OUTONO DA VIDA

OUTONO DA VIDA

A Natureza é rica de ensinamentos em suas mutações constantes e em sua capacidade de renovação. Entretanto, obedece aos ciclos das mudanças e transformações, sem perder jamais a continuidade na sequência dos fenômenos a que se submete em equilíbrio com as leis naturais. Renova-se e persevera na perpetuação da vida. Sofrendo os golpes da depredação e do abandono, ergue-se na perpetuidade de seus ciclos e no seu poder de renascimento constante e admirável.

Observando nossas vidas, quando adentramos na etapa final, por ser a última de renovação em seu aspecto físico, estamos nos aproximando da transformação mais importante, fechando o ciclo biológico da atual existência para renascer na dimensão espiritual.

É justamente nesta fase, para muitos de nós, que se avolumam os problemas, as lutas, as perdas e os conflitos familiares. Parece que, com o tempo escasso que nos resta, teremos que saldar os compromissos e nos apressar na organização de tudo o que iremos abandonar, principalmente, no aspecto material.

Transformações necessárias que, muitas vezes, nos magoam e deixam marcas em nosso mundo íntimo vão se repetindo com mais frequência quando despertamos para uma existência mais realista e coerente com o desenvolvimento moral que já tenhamos adquirido nesta fase da vida.

Perdas, sentimentos de frustração e desencanto gerados por atitudes hostis dos que nos cercam...

Separações, partidas sem possíveis retornos, afastamento de entes queridos atraídos pelas ilusões da vida...

Protestos, rebeldías, incompreensões daqueles a quem dedicamos nossas vidas, esquecendo nossos sonhos e aspirações para que eles tivessem o apoio e a proteção quando frágeis e dependentes...

Exigências e cobranças dos familiares em momentos de fragilidade e sofrimento, ocultando-lhes as causas para que não perdessem a fé no futuro e a esperança...

Pensamentos sombrios que nos esforçamos para desfazer sob as luzes da esperança e do amor, lutando para que a decepção não nos ensombre os dias...

Solidão dos que já estão caminhando na busca dos valores reais da vida, tomados de tristeza pela incompreensão de muitos, mas cientes de que todo renascimento é doloroso e a subida é íngreme e cansativa.

Somos enriquecidos, contudo, com a luz do conhecimento e, à medida que caminhamos rumo ao nosso destino maior, somos abençoados com a glória de servir e as alegrias mais puras do reconhecimento de que não foram em vão as lutas e os percalços da senda percorrida.

Agora que o inverno se aproxima, não devemos nos abater ante os reveses da vida, mesmo reconhecendo que nossas limitações físicas se ampliam. Perseverar no propósito de elevação sem permitir que o desencanto e a amargura nos infelicitem.

Se já podemos olhar nossa vida numa retrospectiva de fatos e sentimentos, confiantes de que realizamos o melhor possível, saberemos reagir ante o peso das tribulações desta fase, porque já estamos fortalecidos pela compreensão e pela gratidão.

Os ciclos da Natureza são como os vários ciclos existenciais. Repetem-se na exuberância da primavera e do verão, com a luminosidade das cores e a manifestação da força - o Sol brilha com maior intensidade, as chuvas torrenciais lavam os detritos, e as correntezas carregam para longe o lixo ambiental suavizando a atmosfera reinante. No outono e no inverno, a paisagem fica mais triste, escasseiam-se as flores, e os dias ensolarados, que se estendem mais horas no verão, vão diminuindo até surgir a primavera novamente.

Entretanto, observando as lições da Natureza, percebemos que mesmo em dias menos fulgurantes, outras benesses nos favorecem - os frutos sazonados são mais abundantes, as noites estreladas se sobressaem na escuridão da noite, as árvores colorem suas folhas que caem em cascatas de rara beleza, atapetando o chão em que percorremos. Em dias assim, no outono da vida, um sentimento de paz nos inunda a alma, convidando-nos à oração, às reflexões mais profundas acerca do sentir e do viver...

Nas diferentes etapas da vida, vivenciamos ciclos idênticos que nos fazem amadurecer no crescimento moral, se soubermos imprimir às nossas atitudes a coerência do que aprendemos à luz dos ensinamentos de Jesus.

Ante os desafios que se fazem constantes em nosso caminho, saibamos agir com coragem e fé para que as transformações, sempre renovadoras e necessárias, sejam enfrentadas sem lamentações ou rebeldias.

Muitas vezes não entendemos o porquê de certas atitudes dos que amamos, quando nos julgam com severidade e se afastam de nós, mas se formos mais realistas, não permitindo que a mágoa nos amargure a vida nem reduza nossa capacidade de amar, solucionaremos os problemas com discernimento e serenidade íntima.

Quando o inverno chegar, estarei alegre e confiante, acendendo em meu coração o sol da generosidade e do perdão. Assim, poderei aquecer meu coração com a luz do amor e enfrentar a solidão sem permitir que o gelo da amargura enrijeça meus sentimentos.

Contemplando lá fora as brumas deste amanhecer - que tenta vencer os raios de sol que as dissipam sem esforço maior -, lentamente descortinamos o azul do céu e as luzes das vegetações costeiras ressequidas pelo outono que se esvai e que buscam se espelhar nas águas tranquilas do lago.

Meu ser, aos poucos, ergue-se do leito do comodismo e do desalento para, num gesto de gratidão, louvar a Deus as belezas da vida que esplende lá fora. Neste momento, dissipamos também de nosso mundo íntimo os tormentos da insensatez, a frieza da solidão e vamos preenchendo os vazios do coração com as bênçãos do afeto, da esperança e da alegria de um novo dia.

Vamos, lentamente, incorporando às nossas atitudes o reconhecimento pela experiência e a riqueza do conhecimento espírita que norteia nossas vidas. Voltam a povoar nossa mente as palavras de luz assimiladas ao longo dos anos. A aprendizagem destes ensinos facultam-nos agora a possibilidade do testemunho. Já não vagamos nos labirintos da insegurança nem tateamos nas sombras do medo.

O amadurecimento moral nos torna fortes e seguros, capazes de enfrentar os desafios atuais. Não que nos sintamos melhores ou maiores nos embates da vida, apenas nos escudamos nos valores morais já adquiridos e assim sofremos sem desespero ou atitudes de rebeldia.

Amélia Rodrigues nos fala ao coração quando se expressa:

Entre os homens, o maior é sempre aquele que se esquece de si mesmo, tornando-se o melhor servidor, aquele que não se cansa de ajudar, que se encontra sempre disposto para cooperar e servir sem outra preocupação, qual não seja a de beneficiar... Quem se apaga para que outro brilhe, torna-se-lhe o combustível sem o qual a luminosidade desaparece.'

LUCY D.RAMOS