AMOR ALÉM DE TUDO

1 - AMOR ALÉM DE TUDO

Os ensinamentos e os equívocos que envolvem Marcondes1, personagem protagonista desta obra, são lições para todos nós que amamos a Jesus e Sua mensagem orientada pelo espiritismo. Os tropeços desse personagem representam uma síntese de nossa própria trajetória nos domínios da religião, a qual tomou conta de nossas estreitas concepções e condutas.

0 Evangelho não penetrará em nosso coração se não abrirmos as portas de nossas defesas emocionais, alicerçadas no orgulho que alimenta a doença do ego desmedido.

Com o gelo da soberba e a prepotência cultural na mente, nossa única saída é aquecer o coração com novos sentimentos para derreter a frieza das nossas concepções egoísticas e arrogantes.

Não nos libertaremos das amarras de um passado de desatinos e más escolhas pelo simples fato de fazermos parte de atividades e trabalhos na seara espírita. Essas tarefas são sim uma benção, mas nosso aproveitamento pessoal ainda não tem se revelado tão positivo quanto deveria.

Não basta querer resolver nossas dificuldades na vida interior somente com desobsessão, orações, passe e trabalho em favor do próximo, pois tais iniciativas, embora louváveis e essenciais, só alcançarão propósitos iluminativos em nossas vidas se forem acompanhadas de um corajoso trabalho para colocar nossa consciência no divã. Divã este da honestidade emocional, da vitória sobre a hipocrisia, da lucidez sobre nossas intenções e do autoconhecimento, que nos leva à mudança efetiva de hábitos e condutas.

Se necessário, ainda, no divã dos especialistas conscientes e atentos que, em função de sua didática e de amplos recursos, têm feito enorme bem para a libertação espiritual de muitos corações na sociedade terrena em ambos os planos da vida.

Se antes a função do centro espírita era esclarecer e consolar, agora, no século XXI, em plena Era do Sentimento, compete-lhe também educar. E o campo mais educativo da alma é a convivência.

A educação à luz do espírito imortal consiste em um processo de dilatação dos níveis de inteligência emocional e saber afetivo dos seres humanos, principalmente nos relacionamentos. Afinal, para ser espírita na tarefa doutrinária, não é exigido muito esforço. Temos apoio, um ambiente para nos iluminar e para realizarmos algo em clima favorável e sabemos o que fazer. 0 centro espírita, no entanto, só vencerá o desafio de educar a alma se aqueles que coordenam seus caminhos entregarem-se a uma profunda e corajosa renovação na forma de pensar, sentir e fazer.

1 Em Lírios de esperança - obra de autoria espiritual de Ermance Dufaux e psicografia de Wanderley Oliveira, Editora Dufaux -, Marcondes é apresentado como dirigente e grande doutrinador de uma expressiva agremiação em uma das principais cidades do estado de Goiás.

Como espíritas, o que mais precisamos é aprender a conviver uns com os outros. Existem pessoas com profundo amor pelo espiritismo, porém com desamor pelo seu irmão, o que é a maior incoerência que se pode cometer, pois amar mais a doutrina do que o nosso próprio irmão de ideal é levantar a bandeira da religião sem religiosidade, é loucura. São casos assim que precisam de tratamento e de divã!

Somente no calor da troca afetiva conseguiremos o indispensável para acender no coração os melhores e mais desejáveis sentimentos cristãos. Precisamos de gente apaixonada por gente! Gente que adore as diferenças e saiba ser leve perante os diferentes. Afinal, ter o espiritismo na mente e ficar com o coração pesado nos relacionamentos é como ter um remédio na cabeceira para curar suas doenças e não tomá-lo.

Precisamos de mais gentileza do que "decoreba" sobre os livros da codificação de Kardec. De mais cordialidade do que eventos e cerimônias repletas de verniz. De mais respeito do que normas para orientar o que é válido ou não nos serviços do bem. De mais amizade do que posições instituídas para o cumprimento de determinadas ações doutrinárias. De mais apóstolos da bondade na convivência do que médiuns que têm seus olhares voltados apenas para o mundo espiritual. De mais alegria do que rostos carrancudos que tentam transmitir a idéia de seriedade e responsabilidade. De mais pessoas humanas no espiritismo do que grandes vultos repletos de ibope e pobres de boas atitudes. De mais afeto com as diferenças do que filosofias sobre princípios morais.

Precisamos de sopa para o semelhante, mas precisamos igualmente assentar a família em volta da mesa em clima de autenticidade e prazer. Precisamos da palestra benfazeja, mas também do aprendizado do uso da palavra para dar um bom dia amoroso a alguém.

Precisamos de mais benevolência, indulgência e perdão, como relata a questão 886 de 0 livro dos espíritos.

A educação da alma reside, assim, em algo que transcende em muito o velho hábito de apenas acumular conhecimento para inflar o ego. Como dito no início deste prefácio: A ciência incha, mas o amor edifica.2

Que nossos textos, inspirados na magistral obra de André Luiz, psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier, alcancem a condição de lenha na fogueira do coração para derreter esse gelo das nossas mentes congeladas e distantes do amor. Nisso reside meu humilde e despretensioso propósito para essas reflexões.

Inácio Ferreira (Belo Horizonte, fevereiro de 2014). 2 I Coríntios 8:1.

