A PERCEPÇÃO DO SOM NO MUNDO ESPIRITUAL

A percepção do som no mundo espiritual
Léon Denis

“Vocês sabem como se formam as vibrações. O espírito, transportado na esfera vibratória, encontra-se envolvido por uma rede de ondas sonoras cujos elementos são constituídos por seres superiores. O que ele experimenta? Experimenta uma impressão comparável à que vocês sentem quando ouvem em música uma nota tônica. Quanto mais as ondas do campo vibratório se desenvolvem em velocidade e comprimento, mais a impressão experimentada pelo espírito é viva, penetrante e comparável, em termos humanos, à que os sons agudos nos fornecem.

“Portanto temos, de um lado, a nota tônica e, de outro, o som agudo. Se no campo vibratório as ondas variam em velocidade e em intensidade, a amplitude do som varia, e esse som parte de um ponto inicial, comparável à nota tônica. Esse ponto inicial compreende uma certa onda vibratória que não posso medir. Eis uma comparação: os fonógrafos terrestres emitem sons onde, além da sonoridade produzida pelo instrumento, se vocês aproximam o ouvido do pavilhão, experimentam um calor mais ou menos intenso de acordo com a elevação do tom. Ora, o ser desencarnado não sente calor, mas sensações mais ou menos deliciosas, segundo a velocidade, maior ou menor, e segundo a onda, de maior ou menor comprimento.

“As radiações que tocam o perispírito são coloridas de tons incrivelmente variados. Cada cor possui uma propriedade particular, que confere uma sensação de bem-estar, de satisfação, que difere de acordo com a pureza, a homogeneidade de cada tom. É preciso, portanto, levar em consideração, de um lado, a qualidade das ondas, isto é, sua coloração; e de outro lado, sua velocidade, sem comprimento, as diversas fases de seus meandros. Tudo isso provoca, no ser desencarnado, incomparáveis e excessivamente variados fenômenos, pois, quanto mais evoluído é o espírito, mais as ondas que ele percebe são diversas, assim como as cores, que exprimem os sentimentos. Tomemos, por exemplo, o azul, que representa os mais elevados sentimentos do ponto de vista afetivo: uma onda azul lhes dará vibrações que serão para seu ser como que um banho de amor. O vermelho, nas mesmas condições, representará a paixão. O amarelo será intermediário.

O rosa, que é uma mistura de amarelo e de vermelho, lhes dará um amor menos intenso, porém mais firme. Desta forma pode-se, com as cores fundamentais, formar uma gama de tonalidades que dão por correspondência vibrações de todos os sentimentos humanos e sobrehumanos.

“Se o ser desencarnado é ainda pouco evoluído mas tem o desejo de impregnar-se de belos sentimentos, seus guias o conduzirão na direção de esferas animadas pelos seres angélicos. Quando o ser é bastante evoluído, sente, nas mesmas esferas, satisfações em que o amor e a paixão virão impregnar seu ser, e é por isso que, de retorno à Terra, os seres que amam a música recordam-se intuitivamente das permanências mais ou menos longas que fizeram no espaço, em um campo de ondas musicais.

“A música celeste não é produzida por atritos de arcos sobre cordas: tudo é fluídico, tudo é espiritual, tudo é inspirado pelo pensamento de Deus.”

Massenet

Comentários

Sobre a Terra a gama dos sons, tal como a concebemos, não é senão uma relação de sensibilidade que não possui nada de absoluto.

Concebe-se muito bem que existe uma relação entre as ondas sonoras e as ondas luminosas, porém tal relação escapa a muitos observadores e sensitivos porque as percepções são bastante diversas em seus graus de intensidade, sendo as vibrações luminosas incomparavelmente mais rápidas do que as vibrações sonoras.

Porém, para o espírito cujas percepções são muito mais poderosas e mais dilatadas, a relação é mais estreita do que para nós, e a sensação unifica-se; disto temos exemplo na diferença que se estabelece entre as notas baixas, que correspondem às cores mais escuras, e aos sons agudos, que respondem às intensidades luminosas mais vivas. A inteligência que percebe e resume todos os efeitos e todas as formas da substância eterna, abrange todas as vibrações, e ela própria vibra sem preocupação com as distâncias e ritmos através do infinito.

É também fácil para nós compreender como, na vida espiritual, os prazeres estéticos são relativos ao grau de evolução dos seres. Todos nós possuímos na Terra o mesmo órgão auditivo, e no entanto que diferença de sensações experimentam os ouvintes de uma sinfonia, de acordo com seu grau de cultura e sua elevação psíquica! As formas e as imagens produzidas pelas vibrações sonoras nos espaços etéreos, das quais nos fala o espírito Massenet, parecem-nos ser igualmente manifestações do pensamento ordenador que concebeu e dirige o universo. A música celeste poderia representar a própria vibração da alma divina. É por isso que quanto mais o espírito evolui e se purifica, mais se torna apto para compreender, para sentir a beleza e a harmonia eterna do mundo.

(do capítulo 6 do livro O espiritismo na arte)