ENCONTROS E DESENCONTROS...

ENCONTROS E DESENCONTROS...

"Era preciso que atravessasse a Samaria."(JOÃO, 4:30.)

Simples frase que inicia uma das mais notáveis passagens do Evangelho de Jesus, na qual o evangelista João, Com todo o simbolismo de sua linguagem, narra o encontro do Mestre com a Samaritana.

Analisando as palavras - era preciso que atravessasse a Samaria - percebemos que Jesus poderia ir por vários caminhos, saindo de Jerusalém em direção à Galiléia. Todavia preferiu galgar as montanhas de Efraim, penetrando os limites de Samaria, evitados pelos nascidos em Judá. Era um caminho áspero, pedregoso, mas, enquanto faziam a íngreme escalada, já sentiam os ventos alísios refrescando seus corpos e descortinavam o mar ao longe, por entre as colinas que se destacavam no horizonte... Toda a Natureza vibrava em tons de rara beleza nos sicômoros ao longo do desfiladeiro e nas espigas douradas que bailavam ao sabor do vento no vale de Macneh. 0 céu azul quase sem nuvens contrastava com a paisagem a seus pés, retratando a beleza daquele momento.25Trecho adaptado do cap. A mulher da Samaria, p. 100, do livro At, primícias do reino, de Divaldo P. Franco.

Passando pela Samaria, Jesus sabia que estava atravessando uma terra proscrita aos judeus, onde várias raças e crenças generalizadas se agrupavam e rivalizavam com Jerusalém, desde a cisão que ocorrera vários séculos antes da chegada do Messias.

O objetivo de Jesus, porém, era ir ao encontro dos samaritanos. Fazer chegar até eles a palavra de Deus, procurar com seu amor romper as barreiras estabelecidas pelo preconceito, pela exclusão daqueles que ali viviam. Ele sabia dos obstáculos que iria enfrentar, mas prosseguia nos desígnios do Pai.

Na vida há momentos de escolha e decisões. Podemos escolher nossos caminhos e, muitas vezes, vivenciamos situações que nos desafiam com suas mudanças. Podemos escolher os mais amenos, os mais fáceis, que nos distanciam dos deveres e dos compromissos assumidos. Simplesmente podemos viver para nós mesmos segundo nossos interesses imediatos ou doar-nos, enfrentando dificuldades, lutas e dissabores no desempenho dos compromissos assumidos com o nosso próximo e com a nossa consciência ética. Essa escolha nos levaria a sair do egocentrismo, deixar de lado o personalismo, a omissão ante as lutas e decisões difíceis. Todos nós que já escolhemos o caminho do dever e da operosidade como seguidores de Jesus, sabemos das dificuldades, dos preconceitos, das dissensões e das críticas que iremos enfrentar. Teremos que estabelecer objetivos, planejar nossas ações no bem para sabermos o que oferecer e aonde desejamos chegar. Muitas dúvidas nos assaltam, são constantes os apelos ao conformismo, ao desejo de tudo abandonar e cuidar apenas da própria vida... Mas uma voz no íntimo de cada um de nós incita-nos a prosseguir, a não esmorecer.

Quando, rompendo as limitações do egoísmo e da ociosidade, conseguimos sair ao encontro dos que necessitam de nosso apoio, de nossa colaboração, estamos caminhando, como Jesus demonstrou, deixando a suavidade da estrada que norteava o rio Jordão para galgar as ásperas veredas que o levariam até Samaria, para o encontro daqueles que se beneficiariam com sua presença amorosa e poderiam conhecer a verdade que promulgava entre os judeus.

Narra o evangelista que, enquanto seus discípulos foram até a cidade providenciar víveres e frutas, Jesus assentou-se junto ao "poço de Jacó", aquietando-se pensativo. Eis que surge a mulher samaritana, com o cântaro ao ombro e o rosto com sinais de múltiplas preocupações. Mergulha o vaso no poço, enchendo-o de água. Sente-se perturbada ante Jesus, que parece observá-la atentamente. Emoções desconhecidas aturdem seu espírito e quando se dispõe a retornar ao lar, ouve:

- Dá-me de beber!

