INICIATIVAS...


INICIATIVAS,

Faça o que lhe digo. Solte primeiro uma borboleta.

Se não amanhecer depressa, solte outras de cores diferentes.

De vez em quando, faça partir um barco. Veja aonde vai. Se for difícil, suprima o mar e lance uma planície.

Mande um esboço de rochedo, o resto de uma floresta.

Jogue as iniciais do lenço. Faça descer algumas ilhas.

Mande a fotografia do lugar, com as curvas capitais e a cópia dos seios.

Atire um planisfério. Um zodíaco. Uma fachada de igreja. E os livros fundamentais.

Sirva-se do vento, se achar difícil.

Eles estão perdidos. Mas nem tudo o que fizeram está perdido. Separe o que possa ser aproveitado e mande. Sobretudo, as formas em que o sonho de alguns cristalizou.

Remeta a relação dos encontros, se possível. E o horário dos ventos.

Mande uma manhã de sol, na íntegra.

Faça subir a caixa de música com o barulho dos canaviais e o apito da locomotiva.

Veja se consegue o mapa dos caminhos.

Mande o resumo dos melhores momentos.

As amostras de outra raça.

Com urgência, o projeto de uma nova cidade.

Lendo o texto acima de Aníbal Machado, de rara beleza e imensa profundidade em sua preocupação com a perpetuação dos sonhos e da criatividade humana, fiquei pensando no quanto somos ricos em oportunidades e motivações para novos projetos de vida e recuperação dos ideais perdidos.

0 importante é a iniciativa. Fazer algo que modifique o estado atual das coisas, não apenas do que se toca ou que se perde na avalanche do viver de hoje, mas aquilo que é imponderável e indestrutível dentro de nós por ser eterno. Os valores imperecíveis do Espírito imortal deverão ser preservados se bons e construtivos, mas tudo o que denigre nossa condição de humanos deverá ser alterado para melhor.

Não são utopias ou quimeras, crendices ou mitos que nos confundam a mente. São verdades comprovadas pela Ciência, quanto devemos nos preocupar com nossas criações mentais, com o que sentimos em relação aos outros, com as ondas mentais que emitimos trazendo de volta os mesmos raios de energia para nossa vida.

Transcrição do trecho de uma página de Affonso Romano de Sant'Anna. Jornal EMado de Minas, 1 de abril de 2007.

Depende unicamente de nós buscar a serenidade íntima, mesmo quando a tempestade lá fora amedronta com sua força destruidora ou o caos se estabelece em torno de nós. O importante é o que estamos construindo em nosso mundo íntimo, como nos portamos nos momentos de lutas e desagravo.

Na construção de uma cidade de sonhos e alegorias, o poeta sabe o que deseja e como se sente, tomando a iniciativa de criar um mundo de paz e felicidade, mesmo que seja uma ideação ainda não concretizada. Ele recorre a todos os itens necessários para realizar esse sonho e certamente consegue.

A manhã de solI, a caixa de música, o mapa dos caminhos, os melhores momentos, o barulho dos canaviais e o apito da locomotiva, o resto de uma floresta, o esboço de um rochedo... Todos elementos indicados como portadores do que se pode ter e enviar para que outros também se beneficiem deles.

"De vez em quando faça partir um barco." Deixando ir o que não se deve prender no coração, na vida, nos sonhos. Renunciar ao que não pode ser preso ou motive a mágoa ou o desencanto de viver. "Veja aonde vai. Se for difícil Auprima o mar e lance uma planície", simbolizando a remoção da montanha das dificuldades que criamos por nossa imprudência ou descaso.

"Eles estão perdidos, mas nem tudo o que fizeram está perdido." Sempre resta uma esperança de recomeço, de recuperação para os projetos da vida.

Temos, porém, que dar o primeiro passo na iniciativa de acertar, de buscar entendimento, de perdoar, de amar, de ajudar e se preocupar com o outro.

Atravessar a rua, sentir o que o outro está sentindo, colocando-se em seu lugar para averiguar melhor o que se passa, como está vivenciando a dor em suas múltiplas facetas.

Iniciativas nem sempre fáceis pelo imenso orgulho que ainda trazemos dentro de nós, pelo egoísmo e o desejo de posse exclusiva do que consideramos imprescindível para viver bem. Esquecidos de que bem viver é o que importa.

Tão efêmero o mundo das aparências, frágil em sua configuração externa. Tão pequeno o sonho dos que buscam as facilidades do mundo material não se importando com os benefícios do amor desinteressado... Perdem a riqueza dos momentos de paz, de plenitude espiritual e lutam com avidez pela posse, pelo desejo de ter mais e mais... E precisamos de tão pouco para viver bem.

Quanto recebemos da vida em bênçãos de oportunidades e entendimento quando buscamos nas luzes do Espiritismo a razão de viver e a compreensão maior dos objetivos existenciais quando defrontados pela dor e a incompreensão dos que amamos.

Se não exercitarmos amor e caridade com os que estão ao nosso lado, como enfrentaremos as lutas externas e suportaremos os que nos são desconhecidos. Não devemos exigir dos outros um posicionamento idêntico ao nosso, nós que já estamos em condições de entender e perdoar.

É mais difícil, bem o sabemos, perdoar os ingratos que estão ao nosso lado e nos acusam de cometimentos graves que não praticamos. Necessário é, porém, exercitar o perdão justamente para estes, porque estamos no momento exato, no lugar certo para provar nossa condição evolutiva.

Quando o homem cansar-se da vacuidade e despojar-se da ilusão por exaustão do seu uso desordenado, contemplará o caos à sua volta e ouvirá no recôndito do ser as minhas palavras deste dia- Bem-aventurados os que sofrem, e, sem dar-se conta, para a viagem de volta para dentro de si mesmo, sob o comando do amor que lhe vige inalterável, iniciando o momento ditoso de adentrar-se no Reino dos Céus, no longe dos tempos que certamente chegarão...

Tome a iniciativa e recomece um novo relacionamento com aqueles que você ama. Você se sentira em paz e feliz!

LUCY D. RAMOS