2 - LUTA DE DECADÊNCIA

2 - LUTA DE DECADÊNCIA

Sobre os Céus e sobre a Terra ainda há muitos mistérios vagueando sob a sombra horrível da escuridão, onde os homens, à mercê de seus próprios delitos, se arrastam ao peso de suas enfermidades, amargando a derrota em seu coração.

Determinados homens não mediram sacrifícios para estender a mão às criaturas necessitadas, mesmo àquelas que na prisão de seus tesouros vêm dizimando os seus irmãos. E quantos não são aqueles que, escravos da própria ignorância, embora acobertados pelo manto da própria religião, fizeram morada no egoísmo, na inveja, na vaidade, deixando que as vias da ambição lhe tomassem conta do coração! E vemos debates entre irmãos, porque a facilidade e potencialidade das palavras lhes fala alto à alma orgulhosa. Criaturas se ocultando ao poder de seus galardões de ouro e ordenando combates sobre a Terra; criaturas dando vazão ao seu egoísmo na defesa e expansão do seu território próprio, sentadas sobre aquilo que acreditavam como se fosse o mais sagrado e mais belo de seus tesouros...

Aí emergem criaturas simples, também devedoras, de uma forma ou de outra, impregnadas na cobrança de seus resgates. Irmãos contra irmãos, lutando pela própria vida...

Era um grande homem? Era um determinado capitão, era um determinado coronel, era um determinado marechal. Mas era também uma criatura bailando no próprio egoísmo e brincando com os sentimentos humanos. Seres desesperados, mãos erguendo lâminas e o fogo e a explosão no impacto de irmãos contra irmãos!

Contudo, o sentimento maior que nos animava, a figura maior a respeitar era o grande Jesus, o Mestre da Luz ainda rogando, ao calor das lágrimas: — Pedro, guarda a tua espada, porque aquele que pela espada fere, pela espada perecerá!

E a falsa grandeza dos homens não dava olhos nem coração à dor de Jesus: mandava combater e que se sacrificassem uns aos outros, em nome da defesa de um determinado tesouro. O orgulhoso conde, instalado em seu palácio, conservava os seus guardas de lanças às mãos tremulantes sob o som ds trombetas. Batalhas se sucediam diante das muralhas, sem respeito ao sentimento e à vida.

Eram os homens da Antiguidade, que viviam sob as leis da vaidade, batalhando para a destruição mútua. E na grandeza daquilo que, respirando fundo, aplaudíamos em nosso coração, abríamos o livro sagrado e líamos os relatos autênticos do amor, cantados em versos por todo este mundo. Ali se falava da grandiosidade de um Mestre da Luz, daquele que ordenara a Pedro deter a sua espada, porque pela mesma lâmina haveria de passar, caso ferisse o seu semelhante.

É o homem e suas religiões, seus cultos. É o homem que ainda busca Deus e busca o Cristo. E onde estão um e outro? Onde estaria o sentimento mais puro da alma, se em nome dele tantos vieram sacrificar os homens e destruir a Terra? Não, não se entendeu a sublimidade do sentimento de amor vibrando sem cessar em nosso coração! No impulso da maldade se olhava para dentro de si mesmo e se projetava o Cristo nas mãos sacrílegas, um Cristo vingativo, um Cristo que perante Pedro não deteria o seu impulso de defesa e ataque.

Quanto sangue derramado sobre a Terra, sob a ironia do sentimento da vida sacrificando filhos de Deus e pagando com a própria ferida o próprio bem-estar! Quanta tentativa de fazer imperar a falsa grandeza da alma, ao se afirmar tão torpemente como o verdadeiro cristão!

Ah! religião é apenas religião, apenas um status que o homem coloca diante de si, mas sem compreender qual é o sentimento autêntico da vida. Palavras sussurrando amor, desvirtuadas em toda a sua essência real, ainda explodem pelos ares, zumbindo em nossos ouvidos:

— Sim, sou eu o Cristo de Deus! Sou eu o enviado do Pai; porque o meu sangue ficará sobre a Terra para eliminar os vossos pecados, para mostrar ao homem o verdadeiro rumo; e se aqui caio tombado à força da vossa espada, meu espírito retornará ao Pai, e minhas palavras assolarão em vós até que se consumam todos os séculos e séculos; porque as minhas palavras falam da glória do Pai, e o Pai está em mim, e nós estamos em vós, pois somos o amor que o vosso pulmão respira!

