VIVER - DESAFIO SUBLIME

VIVER -DESAFIO SUBLIME

Ao longo dos tempos, pensei que minha vida seria diferente, que eu poderia mudá-la sem perdas ou buscando novos rumos... Imaginava que na madureza dos anos descansaria longe dos problemas e das dificuldades...

Agora, entretanto, que o inverno se aproxima com maior celeridade, fico pensando nos tempos que não retornam mais, nas pessoas que partiram, nos amores esquecidos, nos afetos perdidos e sinto que poderia ter aproveitado muitos momentos com maior intensidade...

Como nos diz Joanna de Angelis:

Viver é um desafio sublime e realizá-lo com sabedoria é uma bem-aventurança que se encontra à disposição de todo aquele que se resolva decididamente por avançar, autossuperar-se e alcançar a comunhão com Deus.8FRANCO, Divaldo P. Vida: desafios e soluções. Introdução.

Poucos realmente, conseguem vencer este desafio e, recordando meus passos nesta jornada, creio que poderia ter me saído melhor em muitas atividades...

Quanto mais distante fica minha infância, mais me recordo de meu lar nos primeiros anos de vida, de minha mãe, do semblante de meu pai, de meus irmãos, principalmente de minha irmã mais velha que muito cedo retornou ao mundo espiritual...

Revejo suas mãos tão macias tocando meu corpo quando cuidava de mim, acariciando meus cabelos, vestindo-me após o banho perfumado que naquela época era dado em bacias sobre a cômoda do quarto. Sinto o perfume da água, do ambiente, das pessoas que rodeavam nosso lar e sempre traziam flores, doces ou outras prendas, quando nascia alguém ou se comemorava algum aniversário na família. Minha infância tão distante no longe dos tempos, mas tão viva em minhas lembranças...

Depois muitas alterações com o distanciamento da simplicidade dos primeiros anos, novos amigos, outra cidade e mudanças que marcaram a renovação nos diversos ciclos de minha vida...

Fomos crescendo, nos separando por motivos diversos, morte, estudos em outros lugares, imposições profissionais, casamentos e então, quase sem nos darmos conta, uma família tão unida pelos laços do amor foi se modificando para dar lugar a outras que surgiram com as uniões que se seguiam, obedecendo a uma lei natural.

A separação, entretanto, foi apenas material, pois os laços familiares fortificados pelo amor e a afinidade espiritual se eternizam. Embora alguns se encontrem no mundo espiritual, os sinto muito próximos quando nos reunimos em momentos de dor ou de alegres comemorações na família. E ficam perpetuadas as lembranças, gratas lembranças de uma infância tão rica de aprendizado e lições através dos exemplos de meus pais e irmãos.

Hoje, estou novamente atravessando uma transição, com perdas e separações, distanciamento afetivo de alguns, assistindo à dispersão dos filhos que buscam outros caminhos, outras conquistas e que vão, lentamente, deixando para trás nossos valores, nossas vidas.

É natural que assim aconteça... Um dia, nós também partimos a procura de nossos sonhos, novos projetos e criamos outros elos com amigos que foram chegando, novos amores com o nascimento dos filhos, a ampliação da família e dos que se acercaram de nossas vidas ao longo do caminho.

Dizia anteriormente que gostaria de ter vivido mais intensamente certos momentos, e isso é verdade - foram tantos os momentos de felicidade nas coisas mais simples que a vida nos ofertou - e esses são momentos ricos de amor, de generosidade, de paz!

Existem acontecimentos que marcam nossas vidas de forma mais intensa e, buscando na lembrança dos primeiros tempos, existem alguns que determinaram o roteiro de minha atual existência.

A primeira recordação que vem à mente é o convívio com minha irmã mais velha e uma abnegada diretora de um colégio em que ela lecionava. Seu nome de freira era Irmã Benigna e em minha imaginação infantil ela simbolizava uma fada daquelas que eu conhecia nas histórias contadas na hora de dormir - boa, afável. Tomando-me nos braços, dizia-me, logo que eu chegara para o primeiro dia de aula (improvisadas aulas pré-escolares, pois não havia as modernas de nossos dias), "agora você é uma aluna!". Essa palavra mágica tocou-me fortemente o coração e fiquei muito feliz, senti-me valorizada com a primeira denominação que obtivera fora do lar - aluna. Isso foi como um toque mágico valorizando minha autoestima. Esse momento de minha infância nunca mais saiu de minha lembrança e funciona como um despertar de minha personalidade atual, induzindo-me a estudar sempre, buscando o conhecimento interior e do mundo que me cerca.

