5 - O JULGAMENTO

5 - O JULGAMENTO

Muitos correram atrás de mim, agarrando-me, golpeando-me a cabeça com as armas. Perdi os sentidos. Enquanto tudo estava obscurecido, fui levado para dentro de uma prisão, onde acordei. Mal me despertara e um júri se formava.

Daquela batalha havia ali muitas criaturas sob julgamento. Todos eram imperdoavelmente condenados à pena de morte.

Detrás das grades eu acompanhava aquele julgamento. E, ao chegar o meu momento, postei-me perante o grande comando. Olhava para os olhos dos homens e via neles a sede de vingança.

De repente uma espécie de estremecimento me atingiu todo o corpo. Olhando para aquelas criaturas, via uma como que grande nuvem negra.

Papai lá estava como testemunha do meu ato de covardia, tal como qualificavam a minha atitude na frente de batalha. Foi relatado tudo o que acontecera, situação por situação.

O grande juiz ordenou que eu fizesse a minha própria defesa. Fitei-o e enxerguei apenas a roupa preta que ele envergava.

Permaneci em silêncio. Era dado a cada um o direito de falar ou não falar, mas procuraram arrancar palavras de mim, por toda forma. E insistiam em indagar:

— Não vai defender-se?

Permaneci calado, sem pronunciar sequer uma sílaba. Olhava para os homens lá atrás das grades, também condenados.

De repente um imenso letreiro tomou todo o meu campo mental e visual. Uma coisa estranha! E, lendo aquilo, pronunciei estas palavras:

— A lei que mata é a lei que impera no homem. Sois donos da vida, para que com ela possais erguer os vossos palácios e os vossos impérios, para que as bandeiras que guardais tremulem no plano mais alto? Sangue e sangue que serviram para dar a vida, de repente servem apenas para regar e adubar a terra. É este o preço que pagais para que ostenteis os vossos galardões de ouro. Entretanto, o Mestre da Luz, que desceu à Terra, calou-se perante os homens, porque pregava o verdadeiro reino do amor, do qual vós ainda tanto vos distanciais. Era o meigo Jesus, também um Rei que não tinha o seu exército, mas apenas discípulos que, ajoelhados aos seus pés, compreendiam os legítimos atos de amor semeados pelo seu Mestre, quando mandava perdoar quantas vezes fossem necessárias. Quando um daqueles discípulos, colocando-se como um seu defensor, arrancou da sua espada, o Rei dos Reis, estancando o sangue derramado pelo golpe de espada, curou instantaneamente aquele soldado. E, olhando para Pedro, dizia: — Guarda a tua espada, porque aquele que fere pela espada também pela espada perecerá! E o apóstolo tremulou perante tais palavras. E o homem de longa barba e cabeleira olhava piedosamente para aqueles homens que se mostravam aprisionados no seu ódio, o mesmo ódio que hoje dá vazão à violência que mancha as vossas mãos. Olhai para aquelas grades onde aprisionastes tantas criaturas que já sentenciastes de morte, elevando o vosso juízo, esquecidos de que deveis dar o de comer àquele que vos estende as mãos; que, quando alguém vos pedir a vossa túnica, deveis dar-lhe toda a vossa roupa; que, perante os famintos, deveis repartir tudo aquilo que tendes, para que mais irmãos não morram de fome; que, batendo-vos alguém num lado da face, deveis virar-lhe o outro lado para que receba a bofetada; que quando alguém se aproximar de vós desvalido de todas as forças, deveis lembrar que lá em cima está um Pai vos olhando para que lhe estendeis a vossa mão no seu auxílio. Sereis assim dignos filhos de Deus e fiéis seguidores do Cristo, em nome do qual, porém, vindes matando as criaturas!

Quando terminei de falar assim, aquele juiz, que conservava as mãos sobre a Sagrada Escritura, retirou-as dali rapidamente, como se ela lhe queimasse as mãos. Contudo, o veredito haveria de sair. Recuar perante o peso da sentença e daquela multidão de militares que ali estavam era negar a cor e a dignidade do uniforme pátrio.

Eu olhava para os olhos de papai e via-o tomado de lágrimas sobre lágrimas, por ter ouvido as passagens sábias e contundentes do Evangelho de Mateus, que ele bem conhecia.

E de repente aquele homem forte gritava:

— Estás a te esconder atrás da Bíblia para te defenderes da tua execução!

