PROVAS QUE AFETAM O CORAÇÃO

PROVAS QUE AFETAM o CORAÇÃO

0 tempo passa célere... Aos poucos nos damos conta de que os filhos crescem, organizam-se em novos grupos familiares e sociais, distanciam-se, naturalmente, de nós e seguem suas vidas em rumos, muitas vezes, bem diversos do que imaginávamos ou sonhávamos para eles.

Vão ficando, ao longo do tempo, mais difíceis os encontros de família, mesmo em ocasiões especiais, a convivência amena e descontraída do passado, quando ainda eram crianças e estavam sempre ao nosso redor.

É natural, porém, que isso aconteça porque um dia nós também nos afastamos de nossos pais para estudar em outra a idade, organizar nossa vida profissional, criar novo vínculo pelo casamento, distanciando-nos fisicamente do lar tão seguro que nos abrigava. Contudo, perduram os laços afetivos quando há afinidade espiritual entre os participantes do grupo familiar e mesmo a distância não rompe o elo de amor e carinho que os envolve. Os pensamentos se cruzam em harmônicas recordações do passado e o desejo de rever os entes queridos distantes permanece sempre, constituindo fonte de imensa alegria o reencontro.

"Os laços de sangue não criam forçosamente os liames entre os Espíritos."68KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.

Já os laços espirituais perpetuam a afetividade e unem para sempre a família, na terra como em outra dimensão espiritual.

Quando retorno à fazenda, onde minha família vivenciou momentos de muita felicidade ao lado de outros parentes, com meus pais e os pais de meu companheiro ainda vivos, tios, primos e amigos chegados ao nosso coração, penso mais profundamente nos problemas familiares de hoje, na distância dos entes queridos, motivada por circunstâncias diversas. Fico refletindo nas palavras sábias de Kardec ao elucidar e comentar no cap. XIV de O Evangelho segundo o Espiritismo. O rompimento e o distanciamento de alguns familiares têm explicações certas nos ensinamentos ali contidos, enfatizando sempre que os elos espirituais perduram e que a consanguinidade é frágil para manter a convivência do grupo familiar.

Olhando os retratos no velho álbum da família, os retratos que ornamentam as paredes de uma sala da fazenda, os vejo juntos, alegres, descontraídos, abraçados e com os olhos brilhando de confiança no futuro... Costumo indagar: Sera que para vê-los juntos terei que recorrer sempre ao velho álbum de fotografias?

Fotos antigas ou mais recentes retratam a história de nossas vidas e eternizam recordações de fatos e pessoas. Algumas já partiram para o mundo espiritual, mas as observamos com todo o realismo em suas fisionomias retratadas, que nos dão uma visão retrospectiva do dia, do momento especial em que as fotografamos. Distantes ou junto de nós, representam fases vivenciadas e nos levam a lembranças de momentos felizes do passado.

Analisando algumas fotografias, nos quedamos em reflexões a respeito dos laços familiares, dos afetos que partiram, dos que teimam em se distanciar de nosso convívio, embora estejam vinculados ao nosso coração.

Sabemos que os laços de consanguinidade não são os mais fortes e os que perduram ao longo dos anos, e comprovamos isso ao verificar o distanciamento de familiares que estiveram por um período de suas vidas junto de nós.

Filhos, sobrinhos, irmãos, primos e tios, que participavam das mesmas reuniões familiares, de inúmeros Natais e festividades da família, agora estão distantes, motivados por fatores diversos e, o que é pior, não encontram mais motivações para novos encontros, como se fossem estranhos. Felizmente ficam aqueles que mantêm fortes os laços espirituais, as afinidades e o amor íntimo vínculo indissolúvel. Analisar os motivos da separação seria recordar velhas atitudes, repensar assuntos com discussões vazias e sem resultados compensadores.

Hoje, a participação de alguns com a família é muito rara ou recorre sob a injunção da perda de um ente querido que teve com este uma ligação mais forte no passado.

