MATURIDADE ESPIRITUAL

MATURIDADE ESPIRITUAL

"O comportamento é, pois, resultado do nívelindividual de consciência de cada ser".

Quando ainda jovem, imaginava que, após os embates da vida, a concretização dos sonhos, as realizações familiares e profissionais, iríamos descansar em longas férias, buscando as alegrias saudáveis das viagens a países que admirávamos ou em estâncias de repouso para o reabastecimento físico e mental. Entretanto, o tempo foi passando, outros encargos foram sendo incorporados à nossa existência e os deveres que a consciência nos impunha foram preenchendo as lacunas deixadas pela partida dos filhos e a aposentadoria na área profissional. Hoje, já sabemos que a vida não é, nem poderia ser, pelo nosso grau de entendimento da Lei Divina, um perpetuar de férias e divertimentos, como se já tivéssemos nos livrado de todos os compromissos assumidos.

Importante que seja assim. Continuamos a nos sentir úteis, capazes, e podemos prosseguir na realização de nossos projetos de vida, trabalhando no bem, servindo e aprendendo. Nosso espírito se enriquece à medida que servimos ao nosso próximo e transformamos nossa existência na ponte que une nossos corações aos que nos buscam sequiosos de ajuda, na capacidade de assumir responsabilidades, transpor obstáculos, transformar empecilhos em vantagens apoiados na coragem, na fé e na confiança em Deus. Desnecessário afirmar que a Doutrina Espírita nos enseja essas oportunidades e nos dá o respaldo para a realização dos reais objetivos da vida.

Creio que, ao assumirmos esta postura ante a vida, não amadurecemos apenas fisicamente, mas sobretudo na área mental, e, estamos construindo um futuro espiritual melhor na aquisição dos valores morais e na reparação dos erros do passado.

Pensar que se amadurece em função dos anos vividos é utopia. A maturidade espiritual independe da idade cronológica.

É uma conquista do espírito e requer autoaprovação, autos-suficiência e liberdade de agir sempre de acordo com as leis da vida, conscientes de que somos responsáveis pelos nossos atos. Elaboramos nosso destino conforme pensamos e alimentamos nossa vida interior.

O amadurecimento espiritual é inerente ao desenvolvimento das virtudes, de nossas realizações diárias, das lutas e embates contra nossas imperfeições morais que nos retêm na retaguarda, impedindo nosso crescimento e nossa libertação.

Somente podemos aquilatar nossa maturidade em momentos de crise, nas situações difíceis, nos relacionamentos e conflitos que vão surgindo em nosso caminho. Se consigo manter a serenidade íntima vencendo estas dificuldades naturais em meu processo evolutivo, estarei bem comigo mesmo e me aprovando como um ser que busca o equilíbrio. Meu nível ético assinala minha condição moral e o grau de maturidade em que me encontro ante os problemas vivenciados, se estarei em paz ou, ainda, em conflito com minha consciência.

Tenho observado, ao longo da vida, que, à medida que conquistamos o amadurecimento espiritual, vamos nos tornando mais humildes, mais tolerantes, mais receptivos às orientações que nos chegam através do assessoramento espiritual ou pela compreensão mais lúcida das Leis de Deus, educando nossos sentimentos e nos sensibilizando mais facilmente ante as dores dos que nos procuram sedentos de paz e consolação. Mesmo em momentos de dor e sofrimentos acerbos, conseguimos manter a chama da fé aquecendo nosso coração e a luz do entendimento maior, orientando nossos passos.

Os desafios da existência nos impulsionam a prosseguir...

Aceitamos as lutas sem lamentações ou censuras, porque entendemos que elas têm em nossas vidas a função educativa, preparando-nos para novas conquistas e novos patamares na linha do crescimento espiritual.

A serenidade íntima e a segurança oriundas desta maturidade por meio de uma compreensão mais profunda dos objetivos da vida advêm do conhecimento das leis morais e divinas, de sabermos que não estamos sozinhos e de que há em todos os seres do Universo uma interdependência que os leva a se equilibrarem e se confortarem nos dois planos - físico e espiritual - por intermédio da lei do amor.

O hábito salutar da prece, da meditação, de buscarmos diariamente alguns instantes voltados para a interiorização, leva-nos a incorporar a nossa vivência um padrão de vibrações mais sutis e uma aguçada sensibilidade ao que nos cerca. É importante nos habituarmos a ficar em silêncio, abrir nossa mente às percepções mais etéreas de nosso cotidiano. Observar as coisas simples da Natureza e tirar lições de seus exemplos de perseverança e doação constante.

0 escritor James Carroll, do século XX, retrata muito bem o que sentimos quando afirma:

Gastamos a maior parte do nosso tempo e da nossa energia com uma espécie de pensamento horizontal. Transitamos ao longo da superfície das coisas indo de um canto ao outro, muitas vezes num frenesi que nos deixa esgotados. Colecionamos dados, objetos, pessoas, idéias, experiências profundas, sem nunca nos voltarmos inteiramente a nada dissolvias existem outras situações. Há momentos em que paramos. Sentamo-nos quietos. Nossa mente se perde na contemplação de um monte de folhas ou nas lembranças que elas nos trazem. Ouvimos. E, então, brisas de um outro mundo começam a sussurrar 66 CAMPBELL, EILEEN TEMPO DE VIVER, pa. 81

Se conseguirmos ouvir e entender as mensagens que nos chegam, os pensamentos que nos inspiram em momentos assim, veremos que um novo mundo se descortina diante de nós e as soluções dos problemas ou situações que nos atormentavam começam a se diluir na grandeza do futuro que nos espera, nas luzes que se acendem em nossos corações, alimentadas pela fé e o amor de Deus.

É na prece que buscamos nosso alimento espiritual. E ao entendermos as respostas de Deus, que é Pai e amor imensurável, estaremos aceitando as dores da alma como edificadoras de nossa evolução.

Através do sofrimento, na maioria dos casos, enriquecemos nossos espíritos de sabedoria e aprendemos a sobreviver com dignidade. Isto nos traz maturidade espiritual, tornando-nos mais aptos a entender nosso próximo, a contribuir para a melhoria do meio em que vivemos.

Cresce, também, nossa responsabilidade como espíritas na hora do testemunho, quando são auferidos nossos valores morais e colocado à prova o que falamos, o que pregamos e toda a riqueza das informações que repassamos, das lições e dos recursos da Doutrina Espírita.

Repensemos nossos atos e esforcemo-nos cada vez mais, confiantes de que Jesus aguarda por nós há milênios...

Deixemo-nos impregnar pelas suaves vibrações de suas palavras, oferecendo-nos a linfa pura, mitigando nossa sede, aliviando nossas dores, saciando nosso desejo de justiça e amenizando as aflições do caminho...

Ressoam como vibrações de amor, luarizando nossas vidas, suas divinas palavras que não se perderam na voragem do tempo: "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; bem-aventurados os aflitos, os oprimidos e sedentos de justiça, porque deles é o Reino de Deus".

Joanna de Angelis nos exorta à conquista desta maturidade quando nos diz:

Somente aqueles que se libertam e amam, após atravessarem as dificuldades e ultrapassarem as metas iniciais do progresso terrestre - social, familiar, pessoal - permanecendo voltados para o bem geral e transformados interiormente, assim como iluminados pela chama da imortalidade, nela mergulhados pela própria causalidade, fruirão da real plenitude - que é a meta essencial.

Este é o caminho!

LUCY D. RAMOS