O SILÊNCIO DOS DOMINGOS

Quando pois te encontrares em luta imensa, recorda que o Senhor te conduziu a semelhante posição de sacrifício, considerando a probabilidade de tua exaltação, e não te esqueças de que toda crise é fonte sublime de espírito renovador para aqueles que sabem ter esperança.

Dedico este livro a todos aqueles que sofrem, aos que têm medo, seja da iminência de uma fobia, de uma crise de pânico, de assumir um compromisso tao sublime como a maternidade, de simplesmente não conseguir realizar algo que muito desejam.

Dedico a todos aqueles que, nos momentos de desespero, sentem-se sós e desamparados, acreditando-se tão esquecidos pela Providência Divina a ponto de mal conseguirem intuir a imensa quantidade de benfeitores espirituais que os rodeiam, não só nesses como em todos momentos de suas vidas;

Nunca estamos verdadeiradamente sós.

PREFÁCIO

Milton Menezes

Temos nos deparado com grandes desafios na área da saúde, para ampliar o entendimento e as possibilidades de tratamento de diversas enfermidades físicas e psicológicas. Considerando o homem um ser multidimensional, não podemos mais negar o componente espiritual na gênese de inúmeros processos de adoecimento.

É claro que, mesmo quando consideramos a dimensão espiritual, estamos sujeitos a distorções, por ser ainda um terreno difícil de caminhar, cheio de desvios e equívocos. Muitos consideram a reencarnação no seu modelo explicativo de homem e da enfermidade, mas atribuem, de forma simplista, a um efeito de uma causa anterior ou do "carma", retirando a possibilidade de compreensão, por parte do enfermo, da sua implicação no processo de adoecimento e, consequentemente, na sua participação decisiva no processo de cura.

Outros, ao considerarem a realidade espiritual da vida, acabam por atribuir excessiva responsabilidade ao processo de influência espiritual externa (obsessiva) como gerador da patologia. Esse engano lamentável desconsidera a participação do encarnado, que só sofre aquele tipo de influência porque traz, às vezes nas suas estruturas mais íntimas, a repetição de velhos padrões inadequados de comportamentos ou de valores na vida atual, estes sim, os "plugs" que favorecem a influência externa.

Em nossa experiência clínica, ao longo de tantos anos, temos nos deparado com esta realidade: a dimensão espiritual como fator decisivo para a compreensão do sentido do sofrimento. O sofrimento, então, pode ser visto como uma consequência, não do que aquele indivíduo fez ou deixou de fazer na sua vida passada, mas da manutenção, na vida atual, de comportamentos e de um sistema de crenças e valores que estão desatualizados para os desafios de crescimento atuais daquela alma no processo de evolução espiritual.

O sofrimento é um sinalizador de que algo em nós precisa ser mudado, transformado. Sem isso, podemos até atenuar sintomas, mas que serão deslocados para outras áreas de nossa existência, apresentando-se mais uma vez como conflitos e dores. A dor permanecerá até tomarmos consciência da necessidade da mudança e empreendermos o processo efetivo para tal.

Na presente obra, Lygia Barbiére Amaral teve a coragem e a destreza de penetrar nesses domínios. Com o estilo leve e envolvente que tem caracterizado suas obras, prende o leitor na trama até o desfecho final. Mas faz isso com a preocupação de quem sabe do alcance que sua palavra tem. Pois não se preocupa apenas em prender o leitor, mas, nas entrelinhas, trazer informações científicas, conhecimentos sobre as questões que vão se entrelaçando no decorrer da história. Essa inserção é feita de forma hábil, pois nos leva a ser informados de forma sutil, mas consistente, além de nos levar a reflexões sobre a nossa própria vida cotidiana.

Em O silêncio dos domingos, Lygia Barbiére Amaral aborda o complexo sofrimento do transtorno de pânico como tema central. Entretanto, desdobra reflexões sobre outros dramas que, muitas vezes, ainda não resolvidos no nosso psiquismo, compõem o cenário e o quadro da dor. Entretanto, podemos perceber que essas dores nos levam a reações e a experiências que parecem, no fundo, estarem a serviço do nosso processo de crescimento. O aborto, a influência espiritual externa ou obsessiva, a cristalização de traços do nosso caráter, dentre outros, são abordados como possibilidades coerentes e reais, em psicopatologias complexas como o pânico, a depressão e o TOC — transtorno obsessivo compulsivo.

Sem pretender dar palavras finais ou determinar este ou aquele fator como gerador do pânico, Lygia nos leva através das histórias dos personagens a trilhar parte de nossas próprias vidas e conflitos. Leva-nos a considerar aquilo que temos constatado em nossa prática clínica. Psicopatologias como o transtorno de pânico são geradas por uma combinação totalmente individual de causas físicas (orgânicas) , emocionais e mentais (psicológicas) e também espirituais (conteúdos de vidas passadas e influências espirituais).

Nenhum deles é mais ou menos importante, pois todos refletem as necessidades da alma de deixar o passado de ignorância para um novo patamar de consciência sobre si mesmo e sobre a vida.
Tive o privilégio de colaborar com as reflexões da autora sobre os dramas internos de quem passa pelo sofrimento do pânico. Além disso, esclarecer sobre as possibilidades que um tratamento de terapia regressiva ou terapia de vida passada poderia ter nestes casos.

