O CARDEAL

1 - O CARDEAL

Durante cerca de um ano, o autor espiritual desta obra se comunicou semanalmente na reunião do Centro Espírita.

Culto e inteligente, sua característica mais marcante era se considerar muito superior a todos os que ali estavam buscando auxiliá-lo.

Dotado de imenso poder dentro da Igreja Católica, no século 15, como inquisidor espanhol, discutiu com os presentes sobre teológicas, justificando as decisões que havia tomado.

Ao final desse período, o espírito, que autodenominava o Cardeal, se dispôs a narrar suas memórias através da psicografia de Walace Neves.

2 - APRESENTAÇÃO

Ele chegou certa noite e, durante longo tempo, em torno de um ano, se comunicou, semanalmente, através da psicofonia.

Embora orgulhoso, inteligente e culto, firme em suas convicções, principalmente no combate ao espiritismo, o Cardeal demonstrava certo ar de nobreza. Com algum desdém, de início, ao observar a simplicidade do ambiente e das pessoas, classificou tudo como medíocre, uma vez não se apresentarem ao nível da autoridade eclesial que ali se encontrava. Consequentemente, para ele, tudo aquilo significava uma perda de tempo e somente ali permanecia por ter sido convidado.

Mesmo assim foi recebido com a devida atenção, como são recebidos todos os visitantes da vida espiritual, mas, sob o império da intuição, a médium esclarecedora o atendeu com a dignidade que o protocolo da hierarquia e funções eclesiásticas exigia, contudo, sem pieguismo, subserviência ou bajulações.

À percepção mediúnica, ele se apresentava com anel e vestimentas impecáveis, características de sua posição, mas, por outro lado, sob aquela aparência se escondia ou se camuflava um traje envelhecido, roto e esfarrapado.

Ao se observar tratado com respeito e sinceridade, sem desdém ou tentativas de doutrinação, como acontecera em outros ambientes, segundo seu relato, aos poucos conquistou confiança, permanecendo, assim, mais à vontade e confortável para o diálogo franco e aberto, mesmo para as questões dogmáticas e doutrinárias, o que lhe espicaçava a inteligência e seu condicionamento profundo à teologia católica apostólica romana herdada dos tempos da inquisição espanhola.

Condenava, enfaticamente, os postulados espíritas e sua divulgação, com especial atenção às comunicações mediúnicas e evocações, mesmo sabendo de sua posição de espírito desencarnado.

Certa feita, ao ser questionado quanto ao fato de se utilizar de um processo de comunicação, a mediúnica, numa instituição fundamentalmente anticatólica em seus postulados, a espírita, o Cardeal argumentou ser necessário, sem remorsos ou angústias, empregar a mesma "arma herética" para combater o fogo com o fogo.

Com atenção e habilidade, a companheira Elza, na condição de médium esclarecedora, percebeu no Cardeal um coração sobrecarregado de dores, angústias seculares e profunda tristeza camufladas pela força combativa na exposição de seus argumentos filosófico-religiosos. Pouco a pouco os diálogos foram-se conduzindo dos aspectos puramente teológicos e doutrinários para os temas cotidianos da vida, os meandros, tantas vezes insondáveis, da alma humana em seus profundos contrastes, cujas causas estão aparentemente distanciadas da bondade e da justiça de Deus: acertos e desacertos, desesperança e fé, miséria e altruísmo... Este era fulcro, o ponto nevrálgico de seus interesses mais profundos; estava ávido por aconchego a fim de se aliviar das ilusões representadas pelo peso do passado a ele atrelado no curso dos séculos. Isto o fazia retornar a cada semana.

Tudo nos leva a crer que o Cardeal foi, na década de 1950, um bispo católico da ordem OFM, nascido na Alemanha e radicado no sul do Brasil. Foi o que mais se empenhou, àquela época, em combater o que denominou "confusão religiosa", proveniente de sincretismos religiosos feitos por fiéis cristãos em outras correntes religiosas. Combateu, com vigor, a maçonaria, a umbanda, a quiromancia e, contundentemente, o espiritismo.