Assim falava Jesus. E os homens se reúnem, por todas as formas, em cultos religiosos. E será que o sangue derramado pelos nossos irmãos em nome de uma cruz, em nome de Jesus, justificaria a doutrina do amor? Quantas vidas tombadas à espada do mais alto fanatismo religioso, espelhando a ignorância dos homens em se destruírem uns aos outros!

Religiões se multiplicaram pela Terra. Religião se tornou moda. Cada qual segue atraindo o seu público e falando da majestade de Jesus. São infinidades de crenças que a graça divina coloca sobre a Terra, animadas por médiuns, portadores, das vozes do Além. E um ser desponta à frente dos outros, no afã de mostrar em si a legitimidade de um mais puro cristão; e outro faz sobressair a sua figura, montado em seus galardões de ouro e destruindo a massa, que se torna falida, sem compreender que para atingir o Mestre não é necessário elevar o ouro, sem alcançar que na pobreza e na simplicidade encontram-se as virtudes do bom cristão, daquele que se afasta da vaidade para encontrar o Cristo.

Não dissera Jesus que onde estivessem um ou dois corações reunidos em seu nome, ali mesmo ele estaria para amparar e proteger?

Todavia, quem há de vê-lo, quem há de senti-lo? Naquilo que aspiramos, queremos que os nossos filhos tenham maior glória ao nosso lado. E no seio da humildade e do amor, pouco nos damos, porque valorizamos os nossos galardões.

Onde é que estaria o legítimo sentido de ser cristão? Está nos homens e em suas leis? Está na verdade que o homem afirma com a maior firmeza de pensamento? Está na força da sua espada, como no passado, quando os reis mandavam defender a todo custo o seu castelo e o seu ouro?

Sim, onde estarão os verdadeiros seguidores do Cristo? E quanto não há ainda daqueles que adquiriram no passado grandes fortunas e hoje retornam sob as vias da escandalização, por não terem compreendido o legítimo valor da simplicidade e do amor, a lei da distribuição comum de bens acatada por aquele que verdadeiramente se converte à falange do Messias?

O Jesus que conhecemos, o Jesus de quem falamos era um homem revolucionário que pregava as leis da igualdade e nos anunciava: — É mais fácil um camelo atravessar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus.

Eis a grandeza de Jesus mostrando a realidade da vida, onde, todavia, os homens, superando-se uns aos outros, se enriqueceram, pisando sobre os mais humildes, pagando miseráveis salários, na ironia de humilhar as criaturas projetando a própria e orgulhosa grandeza terrenal.

Ah! temos, de outro lado, aquelas criaturas que compreenderam verdadeiramente Jesus, que entenderam que teriam que dar conta de seus atos, que um dia poderiam tornar-se falidos, porque o banco dos miseráveis estaria a acolher os incautos, lá nos planos espirituais onde os seres se põem a vagar...

Seguíamos quase sempre montados no nosso ouro, na nossa fortuna, e aí não enxergávamos à frente a grandeza da humildade, os benefícios dè se ajudarem uns aos outros.

E sobre os Céus e a Terra temos o império das religiões descrevendo vidas e vidas humanas. Vemos que, de uma forma ou de outra, cada qual acalenta o ideal de sua própria religião, inscre¬vendo com ela o seu destino terreno.

Na força do catolicismo, emergindo nos primórdios da era cristã, mostravam-se a verdadeira caridade e o verdadeiro amor. Cristãos legítimos eram jogados aos leões para que eles os devorassem. Eram inspirados pelo gratificante sentimento de estarem seguindo Jesus, o Mestre Maior. Doutra parte, alavancando a grandeza de sua luta, da sua ironia, da sua fúria, também deixavam dispersar a energia pelo medo da morte, pela raiva de se debaterem uns com os outros. Muitos não se mostravam ainda preparados para enfrentar as mandíbulas dos leões. Outros se viam apedrejados e sacrificados em praça pública.