Utilizando este recurso e desenvolvendo uma metodologia própria nesta abordagem terapêutica, por mais de 25 anos, tenho presenciado inúmeras pessoas que atravessaram a experiência do pânico em suas vidas, a ponto de ter me dedicado, por dois anos, a uma pesquisa específica sobre este transtorno de ansiedade.

Apesar dos preconceitos e desinformações de muitos espíritas, o uso adequado e criterioso da terapia regressiva pode ajudar as pes¬soas a entender as origens de seus problemas, favorecendo a superação de muitas das dores que atravessam.

Entretanto, o desconhecimento tem levado algumas a evitar essa forma de tratamento por conta de temerem as consequências do processo. É claro que, como todo processo de tratamento profissional na área de saúde, é preciso considerar bem o profissional e o seu preparo e competência para a realização deste tipo de terapia. Aliás, como deveríamos fazer com qualquer médico ou especialista que pretendemos consultar.

Na terapia regressiva, o mais importante não é a lembrança por si só, dos fatos que ocorreram numa vida passada e que estejam relacionados ao problema que estamos tratando. A lembrança, simplesmente, não é capaz de fazer o paciente superar conflitos complexos como o pânico.

A terapia, como nós a entendemos e praticamos, visa levar o indivíduo a tomar consciência dos padrões de comportamento, da forma de levar a vida e dos valores que ainda repete do seu passado. É a manutenção destes padrões que gera um desequilíbrio no psiquismo e se desdobra, de forma singular, em diversos tipos de patologias.

Conduzida assim, a terapia visa a levar o indivíduo a se confrontar com estes padrões que atuam inconscientemente em sua vida, mas que o influenciam ao ponto de ter chegado às vias do sofrimento. Somente com essa consciência e transformação o indivíduo poderá superar de forma decisiva sua experiência dolorosa: quando aprender o que falta para continuar crescendo.

Desta forma, não é a regressão, o terapeuta ou quem quer que seja que faz a mudança. Somente a mudança feita pelo próprio indivíduo pode promover a cura. Costumo dizer que "ninguém muda ninguém... só que ninguém muda sozinho".

Ao ler o drama e a trajetória de Vítor nesta obra, muitos vão tomar consciência de suas próprias responsabilidades nos comportamentos, nos conflitos e problemas que atravessam. Lygia Barbiére Amaral nos convida, pela história de Vítor e de todas as pessoas, dos dois planos da vida, que participaram direta ou indiretamente do seu processo de transformação, a refletir sobre nossas implicações e as responsabilidades que assumimos com nossas escolhas e relacionamentos.

Com a leitura desta obra, você leitor poderá iniciar o seu percurso de transformação pessoal. Não apenas pelas informações e pelo prazer da leitura, mas também pela possibilidade de refletir sobre a dinâmica que vem dando à sua vida e a possibilidade de uma tomada de consciência sobre o que realmente tem feito dela, a que tem dado valor e o que tem feito para ser feliz.

Boa jornada!

MILTON MENEZES nasceu no Rio de Janeiro. Formado em economia e em psicologia, é mestre em psicossociologia pela UFRJ.
Seu primeiro contato com a literatura espírita ocorreu em 1982. Em determinado momento, chamou-lhe a atenção o livro Eu sou Camille Desmoulins, de Hermínio Miranda e Luciano dos Anjos, que relatava as experiências com regressão de memória com finalidades de pesquisa sobre o fenômeno da reencarnação, e passou então a se dedicar exclusivamente à pesquisa de literatura sobre este tipo de experiência.
Terapeuta de vida passada, formado pela Sociedade Brasileira de Terapia de Vida Passada - SBTVP, fundou com alguns companheiros o Instituto Brasileiro de Pesquisa em Terapia de Vida Passada - IBRAPE-TVP, no Rio de Janeiro.
Especializou-se em hipnose ericksoniana com o dr. Jeffrey Zeig, sendo atualmente hipnoterapeuta, formado pela Sociedade de Hipnose Médica do Estado do Rio de Janeiro - SOHIMERJ. É também presidente do Instituto Vita Continua, que tem como proposta a divulgação, a formação e a pesquisa de temas relacionados à espiritualidade humana.
MILTON MENEZES é autor dos livros Terapia de vida passada e espiritismo - distâncias e aproximações e O sentido do sofrimento - do desafio à superação, ambos da editora Leymarie. Na Rádio Rio de Janeiro, apresenta o quadro "Consciência e Transformação".


CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
CAPÍTULO 27
CAPÍTULO 28
CAPÍTULO 29
CAPÍTULO 30
CAPÍTULO 31
CAPÍTULO 32
CAPÍTULO 33
CAPÍTULO 34
CAPÍTULO 35
CAPÍTULO 36
CAPÍTULO 37
CAPÍTULO 38
CAPÍTULO 39
CAPÍTULO 40
CAPÍTULO 41
CAPÍTULO 42
CAPÍTULO 43
CAPÍTULO 44
CAPÍTULO 45
CAPÍTULO 46
CAPÍTULO 47
CAPÍTULO 48
CAPÍTULO 49
CAPÍTULO 50
CAPÍTULO 51
CAPÍTULO 52
CAPÍTULO 53
CAPÍTULO 54
CAPÍTULO 55
CAPÍTULO 56
CAPÍTULO 57
CAPÍTULO 58
CAPÍTULO 59
CAPÍTULO 60
CAPÍTULO 61
CAPÍTULO 62