Recordo-me, também, de um jantar em família, quando meu pai nos reuniu novamente, após ter equilibrado suas finanças, pois tivera uma perda muito grande no início da década de 1930. Quando nasci, ele já estava sem os bens, sem a fazenda que fora de meu avô e desempregado. Foram anos de lutas e buscas que se amainaram quando conseguiu emprego numa firma do Rio de Janeiro... Esse jantar foi uma celebração de nosso reencontro e uma prova insofismável de sua coragem, de sua confiança em Deus, nunca desanimando ante os reveses da vida. Sempre trabalhou com honestidade visando ao bem-estar da família, dando-nos segurança e meios de estudar. Conviver com seus exemplos sadios e generosos, ao lado de minha mãe, foram bênçãos de Deus para minha vida e a de meus irmãos. Naquela noite aprendi que unidos venceríamos todos os obstáculos do caminho. E sempre foi assim, unidos, nossos espíritos que vieram à Terra para progredir e crescer espiritualmente, tiveram a bênção de nascer num lar espírita. Apesar das distâncias, das separações com a partida de alguns para o mundo espiritual, os elos de amor continuam cada vez mais consolidados, e a certeza de que nunca estaremos sós nos conforta o coração.

Logo depois, mudamos para Barra do Pirai, uma cidade alegre e hospitaleira que nos acolheu carinhosamente e na qual vivemos parte de nossa infância e mocidade. Grandes transformações, novos amigos, novos aprendizados e o contato mais direto com a Doutrina Espírita na evangelização infantil, nos grupos de mocidade espírita, nas palestras, seminários, semanas espíritas, meus amigos e amigas... Fica difícil nomeá-los, mas suas presenças são pontos de luz que marcam as delimitações de meu caminho!

Posso afirmar que estes acontecimentos influenciaram positivamente meu ser, delineando meu roteiro de vida...

Depois mudei-me para Juiz de Fora, onde permaneço até hoje, estudei, concluindo o curso superior, casei-me e junto com meu companheiro, formamos uma família a qual tenho me dedicado com amor...

Os anos foram passando céleres, vieram as formaturas dos filhos, os casamentos, a chegada dos netos, dos bisnetos e cada vez mais os elos familiares se fortificavam, mantendo-me fiel aos compromissos no lar e na casa espírita.

Existe uma fase na vida de todos nós em que vamos incorporando valores, fortificando a fé e a confiança no futuro para poder suportar os desafios que certamente virão, as dores das separações, das perdas, dos desencontros... Mas é inquestionável que estamos unidos na mesma família por anteriores compromissos assumidos por necessidade e opção, quando nos preparávamos para o retorno ao mundo físico, a estar com todos eles, nossos familiares mais íntimos, nesta nova jornada.

Estou tranquila e serena com relação aos meus relacionamentos familiares. Nem sempre minha vida foi um mar de rosas. Sofri perdas e desenganos, mas a lembrança dos tempos felizes ameniza as dores do caminho.

Como nos diz, sabiamente, Emmanuel:

Se tens notícia do Evangelho, no mundo de tua alma, prepara-te para ajudar, infinitamente [...] Por mais aflitiva seja a tua situação, ampara sempre, e estarás agindo no abençoado serviço de salvação a que o Senhor nos chamou.

Sustentando-me nas lutas do dia a dia, pude contar com o conhecimento espírita, a ajuda dos benfeitores espirituais que me ampararam nos momentos mais cruciantes, com os amigos e parentes que sempre estiveram ao meu lado. .

Hoje posso dizer que minha vida não foi em vão...

Compreendo que não posso partir sem terminar minha tarefa e que os mecanismos de fuga que tantas vezes nos tentaram a mudar o roteiro já traçado ao longo do caminho foram apenas ilusões e se perderam na voragem dos tempos...

Hoje é o momento mais certo de prosseguir, de realizar o que falta, ainda, sem menosprezar as experiências do passado, sem sofrer as angústias da longa espera do amanhã...

LUCY D. RAMOS