Entretanto, considerando a necessidade da escandalização para reformar os homens pelos homens, assim se projetava e caminhava a era cristã, assinalando os seus relatos pelas vias das existências.

Desencarnadas, almas seguiam ao Mundo Espiritual, depois ingressando na doutrina católica, no plano terrestre, onde a nova crença cristã se assentava. E aí aqueles antigos cristãos, uma vez mortos sob o sentimento da revolta, retornavam sob os ímpetos da vingança e seguiam pela estrada da fé tortuosa, defendendo a sua bandeira, a sua religião. Batiam-se, assim, uns com os outros, enquanto Jesus chorava por tais criaturas e por elas pedia perdão ao Pai. Sim, porque a sua doutrina falava do amor, pedia que os homens guardassem a sua espada.

Doutra parte, o alto poder sacerdotal, inspirado por sua própria grandeza, caminhava na rota de outro mestre configurando os seus ideais. A força que os unia se afastava dos demais poderes, porque formavam em si próprios uma grande nação judaica, onde emergia o fator de debate crença a crença. Surgiam também os nossos irmãos muçulmanos, espalhando-se pela Terra e conquistando os seus espaços. Em nome das religiões, em guerras que se consideravam santas, criaturas e criaturas perdiam a sua vida, por não entenderem que o império de Jesus é o império do amor de todos para com todos.

O modernismo das instituições humanas foi imperando. Países e países se formaram, demarcando cada qual o seu próprio território. Julgando-se, cada qual, dono autêntico do solo, lutavam e lutam desesperadamente, em nome do que nomeiam paz, para demarcar a sua própria grandeza e seus futuros rumos.

Não, o calor a sustentar o homem não é o legítimo sentimento cristão. A seiva que o homem elege é aquela em que o sangue agitado tremula nas veias, onde a energia magnética detona na grande raiva, onde o ácido estomacal aciona a força maior.

Mas tais energias do ódio não são a moradia do amor ensinada pelo Mestre da Luz!

E o homem segue com as suas religiões...

O mundo moderno rompeu o tempo e criaram-se as novas situações. Veio uma primeira guerra atingindo mortalmente vidas e vidas, almas retornando revoltadas ao Mundo Espiritual, homens guerreando com todas as suas forças, animados por sua própria raiva, tentando conquistar e resguardar os seus espaços...

E as religiões, e as organizações e as leis faziam com que homens bravios combatessem na defesa do seu território.

Sangue e sangue derramado ao chão... Nenhuma ação voltada ao amor e ao respeito da vida, à compreensão de que somos todos irmãos. Buscamos apenas o poder do nosso próprio devotamente e não enxergamos mais além daquilo que nossa frágil visão pode ver. Olhamos para dentro de nós sob o óculo de nossa própria e exclusiva religião.

— Hoje sou portador de uma certa doutrina que em tudo me prepara. Vou todo dia ao meu templo e lá recebo o afeto de um condutor de almas, e aí me integro à minha paz, à paz que criei para a minha existência!
E outras criaturas, procurando as vias do amor, palavras ditadas pelo seu pastor, deixam que o ódio tome conta do seu coração, porque o líder é também um homem inteligente e conhece a fragilidade moral dos seus servos. Abre-se aí uma ferida
na alma do crente e ele se coloca hábil a partir para a destruição.

No seio sagrado da França, a Doutrina dos Espíritos era trazida à Terra por verdadeiros mestres, determinados a passar ao mundo uma Terceira Revelação, uma nova Codificação da vida, repassada em termos legítimos, sob a grandeza de um Evangelho, sob a força da verdade. Aí é o terreno novo onde os homens haveriam de lutar, por todas as formas, com armas diferentes. Mas a França, desqualificada se mostrando em segui-la, tomou outro rumo. Não reconheceu a grandeza de Joana d'Arc. Kardec passou por ignorado. Ficava relegada a verdadeira doutrina de Jesus explicada em espírito e verdade.