2 - PALAVRAS DO MÉDIUM

Meu primeiro contato com doutor Inácio se deu em nosso centro espírita em Belo Horizonte, no ano de 1998. Na época, Maria Modesto Cravo1 orientava nossos trabalhos, preparando-me para escrever o livro Os dragões2, e sempre o víamos em sua companhia. Desde então, a presença de doutor Inácio se tornou constante. Na referida obra, ele participa das narrativas como personagem atuante. Vamos identificar, ainda, a presença desse amigo nas obras Reforma íntima sem martírio, Escutando sentimentos, Lírios de esperança, bem como na trilogia Desafios da convivência no centro espírita, entre outros.

Na atual reencarnação, embora não o tenha conhecido pessoalmente, ao ouvir seu nome pela primeira vez, no ano de 1979, fui tomado por uma enorme sensação de curiosidade e interesse. Tentei, na época, adquirir os livros que ele havia escrito como psiquiatra ainda encarnado: Novos rumos da Medicina e Psiquiatria em face da reencarnação, mas não era algo tão fácil naquele tempo. Por fim, quando desejei ir a Uberaba conhecê-lo, seu desencarne já havia acontecido.

Foi bem mais tarde que comecei a ter recordações nítidas de meus laços com doutor Inácio e com Maria Modesta Cravo, os quais se perdem no tempo. Completamente alheias à minha vontade, aconteceram experiências de clarividência que me mostraram detalhes de lamentável drama que nos envolveu, aos três, nos tempos do século XVI, em episódios infelizes de religião e política. Desde então, passamos a manter nossos contatos mediúnicos no grupo espírita de minha atuação ao longo desses últimos dezesseis anos, aproximadamente.

No ano de 2012, doutor Inácio me disse que gostaria de escrever algo por intermédio de minha psicografia. Fiquei aguardando e, no final de 2013, ele trouxe a mim as anotações desse livro.

Agora, é com muita alegria e humildade que entrego este livro, fruto de um convite do mundo espiritual. Fiz o melhor ao meu alcance, com o coração e com a consciência em paz. Eu aprendi e me diverti muito com a oportunidade do trabalho e com a companhia de doutor Inácio. Amo-o "de paixão".

Na minha casa, todas as vezes em que ele está presente, meus dois gatos ficam enlouquecidos querendo entrar na porta do escritório onde psicografo. Como muitos sabem, no mundo espiritual, doutor Inácio não perdeu o gosto que tinha pelos gatos.

Passei também por muitas situações diferentes com ele, como marcar um horário para a psicografia e ele chegar atrasado ou nem aparecer. Eu achava aquilo muito estranho por não ter esse tipo de vivência com outros espíritos, que são sempre muito pontuais. Mas doutor Inácio sempre enviava alguém para me avisar sobre um novo horário e fui me acostumando com o seu "relógio", pois sei que ele é ocupadíssimo no Hospital Esperança.

À primeira vista, doutor Inácio parece ser muito duro, todavia sua companhia é suave e sua conduta muito afetiva. Ele é muito amoroso e chora mais do que possamos supor. Como se sensibiliza com facilidade!

Rogo a Jesus que as anotações claras e oportunas do doutor Inácio possam contribuir para nos aproximar ainda mais do Evangelho e dos ensinos lúcidos do espiritismo.

1 Maria Modesto Cravo nasceu em Uberaba, em 16 de abril de 1899, e desencarnou em Belo Horizonte, em 08 de agosto de 1964. Uma das pioneiras do espiritismo em Uberaba, atuou com devotamente junto ao Centro Espírita Uberabense e ao Lar Espírita. Médium de excelentes qualidades, trabalhadora incansável do amor ao próximo e mulher de muitas virtudes, dona Modesta, como era conhecida, foi a fundadora do Sanatório Espírita de Uberaba, instituição voltada para o tratamento de transtornos mentais inaugurada em 31 de dezembro de 1933 e em plena atividade ainda hoje. Foi nessa casa de amor que se tornou conhecido o valoroso companheiro Dr. Inácio Ferreira, médico psiquiatra e um baluarte do bem.

2 Obra mediúnica de autoria espiritual de Maria Modesto Cravo e psicografia de Wanderley Oliveira, Editora Dufaux.

Wanderley Oliveira (Belo Horizonte, fevereiro de 2014).

...CAPÍTULO 1 - RENOVADORES TAMBÉM PRECISAM DE DIVÃ
...CAPÍTULO 2 - AUTOCONHECIMENTO E DES.DOS RÓT. RELIGIOSOS
...CAPÍTULO 3 - LIÇÕES COM A MÁGOA
...CAPÍTULO 4 - RELIGIÃO E DELÍRIO DE GRANDEZA
...CAPÍTULO 5 - EVANGELHO OU DIVÃ PARA A COMUN. ESPÍRITA?
...CAPÍTULO 6 - RESPONDENDO A CARTAS
...CAPÍTULO 7 - EXPERIÊNCIA DE ALTERAÇÃO DE CONSCIÊNCIA
...CAPÍTULO 8 - SEPARANDO CORPOS ESPIRITUAIS
...CAPÍTULO 9 - O SOCORRO DE PAI JOÃO DE ANGOLA ...
...CAPÍTULO 10 - AUTO-OBSESSÃO: UM DIAGÓSTICO ESQUECIDO ...
...CAPÍTULO 11 - A DESILUSÃO DE MARCONDES
...CAPÍTULO 12 - NA ESCOLA DO EVANGELHO
...CAPÍTULO 13 - PALESTRA DE D. MODESTA: AO ENC. DA CONSCIÊNCIA
...CAPÍTULO 14 - ENTREVISTA: MAIS UM POUCO COM DR. INÁCIO