A VIDA ALÉM DO VÉU

PREFÁCIO DO TRADUTOR

A quem não conhecer a Doutrina, muitas passagens deste livro poderão parecer obscuras. Outras há pouco esclarecidas, mesmo aos entendidos no assunto.

Vários são os elementos que para isso concorreram. Não pequenos foram os estorvos encontrados pelo tradutor nestas mensagens, para tornar clara a sua exposição. O próprio ser espiritual que as transmitiu ao vigário de Orford, confessou o esforço com que muitas vezes ditava as suas idéias, o que poderia ter contribuído para o que nelas se nota de estranho.

Junte-se o esse fator de obscuridade a transcendentalidade da matéria e as incertezas do estilo em que a mesma é transcrita. Há também a acrescentar que os mensageiros, no decurso de suas comunicações, interrompiam-se para responder às perguntas que viam formuladas no cérebro do médium. No original em inglês não há, em grande número de vezes, nenhuma observação do Autor ou sinal tipográfico que acentuem essa solução de continuidade, que expliquem a causa da interrupção, ou que separem os assuntos, evitando, assim, a confusão que daí necessariamente se origina.

O tradutor não se julgou com o direito de corrigir essas e outras lacunas, o que alteraria o original. Procurou vertê-lo fielmente para a língua portuguesa, tanto quanto lhe foi possível. Não sendo um trabalho propriamente literário, buscou fazê-lo em linguagem simples, perceptível a todos, ao alcance do entendimento comum e acessível, ainda, aos mais humildes, os que mais que quaisquer outros carecem do conforto e dos ensinamentos que a sã doutrina espírita proporciona.

Modificar, porém, o sentido da frase, intercalar pensamentos para a tornar mais compreensível, suprimir expressões desnecessárias, impor sinais, fazer distinções que não aprouve ao Autor, intervir nas idéias, colaborar na transmissão dos escritos ou corrigir a tipografia em que a obra foi originariamente impressa, é que não estava nos moldes de uma tradução honesta.

Qualquer alteração, mesmo com o fim de desanuviar certos trechos, poderia justificar a expressão, com muita justiça por vezes repetida: traduttore, traditore.

Mas, do próprio desalinho em que estão lançados estes escritos, se infere a sinceridade de quem os escreveu .

O vigário de Orford transmitiu-os conforme foram recebidos. Não procurou ilustrar o assunto, nem lapidar a frase, nem retocar as comunicações com o subsídio das suas idéias ou o ouropel das idéias alheias. As mensagens que nos apresenta são a reprodução exata do pensamento daquelas Entidades do Espaço que se dignaram baixar à Terra e, vencendo todos os óbices que derivavam de nossa atmosfera, que se originavam do nosso ambiente grosseiro; lutando por dominar as deficiências do aparelho receptor e os entraves do meio, conseguiram pintar o que é a existência do Além, pelo menos onde eles moravam.

E por elas, por essas mensagens sedutoras, sabemos como lá se vive, o que lá se aprende, como lá se procede; elas nos fazem entrever o que nos aguarda, assim que transpomos o ádito dessas ignoradas regiões; elas nos dizem como estão cheios de afeto os corações dos que lá habitam, como a tranquilidade transpira de todas as coisas, como a onipotência divina se patenteia por todas as formas. Elas, enfim, nos asseguram que é a felicidade que nos espera, depois de havermos bem cumprido a nossa tarefa, bem desempenhado os nossos deveres, bem saldado as nossas contas.

Todo o livro enche-nos a alma de imenso júbilo. Aquelas páginas simples, com suas narrativas despidas de colorido literário, com suas descrições desataviadas, mas sempre intumescidas de um grande culto pelo Autor de nossos dias, pobres de estilo, mas ricas de esperanças, vêm-nos dar a certeza de que cada vez mais devemos confiar nas sagradas promessas do Nazareno.

Quantas ocasiões não nos tem o desconforto invadido a alma, já pela dureza das provas que nos vêm sendo impostas, já pelo contacto diuturno dos maus, que nos traz a crença de que só a perversidade reveste o barro terreno.

A Terra parece-nos, então, uma paragem de horror!

O que sentimos por toda a parte é a maldade humana; o que presenciamos constantemente é a miséria e a dor. Aproximam-se de nós, tão somente, os desditosos e os fracos; os venturosos, os ricos, nos abandonam e nos escarnecem.

Só os infelizes é que batem à nossa porta; só os gemidos é que vêm até nós; só as lágrimas é que caem em nossos regaços. Aos infelizes não podemos valer, os gemidos não podemos abafar, as lágrimas não podemos enxugar, vencidos, o nosso turno, pelos desastres da vida, acabrunhados pelas injustiças do mundo.

E o nosso sofrimento é duplo; sofremos pelos males próprios e sofremos pelos males alheios.

