PAIXÕES PERTURBADORAS

PAIXÕES PERTURBADORAS

"Tudo o que se eleva para a luz eleva-se para a liberdade. Esta se expande plena e inteira na vida superior.

A busca da felicidade é a grande meta do homem.

Todos os prazeres do mundo são regulados por leis morais que estabelecem limites em função das reais necessidades humanas e dos anseios de nossa alma. Transgredir estes limites é buscar nos excessos das paixões e das perturbações inferiores o sofrimento e a dor.DENIS, Léon. O problema doser, do destino e da dor. Cap. XXII.

Portanto, somente somos felizes quando agimos coerentes com a Lei Divina ou Natural. Se a infringimos, sofremos as consequências de nossos atos.

Somos livres para escolher nossos destinos. Fomos criados simples e ignorantes das leis que regem os mundos, e cresce O Espírito só está verdadeiramente preparado para a liberdade no dia em que as leis universais, que lhe são externas, se tornem internas e conscientes pelo próprio fato de sua evolução. No dia em que ele se penetrar da lei e fizer dela a norma de suas ações, terá atingido o ponto moral em que o homem se possui, domina e governa a si mesmo.

Ao atingir este estágio, seu senso moral indica o que lhe convém e seu nível ético estabelece o que deve ou não fazer, como seguir sua vida sem prejudicar o próximo, suas tendências inferiores poderão ser controladas e vencidas, se ele assim o desejar...

O termo paixão não deve ser usado apenas de forma pejorativa, como falta ou atitude perturbadora da ordem moral ou social. Genericamente, paixão é um sentimento excessivo por um ideal, objeto material ou alguém. Alguns a denominam, quando em excesso, como amor desequilibrado, afeição intensa com características de parcialidade e exclusivismo. Como todo excesso é prejudicial, foge à linha da normalidade, temos que analisar mais amplamente porque tantos sucumbem ao seu domínio. Neste ponto a paixão se torna viciosa e denota inferioridade moral.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, capítulo XII da terceira parte, a partir da questão 907, faz uma abordagem muito importante acerca deste assunto, que passaremos a analisar a seguir.

Esclarece, inicialmente, que a paixão em si mesma não é um mal. A paixão está no excesso provocado pela vontade, pois o "princípio da paixão" - aqui significando "amor intenso por" - foi dado ao homem para o bem, e as paixões podem conduzi-lo a grandes realizações.

Na questão 908, indaga:

Como definir o limite em que as paixões deixam de ser boas para se tornarem más?

As paixões são como um cavalo, que só tem utilidade quando é governado e que se torna perigoso quando passa a governar. Reconhecei, pois, que uma paixão se torna perniciosa a partir do momento em que não mais conseguis dominá-la, resultando num prejuízo qualquer para vós mesmos ou para outros.

Com este pensamento, podemos dizer que as paixões, quando bem direcionadas, são propulsoras do progresso e ajudam a lei de evolução. Portanto, devemos dominá-las e não permitir que elas nos dominem.

As paixões têm um princípio na natureza do ser, não sendo um mal, segundo a visão espírita, porque impulsiona o ser humano a desenvolver em si mesmo a busca do bem, sendo uma das condições providenciais de nossa existência.

Em nosso estágio evolutivo, se nos deixarmos arrastar pelos excessos, seremos levados ao desequilíbrio com sérios comprometimentos, tornando-nos egoístas e derrapando para as paixões inferiores, com atitudes perturbadoras da paz e do amor.

No processo de evolução, o amor é o antídoto do mal que ainda vige em muitos corações. Sendo de procedência divina, o amor, e somente ele, poderá iluminar nossas mentes, livrando-nos das atitudes impensadas e conflitantes, apagando de nosso íntimo a sombra que ainda persiste escurecendo nossos anseios de crescimento e nos impede de buscar a ascensão espiritual.

Esse processo encerra toda a saga da autoconquista de cada ser que deve transformar impulsos em sentimentos, atavismos em atividades lúcidas, heranças dominadoras em aquisições plenas, instintos arraigados em emoções harmônicas, hábitos estratificados em realizações edificantes, tendências inferiores em aspirações elevadas sob os impulsos do amor. Tal é o grande compromisso que deve ser atendido por todas as criaturas que anelam pela tranquilidade e pelo bem-estar legítimo.47KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro N. Bezerra. 3. ed. comemorativa do sesquicentenário. Rio de Janeiro (RJ): FEB, 2007.

