REFLEXÕES NA PRIMAVERA

REFLEXÕES NA PRIMAVERA

"Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira."55FRANCO, Divaldo P. O ser consciente. P. 138.

Quem de nós, ao adentrar no inverno dos tempos, não experimentou o sofrimento, seja em seu aspecto físico ou em dores morais que ferem, com maior intensidade, as almas sensíveis?

Qual de nós não sentiu o vazio da solidão, a angústia da ausência e a alma dilacerada pela perda de um ente querido?

Quem não foi magoado pela ingratidão dos amigos, os mais queridos, que partem sem nos dizer adeus e nunca mais retornam?

Qual de nós não sentiu a dor da separação, assistindo ao distanciamento de um filho, motivado por rebeldia ou ilusões perdidas?

São tantas as dores, os tormentos por que passam as almas neste mundo de tristes acontecimentos e violentos golpes, que iríamos ficar enumerando sem nos dar conta de que elas são infinitas... Felizes aqueles que as superaram com fé e confiança em Deus.

Todos nós sofremos de maneiras diversas. Reagimos ao sofrimento, também, de formas variadas. Desde os mais covardes que se deixam abater pela ventania temporária e se escondem na solidão ou fogem para lugares irreais em seu mundo íntimo, até os desesperados que gritam e tentam chamar a atenção de todos para suas dores, como se eles fossem os únicos a passar pela vida sob os golpes da aflição e do sofrimento.

Existem aqueles que sofrem calados, sem desejar a comiseração alheia, mas se rendem à dor, fechando-se na concha escura do egoísmo, distanciando-se das pessoas e ocultando de todos seu sofrimento, às vezes por orgulho, outras vezes por medo de se mostrar como todos os seres viventes, frágil e indefeso, lesado em seus sonhos de grandeza ou de conquistas inatingíveis...

Muitos superam a dor trabalhando, lutando cada vez mais, sem se darem conta da necessidade de chorar, de extravasar o que o fere, falando ou buscando um ombro amigo no qual possam repousar um pouco, suavizar o amargo cálice da tristeza que envenena sua alma.

Podemos encontrar, ainda, os que passam por etapas distintas em seu sofrer - a revolta, o desespero, a não aceitação, e, finalmente, sucumbem e se entregam com humildade, compreendendo que todos sofrem e não apenas eles estão sendo atingidos pela dor. Sua alma, a partir deste momento, encontrará na fé o alento para prosseguir a caminhada, mesmo sofrendo ainda com o acúleo de padecimentos físicos ou morais.

Cada vez que sofremos, com aceitação humilde dos desígnios de Deus, sentimos renascer em nosso mundo íntimo valores que nunca pensávamos ter. Descobrimos em nós uma capacidade de resistência e um poder de renovação como nunca havíamos sentido.

Como diz Cecília Meireles, em seus versos, temos que aprender a nos deixar cortar - podar as arestas do orgulho, da ambição, da vaidade, para ressurgirmos inteiros, completos após a adversidade, no enfrentamento dos problemas e dos padecimentos de nossa existência física.

A Natureza nos ensina com sabedoria a não nos agastar ante os empecilhos da jornada. Após a tempestade surge a calmaria necessária à reconstrução do que foi destruído, do que poderá se refazer com suavidade, aos poucos, com equilíbrio e sem precipitação. Assim também, a dor, vergastando nossos mais belos sonhos, destruindo nossos melhores anseios, nossos amores... Sentimo-nos como se tudo estivesse perdido, como se não houvesse nenhuma solução, como se tudo terminasse para nós. Entretanto, se tivermos calma, confiança e fé, veremos que a vida voltará à normalidade. Com o tempo, retornaremos mais fortes e mais capazes. Se soubermos recomeçar, com mais vigor e maior confiança em nosso poder de reconstruir nossas vidas, veremos que não foram inúteis as dores, e sim uma preparação para novos embates. Saímos mais corajosos e mais confiantes.

Na vida, existem momentos nos quais teremos que aprender a recuar, parar, medir nossa resistência, refletir ante os óbices que nos impedem de prosseguir, para depois enfrentar, com serenidade, as dificuldades, e assim poder saná-las de forma equilibrada. Lutar pelo que acreditamos ser útil e necessário, essencial à nossa paz e ao nosso progresso moral, é saudável e nos faz acreditar em nossa capacidade de reação.

Nem sempre entendemos os avisos que nos chegam pelo sofrimento. Mas é preciso ver além da vida que hoje nos beneficia com tantas oportunidades, e buscar no infinito das horas a razão do existir, o objetivo real de estarmos aqui, neste momento e neste lugar.

E em momentos assim, de reflexões mais íntimas, aprendemos com o sofrimento, em sua função educativa, a sermos mais humildes, menos exigentes com os que caminham conosco, tolerando mais e compreendendo melhor cada um de nossos irmãos; perdoando, sem condicionar nosso gesto a novas exigências.

Dores mais acerbas ocorrem em nossas vidas quando perdemos entes queridos, no entanto a compreensão de que a morte é apenas física e que a vida estua em outra dimensão, certos da possibilidade de um reencontro, conforta nossos corações e nos estimula a prosseguir. Outras aflições decorrentes de enfermidades, cujos mecanismos desconhecemos em sua amplitude e necessidades maiores, convertem-se em benefícios para nossos espíritos, pelo seu poder de resgate e depuração. Outros padecimentos decorrentes de perdas financeiras, acidentes ou desmoronamento de sonhos e ruptura de vínculos familiares constituem avisos aos que são atingidos por estas dores ou perdas, lembrando o objetivo real da existência e a função educativa do sofrimento.

Joanna de Angelis nos diz que a infelicidade maior é quando vigora em nosso mundo íntimo a intolerância e o egoísmo, levando-nos a prejudicar nosso próximo, construindo a felicidade sobre os escombros do que pertencia a outros, que estão agora em desvalimento e dor.

"O infortunado é sempre aquele que infelicita, que se desforça, que fere, que se compraz com o alheio sofrimento."5656 FRANCO, Divaldo P. Diretrizes para o êxito. Cap. 15, p. 94.

E sabiamente conclui:

Por isso, o número de infortúnios ocultos é sempre muito grande, já que, não podendo ser exteriorizados, tornam-se expurgadouros necessários à eliminação do mal que permanece naqueles que o experimentam. Eis por que o bem e sua ação constituem o melhor e mais valioso recurso para uma existência feliz.5757 Id., ib., p. 94.

Saibamos, assim, enriquecidos pela experiência com que o sofrimento abençoou nossas vidas, não permitir que o desalento e a amargura ensombrem nossos dias, acendendo em seu mundo íntimo a luz da fé, buscando na crença da imortalidade da alma, a certeza de que a dor educa e refaz. Com discernimento, encontrarmos a força necessária para prosseguir, e a melhor terapia sempre será a do amor. Ajudando aos que sofrem mais do que nós ou se encontram perdidos no desespero e na incerteza, estaremos, realmente, ressarcindo nossos débitos ante a Lei Divina, porque se hoje sofremos, certamente no passado fizemos muito sofrer, se estamos carentes e solitários - abusamos das almas afins que confiaram em nosso amor e em nosso apoio moral.

Como nos ensina a Benfeitora espiritual, saibamos tirar, de todas as situações da vida, reflexões educativas, geradas pelos infortúnios ou pelos momentos de alegria. Serão atitudes que nos manterão espiritualmente saudáveis no processo de crescimento espiritual.

LUCY D. RAMOS