LUGARES SOLITÁRIOS

LUGARES SOLITÁRIOS

Caminhava no campus, local um tanto distanciado da agitação de nossa cidade, onde defrontava inúmeras pessoas que buscavam, como eu, o ar da manhã ensolarada para o exercício diário tão importante para a saúde física e mental, quando percebi que nem todos os que andavam naquele lugar tão aplausível e reconfortante estavam se beneficiando, realmente, das bênçãos da Natureza ao redor... Alguns, caminhando sozinhos, apresentavam semblante sério e preocupante, que refletia a ansiedade e o estresse que os dominavam... Outros conversavam com os companheiros que os acompanhavam, gesticulando e relatando fatos do dia a dia que os deixavam nervosos e contrariados, denotando em suas feições o grau de aborrecimento... Poucos estavam descor tinando as belezas do amanhecer e logrando beneficiar-se com as dádivas que generosamente a Natureza nos legava na beleza das árvores floridas, na brisa deste fim de outono, nos raios de sol infiltrando-se pelas matas e chegando até nós como bênçãos dos céus...

Alguns alunos apressados buscavam as salas do campus universitário enquanto outros saíam alegres e mais tranquilos, misturando-se com os caminhantes do passeio, em sua maioria idosos, que contornavam o parque. Havia um contraste marcante entre os estudantes, com suas vestes coloridas, e os demais transeuntes, com seus trajes esportivos mais sérios e convencionais... O mesmo contraste notávamos em seus semblantes, como a denotar nas rugas e expressões faciais o cansaço, o desencanto e, em alguns deles, a amargura... Refletindo acerca destas observações, concluí quanto nos é benéfica a orientação que damos a nossas vidas priorizando os valores do Espírito imortal e como se faz necessário cuidar sempre de nossas mentes, vigiar nossos pensamentos ao longo da vida.

Exteriorizamos em nossos rostos nossas angústias, medos, conflitos de forma negativa e acentuada. Mas poderemos reverter este quadro e eliminar de nossos corações a maldade, a discriminação, o desamor, e cultivar bons pensamentos, agir com generosidade para assim mostrarmos em nossos gestos a serenidade e a paz que habita nosso mundo íntimo.

Pelas narrativas do Evangelho, sabemos que Jesus procurava sempre um lugar solitário para meditar, para orar... Marcos (1:35) narra que: "de manhã, muito cedo, Jesus levantou-se e saiu: retirou-se para um lugar solitário e ali se pôs em oração".

Em outros momentos de sua vida, também se retirou para orar, para em comunhão com o Pai buscar a inspiração e o apoio indispensável para prosseguir com sua missão grandiosa.

Todos nós temos necessidade de buscar um lugar solitário, se possível, em contato com a Natureza, onde possamos meditar, orar e refletir sobre nossas necessidades maiores, refazendo-nos para enfrentar os desafios da vida.

Procuremos observar o silêncio da Natureza quando paramos para sentir o pulsar da vida... Se adentramos neste mundo mágico que nos leva a ouvir as vozes, os sons que repercutem na acústica de nossa alma, ficamos sensíveis à dimensão espiritual que nos envolve. Este silêncio nos harmoniza interiormente, nos acalma e reconforta...

O silêncio que exala das criaturas humanas é constrangedor, impenetrável. Diferente do silêncio da Natureza e do que sentimos quando conseguimos exercitar a meditação e nos colocamos sensíveis às vozes de nosso mundo íntimo...

Amélia Rodrigues nos diz que "existem pessoas que são lugares solitários, porque se fazem áridas, amargas, abandonan-do-se à autocompaixão, à descrença".799 FRANCO, Divaldo P. Até o fim doA tempos. P. 126. '° Id., ib., p. 129. E nos adverte:

Enquanto luz a esperança e a multidão estruge qual mar violento nas praias, é necessário recorrer a lugares solitários para falar a Deus, ouvi-lo e adquirir forças para apresentá-las às criaturas humanas.

Nem sempre é possível nos retirarmos, sair de um lugar onde estejamos e buscar este recanto ermo, onde gostaríamos de estar mais intimamente ligados à Natureza... Assim, é necessário sabermos criar em nosso mundo íntimo este oásis de paz e harmonia, para nos reabastecer, refletir e orar a Deus... Buscando dentro de nós o "Reino de Deus", como nos ensinou Jesus.

Enquanto caminhamos ao ar livre, enquanto nos distanciamos fisicamente dos barulhos do cotidiano, mantenhamo-nos serenos, também intimamente, para aproveitarmos realmente as bênçãos da Natureza. Mas se não podemos nos ausentar do lar ou do trabalho para ir a estes lugares tão belos que toda cidade possui, procuremos dentro de nós a paz, na solidão de alguns minutos, refugiando-nos para em lugar solitário que deveremos criar em momentos assim. Ensina-nos a Benfeitora espiritual anteriormente citada que o Reino dos Céus é o recanto silencioso do mundo interior onde repousam todas as ansiedades...

Quando se alcança o nível espiritual da existência humana, as aspirações se elevam aos graus da emoção superior e alterações no comportamento erguem às cumeadas da alegria, da ventura. A humildade natural nele floresce e o desinteresse pelas ilusões famanazes é espontâneo, ficando rico de júbilos, sem sinais de apego ou rumores de lamentações.

Se o Reino dos Céus está dentro de nós, somos responsáveis pela criação deste lugar solitário no nosso coração, livre dos tormentos exteriores e perturbadores, do clamor da violência, que ainda perduram na vida terrena.

O autoconhecimento é o roteiro seguro e eficaz na busca do crescimento espiritual e da superação de nossas inferioridades Conhecendo-nos melhor, avaliando nosso mundo íntimo, poderemos com mais coragem enfrentar as dificuldades da vida

É todo um processo de educação de nossos sentimentos para que nossas emoções sejam mais sutis e equilibradas ao longo da vida!

LUCY D. RAMOS