Sofremos no presente, sofremos no passado e o acervo de desilusões já nos deixa antever que havemos de sofrer no futuro.

Julgamos o porvir pelo pretérito. Que foram os nossos dias. Um rosário intérmino de lutas, de vexames, de humilhações, de pesares.

Ao desfiar as camandulas, raro é divisar a conta que nos marque uma hora onde a felicidade nos houvesse sorrido. A mais sincera estima correspondeu a ingratidão; ao amor por uma companheira coube a infidelidade; os fios do parentesco eram soldados com a indiferença. Só o amor de mãe conseguia, às vezes, sobrenadar no naufrágio de todas as ilusões.

Se erguíamos os olhos para a Justiça, víamos, nas mãos dos magistrados, não a espada da Lei, mas o ouro dos subornantes. Se nos volvíamos para os sacerdotes da Ciência, encontrávamos fechadas as suas tendas de trabalho, que só se abriam pelo prévio ajuste e pagamento.

Os favores da Medicina são inacessíveis aos deserdados .

Apontam-lhes o hospital, onde mais dolorosa se lhes torna a indigência, pelos maus tratos, pelos maus modos, por lembrar-lhes de contínuo que estão tratados por favor.

As casas de comércio, com seus mostruários deslumbrantes, não têm agasalhos para os que mostram os ombros nus, expondo-os às rajadas dos dias ásperos de Inverno, ou aos raios ustulantes do Sol de Verão. E os salões de bailes e casas de diversões só deixam cair a luz dos vidros facetados ou das lâmpadas elêtricas sobre os trajes rigorosos, sobre as vestes bem talhadas.

Os nossos semelhantes, diante de nossas dores e de nossas misérias, não só nos não protegem, como ainda nos ultrajam, quando não julgam já nos pagar em boa moeda, com o desprezo de que nos acham dignos.

Até as preces, pelos que se dizem intermediários entre os homens e o Senhor, nos parecem vedadas, desde que não temos com que pagar as velas do santuário ou as orações do ministro de Deus.

O que se observava, o que se observa sempre é a falência do amor, a carência do altruísmo, a ausência absoluta da piedade humana.

Que homens e que coisas!

Os animais, esses pobres seres desprovidos de razão, confiados pela Natureza á nossa comiseração e á nossa guarda, são maltratados barbaramente e sucumbem à fome, à sede, ao frio e à pancada.

Os passarinhos, esse ornamento do espaço, caem abatidos a tiro, por divertirem os amantes da caça.

Os bois, de quem tanto nos servimos, utilizando--nos dos seus préstimos em vida, comendo-lhes a carne depois de mortos, ainda hoje são levados a um curro, enxotados a uma arena, acuados, apupados, supliciados, para caírem, depois, vítimas de mil farpas, de mil feridas, tombando em estertores para gáudio das multidões frementes de entusiasmo.

Também entra na liça o cavalo, o companheiro do homem; e sem que disso haja mister, sem que para isso se apresente um motivo, fazem-no dar o flanco ao touro enraivecido, que lhe enterra as pontas nas carnes, abrindo fundo rasgão donde o sangue mana em torrentes.

Quer se trate de uma rinha entre galos, quer de uma referta entre homens, correm todos para gozar do espetáculo.

Semelhantes atos de fereza viam-se a cada passo, entre racionais e irracionais; provinham de todas as idades, manifestavam-se em todas as regiões.

Parecia haver, por todas as obras da Criação, não só desamor, senão até ódio implacável.

Um arbusto, uma árvore, uma floresta, sem motivo plausível, caíam sacrificados pelo machado ou pelo fogo.

Era só pelo prazer de destruir.

Lançando-se a vista pelos tempos em fora, o que se via ainda eram os seres sempre em luta acesa uns contra os outros, quaisquer que fossem os tempos, os países, as regiões, os costumes, os povos da Terra.

Nunca houve um período de paz nos quatro cantos do Globo. Mas o rancor, a sede de sangue, o prazer do revide, o deleite do massacre, o desejo da conquista — era o que dominava e dirigia o espirito da Humanidade.

Sempre o ferro, o fogo, a rapina, os gritos de angústia, as súplicas de misericórdia; e o homem encarniçado contra o homem, contra os outros animais, contra os vegetais, contra todos os seres vivos do Planeta.

Foram os sacrifícios humanos, foram as tochas de Nero, foram os circos de Roma; foi o veneno da Idade Média, o punhal dos Bórgias, os obeliscos macabros de Tamerlão, os conselhos de Veneza, as fogueiras inquisitoriais, as noites de São Bartolomeu e os dias da Revolução Francesa, que repetidos, multiplicados, encheram as páginas da História.

Os vultos coroados de glória não eram mais que grandes exterminadores, quer manejassem a adaga como César Bórgia, quer empunhassem a espada como Napoleão I.

