LUZES DO ENTARDECER

LUZES DO ENTARDECER

Tarde de verão alongada pela claridade do Sol que lentamente se esconde no horizonte em radiações brilhantes. Nuvens em matizes de rosa colorem o céu azul e voejam suavemente neste entardecer de luzes e encantamento.

O som melancólico de um saxofone nos chega em evocações distantes com lembranças de um tempo que não volta mais...

Estamos no jardim de nossa casa onde vivemos toda uma vida de alegrias e tristezas, vitórias e fracassos, conquistas e perdas que se entremearam num processo que nos fez crescer e amadurecer ao longo de todos estes anos.

Contemplo o companheiro ao meu lado e em seus olhos procuro vislumbrar os sentimentos de outrora. Felizmente, ainda sinto a presença de seu afeto, de sua compreensão.

O amor de nossa juventude, hoje transformado em solicitações de apoio, de carinho e proteção, enriquece nossa convivência.

Sinto-o tão frágil a meu lado, tão diferente daquele jovem forte que me sustentava em seus braços e enxugava minhas lágrimas ensinando-me a vencer tantos reveses e lutas.

Quantas vezes eu procurava em seus gestos a segurança, e na fortaleza de seus passos a orientação e me abrigava em seu peito quando a dor ou o desencanto visitava meu coração.

Neste entardecer de nossas vidas, como a Natureza que juntos observamos, ainda brilha o sol do amor que aquece nossos dias e ilumina nossa caminhada.

Nem o calor e os sonhos dos primeiros anos, quando o amor explodia em nossos corações, poderão se igualar à plenitude deste aconchego, desta paz, na suavidade de nossos gestos e na esperança da continuidade de nossas vidas após a grande viagem, fechando mais um ciclo biológico da atual existência.

No ocaso da vida, embora algumas vezes as nuvens da tristeza tentem ensombrar nosso caminho, acendemos as luzes do amor e da generosidade.

E, como neste entardecer, encontramos o colorido dos raios do sol cobrindo nossos horizontes em tons vibrantes, aquecendo nossos sonhos tardios...

Um sentimento profundo de gratidão aflora em minha mente, e busco na prece palavras que demonstrem o agradecimento pelo muito que temos recebido em bênçãos e oportunidades de trabalho no bem, nesta fase de minha vida.

Quando ainda jovem, pensava nos anos futuros com o natural declínio físico, com as perdas e as limitações naturais, antevia uma velhice serena, sem tribulações ou tarefas a realizar.

Hoje, inversamente ao que se delineava no passado, sinto que existe, ainda, tanto a realizar, tantas lutas a enfrentar, tantos compromissos assumidos que somente a Doutrina Espírita nos sustenta e encoraja no enfrentamento de cada um deles.

É imperioso prosseguir, educar as emoções, equilibrando-as, e saber, em cada momento de crise ou desilusão, de felicidade ou infortúnio, tirar o máximo de proveito para o nosso crescimento espiritual.

Emmanuel, no livro Amigo, cap. 5, psicografia do querido Chico Xavier, nos leciona:

Se aguaceiros de desenganos te encharcam os dias, se tempestades de sofrimento te compelem a mudanças difíceis, se provas inesperadas te induzem a tribulações e crises de variada espécie, não te abatas e continua nas tarefas que a vida te reservou.

O importante é não esmorecer e confiar sempre em nossas possibilidades ante os deveres a cumprir.

Neste momento de reflexão, busquemos na prece o apoio indispensável e analisemos nossa dificuldades à luz dos ensinamentos espíritas.

Veremos que, aos poucos, nossa mente irá ponderar com serenidade acerca dos problemas e novas soluções serão encontradas.

Estamos vinculados a determinados grupos de pessoas e no âmbito familiar temos a oportunidade do reencontro com aqueles a quem ferimos ou prometemos amparo e orientação.

É no lar que encontramos, muitas vezes, as maiores dificuldades e empecilhos ao nosso crescimento espiritual. Mas se soubermos enfrentá-los com amor e coragem, humildade e compreensão, sairemos vitoriosos nesta luta redentora.

Emmanuel nos diz, no livro citado, que devemos analisar com segurança determinados problemas na vida familiar, alijando a mágoa de nosso mundo íntimo, buscando compreender que mesmo nossos filhos não agem segundo nossos conceitos e pensamentos. o Benfeitor espiritual nos exorta:

Doemos alma e coração aos seres queridos, sem escravização a nós e sem nos escravizar a eles. Por muito se nos enlacem no mundo físico, sob as teias da consanguinidade, saibamos deixá-los libertos de nós, a fim de serem o que desejam, na certeza de que a escola da experiência não funciona inutilmente. [...] Os adultos são donos dos próprios atos e, não será justo chamar a nós, as consequências das empresas a que se adaptem ou dos caminhos que escolham, tanto quanto não seria razoável, atribuir a eles os resultados de nossas próprias ações.

Assim, é natural que no entardecer de nossas vidas, quando temos ainda a felicidade de ter ao nosso lado o companheiro de tantos anos, nos dediquemos com mais empenho aos nossos interesses, deixando que nossos filhos sigam seus caminhos.

Eles partiram um dia para novas experiências. Certamente voltarão a buscar nosso afeto, sempre que necessitarem do aconchego de nosso lar e de nossa proteção.

LUCY D. RAMOS