- Mas a energia estranha que me envolvia era também fortíssima, levando-me a redarguir:

— Não temas a mim, mas sim àqueles que partirão à morte, porque aqueles quitarão com isso as suas dívidas, enquanto que vós, que ergueis a vossa espada, havereis de um dia prestar contas ao Pai!

Saindo com facilidade de minha boca, as palavras lembravam Jesus e o seu amor, sua humildade e o seu perdão ao ser também levado à frente dos grandes homens de sua época. E repetia eu aquelas suas palavras de fogo:

— Meu reino não é deste mundo. Matareis o meu corpo, mas não matareis o meu espírito; porque este é de Deus e nenhum poder tendes vós perante ele!

Minha mente era tomada pela figura excelsa do Mestre Maior, enquanto também o meu veredito era por eles decretado:

— É um desertor, e para um desertor somente cabe a pena de morte!

E pediram que me levassem dali.

Mais quinze criaturas haveriam de ser julgadas em seguida, mas resolveram cancelar todo o julgamento, influenciados por aquelas minhas palavras inspiradas pelo Alto.

Eu olhava para aquelas criaturas condenadas e elas me abraçavam, indagando:

— Você não tem mesmo medo da morte?

— Jesus nada temeu, e nós todos deveremos buscar Jesus com toda a força, com todo o amor do nosso coração, porque sei que ele está presente em nós, sei que ele está aqui conosco!

Mas somos ainda seres frágeis de pensamento e sentimento para enxergar essa criatura maravilhosa que é o nosso Mestre!

Assim eu respondia aos meus irmãos de prisão. Mas no outro dia deveríamos morrer, nas primeiras horas, antes que o Sol ressurgisse...

Éramos vinte e três, todos sob os mesmos atos e destinos, todos prestes a conhecer o Outro Lado da vida.

Naqueles instantes eu pensava intensamente em tudo aquilo que me poderia ser útil. Apegava-me na figura de Jesus e nos seus dizeres: Meu reino não é deste mundo.

Ora — pensava —, se o reino do Mestre não é deste mundo, então certamente existirá outra vida para além da morte.

E assim acalentei no íntimo, com a maior força, a lei da imortalidade da alma, e tentei passar àquelas criaturas as lições evangélicas, tal como mamãe m'as passara e eu aprendera na igreja.

E de mim saíam as palavras certas de conforto e esclarecimento aos meus irmãos de cárcere.

Eram sete horas . O Sol já tombava lá no horizonte. Fitava-o em seus estertores, sabendo que seria o último dia que iríamos vê-lo. A tristeza tomava conta de todos os irmãos.

A lágrima era a única força saindo dos corações.

Muitos lamuriavam recordando suas famílias, lembrando que até os próprios pais ignoravam que eles iriam ser fuzilados, pelo que rogavam a oportunidade de, pela última vez, falar com a mãe, com o pai.

Porém, nenhuma permissão lhes era concedida.

Ali estávamos como feras acuadas por caçadores, somente aguardando que mãos impiedosas apertassem o gatilho e mais vidas tombassem ao chão.

Pedi ao carcereiro que me levasse uma Bíblia, e ele atendeu ao meu pedido. Abri o livro sagrado, buscando Jesus e os evangelistas.

Meus companheiros de cela se agruparam à minha volta e, sentados no chão, fui lendo as passagens do Novo Testamento, as lições maravilhosas que o Mestre nos deixou.

Tentava mostrar-lhes a grandeza de perdoar, salientar que Jesus, homem bom e justo, perdoou todas as criaturas que o perseguiram.

Exaltava a figura do Messias que desceu à Terra para pregar o amor, para acudir as criaturas enfermas, para fazer andar os aleijados, para devolver a visão aos cegos.

Esse era o trabalho de Jesus: trazer a luz ao mundo. Todavia, o mundo não soube alcançar a sua luz! E eu passava-lhes as lições de luz do Mestre da Luz, e lhes dizia:

— Vejam bem! Nós estamos aqui hoje aprisionados, porque as diretrizes religiosas abriram este campo de guerra: de um lado os cristãos e de outro lado os seus perseguidores. Desde quando os homens conheceram a religião, esta vem ensanguentando a Terra. No princípio os judeus perseguiam os cristãos, formando a grande força do Império Romano. Enfeitiçado pelo poderio dos grandes sacerdotes, o reino terrestre perseguia os cristãos, apedrejava-os em praça pública. Hoje tudo mudou: o alto sacerdotismo foi perseguido pela má formação de muitos daqueles que não compreenderam este Evangelho que ora estamos lendo, aqui aprisionados, aguardando a execução advir das próprias mãos cristãs. E morremos por quê? Porque não queremos falar — e esta prerrogativa ninguém nos há de tirar, porque entendemos o que aqui está escrito, compreendemos as verdadeiras leis de amor. Tenho certeza de que, ao fecharmos os nossos olhos pela derradeira vez, a nossa última palavra será a que fala de perdão a quem nos persegue e mata!