Sim, a nova doutrina revivia a ordem de rembainhar a espada de Pedro, porque a lei da reencarnação se fundamentava agora na lei de causa e efeito. Entende-se que, não obstante a escandalização, novas oportunidades são dadas ao ser faltoso, em novas vidas de reparo.

A nova doutrina espalhou-se por vários caminhos. Alcançou um solo abençoado por Deus, uma terra em que o Sol brilha magistralmente, a fim de que sob o seu brilho o homem possa contemplar a pureza dos seus ensinos e o alcance do seu amor, possa respirar mais livremente, alentado por urna leve brisa marinha a refrescar o sentimento dos que enfrentam a cálida noite.
Isso estava determinado. A doutrina maravilhosa haveria de assentar raízes no solo do Brasil.

Sobre os Céus e sobre a Terra compreendemos a grandeza do amor na pátria que o homem consagrou. É a facilidade em que as plantas brotam do chão e o Sol esplende! E ninguém imaginava que um dia o amor por aqui passaria, que o Anjo do Senhor por aqui viesse fazer a sua morada.

Foi deixada aos homens a escolha de sua própria religião neste solo diferente. E o cristianismo se disseminou por várias formas, por toda parte do nosso querido Brasil. Debate-se ideologicamente, mas não se procura o caminho da guerra. O ódio foi afastado, embora muitos ainda não compreendam que, na grandeza de uma cristianidade, somos todos iguais, somos todos imortais; que da mesma forma que o orador espírita entrega o seu corpo à terra, também o irmão pastor tomba sobre o solo; que também os irmãos padres e outros líderes têm ao seu corpo o mesmo destino, quando a massa carnal não mais serve ao espírito e ele tem que retornar às suas verdadeiras moradas.

A encarnação é o projeto para o nosso aprendizado de amor, é a oportunidade a que mais nos acerquemos do Cristo, como espíritos imperfeitos que somos.

— Tenho em minhas máos as leis da sagrada escritura! E o padre, abrindo os seus braços a milhares de fiéis repletando o seu grande templo, faz a sua pregação. E quando as igrejas se acham vazias, ainda aí se poderia ouvir quem dissesse:

— Fora da Igreja não há salvação! Mas quem é que não tem uma sacra escritura ou um templo dentro do coração? Impregnado nas raízes dos seus ideais, o homem é um permanente pagão, porque, mesmo sendo batizado numa determinada religião, não entende a grandeza do amor e da salvação no sentimento de cada um.

Mas as leis da verdade, codificadas sob novo pensamento, estatuem: Fora da caridade não há salvação.

Tentar compreender Kardec é tentar compreender Jesus, porque aí se mostram os verdadeiros sentidos da vida.

Entronizar nosso corpo na arca dos nossos tesouros e maldizer e relegar os nossos irmãos é elevar o galardão da maldade, onde as leis da vaidade se apegam ferventes em suas mãos, onde a espada ainda é erguida para a destruição.

Quanto é belo estar falando de um alto palanque, estar pronunciando palavras rimadas e melodiosas, a extrair ruidosos aplausos de uma grande plateia! Todavia, entender a grandeza dos sentimentos perfumando os corações ainda está muito longe do homem, porque ele somente vê diante de si a sua própria religião, onde se vê maior do que os demais irmãos de outras crenças.

Quantas e quantas portas se encontram fechadas! A maior parte das criaturas se acha obsediada. Criaturas e criaturas batem desesperadamente às portas dos templos, buscando a abertura para que possam entender a grandeza do amor.