Mesmo na própria família, entre irmãos que atingem a idade adulta e estabelecem uniões com outros grupos pelo casamento, a convivência diminui pela distância ou diferenciação de interesses.

Mais dolorosas para os pais são as divergências, que causam conflitos e lutas no âmbito familiar, com o afastamento de alguns...

É mais comum do que se pensa, infelizmente, filhos que se afastam dos pais por motivos nem sempre graves: ciúmes, orgulho, influência de cônjuges ou desconfianças infundadas por se julgarem menosprezados ou por acharem que os pais protegem outros filhos e os beneficiam mais que a eles. É muito comum as desavenças na família, e a emoção faz com que ressumam velhos conflitos desta ou de outras vidas, gerando sofrimentos incalculáveis para todos.

Alguns Espíritos se encarnam na mesma família por afinidade espiritual e por simpatia, tendo já vivido outras vidas no mesmo grupo familiar; entretanto, outros aí retornam para corrigir faltas do passado, melhorar o relacionamento com os desafetos e aplainar as arestas que necessitavam de correção. Kardec nos fala que:

"A tarefa não é tão difícil como vos pareça ser. Não exige o saber do mundo. Podem desempenhá-la assim o ignorante como o sábio, e o Espiritismo lhe facilita o desempenho, dando a conhecer a causa das imperfeições da alma humana".

Acreditando na anterioridade do Espírito e nas vidas sucessivas, compreendemos melhor o porquê de tantos conflitos familiares, tantas dores e dificuldades de harmonização mesmo tratando-se de famílias espíritas. Consola-nos a certeza do possível recomeço, em vida futura, onde certamente poderemos refazer laços rompidos por meio do amor e da renúncia, do devotamento e da tolerância mais ampla.

Que de mais reconfortante, de mais animador do que a idéia que de cada um dos seus esforços é que depende abreviar o sofrimento, mediante a destruição, em si, das causas do mal? Para isso, porém, preciso se faz que o homem não retenha na Terra o olhar e só veja uma existência; que se eleve, a pairar no infinito do passado e do futuro. Então, a infinita Justiça de Deus se vos patenteia, e esperais com paciência, porque explicável se vos torna o que na Terra vos parecia verdadeiras monstruosidades. (...) os laços de família se vos apresentam sob seu aspecto real. Já não vedes, a ligar-lhes os membros, apenas os laços frágeis da matéria; vedes, sim, os laços duradouros do Espírito, que se perpetuam e consolidam com o depurarem-se, em vez de se quebrarem por efeito da reencarnação.

Esta mensagem de Santo Agostinho que Kardec inseriu nos comentários do capítulo XIV consolam e edificam nossos espíritos, dando-nos forças para prosseguir, mesmo quando as forças já estão escassas pela idade e a contínua provação no âmbito familiar. Não são as dores morais com os que mais amamos que nos ferem tanto? Não são os golpes da ingratidão dos que amamos que nos abatem o ânimo, tantas vezes, no outono da vida?

Seria lícito desanimar quando a luta já está quase vencida?

No mundo espiritual, quando retornarmos para novos embates e acertos, preparando-nos para os renascimentos futuros, teremos uma visão mais ampla da família e de nossos compromissos. Certamente iremos nos certificar em que falhamos, em que erramos e como poderemos amenizar nossos desacertos e buscar novas forças para ajudar nossos entes queridos, talvez no mesmo grupo familiar...

É grande a responsabilidade dos pais ao acolherem um Espírito no processo da reencarnação, mas também é importante que entendamos certas dificuldades de afinidade motivadas pelos Espíritos que aí retornam para serem ajudados e orientados. De alguma forma nós os fizemos assim: rebeldes, egoístas, indiferentes. Frutos de nossas atitudes do passado, quando perdemos oportunidades de ajudá-los e atender com solicitude suas almas enfermas. Do descaso do passado resulta a provação de hoje. Essa compreensão maior da interdependência e da motivação de suas vidas entre nós, certamente, nos ajudará a enfrentar as dificuldades com coragem e confiança em Deus.

LUCY D. RAMOS