O FIO DA ESPERANÇA

O FIO DA ESPERANÇA

Amanhecia... Aos poucos o manto escuro da noite se enrolava dando lugar às luzes matutinas, enquanto as brumas menos densas se dispersavam alcançando as alturas e se confundindo com as nuvens que céleres caminhavam. A terra ainda molhada mostrava-se com nuances cor de prata sob o orvalho da noite que findara. Os pássaros voavam em bandos, fazendo acrobacias, e alegres cantavam no intuito de despertar a vida que palpitava na Natureza. Iam se delineando, no campo florido e nos montes que circundavam o vale, as silhuetas das árvores e dos tufos de capim, ainda cobertos de cristais de orvalho cristalino, em mágicas expressões de beleza inconfundível. Havia neste amanhecer, ainda, um encantamento que o brilho da lua deixara ficar.

Ao longe, nas casinhas brancas, o fogo crepitava nos fogões e já surgia nas chaminés de barro a fumaça branquinha confundindo-se com a cerração que subia lentamente. De repente, um clarão ressurge atrás da serra, dourando o bambuzal, o capinzal e todo o vale. Tudo, então, se transforma... Aquela quietude de momentos atrás dá lugar ao esplendor da manhã com tons avermelhados no horizonte, e as rendas tecidas pelo orvalho na campina florida vão se desfazendo ao calor do sol e sob o balanço do vento que sopra com maior intensidade... Tudo ganha novo colorido, até as aves cantam mais alegremente.

Surge um novo dia, rebrilha em nossas vidas uma nova esperança a cada amanhecer. Há uma profunda magia a cada alvorecer, como se nos propusesse a vida uma nova iniciação espiritual, levando-nos a meditar e refletir mais intensamente acerca dos reais objetivos da existência.

A cada alvorecer, o coração bate mais intensamente quando sabemos louvar as belezas da vida, as bênçãos que Deus nos concede e procuramos ter gratidão por tudo o que Ele nos dá visando ao nosso crescimento espiritual.

Louvemos a Deus a ventura de poder sentir a verdadeira beleza das coisas que podemos tocar, ver, aspirar. Louvemos a Deus e saibamos agradecer a bênção de viver intensamente cada minuto, cada etapa, com o coração pleno de amor e serenidade, mesmo em momentos graves, sob as sombras das lágrimas que tentam embaçar a visão do que é essencial em nossa existência.

Mesmo em momentos difíceis, quando sofremos, busquemos por meio da oração encontrar o fio da esperança, confiando que um dia melhor nos aguarda e haverá sempre um sol brilhando a cada amanhecer para enfeitar nossos dias, com a certeza, também, de que mesmo através das brumas que tentam encobrir a força de sua luz, ele voltará a brilhar sempre, aquecendo nossa Terra e colorindo a Natureza.

O dia surge a cada alvorecer, suavemente, com perseverança e independente do que pensamos ou realizamos na tentativa de alterar o ritmo da vida. Se conseguirmos viver em paz e alegremente, sustentados pela fé e pela esperança, poderemos irradiar à volta de nós a mesma suavidade que a Natureza nos ensina.

Joanna de Angelis nos diz que:

nada mais belo do que um coração jubiloso irradiando o sol da alegria espiritual. Estás no mundo para tornar-te melhor e fazeres que o mundo seja menos triste e mais rico de esperança. Por menor que seja, faze da tua contribuição um hino de alegria e de respeito pela vida.

Mesmo em momentos de solidão e dores acerbas, ore e confie. Busque no amor a luz que o inspire a novos caminhos, consolidando em sua vida os valores que o tranquilizem e o sustentem.

Tagore com sua poesia, através da mediunidade de Divaldo P. Franco, conta-nos, ante as dores da perda, exaltando a excelência do amor, o seguinte:

Apoiada à cornija do pátio, onde fitava o céu, o coração saudoso, em brumoso crepúsculo, deixou-se abater. Os dentes alvos de estrelas brilhantes, e as pálidas rajadas da lua por entre nuvens, desceram à desdita do coração, onde a agonia fizera seu cerco e, ao Nirvana, um anjo de luz conduziu a mulher enlutada.

No jardim das delícias, à alfombra de celestes musas, deu-se o encontro dos amores dilacerados pela distância.

- Não acredites, em tua dor, que estejamos longe... Meu espírito canta as melodias do amor, e derrama, na tua saudosa agonia, o perfume dos afetos que não cansam! - murmurou o amado, antes ausente.

- Sigo a sós, sem esperança - respondeu a alma. - Que será de mim?

- Nunca estamos a sós quando amamos... Como raízes na madre da terra, estamos entrelaçados pelo tempo... Contempla o céu... Respira o ar... Escuta a melodia da Natureza... Confia no amor que não cessa... Canta a esperança, na ausência breve, e apercebe-te de que a vida, na morte, nada mais é que nuança nova, em início de alvorada sem-fim...

...E a alma extasiada, que reclinara no amor, como um perfume em corola delicada, despertou na noite fria, aos abraços com o vento, para continuar a viver.

Somente o amor, em suas variadas nuances, nos motivará para o enfrentamento das lutas e ao cumprimento dos deveres que aguardam nossa contribuição, ao longo dos dias que ainda nos restam na existência atual. E o fio da esperança nos manterá ligados à certeza do reencontro.

LUCY D. RAMOS