NUVENS QUE PASSAM

NUVENS QUE PASSAM...

Neste domingo, as recordações se avolumam em meu coração, numa tentativa de reviver a felicidade de outrora, como se isto fosse possível quando já adentramos o inverno da vida e as ilusões se desvanecem como nuvens esparsas no horizonte, vergastadas pelo vento...

0 dia amanheceu sombrio e triste. Um nevoeiro intenso recobre a montanha distante... Há um silêncio profundo em tudo que me cerca, como se o tempo parasse e todos dormissem receando acordar, fugindo ao enfrentamento da realidade da vida...

0 céu que deveria estar plenamente azul neste amanhecer, para festejar o verão de luzes e cores, mostra-se encoberto de nuvens espessas, como se tentasse esconder a magia deste tempo, quando todos renovam as esperanças de dias melhores...

Dentro de mim, os sentimentos se mesclam em nuances de tristeza e alegria, como se eu devesse prosseguir sorrindo, mesmo em horas de desencanto, considerando as luzes da fé que se acendem em meu coração, dissipando todos os pesares.

Em momentos assim, de saudade e tristes lembranças, temos que lutar contra o desânimo e a desesperança. Encontrar a janela que se abre para a eternidade e vislumbrar o futuro que nos aguarda.

O que nos dá tanta coragem ante a dor e o infortúnio?

Como superar tantas dificuldades?

Onde buscar a resistência necessária para prosseguir?

Quando você pensa que já venceu todas as batalhas, já superou todos os obstáculos e terá uma fase de paz e tranquilidade, eis que surgem novos desafios, uma nova tempestade vergastando a alma, destruindo os sonhos e ensombrando os dias em que a suavidade da vida parecia duradoura...

Novas lutas, dores superlativas, e o coração parece que vai romper dentro do peito, sem sabermos se daremos conta de tudo. Nuvens escuras surgem no horizonte, tentando destruir a esperança e a fé. Entretanto, no âmago de nosso ser, sabemos que não podemos sucumbir nem desistir da luta.

Uma força superior nos leva a reagir, buscando lá no recôndito da alma a luz da fé, daquela confiança em Deus que tantas vezes, em situações difíceis, nos socorreu, acreditando firme¬mente que poderemos, mais uma vez, vencer este novo desafio, encontrar novas motivações para prosseguir e conquistar a serenidade íntima, tão necessária para nos mantermos em sintonia elevada.

Se, nas horas de provação, soubéssemos observar o trabalho interno, a ação misteriosa da dor em nós, em nosso "eu", em nossa consciência, compreenderíamos melhor sua obra sublime de educação e aperfeiçoamento. Veríamos que ela fere sempre a corda sensível. A mão que dirige o cinzel é a de um artista incomparável, não se cansa de trabalhar, enquanto não tem arredondado, polido, desbastado as arestas de nosso caráter. Para isso voltará tantas vezes à carga quantas sejam necessárias. [...] Para todos terá processos diferentes, infinitamente variados segundo os indivíduos, mas em todos agirá com eficácia, de modo a provocar ou desenvolver a sensibilidade, a delicadeza, a bondade, a ternura, a fazer sair das dilacerações e das lágrimas alguma qualidade desconhecida que dormia silenciosa no fundo do ser ou então uma nobreza nova, adorno da alma, para sempre adquirida.

Este pensamento de Leon Denis nos leva a refletir acerca da função educativa da dor em nosso processo de crescimento espiritual.

Existem fases na vida de tanta complexidade, de tantas dificuldades que, após o enfrentamento das situações mais angustiantes, ficamos pensando onde conseguimos coragem para superá-las, tanta energia para não sucumbir ante o látego da dor a nos vergastar a alma frágil e cansada... Vencida a luta, após a recomposição das forças, quando os sentimentos vão se aquietando em nosso coração, acreditamos que somente um poder maior esteve presente em todos os momentos difíceis a nos socorrer e nos sustentar para que não sucumbíssemos.

Quando as luzes do Espiritismo abençoaram nossas vidas, desde a infância distante, sabíamos que somente em suas lições recamadas de lógica e consolação teríamos o suporte para enfrentar as dores do caminho. Apenas não imaginávamos que as lutas seriam tão intensas e que o amparo seria com a grandeza com que tem se realizado em minha vida.

DENIS, Leon. O problema do ser, do destino e da dor. Cap. XXVI.

O poder da fé, a nossa capacidade de recompor e refazer as coisas, muitas vezes, destruídas pelos embates da luta, no ressarcimento de débitos do passado, tem nos provado que somente o amor imensurável de Deus poderia conceder-nos tantas oportunidades de crescimento.

Quando você sofre o impacto de uma perda ou de um sofrimento difícil de ser suportado, é preciso dar um tempo para digerir o que se passa em seu mundo íntimo. Principalmente quando você ainda não se refez de outras perdas e dores acerbas sofridas recentemente. A lágrima suaviza nossa alma se nos resignamos ante o sofrimento. A fé age em nosso íntimo como a alavanca que nos ergue para prosseguir cumprindo os deveres do dia a dia, e o amor ilumina nossa alma para dar continuidade aos ideais, visando ao nosso futuro espiritual.

Seria insensatez nos vangloriarmos pelo que temos enfren¬tado como parte de nossa programação de vida. Outros irmãos nossos passam ou já passaram por situações mais difíceis, sem os recursos que temos, sem a fé que ilumina nosso ser.

Entretanto, é justo considerar que, sem o apoio do plano espiritual superior que nos ajuda e consola nos momentos de sofrimento, teríamos fracassado. À medida que somos abençoados pelo conhecimento espírita e pelas luzes do Evangelho de Jesus, temos condições de superar os obstáculos do caminho com possibilidades maiores de vencer e ressarcir nossas dívidas pretéritas.

Quando iniciei nossa conversa, querido leitor, o céu estava triste e cinzento, recoberto de nuvens pesadas... Agora, uma réstia de luz já ameaça romper as brumas deste alvorecer... Começo a vislumbrar o azul esmaecido entre as nuvens que se movimentam. A montanha no horizonte já recebe os raios do sol, dando luminosidade às árvores verdejantes que a recobrem. Há prenúncios de um dia radioso iluminado pelo calor da vida que se esplende em bênçãos de paz e renovadas esperanças, como a nos mostrar que nós também podemos encontrar em nosso caminho, entremeando as sombras que se estendem, por vezes, sobre nós, as luzes da esperança e do amor!

LUCY D. RAMOS