As tendências inferiores, ainda arraigadas em nosso eu profundo, herança atávica de nossa fase primitiva, quando desconhecíamos a Lei Divina e nos arrastávamos na ignorância sob o jugo do instinto, são remanescentes dos atos praticados que não foram, ainda, erradicados. Assim, toda paixão que aproxima o homem de sua natureza animal distancia-o de sua natureza espiritual, retardando sua evolução e o impedindo de ser feliz. FRANCO, Divaldo P. JeAUA e o Evangelho - À luz da psicologia profunda. P. 87.

Não seja de estranhar que ainda permaneçam no Espírito em crescimento para Deus as fixações ancestrais decorrentes das experiências por que passou, retendo-o ou dificultando-lhe a ascese. Mediante esforço bem direcionado e constante, são vencidos os impedimentos, e os atributos de sublimação rompem o cárcere em que se demoram retidos, facultando o alcance da plenitude. 48FRANCO, Divaldo P. e TEIXEIRA, J. Raul. Diretrizes de segurança. P. 104.

Todo excesso, todo extremismo e parcialidade ao lidarmos com nossas emoções geram sentimentos inferiores, desequilibrados, levando-nos às conquistas materiais, distanciando-nos dos objetivos reais de nossa existência. Este posicionamento retarda nosso progresso espiritual, denuncia a supremacia da matéria sobre o Espírito, com sérias implicações morais em nossa vida social e familiar.

A vontade de superar nossas más tendências seria o primeiro passo no caminho mais seguro para vencermos as paixões inferiores. Os recursos espíritas, aliados ao conhecimento que a Doutrina nos confere, fortalecem nossa vontade, por compreendermos que a prece, o amor desinteressado, a renúncia, a abnegação são fomentadores de defesas em nosso mundo íntimo, ajudando-nos a superar as dificuldades da luta contra as imperfeições morais.

Assim, podemos dizer que as paixões inferiores e perturbadoras são resultantes do desequilíbrio, do exagero e dos excessos com que lidamos com nossas conquistas materiais, com nossos sentimentos e aptidões, provocando lesões em nossas almas e prejudicando os que caminham conosco.

Em nossa vida diária, podemos treinar o domínio sobre as paixões, começando pelas coisas mais simples:

• no hábito da alimentação, indispensável à nossa sobrevivência, mas que, desgovernado, nos leva à gula;

• nas atividades profissionais ou domésticas, quando exageradas e movidas por atitudes egoístas, são desencadeadoras de conflitos e desarmonia;

• no lazer e na recreação tão necessários ao equilíbrio de nossas energias, agindo beneficamente contra o estresse da vida moderna; contudo, os abusos na busca de emoções novas e o desregramento propiciarão o descontrole na área da afetividade ou a indolência na ociosidade;

• nos relacionamentos afetivos, tão importantes para o equilíbrio das energias que se refazem, nas emoções que se enobrecem; mas, se levados aos extremos das atitudes egocêntricas e do ciúme doentio, serão geradores de lesões morais e fomentadores de obsessões espirituais;

• os ideais e os anseios da alma, seja na área das pesquisas científicas, das realizações artísticas ou religiosas, se levados aos extremismos, aos excessos em suas realizações, infringindo as leis morais, poderão gerar neuroses e dependências mórbidas com sérios desequilíbrios espirituais.

São exemplos com os quais nos deparamos em nossa vida de relação e nos hábitos vivenciais que poderão gerar distúrbios no psiquismo e paixões violentas, portanto, perturbadoras.

No entanto, quando educadas, as emoções e as paixões poderão impulsionar as grandes realizações nas áreas artísticas, sociais e humanitárias.

Temos no Evangelho de Jesus a orientação segura para vencermos nossas más inclinações, vigiando e orando sempre.

Seus ensinamentos nos levam a entender toda a extensão do amor, como lei da vida, sustentando-nos nas lutas travadas com nossas imperfeições, porque através do amor o egoísmo cede lugar ao altruísmo e a abnegação nos leva a entender melhor o nosso próximo, amando-o e respeitando-o como nos amamos.

Quando Allan Kardec, indaga aos Espíritos superiores: "Qual o meio mais eficaz de combater-se o predomínio da natureza corpórea?".

Temos na resposta a síntese do amor como o meio capaz de vencer nossas más inclinações: "Praticar a abnegação".

Este, seguramente, é o caminho.

LUCY D. RAMOS