São muitos os irmãos que, sentados comodamente em sua fortuna, nem ao menos abrem a janela para fitar as criaturas perturbadas pelos aguiIhões da vida. Na orgulhosa grandeza de que insuflam os seus galardões, não têm tempo para sair a auxiliar as pessoas necessitadas, para distribuir mensagens de mão em mão, de conceder o pão que lhes sobeja, de repartir aquilo que têm de sombra, agindo com muito amor e carinho. Então o Cristo configurado em sua alma é um Cristo falso, é um Cristo egoísta, um Cristo que está ao lado apenas dos abastados. Tal Cristo imponente não é aquele que em meio às prostitutas e aos bandidos fez a sua semeadura do bem, a morada do seu coração!

Lá estava Jesus descendo de suas alturas! O Rei dos Reis tornou-se humilde perante os homens. E quantas vezes não é indagado se pode o Mestre estar em meio àquelas criaturas inqualificadas pela sociedade? E suas palavras de ordem nos arremessavam contra uma imensa parede, estraçalhando-nos pelo impacto contra o nosso falível julgamento. E ouviríamos o Mestre repetir que são os doentes que precisam do médico. E quantos irmãozinhos padecem! Quantos não são os irmãos caídos pelas calçadas?! Quantas não são as almas enfermas?! Quantos seres necessitados ainda não se ocultam naquelas pequeninas igrejas das áreas rurais? Quantos espíritos se refugiam às margens dos rios, por não compreenderem ainda que já desencarnaram! Quantas almas ainda se debatem em meio às águas, sem saberem que seu corpo nelas pereceu! Quantos irmãos estão sendo obsediados por outros que ainda não compreenderam a luz e ainda vêm tentar arrasar tais criaturas necessitadas!

Falemos hoje de mistérios assombrando os céus e a Terra. Mas o maior mistério está nas religiões e nas suas leis, incriminando a sociedade, levando o homem ao holocausto.

Já era tempo de que todos os homens se unissem na grandeza de um mesmo Cristo e abrissem as portas dos seus templos, e recebessem, indistintamente, todas as criaturas desajustadas, e que transformassem todos os templos em hospitais, em locais de amparo aos mais fracos; e que as praças públicas pudessem estar repletas de gente entoando uma só harmonia e uma só canção, uma ode de paz, um hino de louvor a Jesus e à igualdade da vida. Que bom se pudéssemos todos abraçar a todos como irmãos!

O homem rico por fim sentiria que a sua fortuna criaria um caos na alma dos seus sucessores, causa então de novas guerras. Mas na grandeza da igualdade estendeu-se por todos os cantos a paz, o amor! E o hino da alegria rasga os montes, na medida em que o Sol se desperta. A letra da amável canção apaga a imagem da cruz e, em meio à nebulosidade, encontramos a meiga face de Jesus. E a bandeira do amor estaria a tremular de um a outro lado, mostrando que o reinado da paz enfim há chegado!

Eis a Terra Prometida! A guerra se foi, e também se acabaram as religiões...
Somos todos iguais perante Deus! Somos o devotamentoo do amor, cujo Senhor Maior é Jesus! Nenhuma criatura mais mendiga pela rua... Nenhuma criança mais chora desesperadamente por um pedaço de pão... Ninguém mais há de dormir ao frio chão... Sim, porque a Nova Terra já chegou! A doutrina hoje é uma só. As leis da reencarnação vigoraram sobre o cérebro e o coração dos homens, e a Doutrina dos Espíritos cumpriu o seu papel.

Eis que se abriram as portas dos templos e por ali uma enorme multidão penetrou. Compreendeu-se a Codificação do Amor e Jesus instaurou a paz na Terra. E as palavras fixadas no Evangelho de João garantiram: — Eu vou, mas não vos deixarei órfãos. Rogarei ao Pai e ele vos enviará o Espírito santo e Consolador que refará tudo quanto faço e muito mais, santificando-me perante os homens.

Assim foi que as leis de amor ainda vigoraram entre os homens. Aquele ser que se ocultava por detrás da religião e cuja fortuna se calcificava em torno dos seus ideais padeceu perante os demais, porque ninguém lutou para que uma jóia fosse colocada em seu dedo ou que seu pescoço fosse envolvido como metal mais caro do mundo. A riqueza tombou diante de hospitais, de casas de amparo às criaturas necessitadas, ali onde homens se abraçavam mutuamente, sob a grandeza do amor forjado na autenticidade de um verdadeiro cristão, salientando a libertação do homem diante da matéria.

