CONTA DO DESTINO

CONTA DO DESTINO

Quando Allan Kardec analisa em profundidade o dogma da reencarnação, em O Livro dos Espíritos, tecendo considerações sobre as pluralidades das existências, e essa será a única vez em que desenvolve sua teoria acerca de um dogma, já que a Doutrina Espírita nada impõe como incontestável, admiramos a coragem do mestre na defesa de seu posicionamento. Realmente, a reencarnação é o ponto fundamental e indiscutível da Doutrina Espírita. Sem a compreensão da lei de causa e efeito não explicaríamos a Justiça Divina, e sem as vidas sucessivas não compreenderíamos a Lei Natural ou Divina.

Nesta introdução, quero levá-lo, estimado leitor, a recordar comigo e reavaliar a importância da obra de André Luiz, psicografia de Chico Xavier, Ação e reação. Aliás, todas as obras de André Luiz são de um valor inestimável, cujo teor científico, moral e filosófico ainda não foi totalmente aquilatado por nossa geração. Na obra Ação e reação, encontramos explicações valiosas sobre a lei de causa e efeito, dando-nos uma visão mais ampla do elo existente entre as encarnações que se sucedem, e das lutas e resgates do pretérito, cujos efeitos comprometem nossos espíritos na conta de nossos destinos.

O ministro Sânzio, um dos instrutores espirituais de André Luiz, no referido livro, retrata na entrevista "conversação preciosa" toda a sistemática da lei de causa e efeito, elaborando com profundo conhecimento do processo reencarnatório uma exposição clara e objetiva do enunciado sublime que os cristãos receberam de Jesus há mais de dois mil anos:

"Não te admires se eu te disser: importa-vos nascer de novo". (JOÃO, 3:7.)

Tece importantes comentários acerca do carma, expressão hindu que em sânscrito quer dizer "ação", designando "causa e eleito", pois toda ação ou movimento deriva de causas anteriores. São créditos ou débitos que vamos acumulando ao longo das vidas sucessivas, não apenas de caráter individual, mas certamente englobando coletividades, povos, raças e instituições. Temos diariamente, por intermédio da mídia, notícias de desastres, tragédias, atos de terrorismo, mortes acidentais de grupos, facções extirpando vidas, interrompendo atividades de milhares de indivíduos ao mesmo tempo, denotando expiações e resgates de vidas passadas.

Muito interessantes os comentários que o Benfeitor espiritual faz da "conta do destino" criada por nós mesmos, esclarecendo que a contabilidade divina possui um sistema contábil para apurar, controlar e aplicar a justiça inalienável. Esclarece que, se os homens na Terra se esmeram no estudo das organizações e métodos adequando as empresas a um melhor funcionamento, a "Casa de Deus" - que é todo o Universo com a administração divina - dispõe de sábios departamentos para relacionar, comandar e engrandecer a vida cósmica dentro da mais criteriosa justiça.

Assim, a Providência Divina regula todas as nossas atividades nas vidas sucessivas e nos intervalos das reencarnações, quando recebemos a bênção do repouso temporário ou a flagelação da dor expiatória, preparando-nos para novos ciclos na vida terrena. O Espírito terá a seu dispor os créditos, mediante empréstimos ou concessões divinas, para realizar seu progresso aqui na Terra, aprimorando seu conhecimento, exercitando o bem, utilizando sua liberdade, vantagens sociais, propriedades, inteligência, meios de expressão e comunicação, utilizándo-os para o bem ou perdas inestimáveis, contraindo maiores débitos se usar seu livre-arbítrio e todas essas concessões para o mal.

Daí nossa responsabilidade ante o conhecimento da Doutrina Espírita e no uso de nossa liberdade e de nosso tempo.

Um dos aspectos mais comuns na análise dos bens que usufruímos está na utilização da riqueza. Estamos conscientes da necessidade do desapego aos bens materiais e sabemos que o conceito de propriedade aqui na Terra não passa de simples suposição. Somos os usufrutuários destes bens e temporariamente podemos utilizá-los. Contudo, poucos são desapegados ou generosos quando se trata de dividir, repartir, transferir... As concessões em determinada reencarnação em forma de bens materiais, de títulos e posições sociais são temporárias, e somos realmente possuidores das virtudes e valores morais que já tenhamos adquirido, enriquecendo nossas vidas.

Nossa alma cria para si mesma as circunstâncias felizes em que se encontra. Do nosso hoje dependerá o porvir. Se semeamos o bem. a compreensão e o amor. colheremos os frutos da boa semeadura, mas se negligenciamos as oportunidades concedidas para nosso progresso moral, se demoramos na faixa escura do egoísmo e do orgulho, estaremos dificultando nossa vida e criando forças negativas e contrárias ao nosso desenvolvimento espiritual.

A Doutrina Espírita nos dá a orientação segura e lógica do processo regenerativo que a alma se submete por intermédio da reencarnação. Allan Kardec, na questão 167 de O Livro dos Espíritos, indaga: "Qual o fim objetivado com a reencarnação?". E os Espíritos superiores respondem: "Expiação, melhoramento progressivo da Humanidade. Sem isto, onde a justiça?".

E na questão 171:

Em que se funda o dogma da reencarnação? Na Justiça de Deus e na revelação, pois incessantemente repetimos: o bom Pai deixa sempre aberta a seus filhos uma porta para o arrependimento. [...] Todos os Espíritos tendem para a perfeição e Deus lhes faculta os meios de alcançá-la. proporcionando-lhes as provações da vida corporal. Sua Justiça, porém, lhes concede realizar, em novas existências, o que não puderam fazer ou concluir numa primeira prova. \...\

No livro Ação e reação, Sânzio esclarece: "Se claudicamos nessa ou naquela experiência indispensável à conquista da luz que o supremo Senhor nos reserva, é necessário nos adaptemos à justa recapitulação das experiências frustradas, utilizando os patrimónios do tempo".

"Há expiações no céu e na Terra." Aproveitemos nossas horas cumprindo nossos deveres, praticando o bem, perdoando e amando incondicionalmente, para merecermos a quitação de nossas contas - sementes do destino - cuja colheita nos pertence, para que tenhamos expiações na Terra evitando os sofrimentos e as dores após a desencarnação, chorando as horas perdidas em aflições desnecessárias.

Como trabalhadores da última hora, há muito a realizar e o tempo é escasso para a quitação da conta do destino de cada um de nós...

LUCY D. RAMOS