Masmorras terríveis conservavam, sepultados em vida, milhares de criaturas, e por trás de suas possantes muralhas e por baixo de suas abóbadas, muitos havia que perdiam a esperança de tornar a ver a luz do céu. Não diferiam as dores, nem eram menos duros os ergástulos, nem mais brandos os carcereiros, fossem eles na Bastilha em França, na Torre de Lon¬dres em Inglaterra, no Spielberg na Alemanha, no Escuriál na Espanha, no castelo Santo Angelo em Itália, no Kremlin na Rússia.

A maldade manava sempre; ora dos olhos formosos de Cleópatra; ora das mãos artísticas de Benevenuto Cellini.

Não importava o sexo, não importava a profissão, não importava o estado. Ela ai estava onde houvesse um ser humano. Sob a roupeta de Torquemada, sob a toga de Fouquier Tinville, sob a farda de Carlos Magno, sob o cetro de Catarina de Médicis, sob a tiara de Alexandre VI.

Desde o cavalo lendário de Tróia, até o cavalo histórico de Atila, desde os elefantes das guerras púnicas, até os tanques da guerra atuál, era sempre a morte e sempre o luto que se espalhava.

Eram os distúrbios entre os individuos e as batalhas entre os povos, o que se via de contínuo, sem parada, sem trégua, sem intermitência.

Quando o facho das discórdias intestinas não atirava uns contra os outros os filhos de um mesmo

Estado, era a rivalidade entre as nações que produzia o extermínio.

E de contenda em contenda, de peleja em peleja, de combate em combate, de campanha em campanha, de guerra em guerra, caminha a Humanidade através dos séculos.

Cruenta, feroz, vingativa, implacável, surgiu das brumas do passado, e a Civilização dos nossos dias não pôde impedir que os baixos instintos da matéria explodissem, ainda hoje, ainda agora, nessa pavorosa catástrofe, o maior de todos os embates conhecidos, onde intervieram todas as raças e todos os continentes, onde se esgotaram todas as energias e todas as fortunas, onde se empregaram todos os meios de matar e arruinar, onde se levou o ataque a todos os elementos, à terra, ao ar, à água; por cima do solo, no solo e por baixo do solo; onde só houve penas, só houve vencidos, só houve lágrimas.

E ao erguer a fronte para o Senhor, cansada a vista de tanta maldade e de tanta miséria, perguntamos se é só esse mundo que coube em partilha a todos, aos bons e aos maus, se é essa a recompensa tanto das boas como das más açôes; se o fim da existência é o fim de tudo!

Ele, porém, nos responde pelas páginas que vamos ler.

Espíritos mais adiantados que nós desceram da sacristia do templo de Orford e ali, na solidão majestosa do tabernáculo divino, traçaram as linhas que vimos de traduzir.

A vida não acaba aqui. Em breve deixaremos o nosso entrajamento material. E lá, mais perto do Criador, livres das peias que nos oprimem, sem as vicissitudes destas paragens, livres de contactos malignos, descansaremos, enfim, de todos os males por que passamos, de todas as dores que sofremos.

E' lá que serão consolados os que choram. Lá os animais não padecem; lá as flores não murcham; lá os indivíduos não se odeiam. Lá não se injuria, não se humilha, não se maltrata, não se trai, não se furta.

Lá não existem as más paixões; não impera o egoísmo, não domina a falsidade, não vigora a mentira, não campeia a hipocrisia.

Lá é tudo verdade, tudo sinceridade e tudo amor. Lá é com amor que amor se paga.

E a beleza que reveste todos os quadros da Natureza, orna os corações de todos os entes.

Lá é tudo puro, assim nas almas como nas coisas.

Em quantos momentos não procuramos fazer idéia do que seria o mundo se todos fossem bons? Pois esse mundo ou esses mundos existem.

E nesses mundos todos crêem na justiça, todos crêem em Deus!

O' páginas de conforto e doces consolações! Possam aqueles que as lerem lembrar-se dos Espíritos benévolos que as traçaram e agradecer-lhes os serviços que houveram por bem prestar-nos!

E, com o pensamento fito em Jesus, seguir sempre os seus desejos, praticar sempre a caridade, fazer sempre o bem, para que consigam palmilhar essa estrada que conduz às remançosas estâncias do Senhor!

CARLOS IMBASSAHY

..G.V.O - QUEM ESPÉCIE DE HOMEM É ELE?
..NOTAS GERAIS
..INTRODUÇÃO
..CAP. I - AS REGIÕES INFERIORES DO CÉU
..CAP. II - CENAS MAIS BRILHANTES
..CAP. III - DAS TREVAS PARA A LUZ
..CAP. IV - A CIDADE E O DOMÍNIOS DE CASTREL
..CAP. V - AUXÍLIO ANGÉLICO
..CAP. VI - COMUNICAÇÕES DE ASTRIEL