Sufocante terremoto calou a voz do vulcão da ignorância, e um eclipse se estabeleceu, colocando a Terra sob a escuridão. Mas um sopro de alívio atingia toda a Terra, retirando a sombra do coração humano. Mostrando a grandeza das leis da verdade, Jesus abria os braços, dizendo: Benditos sois, porque fostes mansos de coração e vos tornastes humildes! Bemaventurados sois, porque me compreendestes! Então eis a Terra que vos hei prometido!

Seguíramos os caminhos da vaidade e, ignorando a energia do amor, penetramos na ambição da vida.

Quem é que não quer possuir uma enorme casa? Quem é que não quer ter pelo menos uma simples casa?

Mas quem é que não quer entender Jesus, vê-lo com seus braços abertos expressando a legítima lei de amor, mostrando a verdade aos homens?

Muitos há que ainda não acreditam em Jesus, que cedeu sua vida a uma cruz, mostrando o valor de ser bom e de poder perdoar, a grandeza de tornar-se humilde. E o homem há de ter olhos para enxergar apenas a expressão da bondade de Deus, e não querer estar no pedestal que suplanta os demais.

Jesus, Rei dos Reis, ainda continua sendo Rei dos Humildes, o líder das criaturas simples que acreditam no amor, das criaturas que, mesmo na maior miséria, ainda distribuem aquilo que têm, sabendo que o que doam no almoço lhes faltará no seu jantar, mas sabendo também que a bondade da Providência nada lhes deixará faltar; criaturas que entendem que somos todos iguais, e que, por mais queiramos desviar-nos da luz, o nosso caminho é sempre o mesmo: é aquele que segue as pegadas do Mestre, mesmo que o terreno deixe de ser uma areia macia e se mostre um solo pedregoso, apto a lapidarmos o nosso espírito no vale do sofrimento. Porque é assim mesmo que o homem segue na Terra os seus ideais, é assim que ele luta e enxerga a vida.

Todos temos o nosso compromisso com a verdade, e nada além da verdade teremos que relatar. E, quando estamos dispostos a dizer a verdade, muitas vezes esta pode não agradar o pensamento dos grandes sábios e intelectuais, mormente quando falamos de um verdadeiro Cristo, cuja obra e cuja presença já haviam sido profetizadas há milênios pelos médiuns, estabelecendo o caminho para que esse Jesus de amor viesse à Terra. E, para testemunhar a verdade, não veio sozinho, mas fazia-se anunciar pelo profeta João Batista, que o glorificava e o mostrava como o Messias prometido à Terra e, impulsionando os corações ao entendimento da verdade, perdeu a sua cabeça, embora não havendo entre os homens um tão grande nascido do ventre de uma mulher — nas próprias palavras de Jesus.

João Batista espalhava a verdade entre os homens, mesmo esbarrando na incredulidade, na supremacia das leis da vaidade, onde um poderoso soberano defendia o seu reinado ao tilintar de espadas e ao tombar de vidas sobre vidas.
E assim o amado Jesus seguia sobre a Terra, mostrando a toda a humanidade que somos iguais. Ainda como criança debatia com grandes doutores, destacando as legítimas leis da verdade. Convivendo junto aos seus familiares, já curava e amparava as criaturas enfermas e necessitadas. Depois, se exparziu o seu sublime Evangelho através dos apóstolos, dos discípulos abnegados. Seguiam as pregações da Boa Nova, para que os homens conhecessem a codificação do amor e ela se implantasse sobre o planeta.

E se reuniam os homens buscando a grandeza do amor do Cordeiro de Deus!

Uma voz que se cala é uma luz que se apaga. E se uma se cala, outra surge noutro lugar...

É o combate da luz contra as trevas. Os que estão nas trevas são aqueles que não se encorajaram a fitar a luz!

E a luz soberana e justa reinará sobre a Terra!

JERÔNIMO