Volta-se surpresa e vê-se tomada por antigos ressentimentos. Pensamentos afloram em sua mente e acha estranho que aquele homem lhe dirija a palavra, sabedora de que ninguém desconhece a regra social daquele povo: era proibido pela lei que se dirigisse a palavra, em público, à mulher, mesmo que fosse esposa, irmã ou filha.

- Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?

Jesus conhece a rivalidade entre os dois povos - judeus e samaritanos, mas esta não seria a única vez que Ele enfrentaria preconceitos, derrubando-os e causando escândalos entre os que o ouviam. Jesus tinha um objetivo, uma mensagem a dar sem distinção de raças, de condições sociais ou convenções religiosas.

Por isso deixara propositalmente a estrada do Jordão e subira as serras que o levaria até Samaria.

O encontro fora premeditado e por meio dele Jesus daria ao mundo a lição inesquecível de como todos nós, filhos de Deus, poderíamos adorar ao Pai, em espírito e verdade:

"Deus é o Espírito, e importa que os que o adoram, o adorem em espírito e em verdade".

Segue depois o diálogo fraterno e esclarecedor, quando a mulher samaritana vai aos poucos se inteirando de que Jesus era o messias, o profeta. Os discípulos retornam e se admiram de que Jesus estivesse falando com uma mulher, mas nada disseram. Narra o evangelista que Jesus permaneceria dois dias ensinando àquele povo seu evangelho de amor.

No trabalho de atendimento fraterno em nossas casas espíritas, o encontro de Jesus com a samaritana demonstra em toda a sua amplitude como deveremos agir na proposta dessa tarefa assistencial. É um paradigma.

No encontro que se estabelece entre o assistido e o que se propõe a ajudar, analisando a passagem de Jesus, podemos tirar lições valiosas, embora simbólicas de todas as atitudes. Sentando-se no poço, Ele se coloca na posição do outro, cansado, pede ajuda, através da água que iria mitigar sua sede. Mesmo sendo o Mestre, já sabendo tudo que iria acontecer, coloca-se como necessitado, facilitando a aproximação com a mulher que está a seu lado. Quando nos dispomos a ajudar, temos que agir sempre assim. Temos que ser solidários com as necessidades do outro. Se nos colocarmos como iguais, facilitando o encontro, estaremos eliminando preconceitos, a barreira da superioridade e interagindo com aquele que procura ajuda.

O encontro de Jesus com a samaritana simboliza para todos nós cristãos a expressão do amor ilimitado quando estamos a serviço dele, seja no atendimento fraterno, no trabalho assistencial, na aplicação dos passes, principalmente em enfermos que, abatidos pelo sofrimento, não conseguem vislumbrar o valor da prece e do reconforto espiritual. Nosso trabalho deverá ser o do agente facilitador no resgate do aspecto espiritual, muitas vezes abalado pelo sofrimento; levar ao enfermo e a seus familiares a luz da esperança, o conforto da fé e o amor na doação maior como intermediário da ajuda espiritual.

Jesus que, no início do diálogo, era o necessitado, depois de reconhecido ("Vejo que és um profeta") se oferece como água viva que mata a sede. A samaritana percebe que a atitude de Jesus é um ato de amor.

Nos encontros de todos nós, ao longo da vida, somos defrontados por irmãos que necessitam ter alguém para falar de suas dores, de seus conflitos, de suas desilusões... Estaremos preparados para ouvir? Calar nosso mundo íntimo, para apenas escutar o que eles trazem para nós? É uma tarefa de amor e humildade que nos desafia em muitos encontros e desencontros no labor espírita ou mesmo em nossa vida familiar, em nosso trabalho... É tão difícil nos dias atuais encontrar alguém disposto a nos ouvir... Principalmente quando a alma sofre, e ao ouvi-la a compaixão se apodera de nosso íntimo, dizendo-nos sofrer também.

Quando assim nos aproximamos do outro, ajudando-o sem distanciá-lo de nosso amor, de nossa compreensão, somos realmente solidários.

Rompem-se as barreiras do preconceito, alargam-se os caminhos da fraternidade...

Conquistamos a paz.

Se nos dizemos seguidores do Cristo, aprendamos a amar com Ele.

"Os meus seguidores aprendem a ter alegria interior nos momentos difíceis e se acostumam ao prazer de servir em nome do amor. É nisto que reside a verdadeira união comigo."

LUCY D. RAMOS