Vários meses haviam transcorrido quando os dirigentes espirituais concluíram ser o momento adequado para preparar uma surpresa para o Cardeal, um aprofundamento em suas estruturas espirituais. Os arquitetos e cenógrafos espirituais prepararam um ambiente que lhe coubesse a dignidade de que se investira: uma biblioteca sóbria, de mobiliário nobre, escuro, provavelmente do século 15, e janelas com vitrais e alguns ícones nas paredes, portas lavradas em baixo relevo... Ali ele foi recebido pelo frei Luiz, fundador do orfanato Cristo Rei, em Vitoria, naquele momento transmudado em cardeal.

O espírito, sem se perceber 'incorporado' ao médium, dialogou com o outro 'cardeal', em pé de igualdade, cativado por sua simpatia. Pelas expressões do médium, em transe psicofônico, não foi difícil deduzir o conteúdo da conversa, além de parte da interlocução que lhe ficara na memória. A primeira reação do Cardeal foi a de estranheza por encontrar uma autoridade católica naquele ambiente não católico e sua relação com espíritas; depois, o significado da correspondente instituição espiritual da Casa terrena, suas dimensões, sua amplitude e seu raio de ação; a seguir, o conhecimento do Evangelho daquelas pessoas das quais desdenhara.

Em alguns 'departamentos' da vida espiritual, esclarecera o anfitrião, a palavra 'católico' tem uma dimensão bem mais universal do que o significado restrito a ela atribuído na vida terrena, da mesma forma que o ecumenismo é vivenciado como um fato natural, sem convenções. Considerou que a amplitude e ação da instituição espiritual são resultado do trabalho simples, mas cristão, efetivo e sincero desenvolvido ao longo de várias décadas pelos encarnados, junto à comunidade terrena, complexa, o que a fez granjear diversificados trabalhadores do bem, na vida espiritual. Quanto ao conhecimento evangélico, aquelas pessoas se apoiavam, com alegria e amor, nas luzes da Boa Nova, a fim de exercitarem seu crescimento espiritual na arte de fazer o bem, despretensiosamente.

Por fim, após um tempo em que o Cardeal pareceu refletir, o diálogo se encerrou com o convite formal para uma visita aos setores da instituição espiritual.

Na semana seguinte, ao se comunicar, relatou, com emoção contida, as surpresas que o aguardavam: enfermos espirituais sendo tratados com amor e respeito, tarefeiros de várias confissões religiosas unidos pelo espírito de fraternidade, locais específicos para a oração individual ou grupal, a ordem e a disciplina.

Sensibilizado, deixou escapar o seu permanente estado de espírito - uma oculta frustração e explícita revolta que encoam suas dores sufocadas, à força, oriundas do passado que desejava destruir, mas que, insistentemente, lhe afloravam à consciência, agora com mais intensidade, uma vez que reconhecera, ali mesmo, convivas de outras épocas.

Para um processo de catarse, os espíritos dos quais se fizera amigo sugeriram que relatasse suas memórias; assim, depois de alguns relatos, solicitou fazê-los pela escrita, ao término da reunião, a fim de não desvirtuar o objetivo da mesma e ocupar o tempo dedicado ao diálogo fraterno com outros enfermos da vida espiritual.

Finalmente, um fato sensibilizou, profundamente, a equipe da reunião mediúnica. O Cardeal agradecia a todos pelo carinho fraterno a ele dedicado, quando surgiu à sua frente um espírito de grande beleza a lhe trazer um ramo perfumado de flores silvestres, similares às que conhecera nos tempos vividos na velha Espanha. Tratava-se de Bernardete, um terno coração de seu profundo afeto, do qual se distanciara no curso dos séculos. Através de outro médium estabeleceu-se um diálogo em expressões de alegria, saudade, amor e esperanças num futuro promissor...

O médium (Wallace Neves)

..CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO
..CAPÍTULO 2 - INSÓLITAS LEMBRANÇAS
..CAPÍTULO 3 - SURPRESAS
..CAPÍTULO 4 - REMINISCÊNCIAS
..CAPÍTULO 5 - UM NOVO MUNDO
..CAPÍTULO 6 - REENCONTRO
..CAPÍTULO 7 - DESPEDIDA..
..CAPÍTULO 8 - NO TRIBUNAL
..CAPÍTULO 9 - A DESCOBERTA
..CAPÍTULO 10 - A VISITA
..CAPÍTULO 11 - METAMORFOSE
..CAPÍTULO 12 - UMA LUZ NO MEU CAMINHO
..CAPÍTULO 13 - AO FUTURO
..CAPÍTULO 14 - CONCLUSÃO