Assim, foi celebrado entre nós aquele pacto dentro da prisão. E era uma coisa maravilhosa acontecendo ali: ao invés de temermos a morte, mais força era-nos dada para que a suportássemos.

Naquela noite, aqueles jovens e senhores se enlaçaram mutuamente as mãos e, juntos, começamos a orar aquela prece singela que Jesus nos ensinara.

As palavras saíam suaves de nossa boca. De repente começamos a cantar. Olhamos para os guardas e notamos que eles choravam, em razão de nossas preces e dos nossos cantos.
Falei a todos sobre a questão da morte, ressaltando que morreríamos no mundo material mas estaríamos perante Jesus. Relembrava o Cristo e dizia:

— Serão perdoados, porque agiram contra a vontade.

Lá estava eu como o mais jovem de todos, mas parecendo ser o mais velho.

Aquela foi uma das noites mais maravilhosas da minha vida, porque entendi que poderia preparar alguém para enfrentar a morte, coisa que eu jamais imaginava poder assumir.

Porém, as coisas eram tão fáceis, quando as palavras certas saíam dos meus lábios, confortando aquelas cria¬turas!

Indagava o seus nomes e eles me respondiam... Sebastian, John, Robert, Paul, Marcos... E via alguns nomes que nomeavam os discípulos de Jesus. Então disse-lhes:

— Vejam só os nossos nomes, como são quase iguais àqueles que serviram ao Cristo na sua sublime missão. E então porque é que estaremos com medo da morte?

-Quem sabe se Jesus, vendo os nossos nomes, não vai perdoar todos os nossos pecados, e nós não estaremos bem próximos dele?

-Quem sabe a nossa morte não possa servir de exemplo a milhares e milhares de jovens, e eles também passem a abominar esse mundo das guerras? Quem sabe os chefes das nações possam enxergar também assim?

Aquelas eram palavras e conceitos que me surgiam para encorajar aqueles jovens. Mas, na verdade, bem sabia que haveríamos de tremer de medo ao chegar o momento da execução.

Contudo, aquelas minhas palavras tinham que ser fortes ao saírem de dentro de minha alma, para acudir satisfatoriamente aqueles companheiros de infortúnio e suas apreensões.

Passavam as horas e eu notava que o sono tomava conta daqueles amigos de cela. Um a um, foram adormecendo, enquanto eu continuava fa¬lando ainda para aqueles que ainda se dispunham a escutar.

Mas notei que esses últimos também foram tomados do sono. E, quanto a mim, via-me com o corpo também cansado, pois pouco dormira no dia anterior.

Naqueles instantes, lembrava-me da morte que se avizinhava célere. Comecei a chorar, ocultamente, para que aqueles homens não me vissem em pranto.

Ali não havia colchão de dormir, senão palhas jogadas ao chão. Comecei a pensar em mamãe, tentando imaginar o que poderia ela estar pensando de mim. E meus irmãos, e papai, como estariam reagindo a tudo aquilo?

Naqueles instantes difíceis, na noite terrível e silenciosa, pedi força, pedi perdão por aquele meu ato de covardia. Roguei que os homens e os familiares me perdoassem.

Enfim dormi. Meu espírito saiu a vagar trespassando aquelas grades.

Olhei para trás e vi um homem alto, envergando uma túnica ao longo do corpo e uma vasta cabeleira caída aos ombros.

Seus olhos azuis lembravam a figura de Jesus. Ele fitou-me meigamente, estendeu a mão sobre aqueles irmãos em sono e eles também se foram retirando do corpo sob uma forma estranha.

Agrudeza de se reformar moralmente e purificar o nosso coração.

Sabia que a morte viria logo, que as balas seriam cravadas no meu corpo. Mas os olhos chorosos sentiam a vergonha daquilo que meu pai estava a pensar de mim.

Notei que o velho comandante ergueu o braço e passou a ordem da morte. E papai era um daqueles homens fortes chamados a cumprir as execuções de sentenciados à pena capital!

Via-me na presença de quatro irmãos levados à parede. Homens de arma em punho preparavam a execução. Um clima de tristeza invadia a minha alma.

