuniões em família, quando em prece, nos colocávamos em torno da mesa da sala de jantar para estudar o Evangelho de Jesus. Quantas lições, quantas histórias acerca do bem e da caridade ficaram gravadas em nosso mundo íntimo!... Meus irmãos, com os quais aprendi as primeiras lições de convivência fraterna e de respeito aos direitos alheios.

Nos exemplos de meus pais, assimilei o valor da dignidade e do amor ao próximo, atendendo aos que os buscavam em momentos de dor e necessidade...

Depois chegaram os professores na primeira fase de nosso contato com o mundo escolar. Quem não se recorda da primeira professora? Do primeiro dia de aula ? Eu as vejo tão carinhosas e atentas a nos ensinar as primeiras letras, apoiando-nos nas dificuldades sempre com um sorriso de ternura.

Paralelamente a estes ensinos, ingressávamos na Escola de Evangelização, chamada naquela época de "Aulas de Moral Cristã". Revejo a professora, ensinando-nos a orar com sua voz macia e serena, falando de Jesus, de Kardec, dos benfeitores espirituais e iniciando-nos no conhecimento espírita. Havia um livro pequeno que se chamava 52 liçõeA de catecismo espírita, de Eliseu Rigonatti, e um especial para mim que era: De Icléa para as crianças, psicografia da médium M. Carneiro, cujas mensagens eram publicadas, também, no jornal Mundo Espírita. Eu me deleitava com suas leituras e as dividia com as obras de Monteiro Lobato e os livros escolares.

Vieram depois outros personagens importantes na Mocidade Espírita e, por morarmos nesta fase em Barra do Pirai, tínhamos contato com importantes oradores espíritas todos os domingos nas célebres conferências no Grêmio Espírita e as caravanas da fraternidade, na década de 1940.

Ainda nessa fase juvenil, minha irmã Mariinha teve um papel importante em minha vida, despertando em meu espírito a responsabilidade ante os deveres assumidos, valorizando o lado espiritual e ensinando-me o caminho da virtude e do bom senso, do equilíbrio e da tolerância. Partiu muito cedo para o mundo espiritual, aos 36 anos, mas continuou a nos ajudar sempre...

Os professores da faculdade, de seguimento católico, na qual estudei por não haver outra em minha cidade para cursar Sociologia - apesar de certas divergências, em se tratando de alguns pontos da Filosofia e das escolas em que alguns pensadores externavam teorias contrárias aos ensinamentos espíritas -, mesmo assim tiveram uma influência positiva em minha formação acadêmica pela desenvoltura moral com que exerciam o magistério.

Casei-me logo após terminar a faculdade, e, ao lado de meu marido, formamos uma família a qual nos dedicamos com amor e carinho. Caminhamos juntos por mais de cinquenta anos e isto representa a maior parte de minha vida. Quando ele partiu para o mundo espiritual, deixou uma lacuna em meu viver, que procurei amenizar trabalhando na casa espírita, junto aos familiares e àqueles que, ainda, precisem de mim.

Quero ressaltar a presença amiga dos companheiros das lides espíritas que estão sempre me amparando e complementam meus ideais de amor e fraternidade. São inúmeros. Não posso nomeá-los sem cometer equívocos ou esquecimentos, mas seus exemplos marcaram minha vida e suas persistências em prosseguir na seara de Jesus, embora muitos deles tenham dificuldades e momentos de dores acerbas. Estão sempre empenhados na luta redentora pela vitória do amor e do bem. E ao recordá-los, busco nas palavras de Emmanuel o sentido exato do que representam:

companheiros que, em muitas ocasiões comparecem nas tarefas do bem, vergados ao peso do sofrimento; que se reconhecem constantemente visitados por forças contrárias aos compromissos que abraçam a lhes testarem a resistência; que, não raro, suportam tempestades ocultas na própria alma; que, às vezes, se sentem espancados por injúrias nascidas de muitos daqueles aos quais se afeiçoaram com os mais altos valores da própria vida e, que, no entanto, renovam as próprias forças na doação, através da qual confiam em Deus e em si mesmos, prosseguindo adiante nos encargos construtivos que lhes dizem respeito.12XAVIER, Francisco C. Amigo. P. 118 e 119.

Recordo com carinho todos eles. Alguns já partiram para o mundo espiritual, outros prosseguem firmes e corajosos no trabalho no bem.

E, finalmente, não poderíamos deixar de mencionar os filhos, fiscais severos a nos vigiar constantemente como a nos alertar de possíveis quedas e omissões. Nos surpreendemos inúmeras vezes com a capacidade que têm, alguns deles, de nos conhecer tão profundamente (talvez mais que nós mesmos) e nos orientar como se não tivéssemos tantos anos de experiência à frente de seus anos de vida... Mas são tão importantes que a qualquer momento em que sofram ou se desencantem pelos caminhos que percorrem, sentimos em nosso mundo íntimo o reflexo do que sentem... E não conseguimos ter paz nem ser felizes se algum problema os aflige...

Agora que estamos no outono da vida, muito próximo do inverno que esperamos não seja rigoroso demais, nossos filhos e netos são nossos companheiros derradeiros. Aqueles que permanecem mais tempo conosco, graças a Deus. Uma velhice solitária deve ser muito triste.

Você já pensou que um dia, também, será um idoso?

Já se deu conta de que o tempo caminha célere e, a menos que você encerre sua reencarnação mais cedo, estará como nós, com limitações e impedimentos físicos?

Por isso cuide bem de suas aquisições morais e intelectuais enquanto jovem. Aproveite os companheiros que caminham a seu lado e que estejam em condições de repassar para você suas experiências. Seja grato pela família e pelos amigos que compõem sua vida. Somente estes valores o acompanharão até o final da existência e seguramente além das fronteiras do mundo físico.

Companheiros que jornadeiam comigo há longos anos, como sou grata a vocês pela sabedoria com que me socorriam nas horas difíceis e conflitantes de minha juventude... Como admiro perseverança no bem com que apontavam o caminho seguro da plenitude e da paz...

Nesta mensagem singela agradeço a todos vocês que peerfumaram meus dias com as flores da ternura e do perdão incondicional, motivando-me a caminhar sem descanso até a concretização da vida que Deus me deu, rumo às estrelas de meu destino maior.

Companheiro de jornada - Deus os abençoe !

LUCY D. RAMOS