QUEM ESCREVE...

QUEM ESCREVE..

Diante da estante repleta de Livros espíritas, celeiro de bênçãos, meu pensamento divaga e busca nos diferentes títulos que atraem meu olhar, o que seria melhor ou mais oportuno para enviar a um amigo que sente a dor da perda de um ente querido... Nessa procura, sou despertada para a quantidade de livros psicografados por Chico Xavier. Mesmo não possuindo todos, é evidente, fico admirada da sua capacidade de recepção de tantos tesouros no decorrer dos anos, abençoados anos que esteve conosco. Somente os benfeitores espirituais que o acompanharam em sua trajetória aqui na Terra sabem, em profundidade, de sua renúncia, de sua abnegação e de seu amor à causa do Bem nesta intermediação com o plano espiritual superior.

Todo espírita tem (ou deveria ter) o seu recanto predileto, onde pudesse guardar este manancial de luzes e bênçãos... Quanto mais lidos e relidos, quanto mais usados e emprestados (mesmo sem retorno) vão tomando o jeito de ser de seu dono e ficam impregnados de suas vibrações, de seus pensamentos... Eu, particularmente, gosto mais dos meus livros quando bem usados, por mim e pelos outros. Parece que ficam mais confortáveis ao manuseá-los. Existem os livros prediletos, os que ficam ao nosso lado na mesa de trabalho, ao lado de nossa cama, no porta-luvas do carro, e aqueles que ficam em nosso coração, embora não estejam mais conosco. A estante de livros espíritas é como um cantinho do Céu, que ameniza as agruras do caminho, sempre à nossa espera para mitigar a sede de conhecimento, amenizar a dor da saudade, embalar nossos sonhos e facilitar nossos projetos na arte de comunicar ou transmitir aos outros o que já assimilamos.

Olho novamente para os livros, sem muita ordem em sua distribuição, e eles brilham com uma luz que se dilata e interpenetra meu olhar, atinge minha percepção cognitiva e chega ao meu coração, impregnando meus sentimentos de amor e gratidão.

Quantas vezes, ante a dor e o desencanto, buscamos em suas mensagens o reconforto e o bálsamo que suavizassem as feridas da alma... Quantas vezes nossos espíritos ávidos de esclarecimentos, ante a dúvida e a necessidade de compreensão, buscaram em suas páginas o entendimento maior, a riqueza da lição que nos ajuda a entender a vida, o porquê do sofrimento, das perdas e da necessidade da reparação!...

Quantas vezes, ainda, suas páginas, como fontes de luz, mitigaram nossa sede de conhecimento, preencheram o vazio das horas de solidão, amenizaram a saudade dos que partiram. Através dos livros, viajamos no tempo, ilustrando nossas mentes, percorrendo o passado, recordando velhas moradas, despertando-nos para as responsabilidades atuais, com suas lições enobrecedoras.

Inúmeras vezes, pelos exemplos de tantas vidas relatadas nos romances e nos contos, percebemos nossos erros pretéritos, refletimos nas vivências atuais, evitamos novas recaídas e aprendemos a ser mais fortes e destemidos na luta contra nossas imperfeições morais.

Todo este tesouro incalculável que o mundo espiritual nos propicia, por intermédio da abençoada mediunidade de Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco, Yvonne Pereira e tantos outros escritores espíritas, é fruto de suas vivências despojadas das ilusões do mundo e dedicadas ao labor cristão através da comunicação espírita.

Abnegados médiuns que, numa doação constante, legaram para todos nós e a posteridade a riqueza da literatura espírita, desbravando caminhos novos, traçando roteiros de libertação, orientando nossas mentes para que tantos outros prossigam com maior segurança.

No livro Amor e sabedoria de Emmanuel, Clóvis Tavares transcreve o prefácio que o sábio mentor escreveu no livro Falando à Terra, psicografia de Chico Xavier, e em determinado trecho o autor diz que "no campo da vida, os escritores guardam alguma semelhança com as árvores" e descreve determinadas espécies da flora e vai comparando quem escreve com suas qualidades especiais. Há determinadas árvores que, embora agradem por sua beleza, não oferecem frutos nem sombra acolhedora aos caminheiros da estrada. Outras, como espinheiros verdejantes a distância, ferem os que se aproximam. E aquelas que simplesmente acolhem e beneficiam a todos com sua sombra e seus frutos, indicando roteiros e suavizando as dores alheias, como os escritores que repassam suas emoções e mostram valores reais que norteiam a vida dos que os lêem.

Certamente, naquela noite de março de 1950, na cidade de Pedro Leopoldo, Minas Gerais, a saudosa poetisa Carmem Cinira, homenageava, através de Chico Xavier, todos os divulgadores espíritas, enfocando a grande responsabilidade de quem escreve. Lendo seus versos, cresce em nosso mundo íntimo a certeza de que é nosso dever, ao lidar com a palavra escrita em nossos meios de comunicação, atentar para o cuidado e a sensatez com que devemos nos portar:

Quem escreve no mundo

É como quem semeia

Sobre o solo fecundo.

A inteligência brilha sempre cheia

De possibilidades infinitas.

Plantas uma idéia qualquer onde te agitas,

Seja esta idéia pecadora ou santa,

E vê-la-ás, a todos extensiva,

Multiplicar-se milagrosa e viva.

Sem tanger as feridas e as arestas,

Conduze com cuidado

A pena pequenina em que te manifestas!

Foge à volúpia das maldades nuas,

Não condenes, não firas, não destruas...

Porque o verbo falado muita vez é disperso

Pelo vento que flui da Fonte do Universo.

Mas a palavra escrita

Guarda a força infinita

Que traz resposta a toda sementeira,

Em frutos de beleza e alegria

Ou de mágoa sombria

Para os caminhos de uma vida inteira

LUCY D.RAMOS