Cabeça baixa, não conseguia erguer os olhos para fitar papai. Via aqueles jovens passando pela minha mesma situação.

Quem venceria a guerra? Quem seria o real vencedor? Seria aquele que mais vidas limpava da Terra? Aquele que conseguisse a insígnia honrosa de herói?

Ah! As leis de perdão, de amor e caridade, passadas por Jesus, eram vozes emudecidas na Terra. Porém, e as lágrimas derramadas? E as mães e pais que choram? Qual seria o pai que teria o prazer de executar o próprio filho? Não, por mais rude e perverso que fosse, jamais se encantaria no cometer tal ação contrária às leis da caridade e do amor! Mas a honra deveria ser lavada com o sangue, porque apenas com lágrimas não se convence os homens. Lágrimas são pingos da covardia que não se encoraja a enxergar a luz do outro dia! E o homem há de se mostrar poderoso na sua força de alto comando perante o exército que defende.

Quem é o dono da vida? Quem é o dono da razão? Retirar uma vida, tal como se apanha de uma árvore um fruto, apenas para atender os reciamos da sobrevivência?

Quem poderia dar o primeiro tiro? Qual daqueles corpos tombaria primeiro ao chão? Sera que tais almas destinadas a tombar sob o disparo do orgulho, da raiva, do ódio, fariam jus à morte por se terem negado a matar, por atraírem para si o rótulo e o fardo da covardia?

Jovens tombariam pelo chão...

Naqueles momentos difíceis, milhares e milhares de pensamentos diferentes perpassavam por minha mente. Olhava para meus companheiros de cela e notava na sua face a estampa do pavor.

Reclinava a cabeça quanto podia, para não encontrar à frente os olhos de papai. Ele não poderia ver e sentir a vergonha cobrindo o meu rosto, que todavia não expressava nenhum pingo de ódio, pois eu até orava aos céus por ele, para que me perdoasse a atitude contrária à guerra e às leis férreas do país.

Talvez não recebesse o perdão, e certamente que a execução da morte não acaba com o homem.

E eu recordava Jesus quando se colocava à frente de Pedro ordenando que guardasse a sua espada, para que, ferindo alguém, depois não tivesse que amargar o mesmo ferimento.

Uma voz nos era dirigida, um a um, para que fizéssemos o derradeiro pedido. Fui o último, com os meus companheiros encostados no paredão. John era o primeiro: pediu que jamais revelassem a seus familiares as razões daquilo que ali estava ocorrendo. Alex, o segundo, com os familiares todos perecidos na guerra, apenas pediu perdão pelos seus erros. Albert, por sua vez, bastante amedrontado ante a culminância da execução, soltou palavras de revolta, afirmando não ser nenhum covarde, não ter traído ninguém. Joey, lembrando-se daquilo que conversáramos, disse não se arrepender, de forma alguma, por ajudar a salvar alguém, e que fora isso o que a religião lhe ensinara: ser amável com todos.

Lá estava eu de cabeça baixa, ouvindo todas aquelas últimas manifestações.

Enfim chegou a minha vez. Faltavam-me forças para levantar a cabeça e olhar para papai. Imaginava uma imensa construção bem trabalhada por um arquiteto; todos os pilares haviam sido muito bem projetados e erguidos, para que o majestoso templo não desabasse. Relembrei minha infância, os abraços e beijos de mamãe e papai, as horas difíceis em que o corpo enfermo era amparado nas dores de altas horas da noite, sob os afagos dos bondosos progenitores. Pensamentos e pensamentos vagueavam pela cabeça...

— Faze o teu último pedido! — ordenaram-me pela segunda vez.

Ergui minha cabeça e disse:

— O meu pedido o faço em torno dessa guerra. Se ela não existisse, eu ainda teria o meu pai, ainda teria os meus familiares! Mas a guerra está aí e não há outro jeito.

Peço perdão ao meu pai por tê-lo desonrado. É que pela minha cabeça jamais passou a idéia de matar qualquer ser vivente, nenhum filho de Deus, porque foi isto o que aprendi na minha religião.

Naqueles instantes levei o pensamento ao Alto e disse, encerrando:

— Este é o meu pedido! Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso reino e seja feita a vossa vontade, assim na Terra como nos céus...

Papai dobrou os joelhos ao chão... Não, não poderia voltar atrás! Mesmo ajoelhado, em lágrimas, deu a ordem de atirar.

Nada vi, nada senti. Nem mesmo chegara a terminar a minha prece e os disparos percutiram nos meus ouvidos.

JERÔNIMO